quinta-feira, 30 de março de 2017

A grande verdade sobre a base da pirâmide.


Às vezes, me parece, no turbilhão desesperador que são os acontecimentos cotidianos em meio à precariedade urbana do capitalismo tardio, em um país abertamente reentregue à situação de "Eterno subdesenvolvido", esquecemos da grande verdade sobre nossas situações e condições básicas, primeiras de vida.
A grande verdade é que o capitalismo não são os comerciais de papel higiênico, cheios de personagens caricatos e piadinhas subliminares sobre o ato, vivido como tabu, de "Fazer cocô". Antes disso, o capitalismo é sobre o rapaz alcoolizadamente tonto que entrou no metrô. Suas calças não lhe cabem, ele não usa cinto, nem nada nos pés, seu corpo exala um aroma fétido e ele se tornou uma ilha no vagão: ninguém quer ficar perto dele. Fala sozinho, ou consigo mesmo, não consegui diferenciar, e dentre as coisas que disse, essa, nitidamente não foi nem para si nem para ninguém que em seu corpo habita, mas sim para nós, que dele mantivemos distância: "Fede né, bosta fede, não tinha papel. Nunca tem papel na Barra Funda". Experiência própria: nunca tem papel higiênico nos banheiros da Barra Funda.
Me parece importante, já que mencionei o metrô, um meio de transporte,  recordar que o capitalismo é menos sobre as situações descontraídas vividas numa concessionária de carros entre um vendedor solícito, esperto, de língua afiada e um comprador famoso (um ator da moda, uma cantora em alta), de quem o primeiro tira uma castela no fim do comercial, antes da oferta ser anunciada. A coisa toda na base da pirâmide é muito mais sobre as caras amassadas em tristeza, sono e exploração às cinco e cinquenta e cinco da manhã no 8528, linha de ônibus que corta a zona noroeste de São Paulo, com destino final no centro da cidade, despejando toneladas de mão de obra barata ao longo de seu percurso. O capitalismo é sobre a massa amorfa parada no lado direito da escada rolante.
O capitalismo é sobre uma pessoa qualquer que cruzou o meu caminho numa manhã de sexta feira no segundo semestre de dois mil e quinze. Eu ia de bicicleta para uma reunião na universidade que frequentava naquela época, quando notei um rebuliço entre carros, motos e um homem e uma mulher na calçada. Esses últimos pediam aos motoristas que parassem, e andavam entre os veículos, olhando para o chão. Quando entendi o que acontecia, larguei a bicicleta na calçada e me juntei ao homem e à mulher. A pessoa qualquer que cruzou o meu caminho nessa situação era a que dirigia um carro, e não quis esperar que eu ou o homem ou a mulher retirássemos de debaixo de seu veículo um filhote de gato. O motorista acelerou, quase atropelou minha mão, prestes a pegar o felino, que não teve a mesma sorte. Ele exalou seus últimos suspiros em minhas mãos. Passei o dia na universidade com as roupas sujas de sangue, e a terrível imagem na mente. Capitalismo é mais sobre essa situação, aquele/a motorista e o gato morto, do que sobre Whiskas Sachê.
Capitalismo, aqui pros lados das nossas vielas, é menos sobre o gigantesco império dos fabricantes e vendedores de armas e mais sobre o ímpeto de "Resolver" problemas por meio do assassinato; é sobre precisar dum revólver velho para intimidar alguém a lhe entregar uma bolsa, uma carteira, um celular. É muito mais sobre as pessoas que roubam e revendem celulares, que os roubam e trocam por droga, sobre as pessoas que fabricam celulares, do que sobre a pequena parcela que compra os melhores aparelhos, seja em uma ou em doze parcelas.
Capitalismo, reforço, sobretudo aqui para os nossos lados - não se esqueçam, "Ainda somos colônia, se alguém aqui não percebeu" (Surra, "Não tem boi"), e a tendência para os próximos anos é que voltemos a ser, cada vez mais, mera periferia fornecedora de matérias primas no mundo - é sobre violência, exploração, ausência de recursos, desigualdades, deslealdades, queima de arquivos, abusos sexuais, alcoolismo, os mais diversos riscos de vida. Estar dentro dele, para cima da base da pirâmide, tem seus inegáveis sabores, seus incontáveis problemas, porém, suas impossíveis escaladas - recordo-me da tirinha jovial liberal que dizia: "Socialismo e igualdade é legal, mas só o capitalismo fabrica essas televisões de 100 polegadas", e a resposta racional esquerdista: "Quem propaga essa tirinha tem dinheiro para adquirir essa TV?". 
Gosto de olhar a arquitetura das casas nas periferias, elas são representações de criatividade, de lucidez para lidar com a escassez, mas são também, antes de tudo, símbolos fidedignos do que é estar na base da pirâmide do capitalismo: "Tenha um lugar para dormir, à salvo do frio e da chuva, não nos importa onde ou como ele seja, e amanhã esteja aqui às sete em ponto, se não você vai mais pra baixo ainda na base da pirâmide". Capitalismo é muito mais sobre as milhões de casas populares que, apinhadas entre si, ao longo de muitos quilômetros na zona leste, subvertem as leis da física, do que sobre a dita "Casa do povo", milionária, arrumadinha, brilhando reinante no alto dum pequeno morro  na mesma região da cidade.
Estar na mais larga base da pirâmide social proposta e erguida pelo sistema capitalista é constrangedor, desesperador. É babar dormindo apoiado na parede do trem e acordar envergonhado, olhando ao redor para se certificar de que "Ninguém viu". É embaraçoso, mas já se tornou cultural, e isso é estarrecedor: a miséria, e os artifícios sociais elaborados para nela sobreviver, tudo isso tornou-se uma enraizada cultura.  Das vielas urbanas, irônica, mas necessariamente mal urbanizadas, às plantações de café, é desesperador caminhar pelos corredores mais básicos (pois na base) e mais esquecidos deste, neste, por este sistema falido. No entanto, todos esses adjetivos são essenciais para a manutenção do sistema e da pirâmide.
A propósito, parece que fui chamado para dar algumas aulas de Filosofia em um bom colégio para lá dos limites territoriais da cidade de São Paulo. De certa forma, ao entregar os documentos que me oficializam como responsável pelo cargo, em uma função remunerada, ainda que com pouco dinheiro, deixo de pertencer às seguintes categorias capitais e/ou grupos sociais: "Desocupados", "Sem renda" e "13 milhões de desempregados". 
Segue o jogo.  


