sábado, 29 de julho de 2017

Ponderações sobre medos.


Medo é sensação complicada, complexa. Tipo de coisa que nos acompanha por toda a vida. Talvez seja o "Lado escuro da lua" do complexo mapa de sensações que temos/somos. Medo. 
Recordo-me duma situação que vivenciei, em que um garotinho de três ou quatro anos viu um gato pela primeira vez. Quando lhe falaram da presença de um gato animou-se em conhecer o animal, no entanto, quando se viu frente a frente com o felino, seu corpo lhe deu como resposta a vontade de ficar longe (tratava-se duma sala relativamente grande, portanto, se o gato estava na ponta de um sofá, o garoto ia para a ponta oposta de um outro sofá). Olhando o gato com muito temor, seu corpo lhe deu como resposta uma tremedeira, a qual o garoto verbalizou: "Eu acho que tô com frio!". Medo. Ele estava ali, sem entender, conhecendo a sensação que comumente classificamos como "Medo". O "frio" era seu único modo de interpretar a famosa "tremedeira" até então.

Existem 'medos' e 'medos'. 
Até bem pouco tempo atrás meu medo era acordar e ver-me viver mais um dia sem ter o que fazer. Digo, desde que enfiei na cabeça que sempre explorarei o mínimo lampejo de ideia criativa que possa se tornar ideia material, sobretudo artisticamente, sempre tenho o que fazer. Mas chegou uma altura lá por março deste ano que esse ritmo para os dias já não bastava. Precisava de interações sociais mais amplas, de contatos, de uma rotina temporal e, evidentemente, de dinheiro. Era medo de acordar e passar mais um dia sem um mínimo tostão para qualquer coisa que quisesse fazer. Era medo de acordar e ver que na caixa de entrada, novamente, ninguém havia retornado as dezenas de e-mails enviados com curriculuns. Era medo de mais um dia sem que o telefone tocasse com qualquer proposta para fazer qualquer coisa dentre aquelas que me tornei apto para realizar e ser remunerado. Era medo de levantar da cama e sentir-me um inválido social. Mas hoje preciso dar foco a outro medo.

'Este' Medo.
O medo de dar certo. O medo de alcançar o que outrora foi anseio. O medo de abdicar do que é porto seguro em nome do que é mar (um pouco) aberto. O temor sob a forma de "Será que quero mesmo?". Essa é a martelação constante dos últimos dias. O medo de dar certo. 
Foi em 2004, no auge dos meus quinze anos. Nutria já a algumas semanas curiosidades e interesses por conhecer uma garota e, como filho pródigo de uma sociedade sexista, beijá-la à boca (auge da atuação sexual que eu desenvolvia na época). Sabia e sentia que dela emanava o mesmo desejo, mas não conseguíamos simplesmente nos beijar - em uma casa desprovida de adultos, eu e ela sozinhos na sala assistindo um filme qualquer, algum outro adolescente gritou da cozinha: "Vocês parecem duas tartarugas querendo se beijar". De fato. No dia seguinte fomos ao PlayCenter (que os deuses da especulação imobiliária e do entretenimento o tenham) e, enfim, trocamos o beijo, enquanto dividíamos o carrinho na subida da montanha russa. A descida veio, e o beijo se desfez. Nos beijamos suados pelo sol da manhã e por ele, o medo. 
Medo de que o beijo não fosse tão bom quanto o papo, medo de que o beijo, ainda que prenunciado como desejo através de diversos signos por ambos, fosse negado no último instante, e desta negação nascesse o sentimento de rejeição, invalidez social (novamente). 
Insegurança. 'Este' medo. É este o medo. Por mais que passe anos desejando algo, que passe meses o planejando, que os pedregulhos pelo caminho tenham me feito desejar de maneira tão intensa - a ponto de por vezes acordar do sonho e desejar tocá-lo - quando parece que está para chegar o momento, a respiração é mais profunda, a hesitação ocorre. 

Questões do medo.
Será que é isso mesmo?
Será que quero realmente abdicar desta realidade com a qual já me acostumei em nome desta nova realidade a ser construída?
Será que todos os fatores estão certos para que nada dê errado?
Será que não estou metendo os pés pelas mãos?
Será que não estou colocando a carroça na frente dos bois?
Será que é isso mesmo que quero para a minha vida?
Será que isso é realmente algo tão grandioso assim a ponto de fazer-me não mais dormir tão bem assim? 
Será que deixei de dormir pois vejo-me próximo de tocar os sonhos de outrora?

