sábado, 29 de julho de 2017

Ponderações sobre medos.


Medo é sensação complicada, complexa. Tipo de coisa que nos acompanha por toda a vida. Talvez seja o "Lado escuro da lua" do complexo mapa de sensações que temos/somos. Medo. 
Recordo-me duma situação que vivenciei, em que um garotinho de três ou quatro anos viu um gato pela primeira vez. Quando lhe falaram da presença de um gato animou-se em conhecer o animal, no entanto, quando se viu frente a frente com o felino, seu corpo lhe deu como resposta a vontade de ficar longe (tratava-se duma sala relativamente grande, portanto, se o gato estava na ponta de um sofá, o garoto ia para a ponta oposta de um outro sofá). Olhando o gato com muito temor, seu corpo lhe deu como resposta uma tremedeira, a qual o garoto verbalizou: "Eu acho que tô com frio!". Medo. Ele estava ali, sem entender, conhecendo a sensação que comumente classificamos como "Medo". O "frio" era seu único modo de interpretar a famosa "tremedeira" até então.

Existem 'medos' e 'medos'. 
Até bem pouco tempo atrás meu medo era acordar e ver-me viver mais um dia sem ter o que fazer. Digo, desde que enfiei na cabeça que sempre explorarei o mínimo lampejo de ideia criativa que possa se tornar ideia material, sobretudo artisticamente, sempre tenho o que fazer. Mas chegou uma altura lá por março deste ano que esse ritmo para os dias já não bastava. Precisava de interações sociais mais amplas, de contatos, de uma rotina temporal e, evidentemente, de dinheiro. Era medo de acordar e passar mais um dia sem um mínimo tostão para qualquer coisa que quisesse fazer. Era medo de acordar e ver que na caixa de entrada, novamente, ninguém havia retornado as dezenas de e-mails enviados com curriculuns. Era medo de mais um dia sem que o telefone tocasse com qualquer proposta para fazer qualquer coisa dentre aquelas que me tornei apto para realizar e ser remunerado. Era medo de levantar da cama e sentir-me um inválido social. Mas hoje preciso dar foco a outro medo.

'Este' Medo.
O medo de dar certo. O medo de alcançar o que outrora foi anseio. O medo de abdicar do que é porto seguro em nome do que é mar (um pouco) aberto. O temor sob a forma de "Será que quero mesmo?". Essa é a martelação constante dos últimos dias. O medo de dar certo. 
Foi em 2004, no auge dos meus quinze anos. Nutria já a algumas semanas curiosidades e interesses por conhecer uma garota e, como filho pródigo de uma sociedade sexista, beijá-la à boca (auge da atuação sexual que eu desenvolvia na época). Sabia e sentia que dela emanava o mesmo desejo, mas não conseguíamos simplesmente nos beijar - em uma casa desprovida de adultos, eu e ela sozinhos na sala assistindo um filme qualquer, algum outro adolescente gritou da cozinha: "Vocês parecem duas tartarugas querendo se beijar". De fato. No dia seguinte fomos ao PlayCenter (que os deuses da especulação imobiliária e do entretenimento o tenham) e, enfim, trocamos o beijo, enquanto dividíamos o carrinho na subida da montanha russa. A descida veio, e o beijo se desfez. Nos beijamos suados pelo sol da manhã e por ele, o medo. 
Medo de que o beijo não fosse tão bom quanto o papo, medo de que o beijo, ainda que prenunciado como desejo através de diversos signos por ambos, fosse negado no último instante, e desta negação nascesse o sentimento de rejeição, invalidez social (novamente). 
Insegurança. 'Este' medo. É este o medo. Por mais que passe anos desejando algo, que passe meses o planejando, que os pedregulhos pelo caminho tenham me feito desejar de maneira tão intensa - a ponto de por vezes acordar do sonho e desejar tocá-lo - quando parece que está para chegar o momento, a respiração é mais profunda, a hesitação ocorre. 

Questões do medo.
Será que é isso mesmo?
Será que quero realmente abdicar desta realidade com a qual já me acostumei em nome desta nova realidade a ser construída?
Será que todos os fatores estão certos para que nada dê errado?
Será que não estou metendo os pés pelas mãos?
Será que não estou colocando a carroça na frente dos bois?
Será que é isso mesmo que quero para a minha vida?
Será que isso é realmente algo tão grandioso assim a ponto de fazer-me não mais dormir tão bem assim? 
Será que deixei de dormir pois vejo-me próximo de tocar os sonhos de outrora?

Respostas ao medo.
O medo de acabar este texto. O medo de responder às questões. O medo de querer voltar atrás. O medo de desistir. O medo de... vocês lembram daquela frase do Renato Russo, não? O medo por ver-me transitar entre o "Hesito" e o "Êxito". Superar o primeiro, parece ser o caminho mais seguro para o segundo. 
Domingo, Dois de Fevereiro de Dois Mil e Quatorze. A cortina do quarto dela balançava pelos sopros frescos que amenizavam a sensação de forno naquele cômodo. Deitados em um colchão pequeno abaixo da janela, assistíamos aos movimentos da cortina, sentíamos a brisa do vento, observávamos o céu azul com poucas nuvens brancas - realizar esta descrição deu-me uma saudade tremenda do clima derrotante do verão. Timidamente falávamos daquilo que estava ocorrendo: minhas malas fechadas para voltar a ser paulistano, para iniciar uma jornada acadêmica em outro campus, para seguir a vida por outro rumo que, sabíamos, tinha tudo para nos afastar (como afastou). 
Hesito. Lembro-me do suor frio daquela tarde, da vontade de abrir mão de tudo. De desistir de pegar a carona que me traria a São Paulo, de não fazer a matrícula deixada para ser feita em cima da hora (pois queria fazê-la com total segurança e certeza e sem medo). Vontade de desfazer as malas. De relocar a casa cujas chaves havia entregado para a inquilina seguinte fazia poucas dezenas de horas. 
Foram meses construindo aquele momento. Aliás, foram meses trabalhando para que ele chegasse, e quando ele chega... Medo. 'Este' medo por seguir em frente, pela dita  "Próxima etapa". 

Nova jornada. Nova casa. Nova cidade. Novos locais. Novas pessoas. Nova rotina. 

ou

Desconhecida jornada. Desconhecida casa. Desconhecida cidade. Desconhecidos locais. Desconhecidas pessoas. Desconhecida rotina.

