terça-feira, 30 de maio de 2017

Resignado com a ladeira.


"Resignado" é um termo cujo sentido prático fui entender apenas recentemente. Uma explicação das mais pedagógicas em um domingo de manhã sob o chão marrom de quadradinhos azulejados da cozinha de casa. "Resignado" foi termo que bateu à porta das minhas ideias, também recentemente, em uma conversa repleta de angústias destrutivas em uma conversa sob o chão de azulejos retangulares cor de creme na casa de um irmão: "A molecada hoje parece estar já resignada com o capitalismo, e eu não consigo me aceitar nesse modelo, não consigo eu mesmo me resignar com isso", foi dito.
Quando comecei a percorrer a cidade de São Paulo, aliás, parte dela, de bicicleta, minha onda era elaborar caminhos mais suaves. Por bons meses me recusei a ter trajetos convencionais ("O caminho de sempre") para tentar outros que pudessem ser mais eficazes, mais curtos, com menos subidas, com vias mais seguras em que estivesse menos exposto à insanidade daqueles & daquelas que de trás de seus volantes ignoram a existência de outros. Ainda faço isso, o prazer de passar por uma rua desconhecida é-me causador de grande satisfação. Às vezes me dou mal, passo por uma rua em que os demais transeuntes não me olham com bons olhos, chego em uma rua sem saída, dou de cara com uma energúmena subida, e, em última instância, mas que já ocorreu um par de vezes, erro o caminho, dou meia volta e pedalo até o ponto onde posso retomar o trajeto dito convencional.
Um dos trajetos que mais me fez fuçar nos mapas on line e na pedalagem urbana para encontrar a escapadela duma subida lascada foi para sair da casa de minha mãe. Posicionada no topo de uma ladeira íngreme daquelas em que se sobe bastante, sem diminuir a inclinação, no meio do caminho há uma curva, e após está, outra subida, de angulação ainda mais inclinada. Na base da ladeira, configurada então como descida (pois estou me referindo a quando vou embora), há uma plana avenida, no centro da qual há um córrego - aliás: a avenida foi construída nas margens do córrego, é importante nos lembrarmos das etapas corretas dos processos destrutivos sem escrúpulos de urbanização. E para alcançar a avenida que compõem-se como rota central da maioria dos meus trajetos, tenho de subir outra ladeira, o morro oposto ao que ela mora. Penoso exercício para as coxas, panturrilhas, barriga e ombros, devo dizer.
Pois foi tentando escapar dessa penosidade que conheci diversas vias da região, uma mais íngreme que a outra, uma mais extensa que a outra. Uma inegável geografia de planície ao centro e relevos ao redor que se estende por quilômetros, a sul e a norte, e que não me deixa escolha: mais cedo ou mais tarde terei de enfrentar alguma subida lascada. 
Não há como fugir da ladeira. Respiro fundo, "Resigno-me" perante os metros de asfalto em inclinação, jogo a marcha lá em baixo - marcha número um nos trocadores esquerdo e direito, e vamos lá. Pedalo sem pressa, evitando fazer força. Ando pouco, mas ainda assim estou andando. As pernas reclamam, como não, mas sigo no movimento. "Devagar e sempre", diz o ditado. Os carros passam rasgando ao meu lado, diminuindo a marcha e soltando barulhos escabrosos. Não fosse a ladeira, o trajeto de trinta minutos seria feito em quinze. Houvesse um trajeto mais plano por seguir, o caminho seria menos penoso, menos doloroso...
Recordo-me bem de qual foi o momento da vida em que respirei fundo e pensei comigo mesmo: "Bom, não tem jeito mesmo, para saborear os meus afazeres prediletos terei de encarar chibatadas no lombo". Sem saber, estava me resignando com o capitalismo. As chibatadas doem, mas fazer o que, até o momento ainda não encontrei outro caminho, e já me deparei com subidas piores, ruas sem saídas e becos hostis o suficiente para saber que, por ora, tudo bem passar um tempo em marcha lenta, haverá o tempo da velocidade, do vento na cara, de abrir os braços e pedalar destemido com força máxima assobiando algum tema espontaneamente composto.
Os azulejos quadrados e retangulares são testemunhas oculares barrosas, cerâmicosas, de que entendi o que é resignação e de que ela pode não ser algo tão ruim assim.


segunda-feira, 29 de maio de 2017

A grande teoria da personalidade que irradia.


