terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O fim da picada e do Carnaval de 2014.


Fechei o carnaval de 2014 com um esboço de diarreia. Após quatro ou cinco noites de um saboroso festival de bandas locais, encerramos a última noite entre poucos, em uma mesa no fundo do bar, tomando as últimas garrafas de cerveja que jaziam nos freezers da casa. Havia muita saúde entre nós, tanto entre os jovens quanto entre os joviais. Não havia mais do que sete pessoas naquela roda, a memória não nega, recordo-me dos rostos, dos nomes e as redes sociais me permitem saber como o novelo de lã da vida de cada um vem se desenrolando. A todo instante eu abandonava a mesa e o grupo para ir ao banheiro. E a cada abandono e retorno o intervalo entre eles e os próximos diminuía. Numa das vezes em que retornei, os olhares tortos e os risos contidos me fizeram entender o que se supunha a cada ida minha à casinha, no entanto, uma fotografia postada no Instagram revelou íntimos e inegáveis detalhes daquelas saídas da mesa: era bosta mesmo. Em um dos meus sôfregos momentos de defecagem, notei um pequeno pernilongo rondando-me ao redor do vaso. Havia tanto silêncio naquele frequentemente antro de fervilhação e bandas boas, que era possível ouvir o zumbido do maledeto picador: "bom, pelo menos não se trata do Aedes Egypt, até onde sei o Aedes é silencioso". Acompanhei o voar do pernilongo por algumas batidas de asas, depois distrai-me com um escrito na porta, e desdistrai-me com a agudeza dolorida de uma agulhada na perna esquerda. Por alguma estapafúrdia razão, minha primeira reação não foi dar um tapa no local do incômodo, mas sim olhar para ele, e pude ver, de maneira quase microscópica, o instante em que o pernilongo retirou a sua milimétrica agulha de seringa de minha pele e bateu asas, de bucho cheio, para fora do banheiro. Doeu e coçou, mas a montanha russa fecal que percorria meus intestinos incomodava mais, e esqueci-me do fato. Foi só na quinta ou sexta-feira, já de volta aos corredores infernais de São Paulo, que me dei conta da brotoeja vermelha de grande tamanho arredondado que nascera no local da mordida pernilongar. Alguns dias mais, e ela sumiu sem deixar vestígios. Outros carnavais ocorreram: o de 2015, no mesmo fatídico lugar e em situação semelhante; o de 2016, noutra cidade e com tanto charme e amorzade; e, agora, o de 2017. O de 2017 foi uma situação completa e complexamente distinta, não há roque em roul e nem motivos para folia, e me peguei, já no fim do carnaval de 2017, me recordando dos últimos suspiros do carnaval de 2014, e do fatídico momento, fotografado por minha retina, do fim da picada do pernilongo que, sempre soube nesse tempo todo, era o mosquito da saudade.
[E eu nunca vou sarar dessas saudades? I, II, III e agora IV].


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Da perspectiva à síntese.


Acordei e havia um ranço me prendendo à cama. Realmente me deitei acreditando que não iria acordar ou que o faria entre os escombros do estrago causado pelo tal meteoro que, ledo engano, era só uma falsa notícia para site mequetrefe receber acesso. Mas, levantei.
Não tenho emprego, não tenho dinheiro, não há perspectiva; toda e qualquer pequena oportunidade que sequer chega a se tornar lampejo de que "Vai dar certo" apaga antes de acender. "Ah, mas por que você não tenta fazer isso?", diz a cabeça, e a resposta sempre a mesma: "Já fiz". Então penso numa perspectiva realmente nova, viável. Falta aquele capital inicial - é triste que um grupo cretino de roqueiros ruins tenha esculhambado o uso desse termo no dia a dia.
Faz algumas semanas entendi o cerne todo do problema - sim, demoro para assimilar as coisas - e entendi que será inevitável mudar os rumos, os planos, as vontades outrora rascunhadas, ou em segredo rabiscadas. Não percebi, tudo foi sendo feito da maneira como devia fazer, e eu realmente não percebi que havia ali um "Plano de vida" em jogo. Talvez tenha percebido, não nego agora aqui, mas sempre neguei. Percebo que havia um plano de navegação e o quão à sério eu o tocava quando o barco ruiu e resta apenas esse oceano de falta de perspectivas - a clássica figura do sujeito ocidental que só valoriza as coisas quando não as tem.
Mas a gente sempre acaba levantando. O corpo pede um litro d'água, um café, um pedaço de pão.
Meu pai me lembrou que amanhã é meu aniversário, tinha combinado de ir à uma festa mas acho que não vai rolar, "Por que?", "Não tenho emprego, não tenho dinheiro, não tenho perspectiva, não tem muito o que comemorar, a gente deveria ter um habeas corpus para esquecerem do nosso aniversário em anos bosta assim". Não respondi isso, ele não gosta de festas, e o "Por que?" dele foi muito mais um "Ufa, vai ficar em casa", eu sei, tanto que não houve tréplica à minha resposta.
As pessoas vão me ligar, vão desejar "tudo de bom", vão mandar mensagens no Facebook, áudios no WhatsApp, vão me marcar em fotos no Instagram (nossos modos de nos relacionarmos socialmente mudaram rápido demais nos últimos cinco anos, não?). E vou fingir estar tudo bem, vou dizer que está tudo bem, vou agradecer pela atenção - em parte fico feliz por se lembrarem da minha existência, que seja por que o Facebook as falou, em parte fico triste por ter de me recordar desse cotidiano sem emprego, sem dinheiro, sem perspectiva. Como diz um conhecido mais virtual do que material, "Vem logo meteoro".

Olhe a metade cheia do copo. 

Tem uma voz que sempre diz isso. Sempre tem essa voz, e foi logo no primeiro café do dia que é véspera do meu aniversário este ano que ela foi soprada em meus ouvidos. Alguém citaria a Dóri, "Continue a nadar", mas sou mais Kobalsk, "Sorria e acene, apenas sorria e acene". As pessoas que eu sei que apoiaram o golpe, que votam incessantemente no maldito número 45, que foderam com a educação pública, que foderam com as perspectivas e os planos de navegação vão ligar, vão mandar mensagem, vão desejar "Tudo de bom", vão perguntar "Está aproveitando o seu dia?". 
A resposta é sorrir e acenar - em termos de telecomunicação, trata-se de responder "Sim, sim" com algum entusiasmo na voz ou alguma combinação de caracteres que indique alguma expressão de alegria no fim da mensagem "Sim =)". 

    Olhe a metade vazia do copo.

Mas, na verdade, tem uma voz que sempre diz isso. A voz da educação doméstica, a voz da educação pro capital. E bate aquela vontade de não sorrir nem acenar, e realmente imagino os diálogos com alta probabilidade de acertá-los - os nossos modos de comunicação mudaram, mas a presepada continua a mesma. 

-Está aproveitando seu dia?
-Não.
-Ah... Mas vai ter festa?
-Não.
-Nem um bolinho?
-Com que dinheiro?
-Ah, já já melhora.
-Não pelos próximos vinte anos.

Dezenas de frases óbvias e sentenças batidas martelam a cabeça. Ideias cretinas e vontades sinceras travam uma luta sem fim, acorrentadas a um ringue em que tudo depende dum emprego, dalgum dinheiro, nem tanto das perspectivas, mas eu as tinha, e chego, chegarei, chegaria (ainda está em tempo, viu Senhor Meteoro?) aos vinte e oito anos de vida - depois de mais de dez as nutrindo - com a tesoura em mãos para retalhá-las em nomes do que me pede o momento.