É curioso como 'neste' medo o trânsito entre o que atraí por excelência - o desconhecido, as novidades - é o que atemoriza por essência: o desconhecido, as novidades.
Sábado, um de março de dois mil e oito. Típico sol quente de verão a nascer em fim de madrugada já quente. Na garagem de casa um carro que foi pego emprestado (por ter porta malas mais amplo) era entupido com artefatos de uso doméstico: colchão enrolado, edredom, roupas, rádio, uma mesa desmontada... Encostei-me no portão, de costas para a rua e de frente para a traseira do carro, a porta aberta, as minhas coisas ali, todas empilhadas, amontoadas. Suspirei, não nego: "Será que quero mesmo fazer isso? Será que quero mesmo passar esses tais 'próximos anos' nessa tal 'Marília' frequentando essa tal 'Unesp' para fazer esse tal curso de 'Ciências Sociais'? 
Hesito versus Êxito. Independentemente do que se decida com relação ao primeiro, isto é, acatá-lo ou não, pode-se ter êxito no que se construiu adiante, pois a vida continua, lá ou cá. Desistir de algo é optar por outro algo. Tivesse eu hesitado em voltar para São Paulo em 2014, certamente teria êxito em outros algos pros lados Marilienses, e isso seria fruto do que se decidiu perante o hêsito.
Paralelos que não chegam a ser paradoxos. Contrários que não chegam a elucidar uma contradição. Talvez estejam todos os opostos conectados, portanto, formando círculos, pois empenhados em um mesmo objetivo: viver uma vida gostosa. O hesito e o êxito são, justamente, a busca qualitativa pelo que pode haver de mais refinado no que se entende como "Vida gostosa". 
E é por conta disso que sempre fui indeciso, entendo hoje, sempre busco compreender ao máximo qual será a situação da vida que repercutirá maior prazer, maiores sensações boas. 
Indecisões brabíssimas, pois qual sorvete me proporcionará maior prazer ao lambê-lo: um de chocolate amargo ou um de moussé de maracujá? Note, o sorvete amargo de chocolate doce, é um extremo quase oposto ao sorvete azedo de fruta azeda com um toque de doçura. Ainda que ambos sejam gelados, ainda que ambos sejam doces e ainda que ambos irão gerar-me um prazer, embora distintos. A questão sempre é: "Qual prazer quero sentir hoje?", isso em se tratando dos sabores que eu mais gostava na Lunatta (sorveteria cremosa de Marília), pois há outras questões do gênero. 
Por exemplo, em um de fevereiro de dois mil e quatorze, o meu questionamento era: "Qual prazer quero sentir nos próximos anos?". O que envolvia, sabia também, uma série de outras questões, todas intercambiáveis entre si: "De quais pessoas irei me afastar? De quais pessoas irei me aproximar? Quais espaços deixarei de frequentar? Quais espaços passarei a frequentar? Quais sabores provarei? Quais dissabores provarei? Quais caminhos farei? Quais caminhos deixarei de fazer?". Isso, pensado na situação do sorvete, é simples (e muitas vezes terminei por o resolver pedindo uma casquinha com duas bolas, o que me gerava uma terceira sensação de prazer: sentir na boca a fusão do amargo de chocolate doce com o extremo quase oposto, o azedo de fruta azeda com um toque de doçura), mas pensado nos caminhos da vida a longo prazo... são longos instantes de suspiros - indecisos, claro.

Medo nada mais é do que vontade de dar certo. Tanta vontade, tanto desejo, tanto certo, tanto bom, tanto gostoso, tanto tudo, que dá medo de não ter, não ser.
'Este' Medo, fazia tempo que não o sentia - 1274 dias, para ser preciso.  Três anos e lá vai Corintias de certezas e medos distintos a preencher os meus dias. Cansaços, tristezas, trabalhos, felicidades, rolês, manhãs semi desfalecido pelos excessos, desejos, contemplações, descobertas, destruições, laços... Mas 'este' medo, que talvez seja o símbolo não de uma virada de página, mas de uma passagem entre volumes distintos de um desses livros megalomaníacos publicados em volumes, fazia tempo que não o sentia. E, não nego, estava com saudades. Vida que anda, vida que segue, vida que vale. Sem temor perante os medos. Com todas as vistas ao êxito, sem medo do hesitar.

Ps.: acabei o texto e tô indo tomar sorvete.

Esperando o trem em dois mil e dezessete pensando no medo em meio a um denso momento de hesitação.
 
Pisando na lama sem medo em dois mil e treze em meio a um momento de festa pelo êxito.

Colocando quadros na parede em dois mil e oito após um êxito, após uma hesitação e entre um hesitar e outro. 


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Eu nunca vou sarar dessas saudades? - V


[É impossível não dizer que este texto é também uma continuidade deste aqui].
Pois é, os dedos que escorregam a tela do celular levam os olhos a uma rápida sequência de imagens de um evento com algum convidado que rolou naquele salão, ou "Anfiteatro", para usar o termo correto e nobre. Puxa vida. Barbudos sentados nas cadeiras de couro esverdeado, cabeludas com blusas coloridas, educadores de longa data cujas assinaturas timbram minha oficialização para trabalhar no que trabalho e cujos nomes me remetem a momentos mais ou menos inesquecíveis. A mesa longa, alta, com uma extensa madeira, simples, lisa, funcional e bem preservada, é a mesma. 
Foi impossível não me recordar daquelas assembleias lotadas e fervilhantes que fazíamos lá, em que, dado instante, nos levantávamos e tirávamos todas as cadeiras para que nos largos degraus recobertos de uma madeira fina pudessem caber mais e mais estudantes. Exercício de democracia na prática.
E o dia em que mordi uma daquelas cadeiras assistindo a um show do Luca Bernard? 
Isso tudo aconteceu pela manhã, quer dizer, nas primeiras horas que passei acordado nesta sexta-feira em que lhes escrevo. Lá pelo meio da tarde, sem entender ao certo a razão, bateu uma ampla vontade de ouvir essa música aqui. Comecei a cantarolar, e então liguei um equipamento eletrônico com wifi para ouvi-la, e entendi algo novo sobre tudo isso que aconteceu, acontece.

LUGAR     SEGURO 

É isso, é para esse tipo de local que minha mente me leva nesses insuportáveis momentos de saudades. Foram anos questionando, "Eu nunca vou sarar dessas saudades?", 2014, 2015, 2016 e um trechinho de 2017 não nego, pois a saudade doía, insuportável não é adjetivo exagerado. 
Recordar-me do salão, da música, das pessoas, de tudo isso que aconteceu naqueles anos - 2008, 9, 10, 11, 12, 13... - é lembrar-me de que existem lugares seguros, de que já estive neles, de que sinto-me em um deles por ora e de que sei traçar caminhos para neles chegar. 
Que anos insuportáveis, logo após anos imensuráveis, foi impossível não me apegar aos locais seguros para me confortar e resignar a seguir adiante...
Eu nunca vou sarar dessas saudades, por mais que construa referenciais de segurança por outros locais e pessoas. Nunca irei sarar delas, e a elas, outras tantas se juntarão. E, honestamente, isso me soa algo esplêndido nesta sexta-feira.



 

sábado, 1 de julho de 2017

Primeiro olhar.


