terça-feira, 7 de novembro de 2017

Panela de pressão.


Conhecer medos, criar receios. Em contrapartida, como humano dotado de sensibilidade e sapiência, criar refúgios, estratégias para não ser atingido pelo que se sabe periculoso. 
Foi em 2008, saía do apartamento em que morava enquanto o rapaz com quem eu o dividia fazia feijão. Ou grão de bico. Fechei a porta, do corredor do condomínio ouvi um estrondo. Voltei, abri a porta, e vi o rapaz acuado na sala. 
Até então, na minha cabeça, "Explosão de panela de pressão" era papo batido, balela, coisa dos tempos de panela de pressão que funcionava à manivela, sei lá ué...
Junte uma péssima lembrança à conveniência, preguiça e um teco de desdém pelo que se diz "Saudável", e nunca usei panela de pressão. Seis anos de universidade em que comia feijão apenas no bandeijão (no nosso campus o chamávamos de "ErriÚ" mesmo, sigla para Restaurante Universitário). Três anos entre a casa da mãe, do pai, como filho sem nenhum espírito santo, que me contentava em comer o que eles faziam - menos por preguiça de cozinhar e mais por impedimentos de usar as cozinhas deles: "Você faz muita bagunça", me diziam dum lado, "Sua comida é gordurosa demais", do outro. 
Mas então ocorreu, e, uma vez consolidada a vontade tantas vezes desejada de tornar à autonomia do lar sem progenitores; uma vez retomada a vida sem bandeijões ou Cínthias (louvável nutricionista do ErriÚ Mariliense) para ter acesso à feijões sem precisar cozinhá-los, foi inevitável: após vinte e oito anos de vida, precisei aprender a manusear a panela de pressão.
"Que depressão...", era o bordão do apartamento que vivi entre 2009 e 2011, à parte algumas épocas, período de longas depressões, movimentos depreciativos contra nós mesmos...
Quando abro a geladeira e vejo que se acaba o feijão temperado, abro o freezer e vejo que já não há mais nenhum ex-pote de margarina, tornado em recipiente para preservar os icebergs marrons de feijão cozinhado, exalo um longo suspiro: "Chegou, novamente, o dia da panela de pressão... E que depressão!".
Recordo-me dos apartamentos de 2008, de 2009. Respiro fundo e sigo em frente. É a panela apitando em cima do fogão, e eu refugiado num canto distante. A casa é pequena - das nove em que já morei na vida (contei hoje), talvez seja a menor - mas encontro um canto distante. E fico lá/cá, refugiado em minha estratégia segura, faço minha parte para não ser engolido pela des-seleção natural: caso ela exploda, creio que daqui não serei atingido.
Conto minuto à minuto, já se passaram vinte e seis, mais quatro e a desligo, amém! Nada consigo fazer ou criar. Trabalhar, pensar, me concentrar. É tudo impossível, absurdo icogitável. São os ouvidos ligados no barulho que me recorda as cachoeiras de Brotas entre 2011 e 12, as máquinas das fábricas nos Distritos Industriais da vida urbana. 
Três e vinte e oito, volto a ser ateu: vou desligar a panela de pressão. 

 

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