sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Moleque maroto é babaca ou bobo?

Moleque maroto deitou-se na cama pitando calado.
Escuro. Escuridão total. Silêncio nenhum.
Nunca.
Silêncio longe de mim.
Esta noite revisitei-me. Um museu.
Disperso por anos a fio...
"Isso aqui... faz metade da minha vida já...".

Moleque maroto deitou-se na cama calado.
Um minuto que não chegou a dois.
Longe disso, de mim.
Nunca foi assim,
Por que haveria de ser justamente agora?
"Fico feliz por nos ver por aqui,
Desbravando esses horizontes todos,
Conquistando algumas coisas,
Não são grandes,
Mas não são as mínimas,
São coisas, e isso me basta
(Vide o nome que carrego/criei)".

Eletricidade sempre foi assim.
Um crânio rachado,
Uma testa cortada,
Braço retalhado,
Ossos afetados,
Pessoas machucadas,
Corpo cortado.
Movimentos falhos,
Por toda vida.

Entendi em algum momento do qual me recordo bem o que é 'ter conduta' e o que é 'ser conduta' e entendi em qual lado quero sambar sem medo entendi e isso contribuiu para que medo a medo esmorecessem os temores quase que por completo para que pudesse-se sem deixar de ser moleque maroto brincalhão "Cuidado com o barulho do portão" (dizia meu avô) seguir a vida a pleno pulmão.

Pitando calado na cama deitado maroto moleque,
"Vai dormir,
Sem fantasma pra perseguir,
É melhor ser bobo,
Que babaca".
 
 

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O auge obscuro que hoje se faz.


Esqueci a porta do micro ondas aberta. No meio da sala, sentado na cadeira de praia - a qual foi apelidada de "Cadeira Presidencial", por ser o assento mais confortável da sala - me perdi em pensamentos encarando a luz acesa e a porta com micro furos. 
O século vinte foi aquela avalanche de inovações no ramo das tecnologias, dos eletrônicos, das telecomunicações e afins. Concordo com as afirmativas que dizem que o mundo, as distâncias, ficaram menores depois da invenção do telefone, da televisão, da internet, do celular... 
Fechando as notas do bimestre em que estudei com o nono ano a ditadura militar no brasil, fiquei espantado com as notas altas. "Será que fui muito 'mão leve' nas correções?". Revi provas, alguns trabalhos e vi que não: a rapaziada entendeu os problemas, as divergências, as tretas e as resoluções. Alunos que tem sabor pela baderna - pequenas bagunças durante as aulas - entenderam que em uma ditadura não há espaço para a sorridente piada com o colega ao lado. 
"Se estamos no auge dos tempos, por que tanta angústia?". É meu caro Rodrigo. Estamos sempre no auge dos tempos. Meus avós se surpreenderam, lá pelo ano 2000, ao atenderem o telefone em casa e ser o filho deles, falando de Buenos Aires, em um telefone celular: "Parecia que ele estava ali na esquina", falou minha avó na época. A gente sempre acha que o nosso tempo é o auge dos tempos.
Então, parei para ler as notícias. Parece uma confluência (talvez dialética) perniciosa, mas não me furto do raciocínio: o desenvolvimento dos meios de telecomunicação foram deveras úteis para que um acontecimento local ganhasse proporções globais, imagens de massacres ditos desumanos correram o mundo 'ao vivo' em 1994 (o que não ajudou muito em sua resolução, apenas ficou-se sabendo), o desenvolvimento dos meios de telecomunicações, agora, cria os novos massacradores, eleva as probabilidades dos torturadores pois, putz, os meios de comunicação (e os juristas também) criaram já uma sentença.
O presidente da quase ex potência mundial é famoso pois tinha dinheiro suficiente para controlar os meios de comunicação. A mídia que controlou os rumos do país, decide quem será o próximo presidente. Plantaram uma semente de araçá e esperavam colher  alecrim para temperar os legumes, agora precisam forjar um ser mal cheiroso - mas famoso, está na TV há 20 anos... - para que sigam temperando o nosso tempo, a nossas vidas, conforme desejam alguns poucos.
A massa pode ser reprovada no exame de habilitação veicular por deixar o carro morrer, ou esquecer de indicar as setas necessárias. A massa jamais será reprovada por errar o teste de baliza, ela é boa como manobra.
Na esquina da rua em que moro desde agosto tem um terreno grande, com uma área construída bem ampla, mas, chuto, dois terços do terreno serve como estacionamento para carros igualmente grandes. Gente de alta cúpula, profissões que não dizem "Sim, senhor", apenas o ouvem. E, imagino, pessoas que se encontram na esquina da rua em que moro para decidirem de que maneira temperarão com bons aromas o rapaz a ser arrumado para que o que deve dizer se torne palatável, de que maneira achar as provas corretas contra o já definido culpado, de que maneira podem se valer do auge dos tempos para que se mantenham no auge no momento em que a montanha russa começa a descer a sua mais íngreme ladeira. 
Eu bebo muito. Quando tinha dezessete anos isso era uma virtude, hoje em dia é um problema. Tenho consciência disso. Todos meus amigos, minhas amigas, meu amor que passam por isso tem consciência disso com relação às vidas deles. Ninguém acha legal contar moedas para comprar bebida no fim do mês, mas ninguém quer deixar de gastar notas com bebidas desde o princípio do mês. A questão é que beber é um problema, mas, hoje em dia, neste auge nefasto dos tempos obscuros (amanhã virá outro, e depois outro...) beber todos os dias é o menor dos problemas. "Você prefere morrer de cirrose aos trinta e cinco ou enclausurado num porão todo fodido, arrebentado, torturado, esquecido, nome queimado, ossos derretidos, por conta de suas convicções políticas?". Ainda farei essa pergunta pra galera.
Enquanto converso com um amigo pela internet, a porta do micro ondas ainda aberta, a luz ainda acesa, me lamento: "É uma pena que o Brasil vai acabar em 2018, estava com planos muito bacanas para os próximos anos". Deu vontade de enfiar a cabeça no micro-ondas ligado, potência máxima, e deixá-lo girando até que meus miolos explodam. Depois alguém resolva as pendências com a imobiliária por mim, por favor.
 