Você entra em um lugar em que nunca foi, ou passa por um local em que seu corpo nunca havia estado. Todos os sentidos do corpo estão ali, experimentando a sensação do novo. Pode ser um novo marcante - "O meu primeiro dia de trabalho aqui..." - ou um novo ordinário - "Vamos parar o carro nesse posto para usar o banheiro...". Todos os sentidos experimentam aquela novidade, no entanto, é pelo olhar que entramos e deixamos o tal novo ser sentido por nós (digo por mim, claro).
O primeiro olhar sobre um espaço é marcante, ele nos guia perante o desconhecido. É o conhecer, a curiosidade por querer conhecer, o não saber por onde ir. Paramos para usar o banheiro no posto na beira da rodovia, mas não sabemos onde são os banheiros, e temos de escanear com a vista todo o espaço até bater os olhos em uma placa que, certamente, terá uma seta e o escrito "Banheiros" ou "Sanitários". É sobre esse movimento, essa escaneada inicial, que quero falar. 
Não me recordo ao certo quando comecei a realizá-lo ciente da possibilidade demarcadora para a vida que ele possuí. Todo modo, passei a sempre que vou a um local desconhecido olhá-lo com atenção, buscar os mínimos detalhes que puder encontrar. Depois, quando eles se tornam conhecidos, consigo, vez e outra, olhar para os mesmos ambientes, os mesmos objetos e recordá-los em minha memória imagética como eram enquanto "Novos", isto é, destituídos da condição de "Conhecidos", "Rotineiros", "Comuns". 
É gostoso, vez e outra, em um ambiente ao qual já estou familiarizado, olhar para um cantinho e me recordar de quando o olhei pela primeira vez, de como ele me soou estranho. Olhar ao desconhecido com a consciência de desconhecido faz-me criar na mente uma imagem crua de algo que pode vir a ser cozido. E recordar-me desta imagem após um tempo de frequência ao espaço faz-me ter noção do quanto estou, justamente, familiarizado com ele, do momento exato da virada entre um antes e um depois (que se configura enquanto "Agora"). 
Por quantas vezes desci a rampa da Unesp de Marília? Frequentei a casa com ares diários por cerca de cinco anos, houve dias em que desci e subi aquele caminho de concreto cinco, seis vezes, houve dias em que o evitei. Mas é inegavelmente não exagerado dizer "Passei por aquele caminho mais de mil vezes", e ao recordar-me dele consigo separar na cabeça uma passagem qualquer, da primeira passagem, quando o percorri para realizar a matrícula sob o nascer do sol de Fevereiro de 2008. Consigo recuperar, no video tape mental, a partir da lembrança, a sensação do desconhecido: "Será que aquele prédio lá embaixo é onde farei a matrícula? O que será que há nessas salas aqui à esquerda? Olha a biblioteca... Será que o mato é sempre alto assim? Parece que tentaram esculpir uma galinha naqueles arbustos". Tudo isso se tornou a minha rotina (e as minhas saudades), mas antes de ambos, ainda consigo revisitar - talvez em razão das perguntas - os olhares estranhados daquele jovem naquele amanhecer.


Estou há dois ou três meses dando aulas em um colégio. Meu primeiro olhar sobre ele foi para entregar uma cópia de Curriculum. Não fui além da secretaria. Quando me chamaram para a entrevista me apresentaram todo o colégio, e notei a estranheza de quem o fazia com os meus inquietos movimentos de cabeça, tentando olhar tudo quanto fosse possível. Não são cem dias frequentando o espaço, e no último sábado, quando rolou a festa junina - e os corredores, gramados e salas receberam outros usos e objetos - notei como os espaços já me são familiares, como já formulei na mente mapas da escola, e já me acostumei a sair da sala do primeiro ano e não virar imediatamente à esquerda, onde há uma pilastra (na qual me choquei nos primeiros dias).
O primeiro olhar, é passar de olhos que só faz sentido quando há o segundo, o terceiro... É olhar que faz perceber, ainda que sem a noção marcadamente  calendarística, a passagem do tempo e a vivência (talvez "Aproveitamento") dele em espaços distintos. Estranhamento e familiaridade. Olhos atentos revelam sutilezas do viver entre locais que, por ventura, deixamos escapar. 



Ponteiros de nós mesmos.


No universo social em que vivemos, urbano, capitalístico e apressado em razão de um e de outro, em que a grande massa da classe trabalhadora entope as avenidas, ônibus, trens, metrôs, estações, terminais etc, entre as seis e as oito da manhã para chegarem ao trabalho conforme a fábula cronométrica aprisionadora da hora local/global para a jornada diária da batente exploração, seria um ultraje dizer "Nós acordamos cedo". No nosso contexto próprio e específico, dos dias em que você bate o cartão bate a impressão digital para registrar "Cheguei", entre as doze e a uma da tarde, que coincidem com os mesmos dias em que eu não trabalho (que até bem pouco tempo eram o pesar lógico de todos os meus dias), é cabível dizer que "Nós acordamos cedo, às onze da manhã". É cabível dizer que "Acordamos cedo", pois "Dormimos tarde", isto é, nossos cronogramas de exploração cotidiana não seguem à risca a mesma jornada da grande classe trabalhadora, e, por vezes, é frequente que se chegue em casa do dito "Local de trabalho" apenas por volta de nove e pouco/muito da noite, quando, no universo social em vivemos - urbano, alienado e capitalístico (um em razão do outro e outrem em razão de ambos) - a grande massa da classe trabalhadora já entorpeceu-se por completo nas fábulas como anestesiantes cerebrais com formatos de "Notícias" e "Novelas". Chegamos tarde, dormimos tarde, e é a relação com estes conceitos moldados conforme as nossas rotinas que definem: "Acordamos cedo", ainda que para a maioria, que segue o relógio do capital, o nosso "Cedo" seja obscenamente "Tarde". Nesses dias subimos a rua juntos, "Agora ela está mal passada, quando chegar lá em cima estará no ponto", pois nosso destino é o ponto de parada dos ônibus que você espera e escolhe: se há pressa, isso é, se tardamos com relação ao nosso próprio cedo, você pega qualquer um para adiante pegar outro; se não há pressa, isto é, se estamos adiantados ou a par com nossos referenciais temporais, temos algumas unidades de minutos em meio à carícias e conversas (em geral bobeiras, de fazer os demais ao redor, quiçá pessoas que se embebem nas tramas pseudo românticas das anestesiantes novelas, direcionarem olhares tortos ao puro amor ainda jovial de pracinha de interior) enquanto você espera um ônibus específico, que lhe leva direto ao metrô. No momento em que o coletivo chega - independente de ser aquele de sua preferência, ou aquele que é "Qualquer um" - trocamos um retocar mais ou menos rápido de lábios, lhe dou um empurrãozinho em direção à porta, um ato transformado em hábito e em tradição elaborado ainda nos ditos "Primeiros dias" dessa aventurança que temos vivido nos últimos ano e onze meses, em que você, para diminuir a tristeza por cessar o nosso "Estar juntos", sugeria que nos empurrássemos no instante do "Tchau" - o ato tornou-se hábito e tradição pois é frequente que eu também sinta leves sopros de dores ao vê-la partir ou ao fazer-me partir. Ocorre que, após o retocar de lábios e o "Empurrão-adeus", vejo-me novamente sozinho no mundo, isto é, sem o amparo fantástico de vossas gracinhas e sorrisos e beijos e lampejos inapagáveis de menina linda, e preciso "Descer" o que outrora "Subimos", e o faço sempre driblando a sensação de "Estar sozinho no mundo", trocando-a por um "Tenho uma parceira no mundão", que é comunicado aos meus sentidos sob a forma de: lamber os lábios a fim de sentir o doce que ficou do teu doce retocar de lábio com o meu; revisitar na memória os nossos momentos juntos na última manhã, madrugada, noite, dia; esticar-me para ver-te dentro do ônibus e, como é tônica desde o instante em que nossas trajetórias se cruzaram, trocarmos uma gracinha, neste instante, visual. Nos momentos anteriores, os quais arquivo na memória (após a gracinha, e durante a degustação labial) pouco importou toda a teorização que pôde ser feita, ou qualquer noção de temporalidade social ou particular. Trancamos a porta por medo, e nesses dois metros quadrados de quarto, independente do tic tac do seu relógio, somos ambos ponteiros de nós mesmos; minutos, segundos, horas que suspendem quaisquer noções de "Cedo", "Tarde", "Logo", "Devagar"... Pílulas concentradas da temporalidade da vida que apenas desejo serem vividas assim, eu tic, você tac, nos encontrando a cada voltinha.

