segunda-feira, 3 de abril de 2017

Memória & Movimento.


A internet contemporânea e as redes sociais virtuais nos fornecem excelentes dispositivos de memórias. Digo, vocês, usuários, como eu, sabem que todo dia aparece lá na grande rede social virtual o que você postou naquela data em anos anteriores. Às vezes são coisas ruins de lembrar, como que em três de abril de dois mil e treze publiquei um texto referente a um ocorrido no final de semana anterior, em que um conflito doméstico causado em razão duma "Amizade", vista por um lado da moeda como indevida, se fazia presente na grande rede social, e isso fez-me, acidentalmente, ficar desnorteado em minha própria casa, bater com a cabeça na pia e cair em sono confuso no colchão jogado ao chão da sala - tudo descontroladamente um "Acidente", como já havia ocorrido no meio de março daquele ano, e ocorrera outro no início de maio, e o Facebook sempre me lembra, ano a ano, de todos eles. No entanto, o dispositivo de recordações virtuais também traz à boca do estômago da memória sabores os mais límpidos e cristalinos com açúcar de confeiteiro polvilhado em cima e creme saindo por todas as laterais. Como que em três de abril de dois mil e quatorze - incrível a velocidade com que mudamos nossas vidas na juventude, talvez esse seja um dos traços do 'ser jovem' - saí todo serelepe da loja oficial do Marília Atlético Clube com um par de ingressos para o jogo do dia seguinte, ou mesmo, inverti a sequência lógica da coisa, em três de abril de dois mil e quatorze desembarquei na rodoviária daquela cidade. Foi curiosa a sensação ao 'ver' esta memória - lembranças são matérias não palpáveis, 'coisas da cabeça', que o dispositivo da rede social torna em 'quase' tocáveis - por meio da foto da rodoviária que tirei ainda de dentro do ônibus. Memória sensitiva sempre me puxa pelos calcanhares. Recordei-me da rotatória e da "Subidinha" que há nos últimos metros do trajeto, na via que conecta uma avenida, cujo nome já não me recordo, à entrada restrita aos ônibus. Recordações de quando viajava de madrugada, e acordava assustado com o ônibus diminuindo a velocidade, e ter de recolher meu cobertor correndo para descer antes do ônibus seguir viagem ou ir para a garagem. O dia em que, nesta situação, viajando de madrugada, desceria na parada anterior, em Vera Cruz, no entanto, cansado (voltava de São Paulo após alguma das etapas do processo seletivo para o mestrado) apenas fui acordar em Marília, aliás, apenas fui acordado na rodoviária final da linha, por um funcionário da empresa de ônibus, se fosse a linha que segue trajeto até Tupi Paulista, seria lá que me acordariam. A primeira lembrança que tenho da cidade, em si, do meu corpo, do meu eu em Marília, é na rodoviária - de formato peculiar: seria um OVNI, um chapéu mexicano ou de bruxa? - no começo de fevereiro de dois mil e oito, para matricular-me na universidade. Viajei de madrugada (eram seis horas de viagem) e lá cheguei junto do amanhecer de um dia de verão, entendi de pronto o que era o calor naquela região do estado, conheci o aroma de baunilha exalado pela fábrica de bolachas e uma das "Pragas anuais" da cidade, a infestação de gafanhotos. Rodoviária é movimento. "É assim a vida é movimento". E, talvez, por ter esse entendimento Dead Fishiano da vida que, hoje, nenhuma dessas lembranças teve sabor de 7x1. Não doeu. Não, não sarei dessas saudades - eu nunca vou sarar dessas saudades, já tomo isso como uma afirmação quase dogmática, mas, dessa vez, sairei da internet sem ter o coração dolorido. Não doeu, não machucou, não deu vontade de pegar a bicicleta e sair correndo pedalando Castelo Branco a dentro até a Marechal Rondon e depois pelos 94km da João Ribeiro de Barros até avistar a rodoviária. Não deu vontade de tentar arrumar qualquer emprego, bico, atividade remunerada e/ou acadêmica que o valha por lá e voltar, de ônibus mesmo, só com uma mochila e umas lágrimas lavando o rosto para o paraíso perdido de minha memória, o oásis de felicidade irrestrita em minha experiência no mundo. Já senti isso noutros momentos, é verdade que depois a coisa voltou, pudera, outras tantas refrearam o movimento que se esboçara (me parece que dessa vez não ocorrerá o mesmo). Por ora, a vida andou, anda, a vida se movimentou e os grilhões que, de certa forma, estacionaram tal libertação no passado recente, já foram superados, vencidos (preciso, inclusive, ir lá buscar o certificado). Hoje, três de abril de dois mil e dezessete, tenho outro percurso compondo a principal tarefa de minha semana, não é a coisa mais importante para mim, mas é relevante, está no curso dos acontecimentos planejados na linearidade dos investimentos que realizei na vida e vai me pagar algum dinheiro após trinta dias, o que, a considerar o período vivido anteriormente (de "Seguir o jogo" com poucas moedas) representa grande alívio. Já não há mais, especulo, motivos para me lamentar por uma rotina gostosa perdida: o dia a dia, a cada dia, volta a ser saboroso, não preciso mais viver à sombra das memórias de um "Outrora" de sabores mil frente a um cotidiano assassínico, fétido, chafurdantemente xarope. A vida é movimento, e, enfim, parece que as coisas voltarão/am a caminhar. Às saudades, à cidade, aos percursos, à rodoviária, ao estádio de futebol, à universidade, ao bar, às pessoas, existe um enorme banco, de madeiras nobres e bem envernizado em meu coração, e vocês estão nele sentados.