segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Teoria Geral do Estacionamento SócioTemporal.


Fui fazer uma pipoca para matar o tempo (e tapear a fome) enquanto esperava uma tinta secar. Pipocas estouradas, tinta ainda levemente úmida, coloquei um antigo álbum do Yann Tiersen pra tocar. Trilha sonora do "Adeus Lênin", junto com a da Amelie, uma das principais portas de entrada de muita gente no universo musical do cara. Comia pipocas e ouvia as notas, as composições, a linearidade, o minimalismo, os arranjos fabulosos...
Foi em 2008 que esse álbum (e esse filme) muito me marcaram. Em 2008 dividi apartamento, namorei, ingressei na universidade, me mudei para Marília. Diversas noites desse ano foram vividas juntas de pessoas que garantiram a ele ser um contexto sóciotemporal: comíamos pipocas, ouvíamos álbuns antigos do Tiersen e jogávamos War. A maioria dos meus colegas de curso/turma desenvolvia outras funções, menos, digamos, caretas.
2008. 
Tem a marca dum ano num amontoado de lembranças que me remetem a realizações específicas, pessoas específicas, locais, e, obviamente, acontecimentos. Mas, gostaria de ressaltar, a uma rotina: cada rotina envolve contextos específicos. E depois, rotina e contextos foram diferentes - tanto entre si quanto em relação - em 2009, 10, 11, 12, 13, 14, 15 e 16. 
A rotina e os contextos sempre estão mudando para mim. Na época da faculdade, por que cada ano era um ano; aliás, cada semestre era um semestre, isso acrescido das demais tantas variações que tinha o dia-a-dia para além da faculdade a cada período.
Todos os anos foram diferentes entre si, ainda não houve um ano igual ao outro, ou algo próximo disso desde, sei lá - vamos manter esse recorte - desde que "comecei a faculdade". 
Teve um momento no ano passado em que entendi que cheguei próximo, nesse vendaval temporal todo, de ter uma "rotina adulta", lá por 2013, entendi e assumi a falta que sinto daquilo - talvez seja essa falta, nesta segunda-feira, que me trouxe a esta reflexão.

Espera aí. E o Yann Tiersen? E 2008? E esse "estacionamento" no título?
Calma brother.

Fico pensando que se tivesse estacionado a minha vida, por exemplo, nas tarefas daquele 2013, elas não seriam "tarefas de 2013", mas sim "tarefas da minha vida" e, de certa forma, eu ainda estaria em 2013 - com pequenas sutilezas, claro, mas o recheio central da vida (a rotina, o cotidiano) seriam aqueles, iniciados em 2013, daí, questiono: eu "estaria em 2013" ou "2013 estaria em mim"? Ou, ainda, o recorte por anos se torna desprezível/insuficiente quando se lida com as tarefas da tal "vida adulta"?
A tinta já deve ter secado há um tempão, a pipoca já acabou, eu já estou com fome de novo, o álbum já está acabando. Mas tem uma coisa por ser dita ainda. 
Deve ser trágico estacionar a sua vida num ano, num pequeno grupo de realizações, pessoas, locais e hábitos, de modo que os anos passem a ser dissolvidos nas realizações mais do que experimentada no espaço tempo. Talvez seja por isso que a rapaziada que mora há anos na mesma casa, nunca se mudou de cidade e está há um tempo considerável em um mesmo emprego, tem dificuldades para separar acontecimentos conforme os anos - algo que tenho certa facilidade, pois relaciono acontecimentos com, por exemplo, a casa em que morava, a realização principal em que eu aproveitava o meu tempo vivo, a cidade em que residia, pessoas que estavam mais próximas.
Enfim, eu poderia ter estacionado em 2008, e ouvir só esse artista, e apenas jogar War em meu tempo de lazer, e conviver só com as mesmas pessoas. Mas, para mim, isso seria um desperdício desgraçado de vida.

O texto acaba ali em cima, mas eu quero escrever mais um longo parágrafo.
Vá em frente.

