domingo, 29 de janeiro de 2017

Fábulas de domingos.


Ela saiu cedo para trabalhar, e, por se tratar de domingo, o simples fato de ter que ir trabalhar já amplifica a noção de "cedo" - digo, independente da hora que você for trabalhar em um domingo, será cedo, pois existe uma fábula que diz que domingo não é dia 'para' trabalho, tampouco 'de' trabalho. Alguns segundos antes de sair pedi para deixar um cigarro: "só um?", "só". Não sei por que o guardei em uma lata de lápis de cor. Voltei para casa após acompanhá-la até o ônibus, peguei o cigarro, um café e sentei no quintal. De certa forma assisti o nascer do sol - a cada gole & trago um prédio que rasga o céu na rua de trás ficava mais claro e iluminado - com a frase "vou fumar esse café assistindo o caos passar" na cabeça. Digo, sentar no quintal e pensar no caos recente: dívidas, desemprego, alcoolismo, tristeza, perspectivas. Os Titãs falam lá que os cigarros não guardam nem cinco minutos, mas depende. O tempo é fluído, subjetivo e situacional. O café que eu fumei durou muito mais (às vezes o Samu demora para chegar ao local dum atropelamento). Quando os acabei o céu já estava bem mais claro do que quando me sentei, e a cabeça fervilhava. "Não tem como deixar o caos passar, ou tirar uma pausa dele, quando ele está na pele, é uma crosta que nos recobre e um creme que nos recheia". 

"Era para estar muito melhor de vida a essa altura".

Clichê desmotivacional comum, desamparo casual, lamentação habitual aos sujeitos de um sistema que não tem como, por onde e/ou interesse em que a maioria (ou mesmo algo além de uma minoria) estejam "melhor de vida" ou "melhor na vida". Para que meia dúzia descanse no domingo, conforme a fábula, é necessário que duas dúzias se levantem cedo no domingo. "Ah por que domingo é dia de acordar cedinho e ir na padaria comprar pão e tomar um café no balcão conversando com conhecidos e passar na banca e comprar o jornal e chegar em casa e ler o jornal comendo pão e tomando café". Ladainha burguesa: teve quem levantou mais cedo ainda para preparar o pão, outro para passar o café, tem quem está no caixa da padaria, tem a rapaziada que separa os jornais, a que entrega os jornais e a que vende os jornais para o consumidor final - as linhas dessa teia parecem intermináveis. "Devia ter aceitado a ideia de ficar com mais de um cigarro, e não sei por que estou me entupindo de café, se já já vou voltar a dormir". Me entupi de café pois ainda havia café, e eu não queria jogar fora, em respeito aos que colhem café: jamais me esquecerei daqueles rostos infantis que me contavam detalhes da jornada de trabalho e dos valores pagos pela mão de obra para a colheita do café em Vera Cruz/SP: "Fessôr, paga quinze reais na saca do café catado", "quanto tem numa saca?", "uns sessenta quilos", "e quanto tempo leva pra catar uma saca?", "em dois faz em um dia, que nem, meu pai e minha mãe catam uma saca por dia"; e quando é época da colheita bruta, o dia é mais longo, a semana é composta apenas por segundas-feiras (domingo é 'risos'), os filhos mais velhos (aqueles rostos infantis não combinavam com as marcas nas mãos) faltam às aulas para ajudar a colher duas sacas por dia.  

"Era para estar muito melhor de vida a essa altura".

Não desejava nem esperava chegar a essa idade com outra mentalidade. "Você já tem vinte e oito anos, não pode ficar falando sobre cocô desse jeito", "a maioria das pessoas da minha faixa etária e do recorte socioeconômico de que supostamente faço parte ou sou um recorte não fala sobre cocô, mas acredita na meritocracia, no mito do sacrifício da própria vida em nome das conquistas, nas fábulas do capital, o que, de certa forma, é tocar-se na vida tal qual um cocô". Mas também confesso que não esperava e tampouco desejava acordar cedo em um domingo e ser assombrado, sobretudo ao nascer do sol, pelo caos das dívidas, do desemprego, do alcoolismo, das tristezas, e da total falta de perspectivas para o futuro próximo (ou presente). Confesso que lavei a louça com a ideia de que levantar cedo para trabalhar no domingo seria melhor do que levantar tarde na segunda e respirar angustiado pela falta da ocupação pragmática e d'alguma realização, breve ocupação remunerada do tempo, que permite utilizar o outro um quarto de tempo que sobra para o que é verdadeiramente sincero por ser feito (como acordarei amanhã)

Escrevi esse texto com o gosto do café definhando na boca e pensando que embora exista aí um presente que se desenha com cores podres em papel manchado e traços toscos há uma inegável crença de que vivo e sinto (noutro departamento) o que sempre desejei viver e sentir mas que nunca achei que fosse viver e sentir. O gosto do café e da nicotina definhando na boca não foram suficientes para aplacar a lembrança e o sabor do beijo que ela me deu antes de subir no ônibus (metonímia concreta de um sabor que se dissolve no nosso tempo) e nesse aspecto não haveria como estar melhor 'de' e 'na' vida a essa ou a qualquer altura. Realmente chegou um momento que eu acreditei que isso só ocorria nas fábulas.


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