sexta-feira, 14 de julho de 2017

Eu nunca vou sarar dessas saudades? - V


[É impossível não dizer que este texto é também uma continuidade deste aqui].
Pois é, os dedos que escorregam a tela do celular levam os olhos a uma rápida sequência de imagens de um evento com algum convidado que rolou naquele salão, ou "Anfiteatro", para usar o termo correto e nobre. Puxa vida. Barbudos sentados nas cadeiras de couro esverdeado, cabeludas com blusas coloridas, educadores de longa data cujas assinaturas timbram minha oficialização para trabalhar no que trabalho e cujos nomes me remetem a momentos mais ou menos inesquecíveis. A mesa longa, alta, com uma extensa madeira, simples, lisa, funcional e bem preservada, é a mesma. 
Foi impossível não me recordar daquelas assembleias lotadas e fervilhantes que fazíamos lá, em que, dado instante, nos levantávamos e tirávamos todas as cadeiras para que nos largos degraus recobertos de uma madeira fina pudessem caber mais e mais estudantes. Exercício de democracia na prática.
E o dia em que mordi uma daquelas cadeiras assistindo a um show do Luca Bernard? 
Isso tudo aconteceu pela manhã, quer dizer, nas primeiras horas que passei acordado nesta sexta-feira em que lhes escrevo. Lá pelo meio da tarde, sem entender ao certo a razão, bateu uma ampla vontade de ouvir essa música aqui. Comecei a cantarolar, e então liguei um equipamento eletrônico com wifi para ouvi-la, e entendi algo novo sobre tudo isso que aconteceu, acontece.

LUGAR     SEGURO 

É isso, é para esse tipo de local que minha mente me leva nesses insuportáveis momentos de saudades. Foram anos questionando, "Eu nunca vou sarar dessas saudades?", 2014, 2015, 2016 e um trechinho de 2017 não nego, pois a saudade doía, insuportável não é adjetivo exagerado. 
Recordar-me do salão, da música, das pessoas, de tudo isso que aconteceu naqueles anos - 2008, 9, 10, 11, 12, 13... - é lembrar-me de que existem lugares seguros, de que já estive neles, de que sinto-me em um deles por ora e de que sei traçar caminhos para neles chegar. 
Que anos insuportáveis, logo após anos imensuráveis, foi impossível não me apegar aos locais seguros para me confortar e resignar a seguir adiante...
Eu nunca vou sarar dessas saudades, por mais que construa referenciais de segurança por outros locais e pessoas. Nunca irei sarar delas, e a elas, outras tantas se juntarão. E, honestamente, isso me soa algo esplêndido nesta sexta-feira.



 

sábado, 1 de julho de 2017

Primeiro olhar.


Você entra em um lugar em que nunca foi, ou passa por um local em que seu corpo nunca havia estado. Todos os sentidos do corpo estão ali, experimentando a sensação do novo. Pode ser um novo marcante - "O meu primeiro dia de trabalho aqui..." - ou um novo ordinário - "Vamos parar o carro nesse posto para usar o banheiro...". Todos os sentidos experimentam aquela novidade, no entanto, é pelo olhar que entramos e deixamos o tal novo ser sentido por nós (digo por mim, claro).
O primeiro olhar sobre um espaço é marcante, ele nos guia perante o desconhecido. É o conhecer, a curiosidade por querer conhecer, o não saber por onde ir. Paramos para usar o banheiro no posto na beira da rodovia, mas não sabemos onde são os banheiros, e temos de escanear com a vista todo o espaço até bater os olhos em uma placa que, certamente, terá uma seta e o escrito "Banheiros" ou "Sanitários". É sobre esse movimento, essa escaneada inicial, que quero falar. 
Não me recordo ao certo quando comecei a realizá-lo ciente da possibilidade demarcadora para a vida que ele possuí. Todo modo, passei a sempre que vou a um local desconhecido olhá-lo com atenção, buscar os mínimos detalhes que puder encontrar. Depois, quando eles se tornam conhecidos, consigo, vez e outra, olhar para os mesmos ambientes, os mesmos objetos e recordá-los em minha memória imagética como eram enquanto "Novos", isto é, destituídos da condição de "Conhecidos", "Rotineiros", "Comuns". 
É gostoso, vez e outra, em um ambiente ao qual já estou familiarizado, olhar para um cantinho e me recordar de quando o olhei pela primeira vez, de como ele me soou estranho. Olhar ao desconhecido com a consciência de desconhecido faz-me criar na mente uma imagem crua de algo que pode vir a ser cozido. E recordar-me desta imagem após um tempo de frequência ao espaço faz-me ter noção do quanto estou, justamente, familiarizado com ele, do momento exato da virada entre um antes e um depois (que se configura enquanto "Agora"). 
Por quantas vezes desci a rampa da Unesp de Marília? Frequentei a casa com ares diários por cerca de cinco anos, houve dias em que desci e subi aquele caminho de concreto cinco, seis vezes, houve dias em que o evitei. Mas é inegavelmente não exagerado dizer "Passei por aquele caminho mais de mil vezes", e ao recordar-me dele consigo separar na cabeça uma passagem qualquer, da primeira passagem, quando o percorri para realizar a matrícula sob o nascer do sol de Fevereiro de 2008. Consigo recuperar, no video tape mental, a partir da lembrança, a sensação do desconhecido: "Será que aquele prédio lá embaixo é onde farei a matrícula? O que será que há nessas salas aqui à esquerda? Olha a biblioteca... Será que o mato é sempre alto assim? Parece que tentaram esculpir uma galinha naqueles arbustos". Tudo isso se tornou a minha rotina (e as minhas saudades), mas antes de ambos, ainda consigo revisitar - talvez em razão das perguntas - os olhares estranhados daquele jovem naquele amanhecer.