Respostas ao medo.
O medo de acabar este texto. O medo de responder às questões. O medo de querer voltar atrás. O medo de desistir. O medo de... vocês lembram daquela frase do Renato Russo, não? O medo por ver-me transitar entre o "Hesito" e o "Êxito". Superar o primeiro, parece ser o caminho mais seguro para o segundo. 
Domingo, Dois de Fevereiro de Dois Mil e Quatorze. A cortina do quarto dela balançava pelos sopros frescos que amenizavam a sensação de forno naquele cômodo. Deitados em um colchão pequeno abaixo da janela, assistíamos aos movimentos da cortina, sentíamos a brisa do vento, observávamos o céu azul com poucas nuvens brancas - realizar esta descrição deu-me uma saudade tremenda do clima derrotante do verão. Timidamente falávamos daquilo que estava ocorrendo: minhas malas fechadas para voltar a ser paulistano, para iniciar uma jornada acadêmica em outro campus, para seguir a vida por outro rumo que, sabíamos, tinha tudo para nos afastar (como afastou). 
Hesito. Lembro-me do suor frio daquela tarde, da vontade de abrir mão de tudo. De desistir de pegar a carona que me traria a São Paulo, de não fazer a matrícula deixada para ser feita em cima da hora (pois queria fazê-la com total segurança e certeza e sem medo). Vontade de desfazer as malas. De relocar a casa cujas chaves havia entregado para a inquilina seguinte fazia poucas dezenas de horas. 
Foram meses construindo aquele momento. Aliás, foram meses trabalhando para que ele chegasse, e quando ele chega... Medo. 'Este' medo por seguir em frente, pela dita  "Próxima etapa". 

Nova jornada. Nova casa. Nova cidade. Novos locais. Novas pessoas. Nova rotina. 

ou

Desconhecida jornada. Desconhecida casa. Desconhecida cidade. Desconhecidos locais. Desconhecidas pessoas. Desconhecida rotina.

É curioso como 'neste' medo o trânsito entre o que atraí por excelência - o desconhecido, as novidades - é o que atemoriza por essência: o desconhecido, as novidades.
Sábado, um de março de dois mil e oito. Típico sol quente de verão a nascer em fim de madrugada já quente. Na garagem de casa um carro que foi pego emprestado (por ter porta malas mais amplo) era entupido com artefatos de uso doméstico: colchão enrolado, edredom, roupas, rádio, uma mesa desmontada... Encostei-me no portão, de costas para a rua e de frente para a traseira do carro, a porta aberta, as minhas coisas ali, todas empilhadas, amontoadas. Suspirei, não nego: "Será que quero mesmo fazer isso? Será que quero mesmo passar esses tais 'próximos anos' nessa tal 'Marília' frequentando essa tal 'Unesp' para fazer esse tal curso de 'Ciências Sociais'? 
Hesito versus Êxito. Independentemente do que se decida com relação ao primeiro, isto é, acatá-lo ou não, pode-se ter êxito no que se construiu adiante, pois a vida continua, lá ou cá. Desistir de algo é optar por outro algo. Tivesse eu hesitado em voltar para São Paulo em 2014, certamente teria êxito em outros algos pros lados Marilienses, e isso seria fruto do que se decidiu perante o hêsito.
Paralelos que não chegam a ser paradoxos. Contrários que não chegam a elucidar uma contradição. Talvez estejam todos os opostos conectados, portanto, formando círculos, pois empenhados em um mesmo objetivo: viver uma vida gostosa. O hesito e o êxito são, justamente, a busca qualitativa pelo que pode haver de mais refinado no que se entende como "Vida gostosa". 
E é por conta disso que sempre fui indeciso, entendo hoje, sempre busco compreender ao máximo qual será a situação da vida que repercutirá maior prazer, maiores sensações boas. 
Indecisões brabíssimas, pois qual sorvete me proporcionará maior prazer ao lambê-lo: um de chocolate amargo ou um de moussé de maracujá? Note, o sorvete amargo de chocolate doce, é um extremo quase oposto ao sorvete azedo de fruta azeda com um toque de doçura. Ainda que ambos sejam gelados, ainda que ambos sejam doces e ainda que ambos irão gerar-me um prazer, embora distintos. A questão sempre é: "Qual prazer quero sentir hoje?", isso em se tratando dos sabores que eu mais gostava na Lunatta (sorveteria cremosa de Marília), pois há outras questões do gênero. 
Por exemplo, em um de fevereiro de dois mil e quatorze, o meu questionamento era: "Qual prazer quero sentir nos próximos anos?". O que envolvia, sabia também, uma série de outras questões, todas intercambiáveis entre si: "De quais pessoas irei me afastar? De quais pessoas irei me aproximar? Quais espaços deixarei de frequentar? Quais espaços passarei a frequentar? Quais sabores provarei? Quais dissabores provarei? Quais caminhos farei? Quais caminhos deixarei de fazer?". Isso, pensado na situação do sorvete, é simples (e muitas vezes terminei por o resolver pedindo uma casquinha com duas bolas, o que me gerava uma terceira sensação de prazer: sentir na boca a fusão do amargo de chocolate doce com o extremo quase oposto, o azedo de fruta azeda com um toque de doçura), mas pensado nos caminhos da vida a longo prazo... são longos instantes de suspiros - indecisos, claro.

