terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Eu nunca vou sarar dessas saudades? - III


Combinei comigo mesmo de não beber essa semana. Aliás, na semana passada também havia o feito, e o combinado foi por terra na quarta-feira (feriado em São Paulo, dia quente, Corinthians campeão da Copinha, pedalar com ela etc). Os últimos dois finais de semana, por alguma graça de algum "destino", foram avalanches. Avassaladores. Destruição. Se meus órgãos fossem burgueses frequentadores de Copacabana diriam que o que ocorreu foram "Arrastões", e os pertences levados o foram por substâncias sumariamente líquidas. Faz nove anos que penso sobre isso tudo. Nove anos é tempo. Embora tempo seja matéria não palpável (portanto, "não matéria"), tenho pensado que entendi o que são dez anos, ou o que podem ser dez anos, ou mesmo 'vir a ser' dez anos. Me parece que entendi um pouco a cadência do samba do tempo - o que pode ser mutável de acordo com as temporalidades, situações etc: nada mais será o mesmo para nós que crescemos em um Brasil democrático e com alguma "segurança social", será que nossas percepções de tempo mudarão? Creio que sim, a própria fluidez e experimentação empírica do tempo mudarão.
Passaram-se três anos já. Hoje. Amanhã. Por aí. Faz três anos que abaixei para fazer cocô no mato e perdi uma câmera - não é de hoje maltrato este corpo, vejam só. E então apareceu na internet uma foto duma garrafa de cerveja em cima do balcão do bar. "Puta merda, eu nunca vou sarar dessas saudades?". Doeu. Bateu forte no peito. Tanto a imagem da garrafa (uma breja cairia bem hoje, dia quente), quanto a imagem da garrafa no balcão do bar. Um amplificou o outro e eu saí da internet com o coração doendo.
Às vezes demoro para entender quando uma situação muda. Demoro para articular os pontos que a compõem e entender que talvez as coisas tenham mudado minima ou drasticamente. Quando tinha quinze anos trocava beijos e carinhos com uma garota e subitamente paramos de nos ver, quando nos encontramos dois meses depois achei que nos beijaríamos e acariciaríamos. Não entendi que "as coisas" haviam mudado e a situação era outra. Alguns anos atrás - um chute bem qualificado diria que isso faz entre cinco e seis, e é verdade - tracei alguns planos, aos trancos e barrancos dá para dizer que concluí alguns, dá para dizer que outros estão em vista ainda e dá para dizer que tem alguns que sequer me lembro. Muitas situações mudaram, e as balas mais recentes acopladas à agulha, confesso que ainda não entendi como realocar ou utilizar. Ou mesmo em que ou quem devo atirar essas balas. 
Não nego que às vezes bate um desespero, as saudades de hoje foram isso, sem dúvidas. Não há piso firme para seguir com os passos que havia planejado, parece não haver terra fértil para fazer com que as sementinhas anotadas em caderninhos se tornem "projetos", tampouco sinto que haverá possibilidades próximas para um passo adiante nessa ou noutra direção (em terra fértil ou não, atrelada aos projetos ou não). Parece não haver nada de novo no horizonte, ou mesmo horizonte, e a única perspectiva plausível é voltar para aquilo que sei é 'irretornável'. Os meus retratos de alguma breve segurança. Passar por debaixo da porta entreaberta e quando verem que sou eu dissiparem os rostos de tensão ante passos até então desconhecidos. Bater na porta e dizer "É o Coiso", e a abrirem sorrindo para mim. Voltar a procurar a câmera que eu perdi no mato; isso não. Confesso que ao modo dum filme ruim, bate às vezes um desespero e uma vontade de começar algo que não seja assim tão novo e que vá se tornar assim tão velho e respirar fundo e dizer: "esse é o primeiro dia do resto das nossas vidas", e o símbolo disso é a segurança do local, da cidade (embora, muito possivelmente, não vá se tratar 100% da situação que vivi e da qual sinto saudades, as situações mudam, Gabriel) - ou mesmo acreditar nessa ideia de "resto das nossas vidas" ou mesmo (aproveito a onda do assunto) esvaziar os meus bolsos da noção de progresso que como pedras me fizeram afundar. Bate um desespero, mas eu sei que ele não corresponde à realidade; aliás, sei que ele é produto da realidade mais próxima, o presente comprimido, o período de estagnação, projetos interrompidos, intervalos, chamem como quiser, mas não diz respeito à realidade mais ampla. Uma avalanche de coisas que precisam rolar mas que empacam em um e outro pedregulho que de tão insignificantes poderiam ser chamados de "peideigrulhos". 
Mas só consegui entender isso tudo ao romper novamente com o combinado que havia feito com meu corpo, pegar uma bebida e pensar nisso tudo concentrado em alguma outra coisa qualquer. 


