quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Acostumado.


Quando chego no topo de uma subida e venço o semáforo, aproveito a breve planície para reorganizar as marchas da bicicleta, sair do modo "Suave" para o "Força", e, então, saborear a descida da Souza Franco. Por vezes até abro os braços e curto o vento, mas por pouco tempo, é necessário prudência pois há um semáforo, um cruzamento, com ônibus e carros e afins guiados por pessoas cuja índole desconheço. A barrigada é feroz, quase um mergulho daqueles de passeio marítimo em cidade de natureza (semi)preservada quando se atraca a embarcação turística em um ponto qualquer e quem pagou pelo passeio usufrui do momento máximo do mesmo: pular na água. Sensação fantástica. A barrigada no pós descida da ladeira é assim: "Ufa, chegamos, venci mais uma vez essas subidas e saboreei essa descida". Às vezes penso que deve ser bom ter como "última sensação em vida" sentir a sensação de que você mais gosta, ou uma das. Imaginei-me sem prudência, braços abertos, olhos fechados e pláu, o corpo vai ao chão, ou, aliás, fragmentos descolados de um outrora corpo espatifados em vermelho ao chão. Ferros retorcidos. Luzes vermelhas da ambulância, gritos de pedestres, fotos e vídeos nos celulares de curiosos - na rua todo mundo pode receber qualquer definição, depende da conduta. Fim. A última sensação que saboreei na vida foi o vento na cara em uma descida lascada e foda-se o impacto ou a dor, até nesse caso durou menos do que o prazer da descida.E o curioso é notar, nesse pacote todo, como já estou acostumado, como já entendi onde tem que frear, onde dá pra virar e como será mais fácil chegar dependendo de por onde seguir. Eu já tô acostumado, ainda conhecendo, mas acostumado e, tenho certeza, olhando pro outro lado da moeda, já me desacostumei do que tanto me queixei. Segue o barco. Segue a bike.
 

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