 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Bananas Nucleares.


Aconteceu que havia uma banana sobre o prato macio recoberto por um pano liso em tom de rosa limpo limpíssimo "Mantenha limpo". Já descascada, apenas repousava em cima do prato uma bela banana prata. A tragédia começou a ocorrer, isto é, a primeira etapa de ato que pode ser classificado como "Trágico" pois ocorrido no sentido oposto do que deveria ter ocorrido, quando a outra banana, também já descascada, mas não prata, e sim talvez quem sabe nanica mesmo, foi colocada ao lado dela. Duas sínteses do reino dos frutos distintas que estavam ali sobrepostas ao lençol em tom de rosa limpo limpíssimo "Mantenha limpo" e divisando um colchão. Dois corpos ladeados, um pouco sobrepostos. A segunda etapa nos procedimentos desgraçadamente trágicos iniciou-se com a ação de força exercida por um grande garfo de dentes prateados. Quatro dentes de metal suavemente pressionados contra as duas bananas nuas de casca, e mexe daqui, mexe de lá, a segunda tragédia corroeu-se por sobre o prato dito colchão. As duas bananas misturaram-se por completo, já não se sabia mais o que havia sido prata e o que havia sido nanica. Já não se sabia o que eram sementinhas e o que eram fibras. Já não se sabia a qual casca pertencera cada banana, pois já não mais existia "Cada banana", e sim uma massa uniforme composta por duas bananas em estado de completa infusão alheia entre si. Por livre e espontânea vontade, dois corpos carregados de sentidos e significados biológicos, históricos - e, por que não, artísticos. Fusão completa, saborosa, tornando o lençol em rosa tom de limpo limpíssimo "Não o mantivemos límpido, mas foi por uma ótima causa, veja bem meu bem, se isso não é amor, o que há de ser?".

Uma vez compreendido o processo vivenciado e saboreado, pode-se tomar fôlego racional empírico para seguir adiante. E seguimos. Ladeados, iluminados por uma luz alaranjada de fim de tarde de outono, caminhávamos por uma pista de madeira. É difícil acreditar nisso pois antes tenho a certeza de que não haverá futuro, pistas feitas de tábuas de madeira como essas, pois acredito que não nos deixarão futuro por viver. Não no sentido de que não "Caminharemos juntos", mas sim no sentido de que, bastardos, derreteram geleiras, edificaram riquezas, queimaram a camada de ozônio, acabaram com a terra que germina sementes que faz nascer árvores para que exista madeira para que as poucas porcas quantidades de elites que edificaram a riqueza derrubando árvores, humanos, animais, rios, pés de bananas tenham pistas de madeira... Não nos deixaram vida. Não nos deixaram palavrões impugnados por dizer - "Será que alguém ainda hoje em dia fala 'fazer amor'? Será que quando meus amigos e minhas amigas começarem a ter filhos e filhas e eu for visitar as crianças terei que deixar de ser assim desbocado e terei de falar, quando as crianças estiverem por perto, 'Vocês tem feito amor?' em vez da clássica questão 'E aí, tem me tido?'". São muitas questões, a cabeça foi longe. Sentado na tal pista de madeira - que creio que no vocabulário elitista se chama "Deck" -, com as pernas penduras e os pés na água do rio, de mãos dadas com você, me peguei pensando como será esse futuro, pois não nos deixarão futuro. "Grandes merda", eu respondi, "Não falar 'tem me tido' perto das crianças para que elas cresçam sem malícias ou putarias. Grandes merda ter vocabulário e mentalidade límpida, pueril mas não ter uma porra duma floresta saudável, não ter uns pés de banana orgânicos para experimentar o que é uma banana sem agrotóxico, não ter uma porra dum rio bacana como esse para pôr as pernas...". Foi então que notei que na verdade, eu conversava comigo que, por sua vez, conversava com um terceiro. Note, eu estava deitado sobre a cama, e me imaginava sentado no tal "Deck" de tábuas de madeira, e era outra pessoa, que estava na cabeça dessa pessoa que estava na minha cabeça quem conversavam. Há um detalhe temporal por ser descrito nesta esquizofrenia, o eu mental era o eu mental do futuro, dialogando com o eu eu mental mental do futuro futuro e comigo. Por fim, em termos de futuros, afirmo - lucidamente - "Pode não haver futuro, grandes merda, pode não ter havido futuro, grandes merda! Mas que a linha tênue do final da porra toda seja ouvindo uma música tão fantástica como essa, e como massa esmagada de bananas, o fazer mesclado ao seu corpo. Pois, como disse aquele outro eu de outro passado, 'Se isso não é amor, o que há de ser?'".


Foto: Deusa.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Resignado com a ladeira.