domingo, 29 de janeiro de 2017

Fábulas de domingos.


Ela saiu cedo para trabalhar, e, por se tratar de domingo, o simples fato de ter que ir trabalhar já amplifica a noção de "cedo" - digo, independente da hora que você for trabalhar em um domingo, será cedo, pois existe uma fábula que diz que domingo não é dia 'para' trabalho, tampouco 'de' trabalho. Alguns segundos antes de sair pedi para deixar um cigarro: "só um?", "só". Não sei por que o guardei em uma lata de lápis de cor. Voltei para casa após acompanhá-la até o ônibus, peguei o cigarro, um café e sentei no quintal. De certa forma assisti o nascer do sol - a cada gole & trago um prédio que rasga o céu na rua de trás ficava mais claro e iluminado - com a frase "vou fumar esse café assistindo o caos passar" na cabeça. Digo, sentar no quintal e pensar no caos recente: dívidas, desemprego, alcoolismo, tristeza, perspectivas. Os Titãs falam lá que os cigarros não guardam nem cinco minutos, mas depende. O tempo é fluído, subjetivo e situacional. O café que eu fumei durou muito mais (às vezes o Samu demora para chegar ao local dum atropelamento). Quando os acabei o céu já estava bem mais claro do que quando me sentei, e a cabeça fervilhava. "Não tem como deixar o caos passar, ou tirar uma pausa dele, quando ele está na pele, é uma crosta que nos recobre e um creme que nos recheia". 

"Era para estar muito melhor de vida a essa altura".

Clichê desmotivacional comum, desamparo casual, lamentação habitual aos sujeitos de um sistema que não tem como, por onde e/ou interesse em que a maioria (ou mesmo algo além de uma minoria) estejam "melhor de vida" ou "melhor na vida". Para que meia dúzia descanse no domingo, conforme a fábula, é necessário que duas dúzias se levantem cedo no domingo. "Ah por que domingo é dia de acordar cedinho e ir na padaria comprar pão e tomar um café no balcão conversando com conhecidos e passar na banca e comprar o jornal e chegar em casa e ler o jornal comendo pão e tomando café". Ladainha burguesa: teve quem levantou mais cedo ainda para preparar o pão, outro para passar o café, tem quem está no caixa da padaria, tem a rapaziada que separa os jornais, a que entrega os jornais e a que vende os jornais para o consumidor final - as linhas dessa teia parecem intermináveis. "Devia ter aceitado a ideia de ficar com mais de um cigarro, e não sei por que estou me entupindo de café, se já já vou voltar a dormir". Me entupi de café pois ainda havia café, e eu não queria jogar fora, em respeito aos que colhem café: jamais me esquecerei daqueles rostos infantis que me contavam detalhes da jornada de trabalho e dos valores pagos pela mão de obra para a colheita do café em Vera Cruz/SP: "Fessôr, paga quinze reais na saca do café catado", "quanto tem numa saca?", "uns sessenta quilos", "e quanto tempo leva pra catar uma saca?", "em dois faz em um dia, que nem, meu pai e minha mãe catam uma saca por dia"; e quando é época da colheita bruta, o dia é mais longo, a semana é composta apenas por segundas-feiras (domingo é 'risos'), os filhos mais velhos (aqueles rostos infantis não combinavam com as marcas nas mãos) faltam às aulas para ajudar a colher duas sacas por dia.  