ESPAÇO DA 
DISCUSSÃO REVERSA 
DEPOIS DO 
FIM DO 
TEXTO

Ontem eu estava no ônibus e comecei a escrever uma ideia que me ocorreu enquanto eu andava pelo centro de São Paulo uma longa discussão mental mesmo daquelas de fazer esquecer que tem que descer do ônibus e pedir licença todo esbaforido pras pessoas se não perde o ponto. Uma reflexão densa que me levou de volta para 1998 passando por 2003 e 2007 e 2012 e 2013 lendo a vida de uma maneira linear com alguns pontos e poucas vírgulas uma história empírica de tirar o fôlego mesmo. Consumi seis folhas dum caderninho na escrita na autoargumentação para mim mesmo de momentos vividos (veja só) por mim mesmo embora em momentos tão díspares e já distantes da vida que realmente parece que era outra pessoa. Então chegou o momento de sintetizar a ideia toda e o fiz mentalmente quando ia a uma papelaria e retomei a ideia quando saí mas ela foi interrompida pois vi um cachorro perdido quase ser atropelado e a expressão de dor de duas garotas que viam o cachorro quase sendo atropelado e tal qual eu se viam sem ter o que fazer para evitá-lo - mas ele não foi atropelado pelo menos não ali diante dos nossos olhos o que suavizou o momento e o fim do dia (meu e das garotas suponho). Síntese. Conclusão. Fechar. Concluir. Acabar. Todo o sentido da ideia estava lá em minha cabeça era só escrever e materializar a ideia mas não tive coragem parecia que se passasse aquilo da cabeça pra mão pra caneta pro papel ocorreria a concretização de algo ruim embora na minha cabeça chegar a essas sínteses seja algo bom força motriz para mudanças necessárias. Tem um lance que me incomoda mas que me agrada ao recordar dos anos que listei no texto que todos eles foram períodos de transição entre períodos da vida sendo os "Períodos" demarcados por uma passagem entre um "O que eu fazia" para um "O que eu faço" sendo que me detive em descrever os períodos de "O que farei?". Momentos tensos de suspensão em geral momentos de ausência de dinheiro de perspectiva ou mesmo de ocupação (não diria emprego pois em poucos dos momentos listados havia emprego em jogo em geral estavam em voga mudanças nas coisas que seriam a minha principal ocupação nos dias). Sempre nesses momentos de síntese me vem a voz daquela canção que diz repetidamente que "É repetição é repetição é repetição é repetição é repetição" e também aquela outra que grita sem pudores "Repetição insignificante" o que é bom pois em tese eu saberia um pouco como agir guardadas as proporções e diferenças entre cada uma das situações e anos e ocupações e falta de dinheiro e de perspectivas. Mas não. Em geral sempre tem um período em que eu travo congelo fico sem saber o que fazer ou o que pensar ou como pensar e qual o próximo passo. A metáfora espontânea do cachorro perdido entre a rua e a calçada os carros e os ônibus e uma moto sem saber para onde ir dando passos curtos com suas quatro patas para não morrer foi perfeita. 

Síntese

Não consigo escrevê-la. Não consigo enfrentar-me. Não temo o tempo, temo a falta dele. Vinte e oito anos, a parte mais adulta deles dedicada a algo que me olho no espelho e me reconheço altivo, mas que não paga meio litro de caldo de cana. Na minha profissão, que também é a parte mais significativa das coisas que construí na vida (tento negar, mas é impossível) as melhores sínteses não são as que afirmam algo categoricamente, mas sim as que geram mais interrogações. Seguir com o que amo, ou ceder ao que preciso? 



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O meu retrato do Golpe - IV.


O show estava marcado para as 19h30, mas começaria apenas às 20h ou 20h30. Dia de semana, dia chuvoso, embora se tratasse de uma cidade pequena, esses três pontos entrecruzados fariam diferença para facilitar a chegada das pessoas que formariam o público: começando no horário agendado, muitos teriam que ir direto do trabalho após tomar chuva, sem um tempo para um banho ou um lanche em casa. Naquela noite fiquei responsável por cuidar da mesa com produtos alusivos a banda e à minha própria arte - a famosa "banquinha". Arrumei tudo, e às 19h45 voltei para o bar onde estava o pessoal, um e outro membro da banda e muitos dos amigos que prestigiariam o show. 
Estava na rua, do lado de fora do bar - embora ele tenha toda a frente aberta, e a distância entre o "dentro" e o "fora" seja extremamente tênue - junto de outro rapaz, analisávamos uma árvore que nascera na lateral do topo do prédio onde ocorreria o show. Discutíamos como era possível nascer uma árvore em uma rachadura na parede do prédio: de onde veio a semente? Onde achou terra? Teria sido germinada entre tijolos de barro?  
Enquanto conversávamos, vimos sair do prédio, em passos largos, um dos rapazes da banda. Com um riso espantado veio andando na direção do bar. "É guerra, é guerra!", falou repetidamente. Eu estava sem bateria no celular, e não sabia do que se tratava, ele explicou: "o avião em que estava o Teori Zavascki acabou de cair, e amanhã ele ia homologar a delação da Odebrecht". 
A árvore no topo do prédio, o pessoal no bar (antes e depois do show),os passos largos e a fala do meu amigo, configuram mais um dos "Retratos do Golpe" que guardo na memória.