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Teoria da Salada.


Questão:
Quando se coloca salada, composta por distintos itens (por exemplo, cenoura crua em rodelas grossas, couve manteiga em tiras grossas e pepino em rodelas finas) em um prato ou refratário mais ou menos plano, e se tempera a salada, a ordem dos elementos no refratário interfere na qualidade/intensidade dos temperos em cada um dos alimentos?

Desenvolvimento Prático da Questão:
Me parece que a ordem dos elementos de uma salada pode interferir na composição do sabor final de cada alimento, variando conforme a exposição aos temperos lançados. No caso do exemplo acima mencionado, as rodelas finas de pepino foram colocadas diretamente sob a superfície do refratário plástico (dito "Tupervare"), acima delas as tiras grossas de couve manteiga e, por cima das tiras, as rodelas grossas de cenoura.
Observo que as rodelas de cenoura exercem pressão, por meio do peso, sobre as tiras de couve, o que gera certas "Montanhas" de couve no refratário - algo que se assemelha a esta bela paisagem no município de Cambuí/MG:


Temperarei a dita Salada com vinagre (um líquido pouco espesso), azeite (um líquido denso e espesso) e sal (um pó branco, cristalino, fino), e, parece-me, que a "Formação Geográfica Montanhosa Couvística", favorecerá que o vinagre, menos denso e espesso, escorrerá com maior facilidade até o pepino - gosto do pepino trabalhado no vinagre. 
O azeite, por sua vez, líquido grosso e denso, dificilmente passará pelas folhas grossas de couve, some à espessura da folha de couve, seus 'veios', que possivelmente impedirão que boa parte do azeite escorra. 
Sobre as rodelas de cenoura, reinando triunfantes como o único tom vivo e não pertencente à escala do verde (cor que vocês sabem que eu desprezo) na tigela, cabe mencionar sua composição salínica. A cenoura é um legume adocicado, requer mais sal para que não transforme a salada - dita experiência sal(g)ada para abrir o almoço - numa experiência "Sal(g)adoce" ("Saladoce", a rapaziada da gourmetização deve usar essa palavra). Não gosto da cenoura muito doce. Por isso, me parece que polvilhar o sal por cima de todo o ecossistema criado na tigela, favorecerá que a cenoura absorva maior parte do sal ou que eu direcione mais sal por salpicada para cada rodela, o que favorecerá que o sal se misture ao azeite e ao vinagre e escorra por entre as tiras da couve.
Um entrave, no entanto, há na relação do pepino com o sal. Parece-me que pouco sal chegará a ele com esta disposição dos alimentos na tigela e na colocação dos temperos - e gosto do pepino salgado e envinagrado.

Conclusão: 
A ordem dos alimentos conforme colocados no refratário coordena qual será o grau de intensidade de tempero nos alimentos. Chegou-se a tal conclusão após experimentar-se a salada preparada e temperada conforme disposto acima. Menciona-se, por outra via, que deixou-se os elementos componentes do tempero escorrendo e agindo por cerca de dez minutos na salada - período em que se estruturou o artigo que aqui se apresenta. Por fim, uma vez provada a salada, notou-se que havia, como suposto, pouco sal no pepino, o que gerou certo desagrado sentido a partir de minhas papilas gustativas. Para contornar tal problemática, em um primeiro momento aplicou-se mais uma rajada de sal sobre o ecossistema saladístico e, em seguida, com a força depositada sobre o garfo, mexeu-se toda a mistura.

Teoria sobre temperamento de Salada.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

À nossa humanidade!