 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Não existe psicologia plausível aqui.


Lembro que tinha uma época em que o meu café da manhã eram os barbitúricos. "Tome um comprimido logo ao acordar, uns dez, quinze minutos antes de comer algo". Por pouco mais de doze meses (talvez doze meses e duas semanas) isso se tornou algo religioso. "Se você se sentir muito ansioso, afoito, nervoso com algo, tome um ou dois desse e procure fazer algo relaxante em seguida". Ainda bem que eu nunca mais vi esse cara.
Teve uma época também, já quase remota, são lembranças em preto e branco com borrões e queimados no filme, que às terça e/ou quintas - na verdade acho que teve um tempo que foi às terças, e outro tempo às quintas - que eu ia em um casarão lá pros lados de Santana. Foi na época em que li "O menino no espelho" pela primeira vez, tanto que as cenas que formulo do livro se passam naquela casa. Tinha um vasto jardim à frente, com uma escada de cimento, uma sala escura "De espera" e uma montoeira de outras salas, cada qual com seu fim e um preço de aluguel específico. Os tipos de profissionais que alugavam os cômodos eram, em geral, "Da saúde". Era um quarto grande o que eu frequentava, o "Da frente" na casa e "De frente" para a rua. Tinha uma mesa, um sofá (depois descobri que o sofá chamava "Divã") e um monte de jogos. Não fazia sentido para mim aquilo ser algo sério, digo, era um lugar relativamente longe de chegar, e eu ia lá passar uma hora fazendo jogos com uma mulher que ria e anotava o que eu dizia. Não fazia o menor sentido, e acho que não fez a menor diferença, visto que eu não sabia quais processos estavam em jogo ou deveriam estar.
Teve um tempo que essa canção tinha um efeito psicológico inegável. Andei muito para frente ao escutá-la repetidas vezes e pensar, sem risadinhas, nos meus próprios atos.
Foi por livre e espontânea pressão alheia que cheguei àquela casa. Um pouco me arrastando, um pouco caminhando, não tive problemas para localizar o endereço no mapa da cidade: "Dá pra chegar com um buzão só, e ir e voltar na mesma passagem". Era um casarão também, talvez "Uma casa", e não "Um casarão". O quarto era pequeno (ou talvez eu que tenha crescido) e tinha menos atrativos do que aquele que frequentei quinze anos antes: uma mesa, um divã, três poltronas, uma mesinha (sempre com caixa de lenços e cinzeiro) e uma janela que dava para a rua. O maior atrativo daquele cômodo era o homem que sentava na poltrona próxima à mesa. Era paciente, embora não fosse o paciente, cagava para barbitúricos e me fez boas perguntas. Chorei duas vezes na frente dele, a primeira foi ao contar essa história, e a segunda ao contar algo próximo dessa aqui. Usei os lenços por duas vezes, e o cinzeiro nunca usei. 

Não existe psicologia plausível aqui.

Dessa vez não existe inquietação infantil que necessite de algum tipo de acompanhamento. Também não existe pressão externa para um problema inexistente. Tampouco existem tensões sentimentais incompreendidas. Nada disso. É tudo muito claro. 
-Pega a metralhadora.
-Que metralhadora?
-A metaforalhadora 

É tão claro quanto piscina de casa de rico com a água bem tratada e os azulejos bem escovados.
É tão claro quanto arcada dentária em comercial de pasta de dentes.
É tão claro quanto plástico filme de embalar frutas semi comidas.
É tão claro quanto a pureza branca do produto final da folha passada na gasolina transformada em pasta e em cristais.
É tão claro quanto a operadora de celulares.

-Tá bom já?
-Sim.
-Continua então. 

Longe de assinar um atestado de anuência ao discurso escroto burro anti humanitário que diz que qualquer problema psicológico se resolve com uma inchada, olho ao redor e não tenho dúvidas: todas as fezes que entopem os intestinos cerebrais (inclusive a própria mania, cada vez mais crescente, de falar de fezes) são facilmente defecáveis por meio de seis horas diárias de ocupação, alternadas em seis dias de operação por um de descanso, ou seja, 24 a 25 dias no mês, com remuneração ao término do período. É só isso. Não tem psicologia, não tem problemas, não tem semânticas, não tem arcabouços, não tem reflexões, não tem profundidade, não tem braçadas. É simples assim. E por que é simples? Pois vivemos num sistema em que isso é o central para qualquer porra que você quiser fazer em ou da sua vida.
"Quero ter uma banda". Tenha um emprego. "Quero comprar tintas". Tenha um emprego. "Quero voltar a ter autonomia e deixar de morar com meu pai". Tenha um emprego. Por que é com um emprego que você pode ter capital para pagar essas coisas. Não é maravilhoso? Não. Mas como não tem jeito:

ME
ARRUMEM
UM
EMPREGO
CARALHO
!!!!!!!!!

 

Frases soltas, Cocômidos, Segue o jogo.


