quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Lugar seguro.


Demorei para entender que saudades agudas, em geral, é ausência de segurança. Demorei, e quando entendi, percebi que saudade aguda é sinônimo de insegurança. Aquela saudade que dói, aquela foto que amarga a boca, faz o peito ficar côncavo. Demorei para entender o que pode significar "Segurança", em vários aspectos: de si consigo mesmo, de si com o mundo físico, de si com o mundo humano.
Na demora pelo encontro do entendimento, que pode ser entendida como parte do processo inescapável para chegar a ele - note, entendimento não é fruta que cai do pé madura da noite pro dia, mas sim o processo da fruta pequenina e verde que, dia a dia, noite a noite, alimenta-se do sol e das chuvas para, passado todo o processo, madura, cair do pé - queimei diversos cartuchos. Consumi tantos atributos da falta de segurança que não havia lugar, pessoa, caminho, piada que me devolvesse o rumo. 
Falta segurança em meio às ruas escuras, por que não sabemos o que ou quem pode aparecer na próxima esquina.
Temos memória, temos fotos, tenho dezenas de caderninhos repletos de histórias que tornam inegável a recordação de que já havia perambulado por locais seguros. Aliás: todo local seguro, toda segurança, já foram o oposto. 
A primeira vez que desci do ônibus naquele município, o fiz no ponto errado. Alguém no clube de bocha me orientou a seguir adiante pela avenida, "Não tem erro". Segui e cheguei. 
Faz parte do amadurecimento da segurança, pelo menos da minha segurança, pelo menos do meu processo de assegurar-me, percorrer todos os caminhos possíveis. O município era pequeno, e em alguns pares de meses, algumas horas vagas na semana, passei a sentir-me geograficamente seguro para perambular pra lá e pra cá.
Lembro que o pessoal da secretaria achava engraçada a minha mania de sair e ficar perambulando pelo município. "Não tem nada de mais aqui, tem a praça, tem o coreto, tem os cafezais...". Aliás, até os longos cafezais que circundavam a cidade se tornaram locais seguros. 
Demorei para entender o que era a falta de segurança, e o fiz quando voltei a me sentir seguro. Sonhar com os passeios pela cidade, acordar suado, sentar na cama e me lamentar: "Por que não fiquei por lá? O que havia em minha cabeça quando achei que isso seria uma boa ideia?", fazia todo o sentido, óbvio! As saudades são dos municípios, das pessoas - já escrevi sobre isto doutra maneira por aqui - mas, sobretudo, a agudeza dolorosa das saudades, eram o sintoma declarado da vontade de estar seguro, tranquilo (e gordo, de alegrias, como o jacaré da pampulha). E o meu referencial único deste sentimento era aquela época, enquadrada com  requintes de local seguro por excelência. 
Uma vez tranquilo, sentado sem medo numa cadeira plástica que pode quebrar a qualquer instante, mas, de tão seguro, esta possibilidade não me assusta, as saudades sobem pelo esôfago com outro tom, outro sabor. Não há mais amargor, não há mais o desejo doloroso de que aquela foto fosse a minha verdade cotidiana. 
A foto não dói, pelo contrário, é também representação de que, naquela época, e me recordo bem, estar ali e fazê-la foi vencer uma fase anterior de vazios e inseguranças. Dizer "Saudades de Vera Cruz" ou "Saudades de Marília", não implica mais em sinônimo de "Queria a elas voltar...", não é algo agudo a espetar o fígado. 
Antes, referir-me a elas, revisitá-las - que seja por imagens e textos da época em que nelas vivi - é um dos símbolos da capacidade de espremer a insegurança em um canto, buscar e encontrar soluções em meio à escuridão de ideias. E o faço agora, sem medo da cadeira plástica que habito, em outras geografias.


A fruta no pé, amadurecendo, resiste às tempestades noturnas, às ventanias e gotas grossas da chuva. E a manhã de sol que a sucede fortalece o seu crescimento. 



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