Esse ano foi difícil, complicado. Sem emprego, sem perspectivas por um bom tempo. Nossos encontros, cafés, almoços e pizzas no verão chuvoso, que se estendeu até o fim de março, eram pequenos oásis naquele meu cotidiano seco, arrastado, desocupado que você tão de perto acompanhou.
As histórias que me contava, aliás, que sempre me conta, de tempos distantes, épocas de outras "Crises" - "Não tinha combustível na década de 1940" - e a recuperação delas, proporcionavam-me boas esperanças, um bom conforto em meio ao caos - e não nego que vez ou outra a visita para o café ou "Só uma passadinha" foram estratégias para acalmar o coração.
No fim de março, junto com o fim do verão, as coisas mudaram. Voltei a ser, no sentido prático da palavra, professor, e passei a frequentar Mogi das Cruzes, cidade que é cenário de muitas das suas histórias de infância.
Passei a frequentar espaços que você cita em memórias. A escola que seus irmãos mais velhos frequentavam, da qual um deles certa vez tentou, sem sucesso, escapar de um dia de aula. 
A rua em que você morou - a sua casa, em que se apoiava na janela para conversar com os professores de francês que passavam pela calçada e lhe ensinaram os primeiros "Oui's", já não existe mais, virou um estacionamento. Mas não me privo de sempre que passo por lá imaginá-la, em passos de criança, perambulando em brincadeiras por ali (talvez da forma como eu, por tantos anos, perambulei por brincadeiras na "Sua rua").
Passei a vivenciar, também, situações que lhe são tão vividas nos relatos frequentes dos tempos de professora: "Tive que aplicar uma prova encardida...", "Estou com os diários de classe atrasados...", "Vou com os alunos em uma excursão...".
Por outro lado, e isso me chateia, deixei de estar próximo de ti nos afazeres do cotidiano atual. A agenda semanal de sobe e desce para fazer um monte de coisas sempre. Os olhos piscados em tom de deboche para a filha que sugere que pare de dirigir, e que se tornam olhos de deboche para mim também, pois eu concordo com ela, embora te entenda... Deixei de presenciar também os risos e as novidades: o que aconteceu na última viagem, quando será a próxima, para onde será o próximo passeio, qual a novidade na lojinha...

Esse ano começou difícil, não está fácil - e você sabe que eu acho que vai piorar, em muitos aspectos, nos anos próximos - mas melhorou. E melhorou muito, pois, a sua humanidade, do alto dos 39 anos que completa neste Treze de Novembro, formada ao longo de passados, presentes e futuros distintos (para onde a próxima viagem?), ajuda a formar a minha e a encarar esse mundo sabendo usar bem os poucos coringas que caem na mão.  
Feliz Parabéns, Vó.




terça-feira, 7 de novembro de 2017

Panela de pressão.


Conhecer medos, criar receios. Em contrapartida, como humano dotado de sensibilidade e sapiência, criar refúgios, estratégias para não ser atingido pelo que se sabe periculoso. 
Foi em 2008, saía do apartamento em que morava enquanto o rapaz com quem eu o dividia fazia feijão. Ou grão de bico. Fechei a porta, do corredor do condomínio ouvi um estrondo. Voltei, abri a porta, e vi o rapaz acuado na sala. 
Até então, na minha cabeça, "Explosão de panela de pressão" era papo batido, balela, coisa dos tempos de panela de pressão que funcionava à manivela, sei lá ué...
Junte uma péssima lembrança à conveniência, preguiça e um teco de desdém pelo que se diz "Saudável", e nunca usei panela de pressão. Seis anos de universidade em que comia feijão apenas no bandeijão (no nosso campus o chamávamos de "ErriÚ" mesmo, sigla para Restaurante Universitário). Três anos entre a casa da mãe, do pai, como filho sem nenhum espírito santo, que me contentava em comer o que eles faziam - menos por preguiça de cozinhar e mais por impedimentos de usar as cozinhas deles: "Você faz muita bagunça", me diziam dum lado, "Sua comida é gordurosa demais", do outro. 
Mas então ocorreu, e, uma vez consolidada a vontade tantas vezes desejada de tornar à autonomia do lar sem progenitores; uma vez retomada a vida sem bandeijões ou Cínthias (louvável nutricionista do ErriÚ Mariliense) para ter acesso à feijões sem precisar cozinhá-los, foi inevitável: após vinte e oito anos de vida, precisei aprender a manusear a panela de pressão.
"Que depressão...", era o bordão do apartamento que vivi entre 2009 e 2011, à parte algumas épocas, período de longas depressões, movimentos depreciativos contra nós mesmos...
Quando abro a geladeira e vejo que se acaba o feijão temperado, abro o freezer e vejo que já não há mais nenhum ex-pote de margarina, tornado em recipiente para preservar os icebergs marrons de feijão cozinhado, exalo um longo suspiro: "Chegou, novamente, o dia da panela de pressão... E que depressão!".
Recordo-me dos apartamentos de 2008, de 2009. Respiro fundo e sigo em frente. É a panela apitando em cima do fogão, e eu refugiado num canto distante. A casa é pequena - das nove em que já morei na vida (contei hoje), talvez seja a menor - mas encontro um canto distante. E fico lá/cá, refugiado em minha estratégia segura, faço minha parte para não ser engolido pela des-seleção natural: caso ela exploda, creio que daqui não serei atingido.
Conto minuto à minuto, já se passaram vinte e seis, mais quatro e a desligo, amém! Nada consigo fazer ou criar. Trabalhar, pensar, me concentrar. É tudo impossível, absurdo icogitável. São os ouvidos ligados no barulho que me recorda as cachoeiras de Brotas entre 2011 e 12, as máquinas das fábricas nos Distritos Industriais da vida urbana. 
Três e vinte e oito, volto a ser ateu: vou desligar a panela de pressão. 

