sábado, 1 de julho de 2017

Primeiro olhar.


Você entra em um lugar em que nunca foi, ou passa por um local em que seu corpo nunca havia estado. Todos os sentidos do corpo estão ali, experimentando a sensação do novo. Pode ser um novo marcante - "O meu primeiro dia de trabalho aqui..." - ou um novo ordinário - "Vamos parar o carro nesse posto para usar o banheiro...". Todos os sentidos experimentam aquela novidade, no entanto, é pelo olhar que entramos e deixamos o tal novo ser sentido por nós (digo por mim, claro).
O primeiro olhar sobre um espaço é marcante, ele nos guia perante o desconhecido. É o conhecer, a curiosidade por querer conhecer, o não saber por onde ir. Paramos para usar o banheiro no posto na beira da rodovia, mas não sabemos onde são os banheiros, e temos de escanear com a vista todo o espaço até bater os olhos em uma placa que, certamente, terá uma seta e o escrito "Banheiros" ou "Sanitários". É sobre esse movimento, essa escaneada inicial, que quero falar. 
Não me recordo ao certo quando comecei a realizá-lo ciente da possibilidade demarcadora para a vida que ele possuí. Todo modo, passei a sempre que vou a um local desconhecido olhá-lo com atenção, buscar os mínimos detalhes que puder encontrar. Depois, quando eles se tornam conhecidos, consigo, vez e outra, olhar para os mesmos ambientes, os mesmos objetos e recordá-los em minha memória imagética como eram enquanto "Novos", isto é, destituídos da condição de "Conhecidos", "Rotineiros", "Comuns". 
É gostoso, vez e outra, em um ambiente ao qual já estou familiarizado, olhar para um cantinho e me recordar de quando o olhei pela primeira vez, de como ele me soou estranho. Olhar ao desconhecido com a consciência de desconhecido faz-me criar na mente uma imagem crua de algo que pode vir a ser cozido. E recordar-me desta imagem após um tempo de frequência ao espaço faz-me ter noção do quanto estou, justamente, familiarizado com ele, do momento exato da virada entre um antes e um depois (que se configura enquanto "Agora"). 
Por quantas vezes desci a rampa da Unesp de Marília? Frequentei a casa com ares diários por cerca de cinco anos, houve dias em que desci e subi aquele caminho de concreto cinco, seis vezes, houve dias em que o evitei. Mas é inegavelmente não exagerado dizer "Passei por aquele caminho mais de mil vezes", e ao recordar-me dele consigo separar na cabeça uma passagem qualquer, da primeira passagem, quando o percorri para realizar a matrícula sob o nascer do sol de Fevereiro de 2008. Consigo recuperar, no video tape mental, a partir da lembrança, a sensação do desconhecido: "Será que aquele prédio lá embaixo é onde farei a matrícula? O que será que há nessas salas aqui à esquerda? Olha a biblioteca... Será que o mato é sempre alto assim? Parece que tentaram esculpir uma galinha naqueles arbustos". Tudo isso se tornou a minha rotina (e as minhas saudades), mas antes de ambos, ainda consigo revisitar - talvez em razão das perguntas - os olhares estranhados daquele jovem naquele amanhecer.


Estou há dois ou três meses dando aulas em um colégio. Meu primeiro olhar sobre ele foi para entregar uma cópia de Curriculum. Não fui além da secretaria. Quando me chamaram para a entrevista me apresentaram todo o colégio, e notei a estranheza de quem o fazia com os meus inquietos movimentos de cabeça, tentando olhar tudo quanto fosse possível. Não são cem dias frequentando o espaço, e no último sábado, quando rolou a festa junina - e os corredores, gramados e salas receberam outros usos e objetos - notei como os espaços já me são familiares, como já formulei na mente mapas da escola, e já me acostumei a sair da sala do primeiro ano e não virar imediatamente à esquerda, onde há uma pilastra (na qual me choquei nos primeiros dias).
O primeiro olhar, é passar de olhos que só faz sentido quando há o segundo, o terceiro... É olhar que faz perceber, ainda que sem a noção marcadamente  calendarística, a passagem do tempo e a vivência (talvez "Aproveitamento") dele em espaços distintos. Estranhamento e familiaridade. Olhos atentos revelam sutilezas do viver entre locais que, por ventura, deixamos escapar. 



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