sábado, 3 de fevereiro de 2018

Dentes, Desespero, Colégio.


Jogava uma animada partida de futebol na quadra coberta do colégio em que estudei. Animadaça mesmo, quadra cheia, uma galera grande. Como sempre ocorria, aos poucos o pessoal ia embora conforme os pais, mães e motoristas chegavam para buscá-los. Como ocorria com grande frequência, eu ficava sozinho na quadra, eu e a bola, pois minha mãe dava aula no colégio, e por muitas tardes tinha de ficar a esperando para ir embora - isso começou a mudar lá pela quinta série, e se firmou na sexta, quando passei a ter autonomia pra voltar para casa de ônibus. A quadra vazia, sentei-me num canto, estava adulto, grande, com esse corpo de um metro e oitenta e cinco que já me habituei a carregar por aí. Colocava meus tênis, arrumava minhas meias, e precisei desafazer um nó em um tecido (algum engraçadinho amarrou minha blusa em umas barras de madeira que havia fixadas na parede da quadra). Puxava com força, mas o nó não desatava. Puxei com muita força, até que minha mão escorregou pelo pano e desferi um soco contra meu próprio rosto. Doeu. Sensação dolorida. "Meus dentes", indaguei. A mão fechada e com alta concentração de força modular constante pegou em cheio na região entre o nariz e a boca, lado esquerdo da face - bem onde, em 2011, um ser empossado de um capacete aplicou-me uma pancada que me levou a nocaute e a perder dois dentes, substituídos por pedaços de algum tipo de resina. "Meus dentes, merda!". Senti que iriam, enfim, se soltar - desde aquele dia quatro de dezembro, data da capacetada, qualquer impacto neles faz-me temer pelo pior. Passei a língua por toda a arcada e senti que os dentes cairiam. Caíram, de fato. Os senti na língua, e os cuspi em minha mão. Uma avalanche de pedaços brancos: todos os meus dentes da arcada superior se quebraram com a pancada! "Não é possível!". Peguei uma camiseta extra na mochila e coloquei todos os dentes, passei a língua na arcada superior e senti minha gengiva lisa, sem buracos ou sangue ou resquícios de que outrora (por quase vinte e nove anos) fora local onde estiveram espetados aqueles pedaços bem moldados de cálcio. "Não é possível!". Atravessei a quadra na direção dos banheiros ao lado da cantina. Na rampa que conectava quadra, área com mesas do refeitório estudantil e cantina, encontrei-me com aquele bom rapaz, que por um tempo trabalhou com minha mãe na sala de informática. Ele me mostrou as camisetas que seus filhos usavam, eu lhe mostrei a camiseta cheia de dentes quebrados, ele riu: "Quem nunca passou por isso? Normal!". NÃO! Não pode ser normal! Corri para o banheiro, o mais apertado de todo o colégio, apenas um espaço para privada, uma pia e um espelho. Para utilizar a pia é necessário fechar a porta de entrada, pois sem fazê-lo não há espaço para o corpo ficar defronte a pia. Entrei no banheiro, fechei a porta e sorri para o espelho: apenas uma fileira de dentes em minha boca, a arcada inferior. Na arcada superior, apenas um filete rosa. Passava a língua e sentia apenas uma superfície lisa. Pensamentos confusos se debatiam em minha mente: "Minha mãe vai me matar! Preciso ligar para a diretora do colégio e avisar que não vou poder ir trabalhar na segunda-feira! Onde que vou achar um implante a essa horas? O que vou fazer: colocar dente por dente de volta à boca ou uma daquelas próteses móveis que chamávamos de 'dentadura'? Onde está meu telefone para eu ligar para a diretora?". Saí do banheiro, encontrei-me com a Isabela e o Rafael, que, cordiais e amorosos, vieram me abraçar. Repeli, extremamente tomado pelo pânico. "Olha isso aqui Isa!". Ela gargalhou, "Meu, igual aconteceu comigo!". Não conseguia aceitar que aquilo fosse normal. E fui embora. Passei pelo pátio repleto de bancos de madeira, desci a grande rampa que desembocava na portaria principal. Enfim consegui sair daquele inferno.
Por pouco tempo. Quando me dei por mim novamente, estava subindo as escadas do prédio de salas de aula dos ensinos fundamental 1 e 2 - que na época se chamavam "Primário" e "Ginásio". Três ou quatro andares de escadas, cerca de quatro salas por andar, da primeira a oitava série. Primeira, segunda e terceira em um corredor longo e estreito (onde também ficavam as salas das coordenadoras) após o primeiro lance de escadas. Quarta série noutro, quinta e sexta, no seguinte, sétima e oitava entre os dois últimos andares - a turma a que eu pertenci desde a quarta série sempre foi a mais populosa do colégio, era criança à rodo, ocupávamos quatro salas, e, com frequência, à turma que encerrou o ginásio em 2003, era destinado um andar inteiro com quatro salas. Todos os anos a geografia das salas mudava. E eu subia aquelas escadas desesperado com a minha camiseta cheia de dentes. Sentei-me em um degrau para pensar com lógica - "Minha mãe vai me matar preciso ligar para a diretora" - abri a camiseta e vi que meus dentes estavam esmigalhados. Na verdade não havia mais dentes, apenas farelo, farofa grossa de cálcio branco/amarelado. Novamente encontrei Isabela e Rafael: "Relaxa Biel, isso aí é normal! Você vai por uma prótese igual essa aqui minha", tirou seus dentes com a mão. Uma placa rosa que se encaixava no céu da boca, cheia de dentes. "Não!". Passava a língua na gengiva, sentia o liso, o deslizar suave. Não havia mais dentes ali. Subi as escadas gritando. 
Acordei.



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