 

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Bosta - II

[Este texto articula, em tom de prosseguimento de raciocínio, com este aqui chamado "Bosta", que agora se torna "Bosta - I", publicado inicialmente em 21/05/2017 e republicado no livro "A dissertificação de mestragem de Gabriel Coiso", que você compra aqui e lê acessando o blogue aqui de março a junho de 2016. Agora vou começar o texto propriamente, imagine que isto que você leu até agora foi como o vídeo de comercial antes do vídeo no youtube começar; ou mesmo como os trailers antes do filme].

O que diferencia "Época" de "Período"? Esta é a questão condutora em "Bosta - I". A conclusão que cheguei naquele instante é a de que "Época" é algo que está diluído em um "Período". Ou, de outra maneira, existam várias "Épocas" dentro de um mesmo "Período". Digo isso a partir da experiência empírica, e algum ou outro referencial oculto mentalmente introjetado. 
Ocorre que, pensando no assunto por agora - curiosamente a partir de uma foto da mesma época que me levou a esta reflexão um ano e meio atrás - entendi que existe um terceiro fator a ser considerado: o assunto.
Quando penso, por exemplo, "Naquela época eu era bem mais Corinthiano", o que define a relevância do período e a especificidade da época, é o "Ser Corinthiano", algo que ainda sou com veemência (apesar dos pesares do que se tornou esse clube). Ou seja, a intensidade deste tema, "Ser Corinthiano", varia conforme as épocas dentro de um período que ainda se mantém, justamente, o "Ser Corinthiano".
Suponhamos que daqui um tempo (o que não me parece mais tão absurdo ou icogitável assim) não consiga mais aceitar os pesares com apesar, e deixe de ser Corinthiano. Neste preciso ponto haverá uma drástica mudança de períodos, não só de épocas, pois o tema, o assunto deixou de ser relevante, assim, direi/diria: "Teve um bom período da minha vida em que o Corinthians foi a coisa mais importante de minha vida".
Épocas e Períodos, Períodos ou Épocas, para entendermos, nos situarmos com relação a eles em nós, é necessário que tenhamos bem definido, bem recortado, de quais fatores em quais épocas em quais períodos estamos lidando. Pois, é sempre bom não perder de vista, estamos falando da vida enquanto um plano repleto de alterações, mudanças, variações que, sabemos, tem começo, meio e fim.
Assim como o Brasileirão, assim como ainda desejo com toda a força do meu ser que o Corinthians ganhe esse campeonato, pois estamos numa época, dentro do período, em que os pesares ainda são facilmente superados e eu estou com sangue nos olhos.


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Acostumado.


Quando chego no topo de uma subida e venço o semáforo, aproveito a breve planície para reorganizar as marchas da bicicleta, sair do modo "Suave" para o "Força", e, então, saborear a descida da Souza Franco. Por vezes até abro os braços e curto o vento, mas por pouco tempo, é necessário prudência pois há um semáforo, um cruzamento, com ônibus e carros e afins guiados por pessoas cuja índole desconheço. A barrigada é feroz, quase um mergulho daqueles de passeio marítimo em cidade de natureza (semi)preservada quando se atraca a embarcação turística em um ponto qualquer e quem pagou pelo passeio usufrui do momento máximo do mesmo: pular na água. Sensação fantástica. A barrigada no pós descida da ladeira é assim: "Ufa, chegamos, venci mais uma vez essas subidas e saboreei essa descida". Às vezes penso que deve ser bom ter como "última sensação em vida" sentir a sensação de que você mais gosta, ou uma das. Imaginei-me sem prudência, braços abertos, olhos fechados e pláu, o corpo vai ao chão, ou, aliás, fragmentos descolados de um outrora corpo espatifados em vermelho ao chão. Ferros retorcidos. Luzes vermelhas da ambulância, gritos de pedestres, fotos e vídeos nos celulares de curiosos - na rua todo mundo pode receber qualquer definição, depende da conduta. Fim. A última sensação que saboreei na vida foi o vento na cara em uma descida lascada e foda-se o impacto ou a dor, até nesse caso durou menos do que o prazer da descida.E o curioso é notar, nesse pacote todo, como já estou acostumado, como já entendi onde tem que frear, onde dá pra virar e como será mais fácil chegar dependendo de por onde seguir. Eu já tô acostumado, ainda conhecendo, mas acostumado e, tenho certeza, olhando pro outro lado da moeda, já me desacostumei do que tanto me queixei. Segue o barco. Segue a bike.
 

domingo, 8 de outubro de 2017

Observação sobre a morte.