"Resignado" é um termo cujo sentido prático fui entender apenas recentemente. Uma explicação das mais pedagógicas em um domingo de manhã sob o chão marrom de quadradinhos azulejados da cozinha de casa. "Resignado" foi termo que bateu à porta das minhas ideias, também recentemente, em uma conversa repleta de angústias destrutivas em uma conversa sob o chão de azulejos retangulares cor de creme na casa de um irmão: "A molecada hoje parece estar já resignada com o capitalismo, e eu não consigo me aceitar nesse modelo, não consigo eu mesmo me resignar com isso", foi dito.
Quando comecei a percorrer a cidade de São Paulo, aliás, parte dela, de bicicleta, minha onda era elaborar caminhos mais suaves. Por bons meses me recusei a ter trajetos convencionais ("O caminho de sempre") para tentar outros que pudessem ser mais eficazes, mais curtos, com menos subidas, com vias mais seguras em que estivesse menos exposto à insanidade daqueles & daquelas que de trás de seus volantes ignoram a existência de outros. Ainda faço isso, o prazer de passar por uma rua desconhecida é-me causador de grande satisfação. Às vezes me dou mal, passo por uma rua em que os demais transeuntes não me olham com bons olhos, chego em uma rua sem saída, dou de cara com uma energúmena subida, e, em última instância, mas que já ocorreu um par de vezes, erro o caminho, dou meia volta e pedalo até o ponto onde posso retomar o trajeto dito convencional.
Um dos trajetos que mais me fez fuçar nos mapas on line e na pedalagem urbana para encontrar a escapadela duma subida lascada foi para sair da casa de minha mãe. Posicionada no topo de uma ladeira íngreme daquelas em que se sobe bastante, sem diminuir a inclinação, no meio do caminho há uma curva, e após está, outra subida, de angulação ainda mais inclinada. Na base da ladeira, configurada então como descida (pois estou me referindo a quando vou embora), há uma plana avenida, no centro da qual há um córrego - aliás: a avenida foi construída nas margens do córrego, é importante nos lembrarmos das etapas corretas dos processos destrutivos sem escrúpulos de urbanização. E para alcançar a avenida que compõem-se como rota central da maioria dos meus trajetos, tenho de subir outra ladeira, o morro oposto ao que ela mora. Penoso exercício para as coxas, panturrilhas, barriga e ombros, devo dizer.
Pois foi tentando escapar dessa penosidade que conheci diversas vias da região, uma mais íngreme que a outra, uma mais extensa que a outra. Uma inegável geografia de planície ao centro e relevos ao redor que se estende por quilômetros, a sul e a norte, e que não me deixa escolha: mais cedo ou mais tarde terei de enfrentar alguma subida lascada. 
Não há como fugir da ladeira. Respiro fundo, "Resigno-me" perante os metros de asfalto em inclinação, jogo a marcha lá em baixo - marcha número um nos trocadores esquerdo e direito, e vamos lá. Pedalo sem pressa, evitando fazer força. Ando pouco, mas ainda assim estou andando. As pernas reclamam, como não, mas sigo no movimento. "Devagar e sempre", diz o ditado. Os carros passam rasgando ao meu lado, diminuindo a marcha e soltando barulhos escabrosos. Não fosse a ladeira, o trajeto de trinta minutos seria feito em quinze. Houvesse um trajeto mais plano por seguir, o caminho seria menos penoso, menos doloroso...
Recordo-me bem de qual foi o momento da vida em que respirei fundo e pensei comigo mesmo: "Bom, não tem jeito mesmo, para saborear os meus afazeres prediletos terei de encarar chibatadas no lombo". Sem saber, estava me resignando com o capitalismo. As chibatadas doem, mas fazer o que, até o momento ainda não encontrei outro caminho, e já me deparei com subidas piores, ruas sem saídas e becos hostis o suficiente para saber que, por ora, tudo bem passar um tempo em marcha lenta, haverá o tempo da velocidade, do vento na cara, de abrir os braços e pedalar destemido com força máxima assobiando algum tema espontaneamente composto.
Os azulejos quadrados e retangulares são testemunhas oculares barrosas, cerâmicosas, de que entendi o que é resignação e de que ela pode não ser algo tão ruim assim.


segunda-feira, 29 de maio de 2017

A grande teoria da personalidade que irradia.


Mas, na verdade, esse é só um esboço de uma teoria que ainda não se mostra como tal, tampouco que demonstra indícios de que irá se tornar grandiosa ou, meramente, grande. Bom, mas, sigamos adiante: há uma ideia em curso, e há práticas correntes que dialogam com a ideia, o que me faz compreender que, factualmente, há uma teoria por vir.
Trata-se de personalidade, aquela construção individual-social que é comum ser outorgada à composições genéticas e a posicionamentos lunares, estrelares, planetares. Mas não creio nisso não. Também não creio em dedo de santo, benção de anjo, sopro divino ou olhar de entidade. Personalidade, ao meu compreender, é uma camada bem grossa de cimento, uma fileira de tijolos, outra de cimento, e outra fileira, e assim sucessivamente até formar uma parede, então outra, então outra, mais uma e tem-se um cômodo, aí entra a porta, outro cômodo, diversas fileiras, diversas paredes, janelas, espaços vagos; móveis em imóveis. Personalidade é construção. 
Puxadinho é o nome popular que se dá para a construção extra, aquele quartinho a mais, aquele pedaço subtraído do quintal ao qual são destinadas fileiras de cimento e tijolos para que se torne metro quadrado de uso prático e objetivo. Puxadinho é a irradiação da construção, proliferação em sentido não negativo, expansão. 
É inegável que a personalidade, enquanto construção, pode não ver limites. E mesmo quando na construção primeira da casa não foi previsto a necessidade daquele "Quarto de fundos", ou mesmo que tenha sido pré-estabelecido: "Vamos primeiro erguer a casa, deixa aquela terra batida atrás, depois a gente cimenta, depois vê o que faz". E assim segue-se a construção. As irradiações no terreno são finitas conforme a metragem. As reconstruções, igualmente: "Vamos derrubar essa parede aqui, e deixar aberto o caminho por aqui agora para que os cômodos da construção sejam menos distintos e mais próximos, interajam".
Mais um andar, mais alguns cômodos. O quarto dialoga com a sala que tem passagem para o banheiro cuja janelinha tem de ficar afastada da cozinha que permite acesso ao quintal por onde se passa pela janela do quarto e se chega à sala novamente.
A construção da personalidade se irradia pelo tempo de vida, personalidades emergem em um mesmo corpo tal qual paredes e cômodos em um terreno fértil à construção civil. E isso parece-me uma teoria plausível, talvez, se devidamente desenvolvida, pode vir a ser uma grande teoria sobre a personalidade que irradia, talvez não - depende de qual personalidade a desenvolver, bem como, de em qual cômodo da casa for armazenada. Fato pontual é que talvez demolir casinhas espontâneas para erguer prédios idênticos seja estratégia para amortizar personalidades frente à uniformidade, talvez, guardar cada personalidade num cômodo a ser acessado cada qual no momento específico, seja restringir a proliferação (novamente, não pejorativa) de mais e mais e mais e mais encontros e personalidades irradiantes possíveis.


terça-feira, 2 de maio de 2017

Os números mudaram.


Olhei a tela brilhante do caixa eletrônico a cegar os meus olhos de recém acordado que ainda não havia tomado café ou comido qualquer cream cracker mas já estava na rua. Sete e vinte e oito da primeira manhã que atrela frio e chuva assim de repente bem nos nossos ossos. "Não é possível", gaguejei. Lá no fundo da farmácia, escala improvável naquela manhã, realizada apenas em razão do letreiro luminoso, embora estivesse desligado, a frente da mesma que indicava a presença do caixa eletrônico, uma jovem mulher olhava para mim. Deve ter algo a chamar a atenção quando uma pessoa entra no estabelecimento em que você trabalha brigando com um guarda chuva que se recusa a fechar, derrubando uma mochila ao chão, em seguida uma carteira e, por fim, praguejando as mangas duma camisa. Deve-se dedicar alguma atenção, sobretudo em termos de criar uma cautela prévia, para este tipo de sujeito - e, fato inignorável, tratava-se dum estabelecimento comercial, cuja única funcionária presente era uma mulher, com um homem esquisito entrando em meio à uma sociedade das mais machistas. Todo o tempo que passei de frente ao caixa eletrônico notei que ela me olhava - de certa forma a frase é flexível: "Todo o tempo que passei de frente ao caixa eletrônico olhava para ela". Ao tornar o cartão para a carteira, cutuquei um par de moedas de cinquenta centavos e uma de um real, "Meu desjejum será alguma bolachinha, se é que se vende bolacha por dois reais numa farmácia burguesa fincada em coração de bairro burguês". 

