terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Apontamentos sobre Carnaval.


A vida inteira ouvi, sobretudo de adultos padrão modelo, o modo como gozam do Carnaval. A famosa frase "Ah no carnaval eu gosto de tãrãtãtã", "Meus filhos no carnaval gostam de tãrãtãtã". Tãrãtãtã que varia conforme o gosto da pessoa em questão.
Recordo-me da rapaziada que dizia economizar os tubos de dinheiro ao longo do ano para tentar uns pulos (e pegas humanos) em Salvador. Recordo-me da rapaziada que se empolgava, desde janeiro, com os ensaios nalguma escola de samba, onde passaria pelo Anhembi. Recordo-me do pessoal do "Vou pra praia". Do pessoal do "Aproveito a cidade vazia". 
Nos últimos anos, falando aqui da perspectiva de paulistano que acompanhou o renascimento e crescimento atual disso, tem os bloquinhos. Passei uma vez num bloquinho.
Íamos a um show próximo da estação Faria Lima. Desembarcamos, e já de dentro da estação dava para notar que algo ocorria lá fora. No caminho da ida, entre a estação e o local do show, presenciei e vivenciei (inclusive na barba e na pele) uma série de situações de pequenos abusos. Na volta, entre o local do show e a estação, tivemos de lidar com as habituais truculências e bombas morais da polícia militar.
Isto é: ultimamente tem também o pessoal dos bloquinhos. 
Acho fantástico usar a rua para tal. O espaço público está aí para ser público, ser usado das mais distintas formas. São Paulo é uma cidade antro de sufocamentos, cinzas, desgraças, maledicências e satanices mil. De certa forma, é uma louvável antítese com a cidade o que o pessoal tem feito com esses bloquinhos. Politicamente é um troço formidável. Mas, e aí sinto-me como aqueles bons idosos que olham e classificam as coisas de longe com um afastamento brutal: "Não é para mim esse fuá todo".
Daí comecei a me perceber como adulto, ou coisa do gênero, e me perguntei: se há tamanha cultura carnavalesca no Brasil, tamanha a ponto de existirem diversas formas de usufruir desta festa, feriado - o famoso 'no carnaval não tem pra onde correr' - o que eu gosto de fazer no carnaval? 

Liguem as turbinas dos detectores de memórias!