"Atividades de risco" em geral são aquelas que oferecem ao corpo a possibilidade de terminar em maus lençóis. Isto é, que podem causar ferimentos, que podem causar lesões de diferentes graus e, em última instância, podem levar à morte do corpo. Pular de bung jump, pilotar um carro de fórmula um sem os devidos conhecimentos, atravessar a marginal tietê à pé, comer porcarias na rua. Você pode comer dezenas de torresmos e ovos cozidos rosas em botecos e sobreviver. Você pode atravessar as pistas da marginal pinheiros vinte vezes e não ser atropelado em nenhuma delas (se tiver perícia no movimento). Você pode jogar o carro de fórmula um para cima do oponente e sair ileso, caminhando. Mas você pode bater com as dez fazendo algo usual, cotidiano, aparentemente sem riscos, sem radicalidades algumas que sejam, como trocar uma lâmpada em casa se bater a cabeça em uma parede dura, em uma angulação específica e com uma força específica. A morte, me parece, não é uma questão de probabilidades em si, mas antes, de uma intensidade tão insuportável pelo corpo que este para, sucumbe. Nenhuma diferença entre o que outrora foi "Alguém" e uma tora de jatobá cortada caindo na lama, uma insignificante (ou espirituosa) formiga amassada ao chão. Estar atento às intensidades das dores e resmungos das engrenagens deste corpo metáfora máquina é importante.



sábado, 30 de setembro de 2017

Espaço Seleto.


Agência gold, conta especial, cartão cromado. Gerente exclusivo, "30 horas à sua disposição". Cafezinho em porcelaninha direto da maquininha de capsulazinha. "Vale cada centavo... não que eu me preocupe com cada centavo, ou com centavos, meu pensamento segue uma lógica menos reducionista, não caio em armadilhas da prática teórica, ocorre que me preocupo apenas com os grandes cânones na verdade, minhas contas começam quando vejo que há cinco dígitos envolvidos. Costumo mais olhar ao redor mesmo, selecionar uma conduta moral lisa, nada de pisar fora das linhas que eu desenhei". Porta automática, porta giratória, seguranças armados, discrição, carro forte. "Temos um leitor de córnea para lhe dar a segurança de que apenas você terá acesso aos seus valores". Mas o espaço, é seleto - ou você acha que é qualquer batata, cenoura, milho ou ervilha que entra na latinha? Espaço seletíssimo! Mas eis que, rapaziada bacana, arregaçam as mangas, usam todas as engrenagens cerebrais, quilos e quilos de papéis, para colocar em suspenso a legitimidade desses espaços. Cavocam mais fundo: verdadeiros vocábulos sobre tudo o que está errado, proposições sutilmente notáveis (frequentemente incompreensíveis). "Está errado ter espaço seleto assim desse jeito pode não chama uma rapaziada aí pra gente resolver essa questão". "Pode não". "Por que?", "Então, entende, o espaço aqui é meio restrito, não pode ser pra todo mundo sabentende?", "Ah sim, claro, como não. Se for pra todo mundo assim vulgariza o assunto. Com certeza. Está certo. Afinal não dá pra pisar fora da linha nénão?". 

 

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Da nostalgia ao caos.