"Era para estar muito melhor de vida a essa altura".

Não desejava nem esperava chegar a essa idade com outra mentalidade. "Você já tem vinte e oito anos, não pode ficar falando sobre cocô desse jeito", "a maioria das pessoas da minha faixa etária e do recorte socioeconômico de que supostamente faço parte ou sou um recorte não fala sobre cocô, mas acredita na meritocracia, no mito do sacrifício da própria vida em nome das conquistas, nas fábulas do capital, o que, de certa forma, é tocar-se na vida tal qual um cocô". Mas também confesso que não esperava e tampouco desejava acordar cedo em um domingo e ser assombrado, sobretudo ao nascer do sol, pelo caos das dívidas, do desemprego, do alcoolismo, das tristezas, e da total falta de perspectivas para o futuro próximo (ou presente). Confesso que lavei a louça com a ideia de que levantar cedo para trabalhar no domingo seria melhor do que levantar tarde na segunda e respirar angustiado pela falta da ocupação pragmática e d'alguma realização, breve ocupação remunerada do tempo, que permite utilizar o outro um quarto de tempo que sobra para o que é verdadeiramente sincero por ser feito (como acordarei amanhã)

Escrevi esse texto com o gosto do café definhando na boca e pensando que embora exista aí um presente que se desenha com cores podres em papel manchado e traços toscos há uma inegável crença de que vivo e sinto (noutro departamento) o que sempre desejei viver e sentir mas que nunca achei que fosse viver e sentir. O gosto do café e da nicotina definhando na boca não foram suficientes para aplacar a lembrança e o sabor do beijo que ela me deu antes de subir no ônibus (metonímia concreta de um sabor que se dissolve no nosso tempo) e nesse aspecto não haveria como estar melhor 'de' e 'na' vida a essa ou a qualquer altura. Realmente chegou um momento que eu acreditei que isso só ocorria nas fábulas.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Teoria Geral do Estacionamento SócioTemporal.


Fui fazer uma pipoca para matar o tempo (e tapear a fome) enquanto esperava uma tinta secar. Pipocas estouradas, tinta ainda levemente úmida, coloquei um antigo álbum do Yann Tiersen pra tocar. Trilha sonora do "Adeus Lênin", junto com a da Amelie, uma das principais portas de entrada de muita gente no universo musical do cara. Comia pipocas e ouvia as notas, as composições, a linearidade, o minimalismo, os arranjos fabulosos...
Foi em 2008 que esse álbum (e esse filme) muito me marcaram. Em 2008 dividi apartamento, namorei, ingressei na universidade, me mudei para Marília. Diversas noites desse ano foram vividas juntas de pessoas que garantiram a ele ser um contexto sóciotemporal: comíamos pipocas, ouvíamos álbuns antigos do Tiersen e jogávamos War. A maioria dos meus colegas de curso/turma desenvolvia outras funções, menos, digamos, caretas.
2008. 
Tem a marca dum ano num amontoado de lembranças que me remetem a realizações específicas, pessoas específicas, locais, e, obviamente, acontecimentos. Mas, gostaria de ressaltar, a uma rotina: cada rotina envolve contextos específicos. E depois, rotina e contextos foram diferentes - tanto entre si quanto em relação - em 2009, 10, 11, 12, 13, 14, 15 e 16. 
A rotina e os contextos sempre estão mudando para mim. Na época da faculdade, por que cada ano era um ano; aliás, cada semestre era um semestre, isso acrescido das demais tantas variações que tinha o dia-a-dia para além da faculdade a cada período.
Todos os anos foram diferentes entre si, ainda não houve um ano igual ao outro, ou algo próximo disso desde, sei lá - vamos manter esse recorte - desde que "comecei a faculdade". 
Teve um momento no ano passado em que entendi que cheguei próximo, nesse vendaval temporal todo, de ter uma "rotina adulta", lá por 2013, entendi e assumi a falta que sinto daquilo - talvez seja essa falta, nesta segunda-feira, que me trouxe a esta reflexão.