Mas, na verdade, esse é só um esboço de uma teoria que ainda não se mostra como tal, tampouco que demonstra indícios de que irá se tornar grandiosa ou, meramente, grande. Bom, mas, sigamos adiante: há uma ideia em curso, e há práticas correntes que dialogam com a ideia, o que me faz compreender que, factualmente, há uma teoria por vir.
Trata-se de personalidade, aquela construção individual-social que é comum ser outorgada à composições genéticas e a posicionamentos lunares, estrelares, planetares. Mas não creio nisso não. Também não creio em dedo de santo, benção de anjo, sopro divino ou olhar de entidade. Personalidade, ao meu compreender, é uma camada bem grossa de cimento, uma fileira de tijolos, outra de cimento, e outra fileira, e assim sucessivamente até formar uma parede, então outra, então outra, mais uma e tem-se um cômodo, aí entra a porta, outro cômodo, diversas fileiras, diversas paredes, janelas, espaços vagos; móveis em imóveis. Personalidade é construção. 
Puxadinho é o nome popular que se dá para a construção extra, aquele quartinho a mais, aquele pedaço subtraído do quintal ao qual são destinadas fileiras de cimento e tijolos para que se torne metro quadrado de uso prático e objetivo. Puxadinho é a irradiação da construção, proliferação em sentido não negativo, expansão. 
É inegável que a personalidade, enquanto construção, pode não ver limites. E mesmo quando na construção primeira da casa não foi previsto a necessidade daquele "Quarto de fundos", ou mesmo que tenha sido pré-estabelecido: "Vamos primeiro erguer a casa, deixa aquela terra batida atrás, depois a gente cimenta, depois vê o que faz". E assim segue-se a construção. As irradiações no terreno são finitas conforme a metragem. As reconstruções, igualmente: "Vamos derrubar essa parede aqui, e deixar aberto o caminho por aqui agora para que os cômodos da construção sejam menos distintos e mais próximos, interajam".
Mais um andar, mais alguns cômodos. O quarto dialoga com a sala que tem passagem para o banheiro cuja janelinha tem de ficar afastada da cozinha que permite acesso ao quintal por onde se passa pela janela do quarto e se chega à sala novamente.
A construção da personalidade se irradia pelo tempo de vida, personalidades emergem em um mesmo corpo tal qual paredes e cômodos em um terreno fértil à construção civil. E isso parece-me uma teoria plausível, talvez, se devidamente desenvolvida, pode vir a ser uma grande teoria sobre a personalidade que irradia, talvez não - depende de qual personalidade a desenvolver, bem como, de em qual cômodo da casa for armazenada. Fato pontual é que talvez demolir casinhas espontâneas para erguer prédios idênticos seja estratégia para amortizar personalidades frente à uniformidade, talvez, guardar cada personalidade num cômodo a ser acessado cada qual no momento específico, seja restringir a proliferação (novamente, não pejorativa) de mais e mais e mais e mais encontros e personalidades irradiantes possíveis.


terça-feira, 2 de maio de 2017

Os números mudaram.


Olhei a tela brilhante do caixa eletrônico a cegar os meus olhos de recém acordado que ainda não havia tomado café ou comido qualquer cream cracker mas já estava na rua. Sete e vinte e oito da primeira manhã que atrela frio e chuva assim de repente bem nos nossos ossos. "Não é possível", gaguejei. Lá no fundo da farmácia, escala improvável naquela manhã, realizada apenas em razão do letreiro luminoso, embora estivesse desligado, a frente da mesma que indicava a presença do caixa eletrônico, uma jovem mulher olhava para mim. Deve ter algo a chamar a atenção quando uma pessoa entra no estabelecimento em que você trabalha brigando com um guarda chuva que se recusa a fechar, derrubando uma mochila ao chão, em seguida uma carteira e, por fim, praguejando as mangas duma camisa. Deve-se dedicar alguma atenção, sobretudo em termos de criar uma cautela prévia, para este tipo de sujeito - e, fato inignorável, tratava-se dum estabelecimento comercial, cuja única funcionária presente era uma mulher, com um homem esquisito entrando em meio à uma sociedade das mais machistas. Todo o tempo que passei de frente ao caixa eletrônico notei que ela me olhava - de certa forma a frase é flexível: "Todo o tempo que passei de frente ao caixa eletrônico olhava para ela". Ao tornar o cartão para a carteira, cutuquei um par de moedas de cinquenta centavos e uma de um real, "Meu desjejum será alguma bolachinha, se é que se vende bolacha por dois reais numa farmácia burguesa fincada em coração de bairro burguês". 

