quarta-feira, 15 de março de 2017

Entre Porcos & Porquices, Você.


Acordei ranzinza com um gosto ruim na boca. Cyborgue. Escravo tecnológico. Dependente virtual. Mal acordei (ainda estava longe de levantar) já peguei o celular para ver atualizações. Fiquei meses sem ter meu "e-mail de trabalho" (isso é, o e-mail que está em meu Curriculum Vitae) instalado nele, o fiz semana passada e, nessa fase dos "Des", tem sido frequente que as batidas do meu coração se acelerem quando o ícone que indica "mensagens novas" surge nele. Em geral quando acordo ele está lá, e corro para ver se é uma proposta irrecusável para um trabalho imediato. Nunca é. No caso de ontem, foi apenas mais um "Agradecemos o interesse, mas você não tem o perfil...".
Levantei e comi um pão e tomei café preto e fui dedicar-me às canetinhas e lápis coloridos para criar uma estampa de camiseta alusiva ao uso de drogas, algo como "O café salva vidas". O fiz com algum sucesso e depois dediquei-me ao almoço, ainda que não tivesse lá muita fome, precisava comer pois precisava sair pois o giro do relógio é implacável e a manifestação contra a implosão da previdência estava marcada para as 16 horas e gosto sempre de chegar cedo nesses eventos e acompanhar o espaço ser tomado por pessoas e grandes grupos e suas bandeiras.
Fui de bicicleta para a casa da minha avó e da minha tia, fiquei lá por volta de uma hora a uma hora e meia, não me recordo exatamente. Sei que saí atrasado pois minha tia estava me contando algo que aconteceu no trabalho dela e achei mais proveitoso me atrasar para ouvi-la do que sair sem ouvir ou tendo ouvido pela metade. Minha vó fazia as unhas com umas senhora que é mãe ou sogra de alguém que mora no prédio em que elas moram, e não participou muito das nossas conversas. Exceção que deve ser feita a quando conversamos sobre Mogi das Cruzes, é muito saboroso ouvir minha vó contando memórias.
Em seguida peguei a bicicleta novamente e segui em direção à Avenida Paulista. Estava em dúvida se permaneceria com a bicicleta durante o ato ou se a deixaria no bicicletário da Paraíso, caso ele estivesse aberto. Entre a estação Santa Cruz e a Vila Mariana começou a chover, mas quando cheguei na Ana Rosa já havia parado. Vi as estações fechadas e achei isso muito bacana, muito legal mesmo. É uma forma de resistência, é um símbolo de luta na prática, e nós precisaremos disso com muito mais afinco nos tempos próximos. É gostoso pedalar na chuva, o problema é que você se molha de mais.
Optei por deixar a bicicleta no bicicletário, uma vez que ele estava aberto. Conversei bastante com o rapaz responsável por ele naquele turno, gente boa, porém, tinha um problema em sua cabeça: o cérebro dele foi consumido amplamente pelo discurso midiático, e, para ele, de nada adiantaria aquela manifestação se não houvesse "Apoio das mídias". Ele é palmeirense, mostrei fotos das camisetas que tenho pintado e ele gostou, mas fui burro o suficiente para não lhe entregar nada, que fosse um pedaço de papel com o link do site onde estou as vendendo.


Saí do bicicletário e caminhei em direção à Avenida Paulista, iria até a Consolação, na ponta oposta da via, para me encontrar com o Jã. No entanto, após caminhar alguns metros vi, perto de mim, o ex-goleiro palmeirense Veloso, comendo um chocolate ou chupando um picolé, não me ative ao detalhe, mas tinha perto de sua boca algum tipo de doce industrializado embalado em plástico. Olhei-o nos olhos fixamente e ele fixou os deles no meu, me aproximei com a mão esticada e ele esticou a dele para mim. Nos cumprimentamos, mas eu não soltei a minha mão da dele e falei: "Queria te agradecer por aquela bola do Marcelinho, na final do Paulistão de 95". Ele parou, olhou para o chão, pensou por alguns segundos: "Mas eu não cheguei naquela bola". Encerrei o assunto: "Eu sei, é que aqui é Corintia". Ele me olhou com alguma raiva no olhar, mas nos viramos e cada um seguiu seu caminho. Ele não chegou naquela bola, e jamais chegaria, a imagem não mente, confiram comigo no replay. Foi nessa data que eu me tornei oficialmente Corinthiano, foi o meu "Primeiro título" como tal, se ele tivesse chegado naquela bola, talvez toda a minha vida fosse diferente e eu não estivesse, na tarde de ontem, indo para uma manifestação "De esquerda". Não foi mera provocação, ou coisa que o valha.
Ainda rindo dele, parei em um mini mercado para comprar uma cerveja. A Brahma tava 2,39, e a Proibida 2,29, peguei a Brahma, mas ao calcular minhas moedas tinha apenas 2,29, o rapaz do caixa, com a anuência de algum tipo de "Fiscal" ou "Gerente" realizou a venda assim mesmo, alegando que as moedas estão em falta.
Caminhei todos os três quilômetros da Avenida Paulista, o ato nascia, já estava bem grande, aliás, tanto que foi necessário contornar a parte traseira do Masp para conseguir atravessar aquele trecho da avenida. Foi um ato muito bonito. Encontrei-me com o Duda, que toca nessa banda maravilhosa, em seguida com o Jã, que faz essas fotos maravilhosas, e com eles permaneci por todo o fim de tarde e começo de noite. Encontrei-me também, e isso é curioso, com antigos colegas de Unesp e de Usp, é muito interessante isso, quando você faz um desses cursos de humanas, como eu, que fiz Ciências Sociais, os eventos de "Reencontro de turma", no fim das contas, são as assembleias e atos políticos. 
Após a fala do homem mais bonito do Brasil, esse, ao centro da imagem segurando um microfone 