-Bom dia.
-Bom dia.
-Você tem algum tipo de bolacha?
-Não.
-Algo de dois reais para comer?
-Tem barrinha de um nove nove.
-Vou levar uma. 
 Saí da farmácia carregando a imagem do riso dela. Lhe expliquei o que ocorrera, da maneira mais sincera possível, e consegui, desta maneira, dissipar a tensão causada pelo meu comportamento bizarro.

Mais tarde naquela mesma manhã, em que parecia haver menos chuva e mais frio do que duas horas antes - o que é uma meteorologia controversa, visto que havia sol a esquentar os lombos que enfrentavam a rua - parei em um mercado para realizar algo próximo dum desjejum mais digno do que os copinhos de café e as bolachas de mar em miniatura (ou lágrima em versão expandida) que consumi na sala dos professores. Passei por outro caixa eletrônico: "Não é possível", gaguejei novamente. Pelos corredores do mercado, passeei em busca do que comporia a minha atrasada "Primeira refeição do dia". Olhava prateleiras, olhava produtos, olhava etiquetas e, diferentemente da última vez que passei por aqui, na semana passada, situação em que tinha a lista de compras claramente definida na cabeça ("Duas bananas da mais barata, um pão francês e três fatias de mortadela, se der mais do que quatro reais terei que deixar as bananas...") permiti ao meu corpo (o que incluí a mente) caminhar pelos corredores. 
Bolachas, Fandangos, Refrescos, Bibidas, Ovos de Páscoa, Colombas (era "quarta feira santa"), Mortadelas, Pães com queijo em cima, Mini Churros, Frutas importadas, Bananas distintas, Massa fresca para macarrão saboroso, Iogurtes diversos, Molho de tomate em frasco de vidro, Pão de queijo à granel, Pertences para feijoada, Sessão de alimentos "Orientais", Bacalhau... 
À perder de vista o tempo caminhei pelo mercado, observei uma mágica e espantosa realização que saltava à vista a partir das etiquetas: os números mudaram. Etiquetas amarelas - ou em laranja gritante, quando se trata de pseudo promoções - com impressões em tinta preta com o nome do produto e a quantidade de dinheiro em reais que deve ser entregue a quem trabalha nos caixas para chamar tal produto de "Meu" passavam por uma transformação. Foram esses números, os impressos em preto, que mudaram, que passaram a me comunicar outras mensagens, ter outros significados e, por que não, representar outro tipo de valor. 
Encarei a etiqueta que demarcava o preço de um saquinho com mini broas de milho, era como se o laranja gritante tivesse se tornado um salão, e o erre, o cifrão, o quatro, a vírgula e os dois noves dançassem algum ritmo festejantemente latino. Os noves faziam um joguete de passar pra cá, passar pra lá, voltar, rodopiar. O quatro, solitário entre uma vírgula e um ésse cortado por duas barras verticais, tentou puxar o érre para movimentos ritmados do corpo, mas foi negado, e se concentrou em assistir os movimentos dos noves, depois começou a se divertir com a vírgula, que ria a cada tombo do quatro. Isso se repetiu adiante, noutras etiquetas, e era incrível: os números mudaram.

Ainda na farmácia, antes do passeio pelo mercado de etiquetas mudadas, enquanto pagava pela barrinha de um nove nove, contei um curto trecho da história para a moça, foi meu modo de justificar por que fiquei boquiaberto ante o caixa eletrônico, derrubei meus pertences e arregalei os olhos: o simples parar no caixa eletrônico reconfigurou todo o sentido daquele dia, deixou de ser apenas mais uma manhã, ou mesmo a primeira manhã do ano que combina frio e chuva, para se tornar a manhã do dia em que caiu o meu primeiro salário após nove meses sem ter dinheiro pingando fixamente em conta, não esperava receber o pagamento naquele dia, e ao ver tal somatório de dinheiro (menos de um salário mínimo) atrelado ao meu nome, à minha pessoa, não nego que senti perversa emoção, convertida, no mercado de mais tarde, em um par de pão com tiras de queijo derretido em cima, sete fatias de mortadela ouro para recheá-los (pedi a mortadela, inclusive, por gramas, e não por fatias), um iogurte de morango, cem gramas de mini churros, cem gramas de pão de queijo, duas bananas prata e um bombom. Os números, representações de preços, mudam conforme os adquirimos e podemos pagar por eles, e isso, no demarcar das etiquetas, soa como uma festa, a perversa festa do capitalismo falido a nos proporcionar alegrias fugazes, mas um pouco saborosas - "Deve ter algum tipo de droga nessa mortadela ouro, que bagulho gostoso", gaguejei. 


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Memória & Movimento.