-Bom dia.
-Bom dia.
-Você tem algum tipo de bolacha?
-Não.
-Algo de dois reais para comer?
-Tem barrinha de um nove nove.
-Vou levar uma. 
 Saí da farmácia carregando a imagem do riso dela. Lhe expliquei o que ocorrera, da maneira mais sincera possível, e consegui, desta maneira, dissipar a tensão causada pelo meu comportamento bizarro.

Mais tarde naquela mesma manhã, em que parecia haver menos chuva e mais frio do que duas horas antes - o que é uma meteorologia controversa, visto que havia sol a esquentar os lombos que enfrentavam a rua - parei em um mercado para realizar algo próximo dum desjejum mais digno do que os copinhos de café e as bolachas de mar em miniatura (ou lágrima em versão expandida) que consumi na sala dos professores. Passei por outro caixa eletrônico: "Não é possível", gaguejei novamente. Pelos corredores do mercado, passeei em busca do que comporia a minha atrasada "Primeira refeição do dia". Olhava prateleiras, olhava produtos, olhava etiquetas e, diferentemente da última vez que passei por aqui, na semana passada, situação em que tinha a lista de compras claramente definida na cabeça ("Duas bananas da mais barata, um pão francês e três fatias de mortadela, se der mais do que quatro reais terei que deixar as bananas...") permiti ao meu corpo (o que incluí a mente) caminhar pelos corredores. 
Bolachas, Fandangos, Refrescos, Bibidas, Ovos de Páscoa, Colombas (era "quarta feira santa"), Mortadelas, Pães com queijo em cima, Mini Churros, Frutas importadas, Bananas distintas, Massa fresca para macarrão saboroso, Iogurtes diversos, Molho de tomate em frasco de vidro, Pão de queijo à granel, Pertences para feijoada, Sessão de alimentos "Orientais", Bacalhau... 
À perder de vista o tempo caminhei pelo mercado, observei uma mágica e espantosa realização que saltava à vista a partir das etiquetas: os números mudaram. Etiquetas amarelas - ou em laranja gritante, quando se trata de pseudo promoções - com impressões em tinta preta com o nome do produto e a quantidade de dinheiro em reais que deve ser entregue a quem trabalha nos caixas para chamar tal produto de "Meu" passavam por uma transformação. Foram esses números, os impressos em preto, que mudaram, que passaram a me comunicar outras mensagens, ter outros significados e, por que não, representar outro tipo de valor. 
Encarei a etiqueta que demarcava o preço de um saquinho com mini broas de milho, era como se o laranja gritante tivesse se tornado um salão, e o erre, o cifrão, o quatro, a vírgula e os dois noves dançassem algum ritmo festejantemente latino. Os noves faziam um joguete de passar pra cá, passar pra lá, voltar, rodopiar. O quatro, solitário entre uma vírgula e um ésse cortado por duas barras verticais, tentou puxar o érre para movimentos ritmados do corpo, mas foi negado, e se concentrou em assistir os movimentos dos noves, depois começou a se divertir com a vírgula, que ria a cada tombo do quatro. Isso se repetiu adiante, noutras etiquetas, e era incrível: os números mudaram.

Ainda na farmácia, antes do passeio pelo mercado de etiquetas mudadas, enquanto pagava pela barrinha de um nove nove, contei um curto trecho da história para a moça, foi meu modo de justificar por que fiquei boquiaberto ante o caixa eletrônico, derrubei meus pertences e arregalei os olhos: o simples parar no caixa eletrônico reconfigurou todo o sentido daquele dia, deixou de ser apenas mais uma manhã, ou mesmo a primeira manhã do ano que combina frio e chuva, para se tornar a manhã do dia em que caiu o meu primeiro salário após nove meses sem ter dinheiro pingando fixamente em conta, não esperava receber o pagamento naquele dia, e ao ver tal somatório de dinheiro (menos de um salário mínimo) atrelado ao meu nome, à minha pessoa, não nego que senti perversa emoção, convertida, no mercado de mais tarde, em um par de pão com tiras de queijo derretido em cima, sete fatias de mortadela ouro para recheá-los (pedi a mortadela, inclusive, por gramas, e não por fatias), um iogurte de morango, cem gramas de mini churros, cem gramas de pão de queijo, duas bananas prata e um bombom. Os números, representações de preços, mudam conforme os adquirimos e podemos pagar por eles, e isso, no demarcar das etiquetas, soa como uma festa, a perversa festa do capitalismo falido a nos proporcionar alegrias fugazes, mas um pouco saborosas - "Deve ter algum tipo de droga nessa mortadela ouro, que bagulho gostoso", gaguejei.