domingo, 20 de agosto de 2017

Adubo. Adulto. Beijo.


Entendi que quando se opta por viver partes da vida entre locais distintos, os trânsitos geográficos e temporais se tornam referenciais distintos: de épocas, de pessoas, de locais, de idade etc. Elementos diversos que se encontram e se afastam com o caminhar inevitável do tempo, se você está transitando entre locais então, fica mais fácil ainda de demarcar a relação "Época x Local". Por exemplo: em 2011 morava em um apartamento em Marília, o primeiro semestre junto do Manolos, o segundo sozinho; o primeiro semestre foi a segunda metade em um período de um ano sem beber, foi a época em que comecei a me movimentar artística e coletivamente junto de outrxs, conheci gente nova. Foi uma época de movimentação muito interessante. 
No entanto, esta época, enquanto cruzamento de vários fatores, passou, entrou para a história das vidas. Tanto por conta dos distintos rumos tomados pelas pessoas, quanto pelo fim da existência de alguns espaços, e, falo por mim, pois dali vim pra cá (mudei as geografias de minha vida) e estou prestes a realizar outra dessas mudanças. 
Ocorre que, em razão de toda a sobreposição que há entre tudo o que se viveu - o que somos hoje é produto de aceitações e negações do que fomos, vivemos outrora - aquela geografia, aquele contexto soam tão distantes. Seis anos avoados. E o que assustou-me em pleno amanhecer de domingo é que naquele contexto eu já era adulto. 
Nas lembranças que já considero como antigas, eu já era considerado adulto, já me via desta maneira. Isso foi adubo, alocado na superfície do cérebro para esvoaçar pensamentos por todo um dia.
Não que seja uma surpresa, longe disso, mas... interrompi a escrita, "Qual o problema em se perceber a si mesmo em distintos microcontextos dentro de um contexto maior?". Desci a rua para ir até o caixa eletrônico ver se o salário havia caído, e a questão se elucidou em minha cabeça - já o que fui ver propriamente, bom, voltei para casa sem comer churros.
Sem pressa alguma, o que envolveu estacionar por alguns segundos em frente a um colégio, assisti os jovens saindo de mais uma tarde de aula. Atrás de um orelhão, uma garota e um garoto conversavam com risos e proximidade nos rostos, a poucos metros, três ou quatro meninas assistiam a cena.
"Vai logo Larissa", "Beija ele Larissa", "Larissa, a gente tem que estar em casa até as sete e vinte, anda logo!", foram algumas das frases que ouvi, e que foram suficientes para catapultar-me no tempo e nas sensações - era dia dos namorados.
Ainda me recordo de quando este tipo de tensão pegava-me pelos cabelos. Eu e uma jovem em um pequeno pedaço de chão (talvez dois metros quadrados) atrás da quadra descoberta do colégio, enquanto as amigas vigiavam para ver se vinha algum inspetor, alguma professora. "Vai logo Gabriel", "Anda logo Fulana". 
Ao entender a cena em que estava envolvida a Larissa, entendi parte da questão - ou acho que entendi. 
Me parece comum encararmos com certa "Irrelevância", "Descrédito" ou mesmo "Desdém", vivências de nossa juventude, como fossem questões menores em nossa vida. Como fossem meras passagens para o maravilhoso mundo de realizações e conquistas adultas - em que você sua sem poupar-se para trabalhar, mas o quilo de sal perde o ônibus, e se atrasa. 
Recordei-me da tensão, do sentimento, do "Selinho" que foi interrompido pois um inspetor surgiu na escada. Ponderei: se tornou tão comum em minha vida trocar beijos, que a tensão, a pressa, as estratégias para tal se perderam naqueles tempos de proibições sobre os desejos - talvez tidos como "Precoces" pelos proibidores.
Naquela época eu imaginava que num futuro distante eu beijaria bastante e sem maiores impedimentos, mas não conseguia visualizar essa possibilidade, pois tudo era novo. As mãos suadas, o corpo trêmulo ante o desconhecido - lembro de quando me disseram, na quinta série, que para beijar se usava a língua e fiquei em choque.
Hoje em dia consigo visualizar muito do que ainda está por vir, pois, parece-me, entendi o assunto da linearidade da vida - a qual, parece, não deverá mudar muito conforme as variações geográficas e contextuais que ainda estão por vir, não que eu não espere mais ser surpreendido. Consigo planejar, consigo visualizar, as perspectivas são (quase) palpáveis e muito concretas pois, em meus exercícios de planejamentos, dialogo com o que já é conhecido; o que já foi vivido lança luzes que ajudam a iluminar o futuro - e esse é um dos incalculáveis valores de se estudar história e, num linguajar psicanalítico, "Se autoconhecer". 
Como o ato de beijar, dissipado das tensões e das proibições, tornou-se ato recorrente, cotidiano. O que assusta, no entanto - e talvez isso ocorra por não ver com desdém nenhuma dessas épocas - é certificar-me de que "Caramba, já tem tanto 'tanto tempo' corrido nessa vida, que mal posso esperar pelos próximos tantos".
Assim como mal posso esperar pelo fechamento obviamente clichê deste texto, mas, igualmente, evidentemente repleto de sentido: "Já morei em tanta casa que nem me lembro mais".

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