segunda-feira, 13 de março de 2017

Do refúgio ao inferno.


Refugiei-me num canto da cama, o mais quente e inacessado pelos sopros catalisados pelo ventilador, realmente não sei por que fiz isso, mas das ações que fui sujeito sem entender a razão, talvez seja a de menor importância. Refugiei-me em um caderno de desenho Trabalho de Conclusão de Curso abandonado numa estação de trens da CPTM cujas páginas em branco utilizo como caderno de desenho. Refugiei-me na criação de rabiscos de animais que na verdade compunham formas híbridas de diversos animais em um único corpo: "Esse aqui é uma mistura de cachorro, com barata, com humano; Esse aqui é uma cobra, com jacaré, com sapo". O desenho é um bom refúgio para essas situações. Se há momentos em que a realidade é insuportavelmente um pedido por suicídio, refugiar-me em desenhos do inexistente, do impossível, do irreal (ou surreal) é um modo de lidar com a coisa; aliás, não deixa de ser um modo de lidar com a coisa melhor do que o referido suicídio que a realidade e o momento pediam pedem. Refugiei-me pois não aguentava mais frases de baixo calão atravessando o meu cérebro.

sónãomematoparanãodaraocapitalogostinhoporterroubadominhavidaminhaexistência.
quedesperdícioentregarmosnossasmelhorespotencialidadesdemãobeijadaaosistema.

O calor não me deixou dormir. O silêncio, as palavras, as lembranças. Os animais inexistentes deram lugar no caderno a um cocô vestindo smoking com artefatos e poses de maestro de orquestra, tanta ausência de realidade quanto. Mudei a velocidade do ventilador, mudei o ventilador de local, mudei minhas roupas para uma ausência de panos, lavei meu rosto, joguei água na nuca. Uma a uma as coisas vão ruindo, as decepções de ontem se ramificam em novas decepções no hoje, novos rompimentos, as estruturas de outrora não são nada mais do que ruínas, rachaduras, alicerces abalados em razão dalgum tipo de enchente, incêndio ou fagulha pejorativa em galpão que serve como estoque para produtos químicos (morei a poucos metros de um troço desses, e sempre que passava por ali imaginava o bairro indo pelos ares). Desci para a cozinha, para a sala, tomei um copo d'água gelada, comi uma rodela de abacaxi, tomei outro copo d'água gelada. O calor não abrandava, a realidade não se dissolvia, os pensamentos não paravam, não havia refúgio plausível, acessível no repertório de animais ou fezes surrealistas em minha cabeça. Voltei para a cama: "Essa noite entendi as expressões que associam calor a inferno".




Nenhum comentário: