segunda-feira, 6 de março de 2017

Acordou ou levantou?


Dormir cedo e acordar cedo nunca me caiu ao gosto. Desde criança tentava escapar da "Hora de dormir", um pouco pelo gosto de burlar a regra, outro tanto para descobrir o que acontecia à noite (o que passava na TV que eu não podia ver?) e outro tanto por teimosia pura e simples. Na época da escola não tinha muito como fugir disso, acordava às seis da manhã, para sair as seis e meia de casa, inevitavelmente dormia cedo. Sentia raiva mesmo à quartas-feiras de futebol, em que não podia assistir ao jogo, acordava no dia seguinte e corria pegar o jornal ou ligar a TV para ver quanto tinha sido a partida. 
Em 2002 meus pais compraram um beliche para o quarto que eu dividia com minha irmã, e passei a dormir na cama de cima. De modo que o primeiro ato após acordar era descer por uma escadinha de madeira. Quer dizer, o segundo ato. Como detestava acordar, em razão de o fazer para ir à escola, "Cada amanhecer parecia um parto" - como dizia a frase escrita na parede dum quarto onde dormi algumas vezes em 2009 - e minha mãe encampava a tarefa de me fazer despertar. Recordo-me que não foram poucas as vezes que, do andar de baixo do sobrado, ela gritava: "Gabriel acordou?", e eu grunhia em resposta algum tipo de "Sim", ao que se seguia outra pergunta: "Acordou ou levantou?". Donde passei a compreender que minha primeira tarefa após acordar não era descer a escadinha do beliche (ou pular direto para o chão), mas sim levantar o corpo do colchão.

Hoje acordei, mas não levantei. Apesar de não ter razão prática para interromper o sono, sempre coloco o despertador para tocar, e hoje, não sei ao certo por que, despertei antes dele. Nove e meia da manhã, fiz um cálculo rápido, "Caramba, coisa rara dormir por seis horas e acordar assim, sentindo-me enérgico". Neguei-me a levantar, permaneci no colchão por cerca de duas horas entre cochilos, pensamentos (obviamente negativos) e espiadas na tela do celular.

Em 2013 recordo-me de dias em que eu precisava sair de casa antes do horário do primeiro ônibus, e caminhar por alguns quilômetros para embarcar em um - sentia-me um "Cedo madrugador", e até hoje, só para não perder a graça com o ditado, pois o ateísmo me impede de levá-lo à sério, agradeço a deus por ter me ajudado naquelas manhãs. O trabalho que me levava a isso era prazeroso, e a linearidade "Dormir cedo-Acordar cedo", não era tão dolorosa assim. No entanto, com muita frequência tinha invertida a lógica cotidiana do período "Pós-infantil" dos tempos do beliche: eu levantava, mas não acordava, era um zumbi caminhando pelas vazias ruas daquela cidade com aroma doce (literalmente, em razão do cheiro de baunilha exalado pela fábrica de bolachas lá pelas cinco da manhã), ouvindo algum tipo de gritaria com distorções nos fones de ouvido para ver se a cabeça despertava, tomando café em uma caneca plástica para vencer outro inimigo além do sono, o frio, era agosto, às vezes eu vestia duas calças, uma camiseta, uma blusa de lã, uma jaqueta, um cachecol e uma touca para encarar a caminhada e o vento cortante. 

Retomo a figura de linguagem do quarto de 2009, a dor do parto, para argumentar que às vezes não faz o menor sentido "Levantar", sobretudo nesses tempos em que reinam nos meus dias os "Des": desemprego, desocupação, desilusão, desesperança, desespero, desistência. Levantar pra quê? Nascer para o dia, para o mundo, pra quê? Sair do útero quentinho ou fresquinho da cama, pra quê?
A escola, instituição que fracassa em sua real teórica razão de existência, e que se tornou mero espaço para que crianças cresçam até terem tamanho suficientemente aceitável para se tornarem piões no jogo do capital, tem como um de seus caminhos para fazer com que o corpo se adeque ao "Horário comercial", "Horário do capital" etc, o próprio horário da escola, das aulas.

A essa altura do assunto é impossível não me recordar, novamente, de 2013, aquele ano em que atuei (em termos de profissão e de teatro) como professor. Tinha um bom aluno na sala, que, apesar de interessado, respeitoso e criativo, frequentemente sua cabeça tombava em sono. Certo dia ele me explicou: morava em um dos últimos sítios do município, acordava "Dez para as cinco", chegava na escola moído de sono após passar duas horas em um ônibus que, em razão de ir chacoalhando por entre estradas de terra, não lhe permitia dormir. Acho que nunca me esquecerei de sua intonação de voz ao dizer: "Tem nem um café...". Hoje em dia ele tem dezessete ou dezoito anos, não tinha planos de cursar Ensino Médio, e se o fizesse, seria como coadjuvante com os trabalhos braçais na "Fazenda", onde morava com a sua e outras famílias; onde seus pais e seu irmão mais velho trabalhavam na colheita do café, na queima do café, no armazenamento do café, e quando não era época de nada disso, trabalhavam cuidando de outras plantações - que, infelizmente, nunca pude conhecer, apesar dele ter me convidado.

"Acordou ou levantou?". Minha mãe tem uma voz forte quando quer, quando sente que precisa, e alardear que eu devia levantar pois ir para a escola era minha obrigação, era uma necessidade de uso dessa voz forte. Não fazia sentido acordar para ir à escola como estudante, ambiente hostil, pessoas desprezíveis, conteúdos incompreensíveis, situações constrangedoras; fazia sentido levantar para ir à escola como professor, jogar com meus conhecimentos, dialogar com alunos e alunas de contextos tão distintos aos meus, perambular por aquele pequeno município (em termo geográficos, que fique claro), receber dinheiro no começo do mês seguinte; não existe razão plausível, imaginável, cogitável ou palatável que faça brotar qualquer sentido no que diz respeito a acordar ou levantar nesse período sombrio, época de "Des", tomar café, mexer com meu cachorro medroso, escrever textos no blogue, pintar camiseta (comprem camisetas!), ler alguma coisa, sentir o tempo da vida empacado, "Setor 3", "InfoJobs", "Catho", "Banco de talentos".




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