Espera aí. E o Yann Tiersen? E 2008? E esse "estacionamento" no título?
Calma brother.

Fico pensando que se tivesse estacionado a minha vida, por exemplo, nas tarefas daquele 2013, elas não seriam "tarefas de 2013", mas sim "tarefas da minha vida" e, de certa forma, eu ainda estaria em 2013 - com pequenas sutilezas, claro, mas o recheio central da vida (a rotina, o cotidiano) seriam aqueles, iniciados em 2013, daí, questiono: eu "estaria em 2013" ou "2013 estaria em mim"? Ou, ainda, o recorte por anos se torna desprezível/insuficiente quando se lida com as tarefas da tal "vida adulta"?
A tinta já deve ter secado há um tempão, a pipoca já acabou, eu já estou com fome de novo, o álbum já está acabando. Mas tem uma coisa por ser dita ainda. 
Deve ser trágico estacionar a sua vida num ano, num pequeno grupo de realizações, pessoas, locais e hábitos, de modo que os anos passem a ser dissolvidos nas realizações mais do que experimentada no espaço tempo. Talvez seja por isso que a rapaziada que mora há anos na mesma casa, nunca se mudou de cidade e está há um tempo considerável em um mesmo emprego, tem dificuldades para separar acontecimentos conforme os anos - algo que tenho certa facilidade, pois relaciono acontecimentos com, por exemplo, a casa em que morava, a realização principal em que eu aproveitava o meu tempo vivo, a cidade em que residia, pessoas que estavam mais próximas.
Enfim, eu poderia ter estacionado em 2008, e ouvir só esse artista, e apenas jogar War em meu tempo de lazer, e conviver só com as mesmas pessoas. Mas, para mim, isso seria um desperdício desgraçado de vida.

O texto acaba ali em cima, mas eu quero escrever mais um longo parágrafo.
Vá em frente.

Em geral vejo com prestígio pessoas que não depositaram a vida nesse "Contexto de mesmisse e repetição" - "o mesmo trabalho, a mesma rotina, os mesmos lugares, as mesmas pessoas". Criando uma espécie de dualidade, vou puxar o "Tipo ideal burocrático contemporâneo", da pessoa que trabalha em escritório - às vezes vejo aquela massa de homens engravatados e mulheres 'ensaiadas' caminhando na Avenida Paulista na hora do almoço, ou entupindo os corredores das estações de metrô na região central às 18h30 - para pensar nisso. São oito horas por dia na frente do computador, cerca de quatro ou três horas para ir trabalhar e voltar para casa. As 48 horas dos finais de semana (quando não se trabalha por "meio período" no sábado) são capturadas à procura de alguma exceção na rotina: uma chapação, horas a fio em sono, arrumar a casa, transar com desconhecidos, brigar na rua, visitar parentes, comer algo realmente gostoso etc. Penso que, em uma semana, não são as 48 horas do sábado e do domingo que são capturadas, mas sim as 120 dos "Dias úteis". Retomo o recorte temporal dos anos. Daí que a pessoa está a sete anos nesta rotina, com um mês de férias pessoais e sete dias de férias coletivas entre o natal e o ano novo. Ah, o ano novo. A festa de reveion (ou "Reveillon"), esse brevíssimo ritual que marca a "Passagem de ano", período em que os custos de tudo que envolva uma viagem se encarece ou se satura - as passagens rodoviárias não tem o preço alterado, porém, as rodoviárias lotam, os ônibus atrasam. Todos querem viajar, ir para algum lugar com determinadas pessoas, fazer determinadas coisas a fim de "Passar o ano", isto é, marcar que acabou um período e começou outro, e aquelas "férias", aquela viagem ou aquele encontro (no caso em que não se viaja, se fica na própria cidade em que mora e trabalha, mas se participa de algum evento incomum à rotina, se come algo incomum à rotina, se vê pessoas incomuns à rotina) marcam, de fato, que "mudamos de ano". O ritual é necessário, pois, se for depender de "marcar os anos" com base no que se realizou neles, ficaria difícil diferenciar, pois a rotina, o trabalho, as pessoas etc foram os mesmos em 2014, 15, 16... O ano não é um contexto sóciotemporal, não pode ser marcado enquanto tal, visto que o contexto é a própria vida, vivida enquanto rotina e dissolvida 'ao longo dos anos'. Daí ser relevante, para além dos rituais de marcação do tempo, um ano em que ocorreu algo de diferenciado, como, por exemplo, "o ano em que fiquei desempregado". É louco ver como as pessoas que seguem a rotina da "mesmisse e repetição" pegam no pé das pessoas que se recusam a ela, e, muitas vezes, utilizam como argumento os "confortos" que tal rotina lhes proporciona - uma aposentadoria privada, uma viagem deslumbrante de quatro dias entre 28 de Dezembro e 2 de Janeiro, trezentos canais na televisão de setenta polegadas, um carro para perder duas horas em vez de três indo para o trabalho - no entanto, estas próprias pessoas tem as lembranças e vivências dissolvidas em um tempo incerto, incalculável em si, quase fúnebre, ao passo que, os que se apegam à não-rotina da "experimentação e novidade" (espécie de polar oposto de "mesmisse e repetição") mantém calendários de realizações em seus anos e mentes, encontrando conforto mais nas pequenas vivências novas e caminhos diferentes do que numa poltrona reclinável (mas não nego que a poltrona é confortável, me parece, por fim, que o ideal para esta Teoria Geral do Estacionamento Indivíduo-Social fosse conciliar o acesso a bens confortáveis com aproveitamento pleno do tempo e do espaço [o mundo é finito, o tempo pessoal também, mas o social não] mas isso não ocorrerá no capitalismo tal qual ele nos é apresentado: as pessoas precisam trabalhar em escritórios para terem o que comer e onde morar). Um grande desperdício de potencialidades.