Você passa dez anos da vida investindo em algo, acredita piamente naquilo, naquelas histórias que te contam, nos planos que te apresentam. Você passa dez anos acreditando num papo, e talvez dez anos tenham sido necessários para entender que ele é tão furado quanto uma peneira. Meu pai tem uma música que chama "As coisas já fazem dez anos", e deve fazer uns três que passei a entendê-la. Um amigo me perguntou se eu topava qualquer tipo de trampo, e respondi que sim. Topo mesmo. Faz algumas semanas já, talvez já dê para dizer "Faz alguns meses", que tenho pensado que, não vai ter jeito, terei de voltar a algum "Zero", algum "Ponto inicial" e começar tudo de novo. Topo mesmo. Daí fui ver um trampo bem de base mesmo, próximo da mais larga base da pirâmide do capitalismo contemporâneo, sem sombra de dúvidas, para começar a recomeçar a coisa toda e não deu certo. O tombo, apesar de baixo, foi forte e doeu. Na primeira etapa da seleção o rapaz ficou nitidamente encucado com o fato de haver no curriculum apresentado uma formação superior e uma pós-graduação, "Você tem curso superior?", "Sim", "Concluído?", "Sim", "E esse aqui...", bateu a caneta repetidas vezes em cima da palavra "Mestrado". A coisa, a meu ver, começou a dar errado ali. Alguém me falou, "Você é qualificado demais para esse tipo de trampo". Sempre vejo e penso nas colegaiada que não caíram nessa arapuca de papo de "Progresso" que eu caí, não tenho dúvidas de que eles comem cocôs em seu cotidiano, e penso que, se eu não tivesse mudado a vida em nome desse "Progresso", obviamente que comeria cocôs tocando a vida tal qual tocava. Mas a questão é sempre a mesma (inútil de ser feita, mas a mesma): "Será que eu lidaria melhor com aqueles cocôs do que com os que tenho comido desde então?". Um tempo atrás uma pessoa próxima foi demitida de seu trabalho e sentiu-se ofendida com o modo como a empresa a demitiu: foi marcada uma reunião entre uma chefona e três "Operárias" (uma delas, a pessoa que eu conheço), a reunião era para a demissão. A justificativa da chefona para uma reunião demitiva "À quatro", era o de mostrar que não havia dúvidas sobre a capacidade de cada uma delas, mas sim de que era uma necessidade da empresa se livrar de profissionais tão boas mas que a empresa está cortando gastos por causa da crise... Comecei a frequentar sites de buscas de emprego, acionar amizades, colegas e conhecidos que poderiam ajudar, sites de colégios e universidades, e a encaminhar e-mails para estes últimos, lá por Junho ou Julho do ano passado. Os únicos retornos são para dizer "Agradecemos o interesse, mas você não preenche o perfil que procuramos" e teve um também que questionou a "Falta de experiência". Daí contei essa história da demissão tripla duma vez para uma pessoa acostumada à base da pirâmide, e ela não achou tão absurdo quanto a pessoa que me contou: "Em geral, em fábricas e lugares em que contratam 'piões', você chega um dia lá e tem uma lista de dispensa afixada na parede, seu nome tá lá e ninguém te dá satisfação alguma, ainda bem que chamaram as minas para conversar!", ela me contou. Às vezes penso que a gente da classe média é mimado demais para lidar com algumas coisas, às vezes penso que quem já passou pelos estágios de provação da coisa toda se esqueceu dos cocôs que teve de comer pelo caminho (ou talvez não tenha cocômido). Enquanto as pessoas dispensadas no processo seletivo para o trampo de base iam embora, com expressões de normalidade, de "Segue o jogo", confesso que me chateei com a coisa. Eu estava abatido, na verdade, meio sem rumo, quando uma moça (também dispensada) me fez uma pergunta qualquer com um riso no rosto. Às vezes, me parece, nós da classe média,que temos alguma formação ou coisa que o valha, achamos que apanhamos de mais, choramos, esperneamos, mas aí noto que quem realmente apanha de mais na vida, quando leva uma nova bofetada, não chora nem esperneia, apenas segue em frente. Tem outra frase solta que eu queria alocar aqui: pior do que pobre de direita, é pobre que acha que vai triunfar suavemente na vida sem comer toneladas de cocô no caminho ao optar investir em formações e mercados de/para burguês. Para trabalhar em "Minha área de formação" não tenho "O perfil" ou a "Experiência" esperada, para sair dela e começar do zero tenho "Qualificação demais". Segue o jogo. 

quarta-feira, 15 de março de 2017

Entre Porcos & Porquices, Você.


Acordei ranzinza com um gosto ruim na boca. Cyborgue. Escravo tecnológico. Dependente virtual. Mal acordei (ainda estava longe de levantar) já peguei o celular para ver atualizações. Fiquei meses sem ter meu "e-mail de trabalho" (isso é, o e-mail que está em meu Curriculum Vitae) instalado nele, o fiz semana passada e, nessa fase dos "Des", tem sido frequente que as batidas do meu coração se acelerem quando o ícone que indica "mensagens novas" surge nele. Em geral quando acordo ele está lá, e corro para ver se é uma proposta irrecusável para um trabalho imediato. Nunca é. No caso de ontem, foi apenas mais um "Agradecemos o interesse, mas você não tem o perfil...".
Levantei e comi um pão e tomei café preto e fui dedicar-me às canetinhas e lápis coloridos para criar uma estampa de camiseta alusiva ao uso de drogas, algo como "O café salva vidas". O fiz com algum sucesso e depois dediquei-me ao almoço, ainda que não tivesse lá muita fome, precisava comer pois precisava sair pois o giro do relógio é implacável e a manifestação contra a implosão da previdência estava marcada para as 16 horas e gosto sempre de chegar cedo nesses eventos e acompanhar o espaço ser tomado por pessoas e grandes grupos e suas bandeiras.
Fui de bicicleta para a casa da minha avó e da minha tia, fiquei lá por volta de uma hora a uma hora e meia, não me recordo exatamente. Sei que saí atrasado pois minha tia estava me contando algo que aconteceu no trabalho dela e achei mais proveitoso me atrasar para ouvi-la do que sair sem ouvir ou tendo ouvido pela metade. Minha vó fazia as unhas com umas senhora que é mãe ou sogra de alguém que mora no prédio em que elas moram, e não participou muito das nossas conversas. Exceção que deve ser feita a quando conversamos sobre Mogi das Cruzes, é muito saboroso ouvir minha vó contando memórias.
Em seguida peguei a bicicleta novamente e segui em direção à Avenida Paulista. Estava em dúvida se permaneceria com a bicicleta durante o ato ou se a deixaria no bicicletário da Paraíso, caso ele estivesse aberto. Entre a estação Santa Cruz e a Vila Mariana começou a chover, mas quando cheguei na Ana Rosa já havia parado. Vi as estações fechadas e achei isso muito bacana, muito legal mesmo. É uma forma de resistência, é um símbolo de luta na prática, e nós precisaremos disso com muito mais afinco nos tempos próximos. É gostoso pedalar na chuva, o problema é que você se molha de mais.
Optei por deixar a bicicleta no bicicletário, uma vez que ele estava aberto. Conversei bastante com o rapaz responsável por ele naquele turno, gente boa, porém, tinha um problema em sua cabeça: o cérebro dele foi consumido amplamente pelo discurso midiático, e, para ele, de nada adiantaria aquela manifestação se não houvesse "Apoio das mídias". Ele é palmeirense, mostrei fotos das camisetas que tenho pintado e ele gostou, mas fui burro o suficiente para não lhe entregar nada, que fosse um pedaço de papel com o link do site onde estou as vendendo.