Medo nada mais é do que vontade de dar certo. Tanta vontade, tanto desejo, tanto certo, tanto bom, tanto gostoso, tanto tudo, que dá medo de não ter, não ser.
'Este' Medo, fazia tempo que não o sentia - 1274 dias, para ser preciso.  Três anos e lá vai Corintias de certezas e medos distintos a preencher os meus dias. Cansaços, tristezas, trabalhos, felicidades, rolês, manhãs semi desfalecido pelos excessos, desejos, contemplações, descobertas, destruições, laços... Mas 'este' medo, que talvez seja o símbolo não de uma virada de página, mas de uma passagem entre volumes distintos de um desses livros megalomaníacos publicados em volumes, fazia tempo que não o sentia. E, não nego, estava com saudades. Vida que anda, vida que segue, vida que vale. Sem temor perante os medos. Com todas as vistas ao êxito, sem medo do hesitar.

Ps.: acabei o texto e tô indo tomar sorvete.

Esperando o trem em dois mil e dezessete pensando no medo em meio a um denso momento de hesitação.
 
Pisando na lama sem medo em dois mil e treze em meio a um momento de festa pelo êxito.

Colocando quadros na parede em dois mil e oito após um êxito, após uma hesitação e entre um hesitar e outro. 


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Eu nunca vou sarar dessas saudades? - V


[É impossível não dizer que este texto é também uma continuidade deste aqui].
Pois é, os dedos que escorregam a tela do celular levam os olhos a uma rápida sequência de imagens de um evento com algum convidado que rolou naquele salão, ou "Anfiteatro", para usar o termo correto e nobre. Puxa vida. Barbudos sentados nas cadeiras de couro esverdeado, cabeludas com blusas coloridas, educadores de longa data cujas assinaturas timbram minha oficialização para trabalhar no que trabalho e cujos nomes me remetem a momentos mais ou menos inesquecíveis. A mesa longa, alta, com uma extensa madeira, simples, lisa, funcional e bem preservada, é a mesma. 
Foi impossível não me recordar daquelas assembleias lotadas e fervilhantes que fazíamos lá, em que, dado instante, nos levantávamos e tirávamos todas as cadeiras para que nos largos degraus recobertos de uma madeira fina pudessem caber mais e mais estudantes. Exercício de democracia na prática.
E o dia em que mordi uma daquelas cadeiras assistindo a um show do Luca Bernard? 
Isso tudo aconteceu pela manhã, quer dizer, nas primeiras horas que passei acordado nesta sexta-feira em que lhes escrevo. Lá pelo meio da tarde, sem entender ao certo a razão, bateu uma ampla vontade de ouvir essa música aqui. Comecei a cantarolar, e então liguei um equipamento eletrônico com wifi para ouvi-la, e entendi algo novo sobre tudo isso que aconteceu, acontece.

LUGAR     SEGURO 

É isso, é para esse tipo de local que minha mente me leva nesses insuportáveis momentos de saudades. Foram anos questionando, "Eu nunca vou sarar dessas saudades?", 2014, 2015, 2016 e um trechinho de 2017 não nego, pois a saudade doía, insuportável não é adjetivo exagerado. 
Recordar-me do salão, da música, das pessoas, de tudo isso que aconteceu naqueles anos - 2008, 9, 10, 11, 12, 13... - é lembrar-me de que existem lugares seguros, de que já estive neles, de que sinto-me em um deles por ora e de que sei traçar caminhos para neles chegar. 
Que anos insuportáveis, logo após anos imensuráveis, foi impossível não me apegar aos locais seguros para me confortar e resignar a seguir adiante...
Eu nunca vou sarar dessas saudades, por mais que construa referenciais de segurança por outros locais e pessoas. Nunca irei sarar delas, e a elas, outras tantas se juntarão. E, honestamente, isso me soa algo esplêndido nesta sexta-feira.



