quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O auge obscuro que hoje se faz.


Esqueci a porta do micro ondas aberta. No meio da sala, sentado na cadeira de praia - a qual foi apelidada de "Cadeira Presidencial", por ser o assento mais confortável da sala - me perdi em pensamentos encarando a luz acesa e a porta com micro furos. 
O século vinte foi aquela avalanche de inovações no ramo das tecnologias, dos eletrônicos, das telecomunicações e afins. Concordo com as afirmativas que dizem que o mundo, as distâncias, ficaram menores depois da invenção do telefone, da televisão, da internet, do celular... 
Fechando as notas do bimestre em que estudei com o nono ano a ditadura militar no brasil, fiquei espantado com as notas altas. "Será que fui muito 'mão leve' nas correções?". Revi provas, alguns trabalhos e vi que não: a rapaziada entendeu os problemas, as divergências, as tretas e as resoluções. Alunos que tem sabor pela baderna - pequenas bagunças durante as aulas - entenderam que em uma ditadura não há espaço para a sorridente piada com o colega ao lado. 
"Se estamos no auge dos tempos, por que tanta angústia?". É meu caro Rodrigo. Estamos sempre no auge dos tempos. Meus avós se surpreenderam, lá pelo ano 2000, ao atenderem o telefone em casa e ser o filho deles, falando de Buenos Aires, em um telefone celular: "Parecia que ele estava ali na esquina", falou minha avó na época. A gente sempre acha que o nosso tempo é o auge dos tempos.
Então, parei para ler as notícias. Parece uma confluência (talvez dialética) perniciosa, mas não me furto do raciocínio: o desenvolvimento dos meios de telecomunicação foram deveras úteis para que um acontecimento local ganhasse proporções globais, imagens de massacres ditos desumanos correram o mundo 'ao vivo' em 1994 (o que não ajudou muito em sua resolução, apenas ficou-se sabendo), o desenvolvimento dos meios de telecomunicações, agora, cria os novos massacradores, eleva as probabilidades dos torturadores pois, putz, os meios de comunicação (e os juristas também) criaram já uma sentença.
O presidente da quase ex potência mundial é famoso pois tinha dinheiro suficiente para controlar os meios de comunicação. A mídia que controlou os rumos do país, decide quem será o próximo presidente. Plantaram uma semente de araçá e esperavam colher  alecrim para temperar os legumes, agora precisam forjar um ser mal cheiroso - mas famoso, está na TV há 20 anos... - para que sigam temperando o nosso tempo, a nossas vidas, conforme desejam alguns poucos.
A massa pode ser reprovada no exame de habilitação veicular por deixar o carro morrer, ou esquecer de indicar as setas necessárias. A massa jamais será reprovada por errar o teste de baliza, ela é boa como manobra.
Na esquina da rua em que moro desde agosto tem um terreno grande, com uma área construída bem ampla, mas, chuto, dois terços do terreno serve como estacionamento para carros igualmente grandes. Gente de alta cúpula, profissões que não dizem "Sim, senhor", apenas o ouvem. E, imagino, pessoas que se encontram na esquina da rua em que moro para decidirem de que maneira temperarão com bons aromas o rapaz a ser arrumado para que o que deve dizer se torne palatável, de que maneira achar as provas corretas contra o já definido culpado, de que maneira podem se valer do auge dos tempos para que se mantenham no auge no momento em que a montanha russa começa a descer a sua mais íngreme ladeira. 
Eu bebo muito. Quando tinha dezessete anos isso era uma virtude, hoje em dia é um problema. Tenho consciência disso. Todos meus amigos, minhas amigas, meu amor que passam por isso tem consciência disso com relação às vidas deles. Ninguém acha legal contar moedas para comprar bebida no fim do mês, mas ninguém quer deixar de gastar notas com bebidas desde o princípio do mês. A questão é que beber é um problema, mas, hoje em dia, neste auge nefasto dos tempos obscuros (amanhã virá outro, e depois outro...) beber todos os dias é o menor dos problemas. "Você prefere morrer de cirrose aos trinta e cinco ou enclausurado num porão todo fodido, arrebentado, torturado, esquecido, nome queimado, ossos derretidos, por conta de suas convicções políticas?". Ainda farei essa pergunta pra galera.
Enquanto converso com um amigo pela internet, a porta do micro ondas ainda aberta, a luz ainda acesa, me lamento: "É uma pena que o Brasil vai acabar em 2018, estava com planos muito bacanas para os próximos anos". Deu vontade de enfiar a cabeça no micro-ondas ligado, potência máxima, e deixá-lo girando até que meus miolos explodam. Depois alguém resolva as pendências com a imobiliária por mim, por favor.
 

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