Saí do bicicletário e caminhei em direção à Avenida Paulista, iria até a Consolação, na ponta oposta da via, para me encontrar com o Jã. No entanto, após caminhar alguns metros vi, perto de mim, o ex-goleiro palmeirense Veloso, comendo um chocolate ou chupando um picolé, não me ative ao detalhe, mas tinha perto de sua boca algum tipo de doce industrializado embalado em plástico. Olhei-o nos olhos fixamente e ele fixou os deles no meu, me aproximei com a mão esticada e ele esticou a dele para mim. Nos cumprimentamos, mas eu não soltei a minha mão da dele e falei: "Queria te agradecer por aquela bola do Marcelinho, na final do Paulistão de 95". Ele parou, olhou para o chão, pensou por alguns segundos: "Mas eu não cheguei naquela bola". Encerrei o assunto: "Eu sei, é que aqui é Corintia". Ele me olhou com alguma raiva no olhar, mas nos viramos e cada um seguiu seu caminho. Ele não chegou naquela bola, e jamais chegaria, a imagem não mente, confiram comigo no replay. Foi nessa data que eu me tornei oficialmente Corinthiano, foi o meu "Primeiro título" como tal, se ele tivesse chegado naquela bola, talvez toda a minha vida fosse diferente e eu não estivesse, na tarde de ontem, indo para uma manifestação "De esquerda". Não foi mera provocação, ou coisa que o valha.
Ainda rindo dele, parei em um mini mercado para comprar uma cerveja. A Brahma tava 2,39, e a Proibida 2,29, peguei a Brahma, mas ao calcular minhas moedas tinha apenas 2,29, o rapaz do caixa, com a anuência de algum tipo de "Fiscal" ou "Gerente" realizou a venda assim mesmo, alegando que as moedas estão em falta.
Caminhei todos os três quilômetros da Avenida Paulista, o ato nascia, já estava bem grande, aliás, tanto que foi necessário contornar a parte traseira do Masp para conseguir atravessar aquele trecho da avenida. Foi um ato muito bonito. Encontrei-me com o Duda, que toca nessa banda maravilhosa, em seguida com o Jã, que faz essas fotos maravilhosas, e com eles permaneci por todo o fim de tarde e começo de noite. Encontrei-me também, e isso é curioso, com antigos colegas de Unesp e de Usp, é muito interessante isso, quando você faz um desses cursos de humanas, como eu, que fiz Ciências Sociais, os eventos de "Reencontro de turma", no fim das contas, são as assembleias e atos políticos. 
Após a fala do homem mais bonito do Brasil, esse, ao centro da imagem segurando um microfone 


Jã, Duda e eu nos separamos, eles seguiram rumo a estação Paulista (que fica na Consolação, e não a estação Consolação que fica na Paulista) e eu segui sentido Paraíso, para pegar minha bicicleta. Parei numa lanchonete na altura da Brigadeiro e comprei quatro coxinhas, quer dizer, comprei duas e outras duas vem numa espécie de promoção que sei é uma farsa. A avenida vazia de carros, mas cheia de pessoas, caminhando na mesma direção, com panos vermelhos em mastros ou por cima dos ombros ou cobrindo o corpo, bateu uma emoção, talvez uma alegria, por estar ali, num ambiente seguro, talvez uma tristeza, por ter de estar naquelas situação, a tarde toda, enchendo o saco por algo tão básico.
Quando cheguei ao bicicletário o mesmo atendente que me recepcionara quatro horas antes ainda trabalhava, com menos simpatia e semblante mais cansado. Desta vez não conversamos.
Estava em dúvida sobre qual caminho faria para vir para casa, se iria pelo centro, se cortaria a Paulista e seguiria pela Avenida Pacaembu ou pela Avenida Sumaré. Tentei criar algum caminho que fugisse do estádio do parmera, sabia que haveria jogo "De libertadores" lá, o que implicaria numa grande concentração de parmerenses por ali e em trânsito. Ao chegar na Augusta, parei por alguns instantes para acompanhar uma persistente charanga esquerdista, que ainda cantava sambas e marchinhas com palavras de ordem. Um grupo de cansados policiais militares assistia a farra, e não seria exagero dizer que os olhares deles para o grupo denunciava uma vontade desgraçada de dispersarem aquela rapaziada com qualquer armamento não letal para que pudessem voltar para casa, ou para o batalhão, não sei.
Encontrei-me com mais um ex-colega de tempos universitários/acadêmicos, que eu não via há muito tempo, tanto que me perguntou se eu já havia defendido a dissertação. Como sempre digo para essa pergunta: "Defendi, e agora habito no desemprego". Talvez ele tenha tecido o melhor comentário a esse respeito que já ouvi: "Você deixou de ser o futuro da nação para se tornar parte do problema social".
Segui pedalando, e, ainda na dúvida sobre qual caminho realizar, ao chegar na Consolação, me recordei da Consolação, e que aquele seria um bom caminho, e a desci dividindo o espaço da ciclofaixa com vendedores ambulantes que desciam com seus carrinhos e caixas térmicas (vazias) rumo ao centro. Um casal de vendedor & vendedora conversavam empolgados sobre as boas vendas daquela tarde/noite. Não ouvi a conversa toda, mas deu para perceber que faziam alguns cálculos sobre uma alta margem de lucro.
Segui pela ciclovia debaixo do Minhocão, e em seguida percorri a Avenida Matarazzo por entre eufóricos palmeirenses, apesar de silenciosos em termos de cantorias, eram muitos e conversavam muito alto. Depois cruzei a Lapa pensando se iria parar em algum mercado para comprar alguma cerveja, e após ampla negociação comigo mesmo, resolvi que pararia. Apertei o passo Apertei os pedais para chegar antes dele fechar, e deu tempo. Comprei três latas de cerveja que bebo enquanto escrevo, uma de cada vez, que fique claro. 
Foi um dia bem fotogênico (a conclusão do texto vem após as imagens).