Estou há dois ou três meses dando aulas em um colégio. Meu primeiro olhar sobre ele foi para entregar uma cópia de Curriculum. Não fui além da secretaria. Quando me chamaram para a entrevista me apresentaram todo o colégio, e notei a estranheza de quem o fazia com os meus inquietos movimentos de cabeça, tentando olhar tudo quanto fosse possível. Não são cem dias frequentando o espaço, e no último sábado, quando rolou a festa junina - e os corredores, gramados e salas receberam outros usos e objetos - notei como os espaços já me são familiares, como já formulei na mente mapas da escola, e já me acostumei a sair da sala do primeiro ano e não virar imediatamente à esquerda, onde há uma pilastra (na qual me choquei nos primeiros dias).
O primeiro olhar, é passar de olhos que só faz sentido quando há o segundo, o terceiro... É olhar que faz perceber, ainda que sem a noção marcadamente  calendarística, a passagem do tempo e a vivência (talvez "Aproveitamento") dele em espaços distintos. Estranhamento e familiaridade. Olhos atentos revelam sutilezas do viver entre locais que, por ventura, deixamos escapar. 



Ponteiros de nós mesmos.


No universo social em que vivemos, urbano, capitalístico e apressado em razão de um e de outro, em que a grande massa da classe trabalhadora entope as avenidas, ônibus, trens, metrôs, estações, terminais etc, entre as seis e as oito da manhã para chegarem ao trabalho conforme a fábula cronométrica aprisionadora da hora local/global para a jornada diária da batente exploração, seria um ultraje dizer "Nós acordamos cedo". No nosso contexto próprio e específico, dos dias em que você bate o cartão bate a impressão digital para registrar "Cheguei", entre as doze e a uma da tarde, que coincidem com os mesmos dias em que eu não trabalho (que até bem pouco tempo eram o pesar lógico de todos os meus dias), é cabível dizer que "Nós acordamos cedo, às onze da manhã". É cabível dizer que "Acordamos cedo", pois "Dormimos tarde", isto é, nossos cronogramas de exploração cotidiana não seguem à risca a mesma jornada da grande classe trabalhadora, e, por vezes, é frequente que se chegue em casa do dito "Local de trabalho" apenas por volta de nove e pouco/muito da noite, quando, no universo social em vivemos - urbano, alienado e capitalístico (um em razão do outro e outrem em razão de ambos) - a grande massa da classe trabalhadora já entorpeceu-se por completo nas fábulas como anestesiantes cerebrais com formatos de "Notícias" e "Novelas". Chegamos tarde, dormimos tarde, e é a relação com estes conceitos moldados conforme as nossas rotinas que definem: "Acordamos cedo", ainda que para a maioria, que segue o relógio do capital, o nosso "Cedo" seja obscenamente "Tarde". Nesses dias subimos a rua juntos, "Agora ela está mal passada, quando chegar lá em cima estará no ponto", pois nosso destino é o ponto de parada dos ônibus que você espera e escolhe: se há pressa, isso é, se tardamos com relação ao nosso próprio cedo, você pega qualquer um para adiante pegar outro; se não há pressa, isto é, se estamos adiantados ou a par com nossos referenciais temporais, temos algumas unidades de minutos em meio à carícias e conversas (em geral bobeiras, de fazer os demais ao redor, quiçá pessoas que se embebem nas tramas pseudo românticas das anestesiantes novelas, direcionarem olhares tortos ao puro amor ainda jovial de pracinha de interior) enquanto você espera um ônibus específico, que lhe leva direto ao metrô. No momento em que o coletivo chega - independente de ser aquele de sua preferência, ou aquele que é "Qualquer um" - trocamos um retocar mais ou menos rápido de lábios, lhe dou um empurrãozinho em direção à porta, um ato transformado em hábito e em tradição elaborado ainda nos ditos "Primeiros dias" dessa aventurança que temos vivido nos últimos ano e onze meses, em que você, para diminuir a tristeza por cessar o nosso "Estar juntos", sugeria que nos empurrássemos no instante do "Tchau" - o ato tornou-se hábito e tradição pois é frequente que eu também sinta leves sopros de dores ao vê-la partir ou ao fazer-me partir. Ocorre que, após o retocar de lábios e o "Empurrão-adeus", vejo-me novamente sozinho no mundo, isto é, sem o amparo fantástico de vossas gracinhas e sorrisos e beijos e lampejos inapagáveis de menina linda, e preciso "Descer" o que outrora "Subimos", e o faço sempre driblando a sensação de "Estar sozinho no mundo", trocando-a por um "Tenho uma parceira no mundão", que é comunicado aos meus sentidos sob a forma de: lamber os lábios a fim de sentir o doce que ficou do teu doce retocar de lábio com o meu; revisitar na memória os nossos momentos juntos na última manhã, madrugada, noite, dia; esticar-me para ver-te dentro do ônibus e, como é tônica desde o instante em que nossas trajetórias se cruzaram, trocarmos uma gracinha, neste instante, visual. Nos momentos anteriores, os quais arquivo na memória (após a gracinha, e durante a degustação labial) pouco importou toda a teorização que pôde ser feita, ou qualquer noção de temporalidade social ou particular. Trancamos a porta por medo, e nesses dois metros quadrados de quarto, independente do tic tac do seu relógio, somos ambos ponteiros de nós mesmos; minutos, segundos, horas que suspendem quaisquer noções de "Cedo", "Tarde", "Logo", "Devagar"... Pílulas concentradas da temporalidade da vida que apenas desejo serem vividas assim, eu tic, você tac, nos encontrando a cada voltinha.