 

sábado, 1 de julho de 2017

Primeiro olhar.


Você entra em um lugar em que nunca foi, ou passa por um local em que seu corpo nunca havia estado. Todos os sentidos do corpo estão ali, experimentando a sensação do novo. Pode ser um novo marcante - "O meu primeiro dia de trabalho aqui..." - ou um novo ordinário - "Vamos parar o carro nesse posto para usar o banheiro...". Todos os sentidos experimentam aquela novidade, no entanto, é pelo olhar que entramos e deixamos o tal novo ser sentido por nós (digo por mim, claro).
O primeiro olhar sobre um espaço é marcante, ele nos guia perante o desconhecido. É o conhecer, a curiosidade por querer conhecer, o não saber por onde ir. Paramos para usar o banheiro no posto na beira da rodovia, mas não sabemos onde são os banheiros, e temos de escanear com a vista todo o espaço até bater os olhos em uma placa que, certamente, terá uma seta e o escrito "Banheiros" ou "Sanitários". É sobre esse movimento, essa escaneada inicial, que quero falar. 
Não me recordo ao certo quando comecei a realizá-lo ciente da possibilidade demarcadora para a vida que ele possuí. Todo modo, passei a sempre que vou a um local desconhecido olhá-lo com atenção, buscar os mínimos detalhes que puder encontrar. Depois, quando eles se tornam conhecidos, consigo, vez e outra, olhar para os mesmos ambientes, os mesmos objetos e recordá-los em minha memória imagética como eram enquanto "Novos", isto é, destituídos da condição de "Conhecidos", "Rotineiros", "Comuns". 
É gostoso, vez e outra, em um ambiente ao qual já estou familiarizado, olhar para um cantinho e me recordar de quando o olhei pela primeira vez, de como ele me soou estranho. Olhar ao desconhecido com a consciência de desconhecido faz-me criar na mente uma imagem crua de algo que pode vir a ser cozido. E recordar-me desta imagem após um tempo de frequência ao espaço faz-me ter noção do quanto estou, justamente, familiarizado com ele, do momento exato da virada entre um antes e um depois (que se configura enquanto "Agora"). 
Por quantas vezes desci a rampa da Unesp de Marília? Frequentei a casa com ares diários por cerca de cinco anos, houve dias em que desci e subi aquele caminho de concreto cinco, seis vezes, houve dias em que o evitei. Mas é inegavelmente não exagerado dizer "Passei por aquele caminho mais de mil vezes", e ao recordar-me dele consigo separar na cabeça uma passagem qualquer, da primeira passagem, quando o percorri para realizar a matrícula sob o nascer do sol de Fevereiro de 2008. Consigo recuperar, no video tape mental, a partir da lembrança, a sensação do desconhecido: "Será que aquele prédio lá embaixo é onde farei a matrícula? O que será que há nessas salas aqui à esquerda? Olha a biblioteca... Será que o mato é sempre alto assim? Parece que tentaram esculpir uma galinha naqueles arbustos". Tudo isso se tornou a minha rotina (e as minhas saudades), mas antes de ambos, ainda consigo revisitar - talvez em razão das perguntas - os olhares estranhados daquele jovem naquele amanhecer.


Estou há dois ou três meses dando aulas em um colégio. Meu primeiro olhar sobre ele foi para entregar uma cópia de Curriculum. Não fui além da secretaria. Quando me chamaram para a entrevista me apresentaram todo o colégio, e notei a estranheza de quem o fazia com os meus inquietos movimentos de cabeça, tentando olhar tudo quanto fosse possível. Não são cem dias frequentando o espaço, e no último sábado, quando rolou a festa junina - e os corredores, gramados e salas receberam outros usos e objetos - notei como os espaços já me são familiares, como já formulei na mente mapas da escola, e já me acostumei a sair da sala do primeiro ano e não virar imediatamente à esquerda, onde há uma pilastra (na qual me choquei nos primeiros dias).
O primeiro olhar, é passar de olhos que só faz sentido quando há o segundo, o terceiro... É olhar que faz perceber, ainda que sem a noção marcadamente  calendarística, a passagem do tempo e a vivência (talvez "Aproveitamento") dele em espaços distintos. Estranhamento e familiaridade. Olhos atentos revelam sutilezas do viver entre locais que, por ventura, deixamos escapar. 