No entanto, apesar de porcos alviverdes, porquices políticas, porcos fardados e minhas próprias porquices mentais, passei o dia todo pensando que hoje você completa vinte e sete anos, que você é maravilhosa, que é um prazer poder partilhar da vida com você, que não tenho dinheiro nem para te comprar um bolo, um presente ou irmos em um rolê bacana, e que não vejo a hora de te dar um beijo. 

Feliz Parabéns Deusa.



terça-feira, 14 de março de 2017

A história da foto para além da foto.


Passei o ano de 2007 enfornado em um cursinho burguês na região central de São Paulo, havia conseguido uma bolsa e algum desconto, valia a pena. As aulas eram à noite e o resto do dia eu estudava em casa, na Biblioteca do Centro Cultural São Paulo ou nas salas de estudo no subsolo do próprio cursinho. Também passei o ano de 2007 preservando o crescimento de meus cabelos cranianos e faciais. De modo que, juntando ambas informações, cheguei em Fevereiro de 2008 com uma vasta cabeleira ao redor de todo o rosto e com uma aprovação para cursar Ciências Sociais na Unesp de Marília. Um de meus temores era que, como parte de algum tipo de ritual de iniciação universitária (que nunca me fez o menor sentido) cortassem meu cabelo no ato da matrícula. Assim, fui para Marília [suspiro] pela primeira vez em minha vida preparado para uma negociação: se viessem cortar o cabelo, eu ofereceria a barba às tesouras. Minha imaginação não estava errada, e, logo que viram um cabeludo na fila para a matrícula, "Veteranos" (outra coisa que nunca me fez o menor sentido) se aproximaram de mim com tesouras em mãos. Não foram agressivos nem babacas, é verdade, e quando ofereci a barba adoraram a ideia. Lembro duma jovem garota, que, salvo engano, não chegou a concluir o curso, deleitando-se em deixar-me com apenas metade do bigode. Assim, meu cabelo foi salvo. 
Primeiros dias de Março de 2008. O calendário pseudo acadêmico da Unesp Marília naquela época (não sei hoje como anda a coisa) tinha uma festa chamada "Miss Bixo". De temática inquestionavelmente preconceituosa, propunha que "Bixos" (ou seja, alunos homens ingressantes) fossem "Vestidos" como "Miss". Turmas de "Veteranos" (acho esses termos tão esdrúxulos que não consigo escrevê-los sem aspas) adotavam um "Bixo" e ficavam responsáveis por "Arrumá-lo" para a festa. O ponto alto dela era uma espécie de desfile, em que os "Bixos", devidamente "Travestidos" (uso um termo pesado, pois a graça da festa se assentava neste preconceito, há algum tempo classificado como "Transfobia") realizavam uma performance, jurados votavam nos melhores e aquele que fosse o vencedor ganhava alguma coisa, a ser partilhada com os "Veteranos" que o produziram - o prêmio devia ser bebida. Fazia parte do ritual, supondo-se que o "Bixo" era um iniciante na vida, embriagá-lo forçosamente, para que chegasse à festa caindo pelas tabelas.
Um grupo de garotas do então "Segundo ano" se alistou para me preparar para a festa. O camarim seria no apartamento 212 (se a memória não engana) do Edifício Fernanda, mesmo prédio onde eu morava temporariamente, e o fiz por quase um ano. 

                                     Escova. 

          Chapinha.

  Secador. 

                          Cremes. 

                                                         Blush. 

Delineador. 

                                 Rímel. 

            Batom. 

                        Cachaça.

Dado instante da coisa uma das garotas apareceu no quarto em que me maquiavam com um copo em uma mão e uma câmera em outra, me deu o copo e falou: "Bixão, bebe isso aí". Dei um gole, e era cachaça pura. Cinquenta e um. Engasguei, tossi, quase vomitei. Não tinha necessidade daquilo. Enquanto ela se deleitava rindo da minha situação e apontando a câmera para mim, falei para elas algo como:

"Porra caralho tomar no cu cacete não precisa disso. Cês podem ficar tranquilas que eu vou beber pra caralho, vou cair no chão, vou vomitar, vou dar trabalho, vou passar vergonha, não precisa me entupir com essa bosta pura não". 

Enquanto eu falava, uma foto foi feita.


Me levantei e fui até a cozinha, peguei alguma coisa (não lembro se suco ou refrigerante) e misturei com a pinga. Naquela noite me recordo que voltei para o apartamento caindo pela rua, que me encostei num poste e vomitei até os intestinos, que não acordei a tempo da aula no dia seguinte e que por uns três ou quatro dias havia maquiagem em mim. Fiquei entre os melhores colocados da competição de "Miss Bixo", alguns jurados, embora tivessem gostado da maquiagem e da performance (além da maquiagem, eu vestia uma fantasia de Sininho), alegaram que "Bixo não tem cabelo", e fui passado para trás. 

Curiosidade para além da foto.

