sábado, 27 de janeiro de 2018

Na horta - revisitação II.


A coisa tá tão feia, num ponto tão chateante (babaca, desesperador) e me soa tão "sem nó", que não tenho nem o que, nem como escrever. Vim para um canto vazio, escondido e estou sozinho com meus cigarros e minhas músicas mais acalentadoras. Vim para talvez descrever a vida toda, ou escrever e dar aquele leve alívio que a escrita costuma trazer, mas não há o que escrever.
Se as palavras, nalgum momento, se tornam escassas, aparentemente finitas (tal qual o céu falso em que se choca o barco de Truman) creio que este momento se faz presente por aqui.
Faz um sol de meio dia, onde sentei estava quente, o sol batia em meu caderninho, as folhas brancas rebatiam em minha vista e quase me cegaram. Dei por encerrado o 'texto-não-texto-pretexto-sem-texto', e vi uma torneira. A cabeça e todo o corpo escorriam em suor quando vi uma torneira e decidi me refrescar. A abri, e estava seca.
Tomo isso por boa metáfora para o momento.

[6.12.2012 - fundos dos prédios dos cursos de saúde na Unesp de Marília].

De frente para um extenso gramado, algumas árvores (no fim das contas, acho que ao longo daqueles seis anos desci menos do que deveria no "Pomar"), à minha direita a horta que intitula o escrito em um caderninho velho. Às minhas costas, o peso de um fim que se anunciava mas não se concretizaria: "Não posso voltar agora dessa forma para casa. Não posso simplesmente dar por encerrado esse curso e voltar com meu diploma para casa, sem dinheiro, sem emprego, sem perspectivas". Às minhas costas, também, a tristeza de ter descoberto, minutos antes, que a casa em que eu morava à época havia sido invadida e roubada na noite anterior - tá certo, foi só um botijão de gás - o medo de vacilar na hora de encerrar aquela casa - aliás, quantos e tantos e mútuos vacilos ao longo do ano; "o que começou errado, errado terminou". Me recordo da quentura da superfície em que estava sentado no momento da escrita, uma espécie de tampa de concreto de uma caixa de gordura ou coisa do gênero. A torneira realmente soou-se um oásis. Cheguei até a tirar a camiseta para me molhar por inteiro e foda-se. Mas estava seca. 

A câmera na mochila serviu a fazer registros para que jamais me esquecesse de como é amargo o sabor do vacilo, da falta de planejamentos, de não saber qual o próximo passo a ser dado e de não saber lidar com as ideias, os investimentos (de grana, tempo etc) que deram errado. Nesta época o Corinthians era a coisa mais importante em minha vida, estava ansioso para a defesa do meu TCC (que ocorreria dali cinco dias) e para o Mundial de Clubes (que ocorreria dali seis dias), e silenciava minha cabeça quando me questionava se "isso deve mesmo ser a coisa mais importante em minha vida?". Não queria sair da faculdade naquela tarde e subir para a casa recém furtada, tampouco descer para a casa recém frequentada com ares de "visitante-fixo-enamorado". Não queria olhar para trás, dar meia dúzia de passos e encontrar conhecidos, amigos, funcionários. Não queria nada. Olhava este gramado e pensava: "Não tem uma porra dum cachorro nesse mato". 

Dois mil e doze foi um ano confuso, errado, controverso, disperso. Era para ter sido o último por aquelas terras, prolonguei - não iria voltar para casa nas condições que descrevi. Temia que aquilo tudo acabasse e a vida se tornasse um terreno infértil, mórbido, vazio, distante; trabalho e casa e tarefas e tédio e vazio. Naquele ano a iminência do vazio - exemplificada pelos amigos e amigas que iam embora após encerrar o curso - me apavorava. Não por menos, recordo-me de um sem fim de tardes e noites mergulhado em um dos melhores álbuns daquele ano - do Jair Naves - e nadando de braçadas nas angústias relatadas por sua voz densa (que por vezes pareciam narrar as minhas); não por menos minhas maiores felicidades foram futebolísticas, bêbado, na frente duma TV (e, em geral, fazendo merda antes, durante e/ou depois); não por menos a coisa piorou, houve uma espécie de "2012B" no primeiro semestre do ano seguinte, mas antes de revisitar esse período, preciso ser sincero com o menino daquela tarde quente em Marília e parar para repensar os vacilos mais recentes: escrever ainda costuma trazer algum alívio, ainda que seja necessário revisitar-me, o que não é um problema, antes, revela que algumas crises ainda não foram, de fato, compreendidas - e foi neste momento que levantei e fui ao banheiro, estou na casa de minha mãe, e me encarei no espelho; já se passaram umas três ou quatro distintas fases da vida, e ainda me sinto mais adequado àquele corpo (mais) jovem do que hoje que sorri para uma torneira; por outro lado, liguei um sinal de alerta: em quais pomares contemporâneos estou deixando de descer?


De certa forma, não nego, é um pouco pra isso tudo que escrevo e fotografo: a memória não dá conta de guardar tudo, e às vezes lembrar com detalhes o que puxou a vida pelos calcanhares e provocou tombos favorece entender o que são os calcanhares, os tombos e os matos com ou sem cachorro. 

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