Ponteiros de nós mesmos.


No universo social em que vivemos, urbano, capitalístico e apressado em razão de um e de outro, em que a grande massa da classe trabalhadora entope as avenidas, ônibus, trens, metrôs, estações, terminais etc, entre as seis e as oito da manhã para chegarem ao trabalho conforme a fábula cronométrica aprisionadora da hora local/global para a jornada diária da batente exploração, seria um ultraje dizer "Nós acordamos cedo". No nosso contexto próprio e específico, dos dias em que você bate o cartão bate a impressão digital para registrar "Cheguei", entre as doze e a uma da tarde, que coincidem com os mesmos dias em que eu não trabalho (que até bem pouco tempo eram o pesar lógico de todos os meus dias), é cabível dizer que "Nós acordamos cedo, às onze da manhã". É cabível dizer que "Acordamos cedo", pois "Dormimos tarde", isto é, nossos cronogramas de exploração cotidiana não seguem à risca a mesma jornada da grande classe trabalhadora, e, por vezes, é frequente que se chegue em casa do dito "Local de trabalho" apenas por volta de nove e pouco/muito da noite, quando, no universo social em vivemos - urbano, alienado e capitalístico (um em razão do outro e outrem em razão de ambos) - a grande massa da classe trabalhadora já entorpeceu-se por completo nas fábulas como anestesiantes cerebrais com formatos de "Notícias" e "Novelas". Chegamos tarde, dormimos tarde, e é a relação com estes conceitos moldados conforme as nossas rotinas que definem: "Acordamos cedo", ainda que para a maioria, que segue o relógio do capital, o nosso "Cedo" seja obscenamente "Tarde". Nesses dias subimos a rua juntos, "Agora ela está mal passada, quando chegar lá em cima estará no ponto", pois nosso destino é o ponto de parada dos ônibus que você espera e escolhe: se há pressa, isso é, se tardamos com relação ao nosso próprio cedo, você pega qualquer um para adiante pegar outro; se não há pressa, isto é, se estamos adiantados ou a par com nossos referenciais temporais, temos algumas unidades de minutos em meio à carícias e conversas (em geral bobeiras, de fazer os demais ao redor, quiçá pessoas que se embebem nas tramas pseudo românticas das anestesiantes novelas, direcionarem olhares tortos ao puro amor ainda jovial de pracinha de interior) enquanto você espera um ônibus específico, que lhe leva direto ao metrô. No momento em que o coletivo chega - independente de ser aquele de sua preferência, ou aquele que é "Qualquer um" - trocamos um retocar mais ou menos rápido de lábios, lhe dou um empurrãozinho em direção à porta, um ato transformado em hábito e em tradição elaborado ainda nos ditos "Primeiros dias" dessa aventurança que temos vivido nos últimos ano e onze meses, em que você, para diminuir a tristeza por cessar o nosso "Estar juntos", sugeria que nos empurrássemos no instante do "Tchau" - o ato tornou-se hábito e tradição pois é frequente que eu também sinta leves sopros de dores ao vê-la partir ou ao fazer-me partir. Ocorre que, após o retocar de lábios e o "Empurrão-adeus", vejo-me novamente sozinho no mundo, isto é, sem o amparo fantástico de vossas gracinhas e sorrisos e beijos e lampejos inapagáveis de menina linda, e preciso "Descer" o que outrora "Subimos", e o faço sempre driblando a sensação de "Estar sozinho no mundo", trocando-a por um "Tenho uma parceira no mundão", que é comunicado aos meus sentidos sob a forma de: lamber os lábios a fim de sentir o doce que ficou do teu doce retocar de lábio com o meu; revisitar na memória os nossos momentos juntos na última manhã, madrugada, noite, dia; esticar-me para ver-te dentro do ônibus e, como é tônica desde o instante em que nossas trajetórias se cruzaram, trocarmos uma gracinha, neste instante, visual. Nos momentos anteriores, os quais arquivo na memória (após a gracinha, e durante a degustação labial) pouco importou toda a teorização que pôde ser feita, ou qualquer noção de temporalidade social ou particular. Trancamos a porta por medo, e nesses dois metros quadrados de quarto, independente do tic tac do seu relógio, somos ambos ponteiros de nós mesmos; minutos, segundos, horas que suspendem quaisquer noções de "Cedo", "Tarde", "Logo", "Devagar"... Pílulas concentradas da temporalidade da vida que apenas desejo serem vividas assim, eu tic, você tac, nos encontrando a cada voltinha.