Em geral vejo com prestígio pessoas que não depositaram a vida nesse "Contexto de mesmisse e repetição" - "o mesmo trabalho, a mesma rotina, os mesmos lugares, as mesmas pessoas". Criando uma espécie de dualidade, vou puxar o "Tipo ideal burocrático contemporâneo", da pessoa que trabalha em escritório - às vezes vejo aquela massa de homens engravatados e mulheres 'ensaiadas' caminhando na Avenida Paulista na hora do almoço, ou entupindo os corredores das estações de metrô na região central às 18h30 - para pensar nisso. São oito horas por dia na frente do computador, cerca de quatro ou três horas para ir trabalhar e voltar para casa. As 48 horas dos finais de semana (quando não se trabalha por "meio período" no sábado) são capturadas à procura de alguma exceção na rotina: uma chapação, horas a fio em sono, arrumar a casa, transar com desconhecidos, brigar na rua, visitar parentes, comer algo realmente gostoso etc. Penso que, em uma semana, não são as 48 horas do sábado e do domingo que são capturadas, mas sim as 120 dos "Dias úteis". Retomo o recorte temporal dos anos. Daí que a pessoa está a sete anos nesta rotina, com um mês de férias pessoais e sete dias de férias coletivas entre o natal e o ano novo. Ah, o ano novo. A festa de reveion (ou "Reveillon"), esse brevíssimo ritual que marca a "Passagem de ano", período em que os custos de tudo que envolva uma viagem se encarece ou se satura - as passagens rodoviárias não tem o preço alterado, porém, as rodoviárias lotam, os ônibus atrasam. Todos querem viajar, ir para algum lugar com determinadas pessoas, fazer determinadas coisas a fim de "Passar o ano", isto é, marcar que acabou um período e começou outro, e aquelas "férias", aquela viagem ou aquele encontro (no caso em que não se viaja, se fica na própria cidade em que mora e trabalha, mas se participa de algum evento incomum à rotina, se come algo incomum à rotina, se vê pessoas incomuns à rotina) marcam, de fato, que "mudamos de ano". O ritual é necessário, pois, se for depender de "marcar os anos" com base no que se realizou neles, ficaria difícil diferenciar, pois a rotina, o trabalho, as pessoas etc foram os mesmos em 2014, 15, 16... O ano não é um contexto sóciotemporal, não pode ser marcado enquanto tal, visto que o contexto é a própria vida, vivida enquanto rotina e dissolvida 'ao longo dos anos'. Daí ser relevante, para além dos rituais de marcação do tempo, um ano em que ocorreu algo de diferenciado, como, por exemplo, "o ano em que fiquei desempregado". É louco ver como as pessoas que seguem a rotina da "mesmisse e repetição" pegam no pé das pessoas que se recusam a ela, e, muitas vezes, utilizam como argumento os "confortos" que tal rotina lhes proporciona - uma aposentadoria privada, uma viagem deslumbrante de quatro dias entre 28 de Dezembro e 2 de Janeiro, trezentos canais na televisão de setenta polegadas, um carro para perder duas horas em vez de três indo para o trabalho - no entanto, estas próprias pessoas tem as lembranças e vivências dissolvidas em um tempo incerto, incalculável em si, quase fúnebre, ao passo que, os que se apegam à não-rotina da "experimentação e novidade" (espécie de polar oposto de "mesmisse e repetição") mantém calendários de realizações em seus anos e mentes, encontrando conforto mais nas pequenas vivências novas e caminhos diferentes do que numa poltrona reclinável (mas não nego que a poltrona é confortável, me parece, por fim, que o ideal para esta Teoria Geral do Estacionamento Indivíduo-Social fosse conciliar o acesso a bens confortáveis com aproveitamento pleno do tempo e do espaço [o mundo é finito, o tempo pessoal também, mas o social não] mas isso não ocorrerá no capitalismo tal qual ele nos é apresentado: as pessoas precisam trabalhar em escritórios para terem o que comer e onde morar). Um grande desperdício de potencialidades.

Mais alguma coisa?
Não não, só isso mesmo.
Certo.


Desculpa, tem mais coisa sim.
Oh meu deus, escreve aí então.

Um ponto interessante sobre isso, nesse jogo entre "Tipos ideais", é que é comum você ver o pessoal que faz dívida para comprar a poltrona reclinável para descansar dos dias de trabalho nela mesmo que para pagá-la precise trabalhar mais e cansar mais, dizer que os outros (essa alteridade é sempre um joguinho curioso, sobretudo quando brinco com uma dualidade tão ácida, obtusa e ultrapassada, assentada em "Tipos ideais"), aqueles que optaram por estilos de vida menos associados/acorrentados à lógica do escritório, do capital como único recurso e/ou de seguir uma rotina fixa e imutável, "pararam no tempo". É comum que, de dentro de seus apartamentos, apontem o dedo para aqueles que ainda moram com os pais, aqueles que tem uma banda que nunca fez sucesso há 15 anos, aqueles que já passaram dos trinta e que convivem com grupos de jovens, aqueles que não ligam por estarem mal vestidos. Os contextos sóciotemporais, nesse caso, não necessariamente são conflituosos, no sentido em que, alguém da primeira rapaziada pode ter uma banda que não faz sucesso, no entanto, se ela se apega a alguns símbolos deste estilo de vida, é possível que isso seja aceitável. Chegamos, então, a outro ponto nesta teoria: "Gradações de Dedicação Sóciotemporal", em que o 'depende' se torna uma ferramenta de amplo manejo pelos sujeitos. Mas não quero falar disso, deixa o dito pelo não dito e outro dia retomamos.

Sério bicho? Você me faz retomar o texto para desenvolver uma ideia pela metade e deixar para outro dia?
Ah, sim, às vezes é necessário dar tempo para amadurecer as ideias.
Ah, vai dormir.
Vou mermo.


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