sábado, 11 de março de 2017

Dias de Granero.


A vida é movimento. Não tem jeito, é assim que vejo e tento viver a coisa. Quando o cotidiano se torna rotina, repetição, tabela, se torna difícil encontrar coisas com as quais se surpreender ou meramente, que façam com que me sinta em movimento. Sinto um gosto metálico na boca, como se houvesse chupado pregos enferrujados, ou coisa pior, vai saber.
Deve ter algum bordão escrito em algum lugar que afirma que "A vida muda todos os dias", de certa forma, nesse contexto de viver sempre tendo em vista o movimento, pode ser que isso ocorra. Todo dia tem alguma coisa no dia que nos faz pensar em algo novo, mexer as e nas ideias. Quando isso se dissolve a um mínimo fugaz, a pequenas vírgulas mentais, e não a parágrafos de novos pensamentos, sinto-me estagnado; talvez eu seja exigente de mais com a vida, nunca neguei.

Quando criança gostava muito do comercial da Granero Transportes que passava no SBT. Achava graça quando via algum caminhão da empresa na rua. 
SEMPRE FUI BOBO.

Partamos da lógica do bordão imaginado - espero não ter sido eu, aqui, o responsável por bordá-lo - e já ampliando-o, tem épocas ou dias em que a vida tem mais movimento, mais novidades, mais cheiro de plástico bolha. E é de um desses dias que eu preciso falar. Na verdade, três dias. Talvez um pouco mais, vejamos como os quadradinhos do calendário surgirão.

Sete de Setembro de Dois Mil e Doze.

Esse feriado cairia em uma sexta-feira, e, às vésperas dele, acumulava amplo atraso com relação às palavras ainda não escritas em meu TCC - aliás, o dia que eu tiver que fazer algo e este algo estiver "Em dia", é sinal de que minha vida se movimentou tanto que já me tornei outro ser. A priori passaria os dias do feriado em São Paulo, mas optei por organizar uma agenda de escrita em minha casa, em Marília 


estabeleci, na verdade, um verdadeiro "Plano de metas" (digno dos mais ávidos capitalistas assalariados sem capital), cheguei até a fazer uns "post-its" gigantes, em papel amarelo tamanho A3, com o que fazer, nos mínimos detalhes, a cada dia.
Ocorre que fui acionado pela Chefia do Cão Pererê, e desenrolou-se um verdadeiro deslocamento de frota dos caminhões da Granero rumo à casa em que morava e, sem exageros detectados na sentença a seguir, por toda a minha vida desde então. Os efeitos do acionamento realizado pela Chefia, creio, seguirão desencadeando acontecimentos e surpresas nos capítulos seguintes dessa palhaçada vida.

"Coiso, vai vir uma banda tocar aqui no domingo, dia Nove de Setembro, eles vão ter que passar duas noites aqui em Marília, rola de ficarem lá na tua casa?".

Não me recordo de ter dito "Não" quando esse tipo de pergunta me era feita. Em nome do movimento, reorganizei os post-its sem saber que, ao fazê-lo, reorganizava uma ampla cadeia de movimentos.
Os caras da banda dormiram em casa. Tomamos umas, trocamos ideias. Demos uma volta de leve pela região da cidade, comemos lanche, fizemos macarrão e uma tragicômica salada de alfaces (a qual, descobriu-se, tardiamente, tratar-se de chicória). O rolê em que tocaram, domingo ao cair da noite, para um público relativamente bom, foi saborosíssimo. É possível pensar na imagem dum laço sendo atado. 
Como os eixos dos caminhões que rodam sem parar pelas estradas desse país continental, a vida seguiu. As vidas seguiram, frequentemente se cruzando, ora mais, ora menos. Até o momento em que rascunhei esse texto, em um período de "Ora mais", na cidade dos caras, esperando um dos caras, com planos e metas para me mudar para lá, por que além dos caras que iam tocar em Marília conheci outros caras, e fantásticas moças, e ruas de boas calçadas, e uma geografia bem localizada.
É possível pensar como um "Dia de Granero", daqueles em que as movimentações da vida são tamanhas que mudanças se esboçam, se realizam. 
Enfim, a vida é movimento. Às vezes a gente faz algo para movimentar, e ela não anda. Às vezes a gente faz algo sem pensar, e isso gera um movimento no espaço sem gravidade e sem ter como parar. Fico imaginando um caminhão da Granero viajando no espaço rumo a marte até se chocar com algum tipo de superfície.



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