terça-feira, 14 de março de 2017

A história da foto para além da foto.


Passei o ano de 2007 enfornado em um cursinho burguês na região central de São Paulo, havia conseguido uma bolsa e algum desconto, valia a pena. As aulas eram à noite e o resto do dia eu estudava em casa, na Biblioteca do Centro Cultural São Paulo ou nas salas de estudo no subsolo do próprio cursinho. Também passei o ano de 2007 preservando o crescimento de meus cabelos cranianos e faciais. De modo que, juntando ambas informações, cheguei em Fevereiro de 2008 com uma vasta cabeleira ao redor de todo o rosto e com uma aprovação para cursar Ciências Sociais na Unesp de Marília. Um de meus temores era que, como parte de algum tipo de ritual de iniciação universitária (que nunca me fez o menor sentido) cortassem meu cabelo no ato da matrícula. Assim, fui para Marília [suspiro] pela primeira vez em minha vida preparado para uma negociação: se viessem cortar o cabelo, eu ofereceria a barba às tesouras. Minha imaginação não estava errada, e, logo que viram um cabeludo na fila para a matrícula, "Veteranos" (outra coisa que nunca me fez o menor sentido) se aproximaram de mim com tesouras em mãos. Não foram agressivos nem babacas, é verdade, e quando ofereci a barba adoraram a ideia. Lembro duma jovem garota, que, salvo engano, não chegou a concluir o curso, deleitando-se em deixar-me com apenas metade do bigode. Assim, meu cabelo foi salvo. 
Primeiros dias de Março de 2008. O calendário pseudo acadêmico da Unesp Marília naquela época (não sei hoje como anda a coisa) tinha uma festa chamada "Miss Bixo". De temática inquestionavelmente preconceituosa, propunha que "Bixos" (ou seja, alunos homens ingressantes) fossem "Vestidos" como "Miss". Turmas de "Veteranos" (acho esses termos tão esdrúxulos que não consigo escrevê-los sem aspas) adotavam um "Bixo" e ficavam responsáveis por "Arrumá-lo" para a festa. O ponto alto dela era uma espécie de desfile, em que os "Bixos", devidamente "Travestidos" (uso um termo pesado, pois a graça da festa se assentava neste preconceito, há algum tempo classificado como "Transfobia") realizavam uma performance, jurados votavam nos melhores e aquele que fosse o vencedor ganhava alguma coisa, a ser partilhada com os "Veteranos" que o produziram - o prêmio devia ser bebida. Fazia parte do ritual, supondo-se que o "Bixo" era um iniciante na vida, embriagá-lo forçosamente, para que chegasse à festa caindo pelas tabelas.
Um grupo de garotas do então "Segundo ano" se alistou para me preparar para a festa. O camarim seria no apartamento 212 (se a memória não engana) do Edifício Fernanda, mesmo prédio onde eu morava temporariamente, e o fiz por quase um ano. 

                                     Escova. 

          Chapinha.

  Secador. 

                          Cremes. 

                                                         Blush. 

Delineador. 

                                 Rímel. 

            Batom. 

                        Cachaça.

Dado instante da coisa uma das garotas apareceu no quarto em que me maquiavam com um copo em uma mão e uma câmera em outra, me deu o copo e falou: "Bixão, bebe isso aí". Dei um gole, e era cachaça pura. Cinquenta e um. Engasguei, tossi, quase vomitei. Não tinha necessidade daquilo. Enquanto ela se deleitava rindo da minha situação e apontando a câmera para mim, falei para elas algo como:

"Porra caralho tomar no cu cacete não precisa disso. Cês podem ficar tranquilas que eu vou beber pra caralho, vou cair no chão, vou vomitar, vou dar trabalho, vou passar vergonha, não precisa me entupir com essa bosta pura não". 

Enquanto eu falava, uma foto foi feita.


Me levantei e fui até a cozinha, peguei alguma coisa (não lembro se suco ou refrigerante) e misturei com a pinga. Naquela noite me recordo que voltei para o apartamento caindo pela rua, que me encostei num poste e vomitei até os intestinos, que não acordei a tempo da aula no dia seguinte e que por uns três ou quatro dias havia maquiagem em mim. Fiquei entre os melhores colocados da competição de "Miss Bixo", alguns jurados, embora tivessem gostado da maquiagem e da performance (além da maquiagem, eu vestia uma fantasia de Sininho), alegaram que "Bixo não tem cabelo", e fui passado para trás. 

Curiosidade para além da foto.

No ano seguinte me convidaram para apresentar a festa. Comecei a beber cedo naquela data, e, enquanto me deslocava para o local do festejo, precisei parar para vomitar em um canteiro central entre pistas de uma rodovia. Vomitei muito, não tive condições de ir para a festa e voltei para outra casaAlguns anos depois, já em 2012, passei mal em outra festa universitária, foi daquelas cenas de tomar banho gelado e chegar por osmose em alguma cama e cair duro no colchão. Ganhei o apelido de "Bixão do Quinto Ano". 

"Cês podem ficar tranquilas que eu vou beber pra caralho, vou cair no chão, vou vomitar, vou dar trabalho", essas palavras, nos primeiros dias de graduação, foram proféticas.

Nenhum comentário: