segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O meu retrato do Golpe - IV.


O show estava marcado para as 19h30, mas começaria apenas às 20h ou 20h30. Dia de semana, dia chuvoso, embora se tratasse de uma cidade pequena, esses três pontos entrecruzados fariam diferença para facilitar a chegada das pessoas que formariam o público: começando no horário agendado, muitos teriam que ir direto do trabalho após tomar chuva, sem um tempo para um banho ou um lanche em casa. Naquela noite fiquei responsável por cuidar da mesa com produtos alusivos a banda e à minha própria arte - a famosa "banquinha". Arrumei tudo, e às 19h45 voltei para o bar onde estava o pessoal, um e outro membro da banda e muitos dos amigos que prestigiariam o show. 
Estava na rua, do lado de fora do bar - embora ele tenha toda a frente aberta, e a distância entre o "dentro" e o "fora" seja extremamente tênue - junto de outro rapaz, analisávamos uma árvore que nascera na lateral do topo do prédio onde ocorreria o show. Discutíamos como era possível nascer uma árvore em uma rachadura na parede do prédio: de onde veio a semente? Onde achou terra? Teria sido germinada entre tijolos de barro?  
Enquanto conversávamos, vimos sair do prédio, em passos largos, um dos rapazes da banda. Com um riso espantado veio andando na direção do bar. "É guerra, é guerra!", falou repetidamente. Eu estava sem bateria no celular, e não sabia do que se tratava, ele explicou: "o avião em que estava o Teori Zavascki acabou de cair, e amanhã ele ia homologar a delação da Odebrecht". 
A árvore no topo do prédio, o pessoal no bar (antes e depois do show),os passos largos e a fala do meu amigo, configuram mais um dos "Retratos do Golpe" que guardo na memória.





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