Nunca gostei de fazer a mesma coisa por muito tempo, e isso vale pras horas de cozinhar, para decidir o que fazer no carnaval, pra decidir caminhos para ir de um ponto A a um ponto B etc & afins. 
Teve uma época em que eu gostava de ir para a casa dos meus avós. Aliás, esse foi um longo período em minha vida. A infância e boa parte da adolescência foi embasada nisso: ir para a casa dos meus avós na sexta-feira e voltar para a dos meus pais lá pela quarta de cinzas.
Quando criança lembro-me de noites de carnaval em que, a casa cheia, borbulhava galhofas de um referencial da festa de anos muito anteriores ao do meu nascimento. Brincadeiras na garagem com confete, serpentina, marchinhas. Depois o confete e a serpentina viraram aqueles sprays de espuma colorida. Inclusive, quando ajudei na mudança de meus avós, em 2008, ver aquelas tiras secas ainda coladas na parede e no teto remeteu-me dez anos antes - e agora, vinte depois, revisito ambos episódios.
Já maior, adolescente, xarope, o carnaval era bom para jogar bola na rua com os moleques. Andávamos de bicicleta, jogávamos vídeo-game, às vezes íamos a um shopping próximo, soltávamos pipa. Enfim, era um tempo sem frequência à escola em que matávamos o tempo com a escola da amizade, e em que podíamos frequentar a escola da sociabilidade entre três garotos e um atípico bairro paulistano sem trânsito ou movimento intenso de carros ou prédios ou furor de comércio.
Daí aconteceram aqueles seis anos maravilhosos em Marília. Aconteceu um par de anos, ainda de ressaca sobre o inescapável ritmo da vida, em que viajei com minha família. Em seguida um par de anos de campings com cachoeiras (e chuva) na sacra região de Brotas/SP. E então chegamos ao momento em que minha mãe pode dizer: "O Gabriel no carnaval gosta de fazer Tãrãtãtã".
No caso dos últimos seis anos, e isso me parece coisa pra dedéu, embora eu não tenha reparado que foi tanto tempo assim, ou não sinta mais seis anos como tanto tempo assim, comecei a ter o carnaval como espaço de tempo para roque em roul.
Isso deveria ter começado lá por 2012, mas aí tivemos que trocar a data do Grito Rock Marília - salvo engano para receber alguma banda que no fim das contas acabou não indo para lá. Começou mesmo em 2013, com uma versão 100% local do Grito Rock, só com bandas da cidade - salvo engano teve o Maria da Segunda Distração, que era de Lins, mas era praticamente local. Foi um feriado insano. Batendo cartão no Cão Pererê todas as noites, que aliás foram três: sexta, sábado e segunda, se não me falha a memória. Toquei no sábado com o Zababô Zebrinha. Não me lembro ao certo do show, apenas que desde então o recordamos como um dos nossos shows mais legais.
Na verdade me recordo que, como o evento era gratuito, a casa estava cheia. Inclusive para o show do Zababô Zebrinha, o que era bem raro. Ocorreram uma série de situações engraçadas, como um senhor alcoolizado sentado à beira do palco. Vestia uma camisa do Corinthians e ficou a apresentação inteira dançando sentado, mexendo os braços, apontando para mim.
2014 e outra edição de Grito Rock aos moldes da anterior: Marília, Cão Pererê, entrada gratuita, avalanche de bandas locais. Estávamos tramando de lançar uma coletânea com bandas locais, e este Grito Rock sedimentou os esforços de aproximação da galera. Não por menos, em alguns meses estava pronto o CD e fazíamos um festival de lançamento com muitas das bandas que tocaram nas edições 2013 e 14 do festival carnavalesco - não por menos a capa da coletânea era uma foto da galera na frente do Cão Pererê no carnaval de 2013.
Lançamos a coletânea em novembro de 2014, e isso tem a ver pois em fevereiro de 2015 rolou outro festival no Cão Pererê. Aliás, rolaram várias festas esparsas ao longo das noites do carnaval, a nossa por lá foi a da segunda-feira. Nenhuma banda local - aliás, só o Zababô Zebrinha, mas nessa época já éramos uma banda fragmentada por aí que apenas nascera em Marília - e até que tivemos um bom público. Uma forte tempestade caiu no meio da noite, e forçou a galera a ficar dentro da casa e curtir os shows. Vitória do roque independente!
Na sexta-feira, ainda no carnaval de 2015, havia rolado um fuá roqueiro em Mogi das Cruzes. No sábado tinha trabalho de campo por cumprir em Itaquera. No domingo tocamos em Piracicaba, de onde partimos na segunda a tarde para Marília. Foi um carnaval roqueiro bom.
Aliás, foram anos de roque carnavalesco, ou carnaval roqueiro, como preferir. E aí chegamos às exceções em 2016 e 17.
Encafurnado mentalmente na escrita (e na ressaca) de um árduo trabalho, o refúgio que se pediu para os carnavais naqueles (ou daqueles?) anos foram o oposto extremo ao furor urbano - do qual o roque é inegavelmente uma cria.
Barretos e Piedade. Tranquilidade. Cidades serenas. Sítio, boi, ruas vazias, céu estrelado que se assiste mexer deitado no chão do quintal da casa dos Manolos. 
E então voltamos a 2018. Pouco dinheiro, muito movimento acontecendo. E o roque em roul ali centralizando a coisa toda. 
E então visualizamos 2019. E eu não tenho nenhum Tãrãtãtã imutável e intocável. Quando tiver chegando a data a gente decide qual que vai ser, como foi em todos esses últimos anos.







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