Salgadinho em cor de amarelo escuro/marrom claro que é massa de milho em formato circular com um furo no meio e sabor artificial de bacon em pacote de papel laminado pequeno na largura e desproporcionalmente grande na altura. Eu sei que ao ler o parágrafo acima você visualizou o pacote de salgadinhos a que estou me referindo. Talvez você tenha até sentido em sua boca o sabor artificial do bacon, o triturar duro de seus dentes contra as pequenas argolinhas salgadas. Talvez tenha até sentido na língua a textura do pozinho que dá o tempero artificial ao quitute. Talvez tenha se lembrado de alguma situação específica em que comeu este petisco - talvez a única, talvez imagine de que sabor estou falando. Olhei-o na prateleira do mercado e salivei. s a l i v e i. Salivei por meio de meu cérebro, meu corpo, minhas memórias, alguma sensação pitoresca e quixotesca (tamanho a desventura do sabor de lembrança que me corroeu). Era dois mil e oito e por alguma razão quando ia de Marília para São Paulo não pegava, no terminal central, o ônibus direto para a rodoviária, mas sim um que me deixava próximo dela e mais próximo ainda de um mercado onde, em geral, quase sempre, eu comprava esse salgadinho para degustar ao longo da viagem. Depois de comprar o salgadinho ia andando até a rodoviária. Olhá-lo na prateleira hoje foi como tomar um raio na cabeça em praia de faixa de areia larga em tarde de chuva tenebrosa. Em uma das vezes, não me recordo ao certo qual, mas devo ter isso anotado em algum caderninho do ano, fui comendo o salgadinho contando argolinha por argolinha, o intuito era o de registrar quantas argolinhas vinham no pacote. É evidente que não me recordo do número. Porém, no tédio da estrada - do ônibus que era sempre frio, que sempre tinha som ambiente de roncos, às vezes transmitia filmes nos televisores anexados no topo dos bagageiros internos, da parada em uma loja de conveniências de altos preços mas de vários encontros pois muitos estudantes viajavam nestes ônibus frequentemente no mesmo horário - fui contando, argolinha por argolinha, e depois, tendo um número total de argolinhas, o dividi pela quantidade de gramas do pacote, e fiz diversas outras contas a partir daquele número. Eu nem curto matemática, mas depois vou procurar esse caderninho. Nunca na minha vida quero esquecer das sensações daqueles dias. As noites em claro achando que seria boa ideia pegar o ônibus das 23h59 para chegar às 5h30 em Marília e ir direto para a aula na segunda-feira. As tardes após a aula nas sextas-feiras voltando por conta de algum feriado ou evento do final de semana. As manhãs após passar a noite em claro em casa pois já havia percebido que passar a madrugada acordado no ônibus era menos rentável do que passá-la desperto em casa e, posteriormente, por toda a manhã, dormir no ônibus (e acordar na altura de Bauru, às vezes até mesmo Garça, e ver aquele infinito de plantações de café em verde transgênico ao redor do ônibus; ou mesmo da época em que Bauru, Garça e Vera Cruz eram nomes apenas de paradas do ônibus, e não locais em si, que conheci, andei, vivi). As madrugadas em que, é, não teve jeito, tive de passar desperto no ônibus para chegar em Vera Cruz na segunda ou terça-feira cedíssimo para dar a primeira aula na escola - não quero esquecer nem da madrugada em que fui acordado já na rodoviária de Marília, antes do ônibus ir para a garagem após perder no sono (e ajudar a compor o som ambiente de ronco) e perder a parada em Vera Cruz; tampouco da manhã no tão longínquo dois mil e nove (de desventuras amorosas e amizadinosas ao desbravar o Jardim Marília e o Alto Cafezal), em que o motor do ônibus quebrou em algum ponto entre Bauru e Marília, e nós, passageiros, permanecemos por quase duas horas ali, na beira da estrada, esperando que a resolução do problema viesse sob a forma de mecânicos e um ônibus vazio. Não quero nunca esquecer destas sensações, destes momentos, daquelas apreensões, tensões, explosões, desejos, viagens, tardes, manhãs, noites, madrugadas. Não quero, e não posso: todos esses sentimentos compõem a minha humanidade, e foi ali que conheci e experimentei muitos deles.

 

domingo, 20 de agosto de 2017

Adubo. Adulto. Beijo.


Entendi que quando se opta por viver partes da vida entre locais distintos, os trânsitos geográficos e temporais se tornam referenciais distintos: de épocas, de pessoas, de locais, de idade etc. Elementos diversos que se encontram e se afastam com o caminhar inevitável do tempo, se você está transitando entre locais então, fica mais fácil ainda de demarcar a relação "Época x Local". Por exemplo: em 2011 morava em um apartamento em Marília, o primeiro semestre junto do Manolos, o segundo sozinho; o primeiro semestre foi a segunda metade em um período de um ano sem beber, foi a época em que comecei a me movimentar artística e coletivamente junto de outrxs, conheci gente nova. Foi uma época de movimentação muito interessante. 
No entanto, esta época, enquanto cruzamento de vários fatores, passou, entrou para a história das vidas. Tanto por conta dos distintos rumos tomados pelas pessoas, quanto pelo fim da existência de alguns espaços, e, falo por mim, pois dali vim pra cá (mudei as geografias de minha vida) e estou prestes a realizar outra dessas mudanças. 
Ocorre que, em razão de toda a sobreposição que há entre tudo o que se viveu - o que somos hoje é produto de aceitações e negações do que fomos, vivemos outrora - aquela geografia, aquele contexto soam tão distantes. Seis anos avoados. E o que assustou-me em pleno amanhecer de domingo é que naquele contexto eu já era adulto. 
Nas lembranças que já considero como antigas, eu já era considerado adulto, já me via desta maneira. Isso foi adubo, alocado na superfície do cérebro para esvoaçar pensamentos por todo um dia.
Não que seja uma surpresa, longe disso, mas... interrompi a escrita, "Qual o problema em se perceber a si mesmo em distintos microcontextos dentro de um contexto maior?". Desci a rua para ir até o caixa eletrônico ver se o salário havia caído, e a questão se elucidou em minha cabeça - já o que fui ver propriamente, bom, voltei para casa sem comer churros.
Sem pressa alguma, o que envolveu estacionar por alguns segundos em frente a um colégio, assisti os jovens saindo de mais uma tarde de aula. Atrás de um orelhão, uma garota e um garoto conversavam com risos e proximidade nos rostos, a poucos metros, três ou quatro meninas assistiam a cena.
"Vai logo Larissa", "Beija ele Larissa", "Larissa, a gente tem que estar em casa até as sete e vinte, anda logo!", foram algumas das frases que ouvi, e que foram suficientes para catapultar-me no tempo e nas sensações - era dia dos namorados.
Ainda me recordo de quando este tipo de tensão pegava-me pelos cabelos. Eu e uma jovem em um pequeno pedaço de chão (talvez dois metros quadrados) atrás da quadra descoberta do colégio, enquanto as amigas vigiavam para ver se vinha algum inspetor, alguma professora. "Vai logo Gabriel", "Anda logo Fulana". 
Ao entender a cena em que estava envolvida a Larissa, entendi parte da questão - ou acho que entendi. 
Me parece comum encararmos com certa "Irrelevância", "Descrédito" ou mesmo "Desdém", vivências de nossa juventude, como fossem questões menores em nossa vida. Como fossem meras passagens para o maravilhoso mundo de realizações e conquistas adultas - em que você sua sem poupar-se para trabalhar, mas o quilo de sal perde o ônibus, e se atrasa. 
Recordei-me da tensão, do sentimento, do "Selinho" que foi interrompido pois um inspetor surgiu na escada. Ponderei: se tornou tão comum em minha vida trocar beijos, que a tensão, a pressa, as estratégias para tal se perderam naqueles tempos de proibições sobre os desejos - talvez tidos como "Precoces" pelos proibidores.
Naquela época eu imaginava que num futuro distante eu beijaria bastante e sem maiores impedimentos, mas não conseguia visualizar essa possibilidade, pois tudo era novo. As mãos suadas, o corpo trêmulo ante o desconhecido - lembro de quando me disseram, na quinta série, que para beijar se usava a língua e fiquei em choque.
Hoje em dia consigo visualizar muito do que ainda está por vir, pois, parece-me, entendi o assunto da linearidade da vida - a qual, parece, não deverá mudar muito conforme as variações geográficas e contextuais que ainda estão por vir, não que eu não espere mais ser surpreendido. Consigo planejar, consigo visualizar, as perspectivas são (quase) palpáveis e muito concretas pois, em meus exercícios de planejamentos, dialogo com o que já é conhecido; o que já foi vivido lança luzes que ajudam a iluminar o futuro - e esse é um dos incalculáveis valores de se estudar história e, num linguajar psicanalítico, "Se autoconhecer". 
Como o ato de beijar, dissipado das tensões e das proibições, tornou-se ato recorrente, cotidiano. O que assusta, no entanto - e talvez isso ocorra por não ver com desdém nenhuma dessas épocas - é certificar-me de que "Caramba, já tem tanto 'tanto tempo' corrido nessa vida, que mal posso esperar pelos próximos tantos".
Assim como mal posso esperar pelo fechamento obviamente clichê deste texto, mas, igualmente, evidentemente repleto de sentido: "Já morei em tanta casa que nem me lembro mais".

Entendendo diferenças [Ou "bastante"].

Ao sair do Maktub no domingo a tarde (20/08) em que saí de casa para espairecer sobre as tretas do mundo ao dar um gole numa bavaria gelada e ouvindo Explosions entendi a sutil/ampla diferença entre Querer morrer fazendo algo que se gosta bastante e Viver bastante para fazer bastante algo de que se gosta bastante
Depois, mais para a frente na avenida, ao me incomodar com a altura do som, o abaixei, e pensei que Entendi a diferença entre querer ficar surdo ouvindo uma banda que se gosta bastante e Querer preservar os ouvidos para ouvi-la por muito tempo.
Entendi várias diferenças de aproveitamentos vido-temporais, e entendi de qual parte quero participar: da que vive bastante para fazer bastante as coisas de que se gosta bastante pois não tem nada mais legal do que fazer bastante as coisas de que a gente gosta bastante. 

 

sábado, 29 de julho de 2017

Ponderações sobre medos.


Medo é sensação complicada, complexa. Tipo de coisa que nos acompanha por toda a vida. Talvez seja o "Lado escuro da lua" do complexo mapa de sensações que temos/somos. Medo. 
Recordo-me duma situação que vivenciei, em que um garotinho de três ou quatro anos viu um gato pela primeira vez. Quando lhe falaram da presença de um gato animou-se em conhecer o animal, no entanto, quando se viu frente a frente com o felino, seu corpo lhe deu como resposta a vontade de ficar longe (tratava-se duma sala relativamente grande, portanto, se o gato estava na ponta de um sofá, o garoto ia para a ponta oposta de um outro sofá). Olhando o gato com muito temor, seu corpo lhe deu como resposta uma tremedeira, a qual o garoto verbalizou: "Eu acho que tô com frio!". Medo. Ele estava ali, sem entender, conhecendo a sensação que comumente classificamos como "Medo". O "frio" era seu único modo de interpretar a famosa "tremedeira" até então.

Existem 'medos' e 'medos'. 
Até bem pouco tempo atrás meu medo era acordar e ver-me viver mais um dia sem ter o que fazer. Digo, desde que enfiei na cabeça que sempre explorarei o mínimo lampejo de ideia criativa que possa se tornar ideia material, sobretudo artisticamente, sempre tenho o que fazer. Mas chegou uma altura lá por março deste ano que esse ritmo para os dias já não bastava. Precisava de interações sociais mais amplas, de contatos, de uma rotina temporal e, evidentemente, de dinheiro. Era medo de acordar e passar mais um dia sem um mínimo tostão para qualquer coisa que quisesse fazer. Era medo de acordar e ver que na caixa de entrada, novamente, ninguém havia retornado as dezenas de e-mails enviados com curriculuns. Era medo de mais um dia sem que o telefone tocasse com qualquer proposta para fazer qualquer coisa dentre aquelas que me tornei apto para realizar e ser remunerado. Era medo de levantar da cama e sentir-me um inválido social. Mas hoje preciso dar foco a outro medo.

