sábado, 1 de julho de 2017

Ponteiros de nós mesmos.


No universo social em que vivemos, urbano, capitalístico e apressado em razão de um e de outro, em que a grande massa da classe trabalhadora entope as avenidas, ônibus, trens, metrôs, estações, terminais etc, entre as seis e as oito da manhã para chegarem ao trabalho conforme a fábula cronométrica aprisionadora da hora local/global para a jornada diária da batente exploração, seria um ultraje dizer "Nós acordamos cedo". No nosso contexto próprio e específico, dos dias em que você bate o cartão bate a impressão digital para registrar "Cheguei", entre as doze e a uma da tarde, que coincidem com os mesmos dias em que eu não trabalho (que até bem pouco tempo eram o pesar lógico de todos os meus dias), é cabível dizer que "Nós acordamos cedo, às onze da manhã". É cabível dizer que "Acordamos cedo", pois "Dormimos tarde", isto é, nossos cronogramas de exploração cotidiana não seguem à risca a mesma jornada da grande classe trabalhadora, e, por vezes, é frequente que se chegue em casa do dito "Local de trabalho" apenas por volta de nove e pouco/muito da noite, quando, no universo social em vivemos - urbano, alienado e capitalístico (um em razão do outro e outrem em razão de ambos) - a grande massa da classe trabalhadora já entorpeceu-se por completo nas fábulas como anestesiantes cerebrais com formatos de "Notícias" e "Novelas". Chegamos tarde, dormimos tarde, e é a relação com estes conceitos moldados conforme as nossas rotinas que definem: "Acordamos cedo", ainda que para a maioria, que segue o relógio do capital, o nosso "Cedo" seja obscenamente "Tarde". Nesses dias subimos a rua juntos, "Agora ela está mal passada, quando chegar lá em cima estará no ponto", pois nosso destino é o ponto de parada dos ônibus que você espera e escolhe: se há pressa, isso é, se tardamos com relação ao nosso próprio cedo, você pega qualquer um para adiante pegar outro; se não há pressa, isto é, se estamos adiantados ou a par com nossos referenciais temporais, temos algumas unidades de minutos em meio à carícias e conversas (em geral bobeiras, de fazer os demais ao redor, quiçá pessoas que se embebem nas tramas pseudo românticas das anestesiantes novelas, direcionarem olhares tortos ao puro amor ainda jovial de pracinha de interior) enquanto você espera um ônibus específico, que lhe leva direto ao metrô. No momento em que o coletivo chega - independente de ser aquele de sua preferência, ou aquele que é "Qualquer um" - trocamos um retocar mais ou menos rápido de lábios, lhe dou um empurrãozinho em direção à porta, um ato transformado em hábito e em tradição elaborado ainda nos ditos "Primeiros dias" dessa aventurança que temos vivido nos últimos ano e onze meses, em que você, para diminuir a tristeza por cessar o nosso "Estar juntos", sugeria que nos empurrássemos no instante do "Tchau" - o ato tornou-se hábito e tradição pois é frequente que eu também sinta leves sopros de dores ao vê-la partir ou ao fazer-me partir. Ocorre que, após o retocar de lábios e o "Empurrão-adeus", vejo-me novamente sozinho no mundo, isto é, sem o amparo fantástico de vossas gracinhas e sorrisos e beijos e lampejos inapagáveis de menina linda, e preciso "Descer" o que outrora "Subimos", e o faço sempre driblando a sensação de "Estar sozinho no mundo", trocando-a por um "Tenho uma parceira no mundão", que é comunicado aos meus sentidos sob a forma de: lamber os lábios a fim de sentir o doce que ficou do teu doce retocar de lábio com o meu; revisitar na memória os nossos momentos juntos na última manhã, madrugada, noite, dia; esticar-me para ver-te dentro do ônibus e, como é tônica desde o instante em que nossas trajetórias se cruzaram, trocarmos uma gracinha, neste instante, visual. Nos momentos anteriores, os quais arquivo na memória (após a gracinha, e durante a degustação labial) pouco importou toda a teorização que pôde ser feita, ou qualquer noção de temporalidade social ou particular. Trancamos a porta por medo, e nesses dois metros quadrados de quarto, independente do tic tac do seu relógio, somos ambos ponteiros de nós mesmos; minutos, segundos, horas que suspendem quaisquer noções de "Cedo", "Tarde", "Logo", "Devagar"... Pílulas concentradas da temporalidade da vida que apenas desejo serem vividas assim, eu tic, você tac, nos encontrando a cada voltinha.

 

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