A internet contemporânea e as redes sociais virtuais nos fornecem excelentes dispositivos de memórias. Digo, vocês, usuários, como eu, sabem que todo dia aparece lá na grande rede social virtual o que você postou naquela data em anos anteriores. Às vezes são coisas ruins de lembrar, como que em três de abril de dois mil e treze publiquei um texto referente a um ocorrido no final de semana anterior, em que um conflito doméstico causado em razão duma "Amizade", vista por um lado da moeda como indevida, se fazia presente na grande rede social, e isso fez-me, acidentalmente, ficar desnorteado em minha própria casa, bater com a cabeça na pia e cair em sono confuso no colchão jogado ao chão da sala - tudo descontroladamente um "Acidente", como já havia ocorrido no meio de março daquele ano, e ocorrera outro no início de maio, e o Facebook sempre me lembra, ano a ano, de todos eles. No entanto, o dispositivo de recordações virtuais também traz à boca do estômago da memória sabores os mais límpidos e cristalinos com açúcar de confeiteiro polvilhado em cima e creme saindo por todas as laterais. Como que em três de abril de dois mil e quatorze - incrível a velocidade com que mudamos nossas vidas na juventude, talvez esse seja um dos traços do 'ser jovem' - saí todo serelepe da loja oficial do Marília Atlético Clube com um par de ingressos para o jogo do dia seguinte, ou mesmo, inverti a sequência lógica da coisa, em três de abril de dois mil e quatorze desembarquei na rodoviária daquela cidade. Foi curiosa a sensação ao 'ver' esta memória - lembranças são matérias não palpáveis, 'coisas da cabeça', que o dispositivo da rede social torna em 'quase' tocáveis - por meio da foto da rodoviária que tirei ainda de dentro do ônibus. Memória sensitiva sempre me puxa pelos calcanhares. Recordei-me da rotatória e da "Subidinha" que há nos últimos metros do trajeto, na via que conecta uma avenida, cujo nome já não me recordo, à entrada restrita aos ônibus. Recordações de quando viajava de madrugada, e acordava assustado com o ônibus diminuindo a velocidade, e ter de recolher meu cobertor correndo para descer antes do ônibus seguir viagem ou ir para a garagem. O dia em que, nesta situação, viajando de madrugada, desceria na parada anterior, em Vera Cruz, no entanto, cansado (voltava de São Paulo após alguma das etapas do processo seletivo para o mestrado) apenas fui acordar em Marília, aliás, apenas fui acordado na rodoviária final da linha, por um funcionário da empresa de ônibus, se fosse a linha que segue trajeto até Tupi Paulista, seria lá que me acordariam. A primeira lembrança que tenho da cidade, em si, do meu corpo, do meu eu em Marília, é na rodoviária - de formato peculiar: seria um OVNI, um chapéu mexicano ou de bruxa? - no começo de fevereiro de dois mil e oito, para matricular-me na universidade. Viajei de madrugada (eram seis horas de viagem) e lá cheguei junto do amanhecer de um dia de verão, entendi de pronto o que era o calor naquela região do estado, conheci o aroma de baunilha exalado pela fábrica de bolachas e uma das "Pragas anuais" da cidade, a infestação de gafanhotos. Rodoviária é movimento. "É assim a vida é movimento". E, talvez, por ter esse entendimento Dead Fishiano da vida que, hoje, nenhuma dessas lembranças teve sabor de 7x1. Não doeu. Não, não sarei dessas saudades - eu nunca vou sarar dessas saudades, já tomo isso como uma afirmação quase dogmática, mas, dessa vez, sairei da internet sem ter o coração dolorido. Não doeu, não machucou, não deu vontade de pegar a bicicleta e sair correndo pedalando Castelo Branco a dentro até a Marechal Rondon e depois pelos 94km da João Ribeiro de Barros até avistar a rodoviária. Não deu vontade de tentar arrumar qualquer emprego, bico, atividade remunerada e/ou acadêmica que o valha por lá e voltar, de ônibus mesmo, só com uma mochila e umas lágrimas lavando o rosto para o paraíso perdido de minha memória, o oásis de felicidade irrestrita em minha experiência no mundo. Já senti isso noutros momentos, é verdade que depois a coisa voltou, pudera, outras tantas refrearam o movimento que se esboçara (me parece que dessa vez não ocorrerá o mesmo). Por ora, a vida andou, anda, a vida se movimentou e os grilhões que, de certa forma, estacionaram tal libertação no passado recente, já foram superados, vencidos (preciso, inclusive, ir lá buscar o certificado). Hoje, três de abril de dois mil e dezessete, tenho outro percurso compondo a principal tarefa de minha semana, não é a coisa mais importante para mim, mas é relevante, está no curso dos acontecimentos planejados na linearidade dos investimentos que realizei na vida e vai me pagar algum dinheiro após trinta dias, o que, a considerar o período vivido anteriormente (de "Seguir o jogo" com poucas moedas) representa grande alívio. Já não há mais, especulo, motivos para me lamentar por uma rotina gostosa perdida: o dia a dia, a cada dia, volta a ser saboroso, não preciso mais viver à sombra das memórias de um "Outrora" de sabores mil frente a um cotidiano assassínico, fétido, chafurdantemente xarope. A vida é movimento, e, enfim, parece que as coisas voltarão/am a caminhar. Às saudades, à cidade, aos percursos, à rodoviária, ao estádio de futebol, à universidade, ao bar, às pessoas, existe um enorme banco, de madeiras nobres e bem envernizado em meu coração, e vocês estão nele sentados.

quinta-feira, 30 de março de 2017

A grande verdade sobre a base da pirâmide.


Às vezes, me parece, no turbilhão desesperador que são os acontecimentos cotidianos em meio à precariedade urbana do capitalismo tardio, em um país abertamente reentregue à situação de "Eterno subdesenvolvido", esquecemos da grande verdade sobre nossas situações e condições básicas, primeiras de vida.
A grande verdade é que o capitalismo não são os comerciais de papel higiênico, cheios de personagens caricatos e piadinhas subliminares sobre o ato, vivido como tabu, de "Fazer cocô". Antes disso, o capitalismo é sobre o rapaz alcoolizadamente tonto que entrou no metrô. Suas calças não lhe cabem, ele não usa cinto, nem nada nos pés, seu corpo exala um aroma fétido e ele se tornou uma ilha no vagão: ninguém quer ficar perto dele. Fala sozinho, ou consigo mesmo, não consegui diferenciar, e dentre as coisas que disse, essa, nitidamente não foi nem para si nem para ninguém que em seu corpo habita, mas sim para nós, que dele mantivemos distância: "Fede né, bosta fede, não tinha papel. Nunca tem papel na Barra Funda". Experiência própria: nunca tem papel higiênico nos banheiros da Barra Funda.
Me parece importante, já que mencionei o metrô, um meio de transporte,  recordar que o capitalismo é menos sobre as situações descontraídas vividas numa concessionária de carros entre um vendedor solícito, esperto, de língua afiada e um comprador famoso (um ator da moda, uma cantora em alta), de quem o primeiro tira uma castela no fim do comercial, antes da oferta ser anunciada. A coisa toda na base da pirâmide é muito mais sobre as caras amassadas em tristeza, sono e exploração às cinco e cinquenta e cinco da manhã no 8528, linha de ônibus que corta a zona noroeste de São Paulo, com destino final no centro da cidade, despejando toneladas de mão de obra barata ao longo de seu percurso. O capitalismo é sobre a massa amorfa parada no lado direito da escada rolante.
O capitalismo é sobre uma pessoa qualquer que cruzou o meu caminho numa manhã de sexta feira no segundo semestre de dois mil e quinze. Eu ia de bicicleta para uma reunião na universidade que frequentava naquela época, quando notei um rebuliço entre carros, motos e um homem e uma mulher na calçada. Esses últimos pediam aos motoristas que parassem, e andavam entre os veículos, olhando para o chão. Quando entendi o que acontecia, larguei a bicicleta na calçada e me juntei ao homem e à mulher. A pessoa qualquer que cruzou o meu caminho nessa situação era a que dirigia um carro, e não quis esperar que eu ou o homem ou a mulher retirássemos de debaixo de seu veículo um filhote de gato. O motorista acelerou, quase atropelou minha mão, prestes a pegar o felino, que não teve a mesma sorte. Ele exalou seus últimos suspiros em minhas mãos. Passei o dia na universidade com as roupas sujas de sangue, e a terrível imagem na mente. Capitalismo é mais sobre essa situação, aquele/a motorista e o gato morto, do que sobre Whiskas Sachê.
Capitalismo, aqui pros lados das nossas vielas, é menos sobre o gigantesco império dos fabricantes e vendedores de armas e mais sobre o ímpeto de "Resolver" problemas por meio do assassinato; é sobre precisar dum revólver velho para intimidar alguém a lhe entregar uma bolsa, uma carteira, um celular. É muito mais sobre as pessoas que roubam e revendem celulares, que os roubam e trocam por droga, sobre as pessoas que fabricam celulares, do que sobre a pequena parcela que compra os melhores aparelhos, seja em uma ou em doze parcelas.
Capitalismo, reforço, sobretudo aqui para os nossos lados - não se esqueçam, "Ainda somos colônia, se alguém aqui não percebeu" (Surra, "Não tem boi"), e a tendência para os próximos anos é que voltemos a ser, cada vez mais, mera periferia fornecedora de matérias primas no mundo - é sobre violência, exploração, ausência de recursos, desigualdades, deslealdades, queima de arquivos, abusos sexuais, alcoolismo, os mais diversos riscos de vida. Estar dentro dele, para cima da base da pirâmide, tem seus inegáveis sabores, seus incontáveis problemas, porém, suas impossíveis escaladas - recordo-me da tirinha jovial liberal que dizia: "Socialismo e igualdade é legal, mas só o capitalismo fabrica essas televisões de 100 polegadas", e a resposta racional esquerdista: "Quem propaga essa tirinha tem dinheiro para adquirir essa TV?". 
Gosto de olhar a arquitetura das casas nas periferias, elas são representações de criatividade, de lucidez para lidar com a escassez, mas são também, antes de tudo, símbolos fidedignos do que é estar na base da pirâmide do capitalismo: "Tenha um lugar para dormir, à salvo do frio e da chuva, não nos importa onde ou como ele seja, e amanhã esteja aqui às sete em ponto, se não você vai mais pra baixo ainda na base da pirâmide". Capitalismo é muito mais sobre as milhões de casas populares que, apinhadas entre si, ao longo de muitos quilômetros na zona leste, subvertem as leis da física, do que sobre a dita "Casa do povo", milionária, arrumadinha, brilhando reinante no alto dum pequeno morro  na mesma região da cidade.
Estar na mais larga base da pirâmide social proposta e erguida pelo sistema capitalista é constrangedor, desesperador. É babar dormindo apoiado na parede do trem e acordar envergonhado, olhando ao redor para se certificar de que "Ninguém viu". É embaraçoso, mas já se tornou cultural, e isso é estarrecedor: a miséria, e os artifícios sociais elaborados para nela sobreviver, tudo isso tornou-se uma enraizada cultura.  Das vielas urbanas, irônica, mas necessariamente mal urbanizadas, às plantações de café, é desesperador caminhar pelos corredores mais básicos (pois na base) e mais esquecidos deste, neste, por este sistema falido. No entanto, todos esses adjetivos são essenciais para a manutenção do sistema e da pirâmide.
A propósito, parece que fui chamado para dar algumas aulas de Filosofia em um bom colégio para lá dos limites territoriais da cidade de São Paulo. De certa forma, ao entregar os documentos que me oficializam como responsável pelo cargo, em uma função remunerada, ainda que com pouco dinheiro, deixo de pertencer às seguintes categorias capitais e/ou grupos sociais: "Desocupados", "Sem renda" e "13 milhões de desempregados". 
Segue o jogo.  


