terça-feira, 2 de maio de 2017

Os números mudaram.


Olhei a tela brilhante do caixa eletrônico a cegar os meus olhos de recém acordado que ainda não havia tomado café ou comido qualquer cream cracker mas já estava na rua. Sete e vinte e oito da primeira manhã que atrela frio e chuva assim de repente bem nos nossos ossos. "Não é possível", gaguejei. Lá no fundo da farmácia, escala improvável naquela manhã, realizada apenas em razão do letreiro luminoso, embora estivesse desligado, a frente da mesma que indicava a presença do caixa eletrônico, uma jovem mulher olhava para mim. Deve ter algo a chamar a atenção quando uma pessoa entra no estabelecimento em que você trabalha brigando com um guarda chuva que se recusa a fechar, derrubando uma mochila ao chão, em seguida uma carteira e, por fim, praguejando as mangas duma camisa. Deve-se dedicar alguma atenção, sobretudo em termos de criar uma cautela prévia, para este tipo de sujeito - e, fato inignorável, tratava-se dum estabelecimento comercial, cuja única funcionária presente era uma mulher, com um homem esquisito entrando em meio à uma sociedade das mais machistas. Todo o tempo que passei de frente ao caixa eletrônico notei que ela me olhava - de certa forma a frase é flexível: "Todo o tempo que passei de frente ao caixa eletrônico olhava para ela". Ao tornar o cartão para a carteira, cutuquei um par de moedas de cinquenta centavos e uma de um real, "Meu desjejum será alguma bolachinha, se é que se vende bolacha por dois reais numa farmácia burguesa fincada em coração de bairro burguês". 

-Bom dia.
-Bom dia.
-Você tem algum tipo de bolacha?
-Não.
-Algo de dois reais para comer?
-Tem barrinha de um nove nove.
-Vou levar uma. 
 Saí da farmácia carregando a imagem do riso dela. Lhe expliquei o que ocorrera, da maneira mais sincera possível, e consegui, desta maneira, dissipar a tensão causada pelo meu comportamento bizarro.

Mais tarde naquela mesma manhã, em que parecia haver menos chuva e mais frio do que duas horas antes - o que é uma meteorologia controversa, visto que havia sol a esquentar os lombos que enfrentavam a rua - parei em um mercado para realizar algo próximo dum desjejum mais digno do que os copinhos de café e as bolachas de mar em miniatura (ou lágrima em versão expandida) que consumi na sala dos professores. Passei por outro caixa eletrônico: "Não é possível", gaguejei novamente. Pelos corredores do mercado, passeei em busca do que comporia a minha atrasada "Primeira refeição do dia". Olhava prateleiras, olhava produtos, olhava etiquetas e, diferentemente da última vez que passei por aqui, na semana passada, situação em que tinha a lista de compras claramente definida na cabeça ("Duas bananas da mais barata, um pão francês e três fatias de mortadela, se der mais do que quatro reais terei que deixar as bananas...") permiti ao meu corpo (o que incluí a mente) caminhar pelos corredores. 
Bolachas, Fandangos, Refrescos, Bibidas, Ovos de Páscoa, Colombas (era "quarta feira santa"), Mortadelas, Pães com queijo em cima, Mini Churros, Frutas importadas, Bananas distintas, Massa fresca para macarrão saboroso, Iogurtes diversos, Molho de tomate em frasco de vidro, Pão de queijo à granel, Pertences para feijoada, Sessão de alimentos "Orientais", Bacalhau... 
À perder de vista o tempo caminhei pelo mercado, observei uma mágica e espantosa realização que saltava à vista a partir das etiquetas: os números mudaram. Etiquetas amarelas - ou em laranja gritante, quando se trata de pseudo promoções - com impressões em tinta preta com o nome do produto e a quantidade de dinheiro em reais que deve ser entregue a quem trabalha nos caixas para chamar tal produto de "Meu" passavam por uma transformação. Foram esses números, os impressos em preto, que mudaram, que passaram a me comunicar outras mensagens, ter outros significados e, por que não, representar outro tipo de valor. 
Encarei a etiqueta que demarcava o preço de um saquinho com mini broas de milho, era como se o laranja gritante tivesse se tornado um salão, e o erre, o cifrão, o quatro, a vírgula e os dois noves dançassem algum ritmo festejantemente latino. Os noves faziam um joguete de passar pra cá, passar pra lá, voltar, rodopiar. O quatro, solitário entre uma vírgula e um ésse cortado por duas barras verticais, tentou puxar o érre para movimentos ritmados do corpo, mas foi negado, e se concentrou em assistir os movimentos dos noves, depois começou a se divertir com a vírgula, que ria a cada tombo do quatro. Isso se repetiu adiante, noutras etiquetas, e era incrível: os números mudaram.

Ainda na farmácia, antes do passeio pelo mercado de etiquetas mudadas, enquanto pagava pela barrinha de um nove nove, contei um curto trecho da história para a moça, foi meu modo de justificar por que fiquei boquiaberto ante o caixa eletrônico, derrubei meus pertences e arregalei os olhos: o simples parar no caixa eletrônico reconfigurou todo o sentido daquele dia, deixou de ser apenas mais uma manhã, ou mesmo a primeira manhã do ano que combina frio e chuva, para se tornar a manhã do dia em que caiu o meu primeiro salário após nove meses sem ter dinheiro pingando fixamente em conta, não esperava receber o pagamento naquele dia, e ao ver tal somatório de dinheiro (menos de um salário mínimo) atrelado ao meu nome, à minha pessoa, não nego que senti perversa emoção, convertida, no mercado de mais tarde, em um par de pão com tiras de queijo derretido em cima, sete fatias de mortadela ouro para recheá-los (pedi a mortadela, inclusive, por gramas, e não por fatias), um iogurte de morango, cem gramas de mini churros, cem gramas de pão de queijo, duas bananas prata e um bombom. Os números, representações de preços, mudam conforme os adquirimos e podemos pagar por eles, e isso, no demarcar das etiquetas, soa como uma festa, a perversa festa do capitalismo falido a nos proporcionar alegrias fugazes, mas um pouco saborosas - "Deve ter algum tipo de droga nessa mortadela ouro, que bagulho gostoso", gaguejei.