Mais alguma coisa?
Não não, só isso mesmo.
Certo.


Desculpa, tem mais coisa sim.
Oh meu deus, escreve aí então.

Um ponto interessante sobre isso, nesse jogo entre "Tipos ideais", é que é comum você ver o pessoal que faz dívida para comprar a poltrona reclinável para descansar dos dias de trabalho nela mesmo que para pagá-la precise trabalhar mais e cansar mais, dizer que os outros (essa alteridade é sempre um joguinho curioso, sobretudo quando brinco com uma dualidade tão ácida, obtusa e ultrapassada, assentada em "Tipos ideais"), aqueles que optaram por estilos de vida menos associados/acorrentados à lógica do escritório, do capital como único recurso e/ou de seguir uma rotina fixa e imutável, "pararam no tempo". É comum que, de dentro de seus apartamentos, apontem o dedo para aqueles que ainda moram com os pais, aqueles que tem uma banda que nunca fez sucesso há 15 anos, aqueles que já passaram dos trinta e que convivem com grupos de jovens, aqueles que não ligam por estarem mal vestidos. Os contextos sóciotemporais, nesse caso, não necessariamente são conflituosos, no sentido em que, alguém da primeira rapaziada pode ter uma banda que não faz sucesso, no entanto, se ela se apega a alguns símbolos deste estilo de vida, é possível que isso seja aceitável. Chegamos, então, a outro ponto nesta teoria: "Gradações de Dedicação Sóciotemporal", em que o 'depende' se torna uma ferramenta de amplo manejo pelos sujeitos. Mas não quero falar disso, deixa o dito pelo não dito e outro dia retomamos.

Sério bicho? Você me faz retomar o texto para desenvolver uma ideia pela metade e deixar para outro dia?
Ah, sim, às vezes é necessário dar tempo para amadurecer as ideias.
Ah, vai dormir.
Vou mermo.


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Meia-Noite.