No ano seguinte me convidaram para apresentar a festa. Comecei a beber cedo naquela data, e, enquanto me deslocava para o local do festejo, precisei parar para vomitar em um canteiro central entre pistas de uma rodovia. Vomitei muito, não tive condições de ir para a festa e voltei para outra casaAlguns anos depois, já em 2012, passei mal em outra festa universitária, foi daquelas cenas de tomar banho gelado e chegar por osmose em alguma cama e cair duro no colchão. Ganhei o apelido de "Bixão do Quinto Ano". 

"Cês podem ficar tranquilas que eu vou beber pra caralho, vou cair no chão, vou vomitar, vou dar trabalho", essas palavras, nos primeiros dias de graduação, foram proféticas.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Do refúgio ao inferno.


Refugiei-me num canto da cama, o mais quente e inacessado pelos sopros catalisados pelo ventilador, realmente não sei por que fiz isso, mas das ações que fui sujeito sem entender a razão, talvez seja a de menor importância. Refugiei-me em um caderno de desenho Trabalho de Conclusão de Curso abandonado numa estação de trens da CPTM cujas páginas em branco utilizo como caderno de desenho. Refugiei-me na criação de rabiscos de animais que na verdade compunham formas híbridas de diversos animais em um único corpo: "Esse aqui é uma mistura de cachorro, com barata, com humano; Esse aqui é uma cobra, com jacaré, com sapo". O desenho é um bom refúgio para essas situações. Se há momentos em que a realidade é insuportavelmente um pedido por suicídio, refugiar-me em desenhos do inexistente, do impossível, do irreal (ou surreal) é um modo de lidar com a coisa; aliás, não deixa de ser um modo de lidar com a coisa melhor do que o referido suicídio que a realidade e o momento pediam pedem. Refugiei-me pois não aguentava mais frases de baixo calão atravessando o meu cérebro.

sónãomematoparanãodaraocapitalogostinhoporterroubadominhavidaminhaexistência.
quedesperdícioentregarmosnossasmelhorespotencialidadesdemãobeijadaaosistema.

O calor não me deixou dormir. O silêncio, as palavras, as lembranças. Os animais inexistentes deram lugar no caderno a um cocô vestindo smoking com artefatos e poses de maestro de orquestra, tanta ausência de realidade quanto. Mudei a velocidade do ventilador, mudei o ventilador de local, mudei minhas roupas para uma ausência de panos, lavei meu rosto, joguei água na nuca. Uma a uma as coisas vão ruindo, as decepções de ontem se ramificam em novas decepções no hoje, novos rompimentos, as estruturas de outrora não são nada mais do que ruínas, rachaduras, alicerces abalados em razão dalgum tipo de enchente, incêndio ou fagulha pejorativa em galpão que serve como estoque para produtos químicos (morei a poucos metros de um troço desses, e sempre que passava por ali imaginava o bairro indo pelos ares). Desci para a cozinha, para a sala, tomei um copo d'água gelada, comi uma rodela de abacaxi, tomei outro copo d'água gelada. O calor não abrandava, a realidade não se dissolvia, os pensamentos não paravam, não havia refúgio plausível, acessível no repertório de animais ou fezes surrealistas em minha cabeça. Voltei para a cama: "Essa noite entendi as expressões que associam calor a inferno".




sábado, 11 de março de 2017

Dias de Granero.


A vida é movimento. Não tem jeito, é assim que vejo e tento viver a coisa. Quando o cotidiano se torna rotina, repetição, tabela, se torna difícil encontrar coisas com as quais se surpreender ou meramente, que façam com que me sinta em movimento. Sinto um gosto metálico na boca, como se houvesse chupado pregos enferrujados, ou coisa pior, vai saber.
Deve ter algum bordão escrito em algum lugar que afirma que "A vida muda todos os dias", de certa forma, nesse contexto de viver sempre tendo em vista o movimento, pode ser que isso ocorra. Todo dia tem alguma coisa no dia que nos faz pensar em algo novo, mexer as e nas ideias. Quando isso se dissolve a um mínimo fugaz, a pequenas vírgulas mentais, e não a parágrafos de novos pensamentos, sinto-me estagnado; talvez eu seja exigente de mais com a vida, nunca neguei.

Quando criança gostava muito do comercial da Granero Transportes que passava no SBT. Achava graça quando via algum caminhão da empresa na rua. 
SEMPRE FUI BOBO.

Partamos da lógica do bordão imaginado - espero não ter sido eu, aqui, o responsável por bordá-lo - e já ampliando-o, tem épocas ou dias em que a vida tem mais movimento, mais novidades, mais cheiro de plástico bolha. E é de um desses dias que eu preciso falar. Na verdade, três dias. Talvez um pouco mais, vejamos como os quadradinhos do calendário surgirão.

Sete de Setembro de Dois Mil e Doze.

Esse feriado cairia em uma sexta-feira, e, às vésperas dele, acumulava amplo atraso com relação às palavras ainda não escritas em meu TCC - aliás, o dia que eu tiver que fazer algo e este algo estiver "Em dia", é sinal de que minha vida se movimentou tanto que já me tornei outro ser. A priori passaria os dias do feriado em São Paulo, mas optei por organizar uma agenda de escrita em minha casa, em Marília 


estabeleci, na verdade, um verdadeiro "Plano de metas" (digno dos mais ávidos capitalistas assalariados sem capital), cheguei até a fazer uns "post-its" gigantes, em papel amarelo tamanho A3, com o que fazer, nos mínimos detalhes, a cada dia.
Ocorre que fui acionado pela Chefia do Cão Pererê, e desenrolou-se um verdadeiro deslocamento de frota dos caminhões da Granero rumo à casa em que morava e, sem exageros detectados na sentença a seguir, por toda a minha vida desde então. Os efeitos do acionamento realizado pela Chefia, creio, seguirão desencadeando acontecimentos e surpresas nos capítulos seguintes dessa palhaçada vida.

"Coiso, vai vir uma banda tocar aqui no domingo, dia Nove de Setembro, eles vão ter que passar duas noites aqui em Marília, rola de ficarem lá na tua casa?".