 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Não existe psicologia plausível aqui.


Lembro que tinha uma época em que o meu café da manhã eram os barbitúricos. "Tome um comprimido logo ao acordar, uns dez, quinze minutos antes de comer algo". Por pouco mais de doze meses (talvez doze meses e duas semanas) isso se tornou algo religioso. "Se você se sentir muito ansioso, afoito, nervoso com algo, tome um ou dois desse e procure fazer algo relaxante em seguida". Ainda bem que eu nunca mais vi esse cara.
Teve uma época também, já quase remota, são lembranças em preto e branco com borrões e queimados no filme, que às terça e/ou quintas - na verdade acho que teve um tempo que foi às terças, e outro tempo às quintas - que eu ia em um casarão lá pros lados de Santana. Foi na época em que li "O menino no espelho" pela primeira vez, tanto que as cenas que formulo do livro se passam naquela casa. Tinha um vasto jardim à frente, com uma escada de cimento, uma sala escura "De espera" e uma montoeira de outras salas, cada qual com seu fim e um preço de aluguel específico. Os tipos de profissionais que alugavam os cômodos eram, em geral, "Da saúde". Era um quarto grande o que eu frequentava, o "Da frente" na casa e "De frente" para a rua. Tinha uma mesa, um sofá (depois descobri que o sofá chamava "Divã") e um monte de jogos. Não fazia sentido para mim aquilo ser algo sério, digo, era um lugar relativamente longe de chegar, e eu ia lá passar uma hora fazendo jogos com uma mulher que ria e anotava o que eu dizia. Não fazia o menor sentido, e acho que não fez a menor diferença, visto que eu não sabia quais processos estavam em jogo ou deveriam estar.
Teve um tempo que essa canção tinha um efeito psicológico inegável. Andei muito para frente ao escutá-la repetidas vezes e pensar, sem risadinhas, nos meus próprios atos.
Foi por livre e espontânea pressão alheia que cheguei àquela casa. Um pouco me arrastando, um pouco caminhando, não tive problemas para localizar o endereço no mapa da cidade: "Dá pra chegar com um buzão só, e ir e voltar na mesma passagem". Era um casarão também, talvez "Uma casa", e não "Um casarão". O quarto era pequeno (ou talvez eu que tenha crescido) e tinha menos atrativos do que aquele que frequentei quinze anos antes: uma mesa, um divã, três poltronas, uma mesinha (sempre com caixa de lenços e cinzeiro) e uma janela que dava para a rua. O maior atrativo daquele cômodo era o homem que sentava na poltrona próxima à mesa. Era paciente, embora não fosse o paciente, cagava para barbitúricos e me fez boas perguntas. Chorei duas vezes na frente dele, a primeira foi ao contar essa história, e a segunda ao contar algo próximo dessa aqui. Usei os lenços por duas vezes, e o cinzeiro nunca usei. 

Não existe psicologia plausível aqui.

Dessa vez não existe inquietação infantil que necessite de algum tipo de acompanhamento. Também não existe pressão externa para um problema inexistente. Tampouco existem tensões sentimentais incompreendidas. Nada disso. É tudo muito claro. 
-Pega a metralhadora.
-Que metralhadora?
-A metaforalhadora 

É tão claro quanto piscina de casa de rico com a água bem tratada e os azulejos bem escovados.
É tão claro quanto arcada dentária em comercial de pasta de dentes.
É tão claro quanto plástico filme de embalar frutas semi comidas.
É tão claro quanto a pureza branca do produto final da folha passada na gasolina transformada em pasta e em cristais.
É tão claro quanto a operadora de celulares.

-Tá bom já?
-Sim.
-Continua então. 

Longe de assinar um atestado de anuência ao discurso escroto burro anti humanitário que diz que qualquer problema psicológico se resolve com uma inchada, olho ao redor e não tenho dúvidas: todas as fezes que entopem os intestinos cerebrais (inclusive a própria mania, cada vez mais crescente, de falar de fezes) são facilmente defecáveis por meio de seis horas diárias de ocupação, alternadas em seis dias de operação por um de descanso, ou seja, 24 a 25 dias no mês, com remuneração ao término do período. É só isso. Não tem psicologia, não tem problemas, não tem semânticas, não tem arcabouços, não tem reflexões, não tem profundidade, não tem braçadas. É simples assim. E por que é simples? Pois vivemos num sistema em que isso é o central para qualquer porra que você quiser fazer em ou da sua vida.
"Quero ter uma banda". Tenha um emprego. "Quero comprar tintas". Tenha um emprego. "Quero voltar a ter autonomia e deixar de morar com meu pai". Tenha um emprego. Por que é com um emprego que você pode ter capital para pagar essas coisas. Não é maravilhoso? Não. Mas como não tem jeito:

ME
ARRUMEM
UM
EMPREGO
CARALHO
!!!!!!!!!