Como era de se esperar, pela lógica do tempo socialmente construído, os festejos de virada de ano chegaram à virada do ano, e, precisamente a meia-noite, quando alguns fogos pipocavam no céu, e as pessoas se abraçavam mutuamente, o rapaz (eterno projeto de 'homem-adulto', até segunda ordem), possivelmente engasgado com um ovinho de codorna, começou a vomitar. Vomitar e vomitar. Vomitou por cerca de um minuto, talvez dois. 
Uma voz amplamente respeitável, exalada em parceria com um sorriso brejeiro e parceiro, comentou: "Coloca esse ano que passou para fora, rapaz". Pois era exatamente isso que acontecia. Ano praguejável, período desonroso, baderna pejorativa, meses repugnantes, semanas asquerosas, ocupações duvidosas. Tudo isso se foi, via gorfo, à meia-noite.
O sorriso mais lindo do mundo se abriu. Um ano se vai, outro começa, a vida prossegue. Que sorriso lindo, que abraço gostoso. 
Mais tarde outro rapaz, com auxílio de uma mangueira, fazia com que o vomito seguisse rumo à rua: "Desculpa ter vomitado no seu quintal", "Tudo bem, Reveion é pra essas coisas, o ano foi uma bosta, você tá se limpando".
"Cadê o Bom-bril?". Teve uma vez, mas isso já faz tempo (já se passaram dois Reveions) que me disse: "Toda virada de ano eu queimo um Bom-bril". Como assim? Seria uma piada? Seria uma metáfora para algum tipo de droga jovem que se queima por aí? Seria algum tipo de história? "Tá na minha mochila, mas é Assolan". Não. O assunto é concreto mesmo.
Tradições são reinventadas, rituais se complementam, se recriam. Elementos de um se juntam ao outro.  É bom passar por um momento ritual junto de pessoas que entendem das coisas da vida.

Reveion 2016-17.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Nada de nada.


A INCRÍVEL HISTÓRIA DO HOMEM QUE COMEÇOU O ANO SEM NADA (DE NADA) NO BOLSO.

(Mas essa história só fará sentido se você ler essa aqui: http://gabrielcoiso.blogspot.com.br/2016/12/um-e-sessenta.html )

O homem saiu de casa para os festejos de virada de ano (vulgo: "Reveion"). Em sua mochila alguns legumes, uma troca de roupas. Em uma sacola de pano, um par de chinelos e dez latas de cerveja - foi o que deu para comprar com os vinte reais que tinha em mãos no dia anterior, e, ainda, colocar créditos em seu bilhete único para chegar ao local do festejo. Bilhete único, inclusive, que guardou na carteira que guardou no bolso enquanto estava no primeiro trem que pegou no dia. Permaneceu alguns minutos em espera em uma grande estação central - cheia de caminhos, para diversos rumos e atendendo tanta gente. Após a espera, no trajeto rumo ao segundo trem do dia, no entanto, alguma coisa aconteceu. Antes, ainda, entre a espera e o trem, foram a um guichê que vende salgados, a carteira não saiu do bolso, mas estava lá (uma rápida tateada por cima do tecido confirmou a presença do volume). Ao se sentar em um dos bancos do trem, nova tateada no tecido e "Cadê minha carteira?". Não caiu no banco não caiu no trem não caiu no trilho não caiu na plataforma não caiu na escada não caiu no corredor de acesso não caiu no balcão de informações não caiu no outro corredor de acesso não caiu no guichê que vende salgados. Quer dizer, se caiu, alguém a subtraiu, mas não pareceu o caso. Certamente foi entre um corredor e outro, ali onde ocorre um afunilamento do fluxo de humanos, que algum das "esbarrões" entre corpos não foi tão acidental assim, e sim uma atitude proposital e bem calculada. Alguém "achou" uma carteira. Pobre deste alguém, que deve ter se julgado o mais esperto dos larapios, o mais malandro dos lacaios: não havia um centavo sequer dentre os cento e sessenta constatados no dia anterior, não havia cartão válido para conta bancária, apenas um quarto de dúzia de documentos de um Zé Ninguém sem um vintém para caso ocorresse de cair duro no chão. A verdade, no entanto, e por fim, é que o homem terminou um ano e começou o ano sem nada de nada em seus bolsos.