Não me recordo de ter dito "Não" quando esse tipo de pergunta me era feita. Em nome do movimento, reorganizei os post-its sem saber que, ao fazê-lo, reorganizava uma ampla cadeia de movimentos.
Os caras da banda dormiram em casa. Tomamos umas, trocamos ideias. Demos uma volta de leve pela região da cidade, comemos lanche, fizemos macarrão e uma tragicômica salada de alfaces (a qual, descobriu-se, tardiamente, tratar-se de chicória). O rolê em que tocaram, domingo ao cair da noite, para um público relativamente bom, foi saborosíssimo. É possível pensar na imagem dum laço sendo atado. 
Como os eixos dos caminhões que rodam sem parar pelas estradas desse país continental, a vida seguiu. As vidas seguiram, frequentemente se cruzando, ora mais, ora menos. Até o momento em que rascunhei esse texto, em um período de "Ora mais", na cidade dos caras, esperando um dos caras, com planos e metas para me mudar para lá, por que além dos caras que iam tocar em Marília conheci outros caras, e fantásticas moças, e ruas de boas calçadas, e uma geografia bem localizada.
É possível pensar como um "Dia de Granero", daqueles em que as movimentações da vida são tamanhas que mudanças se esboçam, se realizam. 
Enfim, a vida é movimento. Às vezes a gente faz algo para movimentar, e ela não anda. Às vezes a gente faz algo sem pensar, e isso gera um movimento no espaço sem gravidade e sem ter como parar. Fico imaginando um caminhão da Granero viajando no espaço rumo a marte até se chocar com algum tipo de superfície.



segunda-feira, 6 de março de 2017

Acordou ou levantou?


Dormir cedo e acordar cedo nunca me caiu ao gosto. Desde criança tentava escapar da "Hora de dormir", um pouco pelo gosto de burlar a regra, outro tanto para descobrir o que acontecia à noite (o que passava na TV que eu não podia ver?) e outro tanto por teimosia pura e simples. Na época da escola não tinha muito como fugir disso, acordava às seis da manhã, para sair as seis e meia de casa, inevitavelmente dormia cedo. Sentia raiva mesmo à quartas-feiras de futebol, em que não podia assistir ao jogo, acordava no dia seguinte e corria pegar o jornal ou ligar a TV para ver quanto tinha sido a partida. 
Em 2002 meus pais compraram um beliche para o quarto que eu dividia com minha irmã, e passei a dormir na cama de cima. De modo que o primeiro ato após acordar era descer por uma escadinha de madeira. Quer dizer, o segundo ato. Como detestava acordar, em razão de o fazer para ir à escola, "Cada amanhecer parecia um parto" - como dizia a frase escrita na parede dum quarto onde dormi algumas vezes em 2009 - e minha mãe encampava a tarefa de me fazer despertar. Recordo-me que não foram poucas as vezes que, do andar de baixo do sobrado, ela gritava: "Gabriel acordou?", e eu grunhia em resposta algum tipo de "Sim", ao que se seguia outra pergunta: "Acordou ou levantou?". Donde passei a compreender que minha primeira tarefa após acordar não era descer a escadinha do beliche (ou pular direto para o chão), mas sim levantar o corpo do colchão.

Hoje acordei, mas não levantei. Apesar de não ter razão prática para interromper o sono, sempre coloco o despertador para tocar, e hoje, não sei ao certo por que, despertei antes dele. Nove e meia da manhã, fiz um cálculo rápido, "Caramba, coisa rara dormir por seis horas e acordar assim, sentindo-me enérgico". Neguei-me a levantar, permaneci no colchão por cerca de duas horas entre cochilos, pensamentos (obviamente negativos) e espiadas na tela do celular.

Em 2013 recordo-me de dias em que eu precisava sair de casa antes do horário do primeiro ônibus, e caminhar por alguns quilômetros para embarcar em um - sentia-me um "Cedo madrugador", e até hoje, só para não perder a graça com o ditado, pois o ateísmo me impede de levá-lo à sério, agradeço a deus por ter me ajudado naquelas manhãs. O trabalho que me levava a isso era prazeroso, e a linearidade "Dormir cedo-Acordar cedo", não era tão dolorosa assim. No entanto, com muita frequência tinha invertida a lógica cotidiana do período "Pós-infantil" dos tempos do beliche: eu levantava, mas não acordava, era um zumbi caminhando pelas vazias ruas daquela cidade com aroma doce (literalmente, em razão do cheiro de baunilha exalado pela fábrica de bolachas lá pelas cinco da manhã), ouvindo algum tipo de gritaria com distorções nos fones de ouvido para ver se a cabeça despertava, tomando café em uma caneca plástica para vencer outro inimigo além do sono, o frio, era agosto, às vezes eu vestia duas calças, uma camiseta, uma blusa de lã, uma jaqueta, um cachecol e uma touca para encarar a caminhada e o vento cortante. 

Retomo a figura de linguagem do quarto de 2009, a dor do parto, para argumentar que às vezes não faz o menor sentido "Levantar", sobretudo nesses tempos em que reinam nos meus dias os "Des": desemprego, desocupação, desilusão, desesperança, desespero, desistência. Levantar pra quê? Nascer para o dia, para o mundo, pra quê? Sair do útero quentinho ou fresquinho da cama, pra quê?
A escola, instituição que fracassa em sua real teórica razão de existência, e que se tornou mero espaço para que crianças cresçam até terem tamanho suficientemente aceitável para se tornarem piões no jogo do capital, tem como um de seus caminhos para fazer com que o corpo se adeque ao "Horário comercial", "Horário do capital" etc, o próprio horário da escola, das aulas.

A essa altura do assunto é impossível não me recordar, novamente, de 2013, aquele ano em que atuei (em termos de profissão e de teatro) como professor. Tinha um bom aluno na sala, que, apesar de interessado, respeitoso e criativo, frequentemente sua cabeça tombava em sono. Certo dia ele me explicou: morava em um dos últimos sítios do município, acordava "Dez para as cinco", chegava na escola moído de sono após passar duas horas em um ônibus que, em razão de ir chacoalhando por entre estradas de terra, não lhe permitia dormir. Acho que nunca me esquecerei de sua intonação de voz ao dizer: "Tem nem um café...". Hoje em dia ele tem dezessete ou dezoito anos, não tinha planos de cursar Ensino Médio, e se o fizesse, seria como coadjuvante com os trabalhos braçais na "Fazenda", onde morava com a sua e outras famílias; onde seus pais e seu irmão mais velho trabalhavam na colheita do café, na queima do café, no armazenamento do café, e quando não era época de nada disso, trabalhavam cuidando de outras plantações - que, infelizmente, nunca pude conhecer, apesar dele ter me convidado.

"Acordou ou levantou?". Minha mãe tem uma voz forte quando quer, quando sente que precisa, e alardear que eu devia levantar pois ir para a escola era minha obrigação, era uma necessidade de uso dessa voz forte. Não fazia sentido acordar para ir à escola como estudante, ambiente hostil, pessoas desprezíveis, conteúdos incompreensíveis, situações constrangedoras; fazia sentido levantar para ir à escola como professor, jogar com meus conhecimentos, dialogar com alunos e alunas de contextos tão distintos aos meus, perambular por aquele pequeno município (em termo geográficos, que fique claro), receber dinheiro no começo do mês seguinte; não existe razão plausível, imaginável, cogitável ou palatável que faça brotar qualquer sentido no que diz respeito a acordar ou levantar nesse período sombrio, época de "Des", tomar café, mexer com meu cachorro medroso, escrever textos no blogue, pintar camiseta (comprem camisetas!), ler alguma coisa, sentir o tempo da vida empacado, "Setor 3", "InfoJobs", "Catho", "Banco de talentos".




sexta-feira, 3 de março de 2017

O deserto de hoje é a miragem de outrora.


Deu errado. Não importa como ou porque, deu errado. Se por um lado há uma baita dificuldade em entender que as situações mudam, por outro há uma facilidade tremenda para imaginar momentos positivos quando as possibilidades surgem - por mais que toda e qualquer pequena oportunidade que sequer chega a se tornar lampejo de que "Vai dar certo" apague antes de acender. Mesmo assim, sempre o mínimo lampejo me faz imaginar, viajar, desejar. O tombo é sempre um baque, e a boca vai ao chão, enchendo-se de areia. Bom, importa concretamente por fins de parágrafo introdutório, indicar que deu errado. Logo cedo acordei, passei a mão no telefone - precisei ligar para dez números de telefone diferentes, diga-se de passagem - para saber, por fim, que deu errado. Só mais um errado, parece que essa é a regra, me disseram. Segue o jogo. Bora buscar outros lampejos.

Não tinha vontade de fazer cocô, nem sentia a presença de nenhum "tampouco" pum que me ludibriasse a crer na necessidade de evacuação sólida. Estava com uma caneca de café em mãos, e, por alguma razão desconhecida (a considerar a ausência dos sintomas acima descrita) entrei no banheiro, tranquei a porta, baixei bermuda e cueca, e sentei-me no vaso. Movimentos impensados.
Nunca fui adepto daquela lógica do "Não crie expectativas para não ter de lidar com frustrações". Talvez, aliás, em razão da insossegável criatividade, seja também um ávido criador de expectativas. Quando surge algo lá longe no horizonte, que tem algum contorno de "Algo", já me animo. No deserto eu seria o cara que ao ter a miragem de um oásis gastaria as últimas forças correndo sorridente e feliz na direção da sombra dos coqueiros e da água inexistentes, e morreria esturricado na areia quente. 
Às vezes é meio chateante ver que o "Algo" não era nada; às vezes é frustrante, e tento não esmorecer. Mas, às vezes, aceito (ou me concedo) alguns minutos (ou horas) de chateação, lamentação. Como uma ponte, é o espaço de tempo em que tomo algum fôlego, que transformará a frustração "Atual" em "De outrora", e se transformará na próxima "Expectativa" - no limbo inerte em que caí, já não penso mais em "Perspectivas", talvez por isso seguidas frustrações: é um tanto quanto desanimador ter passado toda a vida frequentando instituições de ensino aparentemente tão boas, e estar a tantos meses a espera de algum chamado para qualquer trabalho, e o oásis simplesmente não existe. No entanto, penso, a miragem é anterior: não se trata da possibilidade de emprego que não se concretiza, mas sim de ter acreditado que "Instituições de ensino aparentemente tão boas" fariam alguma diferença. 

CURRICULUM VITAE

Esse emaranhado de mentiras floreios sintetizados sobre as coisas que fiz em minha vida profissional tem um nome tão pomposo que merece esse destaque, esse quadro, essas cores. Deve ser estranho para alguém de Piracicaba pegar um CURRICULUM VITAde alguém que mora em São Paulo, tem um celular com DDD do oeste do estado e que estudou em Marília. Deve soar um tanto quanto fora de órbita, ou em órbita de mais, ou sem gravidade alguma; "Melhor ligar para esse celular de DDD local mesmo".
Sentei na privada, como um trem de metrô passando à milhão pelos túneis, dezenas de pensamentos cortaram minha cabeça: "Aquele site", "Aquele amigo", "Essa deu errado", "Vai pra próxima", "Será que saiu aquele deferimento?", "Preciso ver meu emeiou", "Será que tento doutorado?", "Vou para tal cidade pegar um trampo qualquer pois se está frustrante chegar aos vinte e oito com alguma bagagem e não conseguir trabalho e, em razão disso, ter tantos 'projetos paralelos' estacionados, talvez não queira esperar chegar aos quarenta para ter muitas bagagens nas costas e seguir sem nenhum trabalho e com um adicional de frustrações diversas sobre o estacionamento de projetos sinceros e perceber que toda a vida passou".
Às vezes sentar no vaso sem ter fezes por sair faz florescer boas ideias - ou mesmo miragens de um futuro melhor arranjado ou mesmo entender que aquele coqueiro e aquele lago que visualizei anos atrás eram a real miragem, e agora tenho que encarar esse árido deserto por mais alguns quilômetros de vida.