sexta-feira, 17 de março de 2017

Não existe psicologia plausível aqui.


Lembro que tinha uma época em que o meu café da manhã eram os barbitúricos. "Tome um comprimido logo ao acordar, uns dez, quinze minutos antes de comer algo". Por pouco mais de doze meses (talvez doze meses e duas semanas) isso se tornou algo religioso. "Se você se sentir muito ansioso, afoito, nervoso com algo, tome um ou dois desse e procure fazer algo relaxante em seguida". Ainda bem que eu nunca mais vi esse cara.
Teve uma época também, já quase remota, são lembranças em preto e branco com borrões e queimados no filme, que às terça e/ou quintas - na verdade acho que teve um tempo que foi às terças, e outro tempo às quintas - que eu ia em um casarão lá pros lados de Santana. Foi na época em que li "O menino no espelho" pela primeira vez, tanto que as cenas que formulo do livro se passam naquela casa. Tinha um vasto jardim à frente, com uma escada de cimento, uma sala escura "De espera" e uma montoeira de outras salas, cada qual com seu fim e um preço de aluguel específico. Os tipos de profissionais que alugavam os cômodos eram, em geral, "Da saúde". Era um quarto grande o que eu frequentava, o "Da frente" na casa e "De frente" para a rua. Tinha uma mesa, um sofá (depois descobri que o sofá chamava "Divã") e um monte de jogos. Não fazia sentido para mim aquilo ser algo sério, digo, era um lugar relativamente longe de chegar, e eu ia lá passar uma hora fazendo jogos com uma mulher que ria e anotava o que eu dizia. Não fazia o menor sentido, e acho que não fez a menor diferença, visto que eu não sabia quais processos estavam em jogo ou deveriam estar.
Teve um tempo que essa canção tinha um efeito psicológico inegável. Andei muito para frente ao escutá-la repetidas vezes e pensar, sem risadinhas, nos meus próprios atos.
Foi por livre e espontânea pressão alheia que cheguei àquela casa. Um pouco me arrastando, um pouco caminhando, não tive problemas para localizar o endereço no mapa da cidade: "Dá pra chegar com um buzão só, e ir e voltar na mesma passagem". Era um casarão também, talvez "Uma casa", e não "Um casarão". O quarto era pequeno (ou talvez eu que tenha crescido) e tinha menos atrativos do que aquele que frequentei quinze anos antes: uma mesa, um divã, três poltronas, uma mesinha (sempre com caixa de lenços e cinzeiro) e uma janela que dava para a rua. O maior atrativo daquele cômodo era o homem que sentava na poltrona próxima à mesa. Era paciente, embora não fosse o paciente, cagava para barbitúricos e me fez boas perguntas. Chorei duas vezes na frente dele, a primeira foi ao contar essa história, e a segunda ao contar algo próximo dessa aqui. Usei os lenços por duas vezes, e o cinzeiro nunca usei. 

Não existe psicologia plausível aqui.

Dessa vez não existe inquietação infantil que necessite de algum tipo de acompanhamento. Também não existe pressão externa para um problema inexistente. Tampouco existem tensões sentimentais incompreendidas. Nada disso. É tudo muito claro. 
-Pega a metralhadora.
-Que metralhadora?
-A metaforalhadora 

É tão claro quanto piscina de casa de rico com a água bem tratada e os azulejos bem escovados.
É tão claro quanto arcada dentária em comercial de pasta de dentes.
É tão claro quanto plástico filme de embalar frutas semi comidas.
É tão claro quanto a pureza branca do produto final da folha passada na gasolina transformada em pasta e em cristais.
É tão claro quanto a operadora de celulares.

-Tá bom já?
-Sim.
-Continua então. 

Longe de assinar um atestado de anuência ao discurso escroto burro anti humanitário que diz que qualquer problema psicológico se resolve com uma inchada, olho ao redor e não tenho dúvidas: todas as fezes que entopem os intestinos cerebrais (inclusive a própria mania, cada vez mais crescente, de falar de fezes) são facilmente defecáveis por meio de seis horas diárias de ocupação, alternadas em seis dias de operação por um de descanso, ou seja, 24 a 25 dias no mês, com remuneração ao término do período. É só isso. Não tem psicologia, não tem problemas, não tem semânticas, não tem arcabouços, não tem reflexões, não tem profundidade, não tem braçadas. É simples assim. E por que é simples? Pois vivemos num sistema em que isso é o central para qualquer porra que você quiser fazer em ou da sua vida.
"Quero ter uma banda". Tenha um emprego. "Quero comprar tintas". Tenha um emprego. "Quero voltar a ter autonomia e deixar de morar com meu pai". Tenha um emprego. Por que é com um emprego que você pode ter capital para pagar essas coisas. Não é maravilhoso? Não. Mas como não tem jeito:

ME
ARRUMEM
UM
EMPREGO
CARALHO
!!!!!!!!!

 

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