Jã, Duda e eu nos separamos, eles seguiram rumo a estação Paulista (que fica na Consolação, e não a estação Consolação que fica na Paulista) e eu segui sentido Paraíso, para pegar minha bicicleta. Parei numa lanchonete na altura da Brigadeiro e comprei quatro coxinhas, quer dizer, comprei duas e outras duas vem numa espécie de promoção que sei é uma farsa. A avenida vazia de carros, mas cheia de pessoas, caminhando na mesma direção, com panos vermelhos em mastros ou por cima dos ombros ou cobrindo o corpo, bateu uma emoção, talvez uma alegria, por estar ali, num ambiente seguro, talvez uma tristeza, por ter de estar naquelas situação, a tarde toda, enchendo o saco por algo tão básico.
Quando cheguei ao bicicletário o mesmo atendente que me recepcionara quatro horas antes ainda trabalhava, com menos simpatia e semblante mais cansado. Desta vez não conversamos.
Estava em dúvida sobre qual caminho faria para vir para casa, se iria pelo centro, se cortaria a Paulista e seguiria pela Avenida Pacaembu ou pela Avenida Sumaré. Tentei criar algum caminho que fugisse do estádio do parmera, sabia que haveria jogo "De libertadores" lá, o que implicaria numa grande concentração de parmerenses por ali e em trânsito. Ao chegar na Augusta, parei por alguns instantes para acompanhar uma persistente charanga esquerdista, que ainda cantava sambas e marchinhas com palavras de ordem. Um grupo de cansados policiais militares assistia a farra, e não seria exagero dizer que os olhares deles para o grupo denunciava uma vontade desgraçada de dispersarem aquela rapaziada com qualquer armamento não letal para que pudessem voltar para casa, ou para o batalhão, não sei.
Encontrei-me com mais um ex-colega de tempos universitários/acadêmicos, que eu não via há muito tempo, tanto que me perguntou se eu já havia defendido a dissertação. Como sempre digo para essa pergunta: "Defendi, e agora habito no desemprego". Talvez ele tenha tecido o melhor comentário a esse respeito que já ouvi: "Você deixou de ser o futuro da nação para se tornar parte do problema social".
Segui pedalando, e, ainda na dúvida sobre qual caminho realizar, ao chegar na Consolação, me recordei da Consolação, e que aquele seria um bom caminho, e a desci dividindo o espaço da ciclofaixa com vendedores ambulantes que desciam com seus carrinhos e caixas térmicas (vazias) rumo ao centro. Um casal de vendedor & vendedora conversavam empolgados sobre as boas vendas daquela tarde/noite. Não ouvi a conversa toda, mas deu para perceber que faziam alguns cálculos sobre uma alta margem de lucro.
Segui pela ciclovia debaixo do Minhocão, e em seguida percorri a Avenida Matarazzo por entre eufóricos palmeirenses, apesar de silenciosos em termos de cantorias, eram muitos e conversavam muito alto. Depois cruzei a Lapa pensando se iria parar em algum mercado para comprar alguma cerveja, e após ampla negociação comigo mesmo, resolvi que pararia. Apertei o passo Apertei os pedais para chegar antes dele fechar, e deu tempo. Comprei três latas de cerveja que bebo enquanto escrevo, uma de cada vez, que fique claro. 
Foi um dia bem fotogênico (a conclusão do texto vem após as imagens).












No entanto, apesar de porcos alviverdes, porquices políticas, porcos fardados e minhas próprias porquices mentais, passei o dia todo pensando que hoje você completa vinte e sete anos, que você é maravilhosa, que é um prazer poder partilhar da vida com você, que não tenho dinheiro nem para te comprar um bolo, um presente ou irmos em um rolê bacana, e que não vejo a hora de te dar um beijo. 

Feliz Parabéns Deusa.



Nenhum comentário: