quinta-feira, 1 de março de 2018

Breve nota sobre as mudanças no significado do termo "Amizade".


-Você conhece fulano?
-Conheço!
-Pode crê, de onde?
-Ah, do Facebook.

O Facebook (e as redes sociais em geral, mas o Facebook ainda tá no topo), no meu entender se tornaram presenças de circulação e interação social tanto quanto (ou mais, mas nos mantenhamos no "Tanto quanto") espaços físicos. O Facebook é um lugar mesmo, espaço para encontros, discussões. Entrar no Facebook e pescar assuntos, comentar fotos, caçar encrenca, trocar galanteios etc é uma realização semelhante ao ir à praça (ou ao shopping, ou ao rolê, ou ao estádio etc): nunca se sabe quem se encontrará, com quais assuntos terá de lidar etc. "Uau, uma foto de Fulano, quanto tempo que não vejo ele postar nada!". Dá-se um like, um comentário gera uma ou duas respostas. O que é isso se não o recorrente estar perambulando pela rua e encontrar um conhecido ou um amigo de quem se foi mais próximo em alguma época da vida e trocar duas ou três palavras e perguntas/respostas? Aliás, é exatamente neste ponto que vem meu destaque: esse pomar de palavras disponíveis para definirmos nossas relações sociais recebeu mais um item: o "Amigo de Facebook". Será que em alguns contextos, penso, no de pessoas que tem mais interações virtualmente ou com pessoas que moram distante no mapa, a "Amizade de Facebook" já se tornou puramente "A" amizade? Vamos pensar sobre a profundidade destes termos?
Penso no exemplo de outros termos que passam por transformações em razão de o modo de nos relacionarmos com as pessoas e o mundo tem passado por pesadas transformações. 
Ocorre-me o ato de "Ir às compras" ou "Fazer compras". No caso do mercado, aquela compra rotineira e alimentícia, me parece que a virtualidade ainda não venceu. Mas, em outros termos - roupas, por exemplo - o ato do "Ir comprar", me parece, ao menos para um estrato social - isso tudo que está sendo discutido aqui diz respeito a uma fatia da sociedade que tem acesso à internet - tem se deslocado quase que integralmente para a internet. Imagino que as pessoas de uma determinada faixa social (e uma pesquisa sociologicamente profunda sobre isso seria muito interessante para entendermos quem é esta população) saiam pouco para tal. Pois, além de terem acesso à internet, não precisam comprar o barato do barato do barato, este, encontrável apenas nas regiões de comércio popular que tem por aí; mas, segundo a Deusa, o wish é mais barato que qualquer "Lugar".
Daí não ser estranho que pessoas que têm vivências de mundo distintas, compreensões de mundo distintas, entrem em choque por conta de concepções distintas de mundo. Por exemplo, esses dias fiquei chateado pois um dos amores que carrego na bagagem desta vida não tem respondido meus contatos virtuais. "Que é isso? Será que nossa amorzade acabou para ela?". Mas, compreendo e concluo, pensando neste caldo todo com um exemplo prático-vivido, que para mim ainda somos efetiva e fortemente amigos, pois todo dia "A vejo" nas redes sociais, ou seja, para mim, sermos "Amigos de Facebook" ainda carrega o peso e a profundidade do "sermos amigos", puramente. Embora, para ela, aparentemente, isto seja um tipo de relação de menor expressão e/ou que mereça menor dedicação. E isso é ok, pois, não necessariamente temos que ter as mesmas concepções de mundo ou sobre o que é uma "Amizade" e uma "Amizade de Facebook". Sério mesmo. Te amo pra caralho ainda! E podem cortar a internet do mundo e eu nunca mais ver nada sobre vocês, pode ocorrer da crescente onda reacionária promover algum tipo de guerra e a gente nunca mais se ver. Mas eu vou continuar amando as lembranças que tenho de vocês, e, consequentemente, continuarei os amando, pois se os amei com a intimidade peculiar única da vida - virtual ou concreta - em qualquer momento da vida, eu irei amar vocês sempre, pois a vida é um grande presente estendido. 
Ps.: mas as saudades, ah, as saudades... diria que a virtualidade não mata saudades, mas putz, quanto aroma em conversar com alguém com quem há muito tempo não se encontra presencialmente (coisas da vida) e saber como está a vida de pessoa e imaginá-la nesta vida e ficar feliz (ou triste) por saber o que tem ocorrido. Nada supera um abraço, um afago, uma breja. Mas já que não dá para tais ocorrerem, bem, vamos lá trocar nossas humanidades da maneira que é possível. Um problema, e aí penso nisso com preocupação, é quando o "Não quero ir pois tenho a internet" se torna preponderante. Tá vendo vó? Não sou tão moderninho assim. A grande verdade é que eu queria juntar todas as amizades e amorzades mais pesadas e sinceras desta vida e morar numa comunidade rural com vocês.




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