sexta-feira, 17 de março de 2017

Frases soltas, Cocômidos, Segue o jogo.


Você passa dez anos da vida investindo em algo, acredita piamente naquilo, naquelas histórias que te contam, nos planos que te apresentam. Você passa dez anos acreditando num papo, e talvez dez anos tenham sido necessários para entender que ele é tão furado quanto uma peneira. Meu pai tem uma música que chama "As coisas já fazem dez anos", e deve fazer uns três que passei a entendê-la. Um amigo me perguntou se eu topava qualquer tipo de trampo, e respondi que sim. Topo mesmo. Faz algumas semanas já, talvez já dê para dizer "Faz alguns meses", que tenho pensado que, não vai ter jeito, terei de voltar a algum "Zero", algum "Ponto inicial" e começar tudo de novo. Topo mesmo. Daí fui ver um trampo bem de base mesmo, próximo da mais larga base da pirâmide do capitalismo contemporâneo, sem sombra de dúvidas, para começar a recomeçar a coisa toda e não deu certo. O tombo, apesar de baixo, foi forte e doeu. Na primeira etapa da seleção o rapaz ficou nitidamente encucado com o fato de haver no curriculum apresentado uma formação superior e uma pós-graduação, "Você tem curso superior?", "Sim", "Concluído?", "Sim", "E esse aqui...", bateu a caneta repetidas vezes em cima da palavra "Mestrado". A coisa, a meu ver, começou a dar errado ali. Alguém me falou, "Você é qualificado demais para esse tipo de trampo". Sempre vejo e penso nas colegaiada que não caíram nessa arapuca de papo de "Progresso" que eu caí, não tenho dúvidas de que eles comem cocôs em seu cotidiano, e penso que, se eu não tivesse mudado a vida em nome desse "Progresso", obviamente que comeria cocôs tocando a vida tal qual tocava. Mas a questão é sempre a mesma (inútil de ser feita, mas a mesma): "Será que eu lidaria melhor com aqueles cocôs do que com os que tenho comido desde então?". Um tempo atrás uma pessoa próxima foi demitida de seu trabalho e sentiu-se ofendida com o modo como a empresa a demitiu: foi marcada uma reunião entre uma chefona e três "Operárias" (uma delas, a pessoa que eu conheço), a reunião era para a demissão. A justificativa da chefona para uma reunião demitiva "À quatro", era o de mostrar que não havia dúvidas sobre a capacidade de cada uma delas, mas sim de que era uma necessidade da empresa se livrar de profissionais tão boas mas que a empresa está cortando gastos por causa da crise... Comecei a frequentar sites de buscas de emprego, acionar amizades, colegas e conhecidos que poderiam ajudar, sites de colégios e universidades, e a encaminhar e-mails para estes últimos, lá por Junho ou Julho do ano passado. Os únicos retornos são para dizer "Agradecemos o interesse, mas você não preenche o perfil que procuramos" e teve um também que questionou a "Falta de experiência". Daí contei essa história da demissão tripla duma vez para uma pessoa acostumada à base da pirâmide, e ela não achou tão absurdo quanto a pessoa que me contou: "Em geral, em fábricas e lugares em que contratam 'piões', você chega um dia lá e tem uma lista de dispensa afixada na parede, seu nome tá lá e ninguém te dá satisfação alguma, ainda bem que chamaram as minas para conversar!", ela me contou. Às vezes penso que a gente da classe média é mimado demais para lidar com algumas coisas, às vezes penso que quem já passou pelos estágios de provação da coisa toda se esqueceu dos cocôs que teve de comer pelo caminho (ou talvez não tenha cocômido). Enquanto as pessoas dispensadas no processo seletivo para o trampo de base iam embora, com expressões de normalidade, de "Segue o jogo", confesso que me chateei com a coisa. Eu estava abatido, na verdade, meio sem rumo, quando uma moça (também dispensada) me fez uma pergunta qualquer com um riso no rosto. Às vezes, me parece, nós da classe média,que temos alguma formação ou coisa que o valha, achamos que apanhamos de mais, choramos, esperneamos, mas aí noto que quem realmente apanha de mais na vida, quando leva uma nova bofetada, não chora nem esperneia, apenas segue em frente. Tem outra frase solta que eu queria alocar aqui: pior do que pobre de direita, é pobre que acha que vai triunfar suavemente na vida sem comer toneladas de cocô no caminho ao optar investir em formações e mercados de/para burguês. Para trabalhar em "Minha área de formação" não tenho "O perfil" ou a "Experiência" esperada, para sair dela e começar do zero tenho "Qualificação demais". Segue o jogo. 

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