'Este' Medo.
O medo de dar certo. O medo de alcançar o que outrora foi anseio. O medo de abdicar do que é porto seguro em nome do que é mar (um pouco) aberto. O temor sob a forma de "Será que quero mesmo?". Essa é a martelação constante dos últimos dias. O medo de dar certo. 
Foi em 2004, no auge dos meus quinze anos. Nutria já a algumas semanas curiosidades e interesses por conhecer uma garota e, como filho pródigo de uma sociedade sexista, beijá-la à boca (auge da atuação sexual que eu desenvolvia na época). Sabia e sentia que dela emanava o mesmo desejo, mas não conseguíamos simplesmente nos beijar - em uma casa desprovida de adultos, eu e ela sozinhos na sala assistindo um filme qualquer, algum outro adolescente gritou da cozinha: "Vocês parecem duas tartarugas querendo se beijar". De fato. No dia seguinte fomos ao PlayCenter (que os deuses da especulação imobiliária e do entretenimento o tenham) e, enfim, trocamos o beijo, enquanto dividíamos o carrinho na subida da montanha russa. A descida veio, e o beijo se desfez. Nos beijamos suados pelo sol da manhã e por ele, o medo. 
Medo de que o beijo não fosse tão bom quanto o papo, medo de que o beijo, ainda que prenunciado como desejo através de diversos signos por ambos, fosse negado no último instante, e desta negação nascesse o sentimento de rejeição, invalidez social (novamente). 
Insegurança. 'Este' medo. É este o medo. Por mais que passe anos desejando algo, que passe meses o planejando, que os pedregulhos pelo caminho tenham me feito desejar de maneira tão intensa - a ponto de por vezes acordar do sonho e desejar tocá-lo - quando parece que está para chegar o momento, a respiração é mais profunda, a hesitação ocorre. 

Questões do medo.
Será que é isso mesmo?
Será que quero realmente abdicar desta realidade com a qual já me acostumei em nome desta nova realidade a ser construída?
Será que todos os fatores estão certos para que nada dê errado?
Será que não estou metendo os pés pelas mãos?
Será que não estou colocando a carroça na frente dos bois?
Será que é isso mesmo que quero para a minha vida?
Será que isso é realmente algo tão grandioso assim a ponto de fazer-me não mais dormir tão bem assim? 
Será que deixei de dormir pois vejo-me próximo de tocar os sonhos de outrora?

Respostas ao medo.
O medo de acabar este texto. O medo de responder às questões. O medo de querer voltar atrás. O medo de desistir. O medo de... vocês lembram daquela frase do Renato Russo, não? O medo por ver-me transitar entre o "Hesito" e o "Êxito". Superar o primeiro, parece ser o caminho mais seguro para o segundo. 
Domingo, Dois de Fevereiro de Dois Mil e Quatorze. A cortina do quarto dela balançava pelos sopros frescos que amenizavam a sensação de forno naquele cômodo. Deitados em um colchão pequeno abaixo da janela, assistíamos aos movimentos da cortina, sentíamos a brisa do vento, observávamos o céu azul com poucas nuvens brancas - realizar esta descrição deu-me uma saudade tremenda do clima derrotante do verão. Timidamente falávamos daquilo que estava ocorrendo: minhas malas fechadas para voltar a ser paulistano, para iniciar uma jornada acadêmica em outro campus, para seguir a vida por outro rumo que, sabíamos, tinha tudo para nos afastar (como afastou). 
Hesito. Lembro-me do suor frio daquela tarde, da vontade de abrir mão de tudo. De desistir de pegar a carona que me traria a São Paulo, de não fazer a matrícula deixada para ser feita em cima da hora (pois queria fazê-la com total segurança e certeza e sem medo). Vontade de desfazer as malas. De relocar a casa cujas chaves havia entregado para a inquilina seguinte fazia poucas dezenas de horas. 
Foram meses construindo aquele momento. Aliás, foram meses trabalhando para que ele chegasse, e quando ele chega... Medo. 'Este' medo por seguir em frente, pela dita  "Próxima etapa". 

Nova jornada. Nova casa. Nova cidade. Novos locais. Novas pessoas. Nova rotina. 

ou

Desconhecida jornada. Desconhecida casa. Desconhecida cidade. Desconhecidos locais. Desconhecidas pessoas. Desconhecida rotina.

É curioso como 'neste' medo o trânsito entre o que atraí por excelência - o desconhecido, as novidades - é o que atemoriza por essência: o desconhecido, as novidades.
Sábado, um de março de dois mil e oito. Típico sol quente de verão a nascer em fim de madrugada já quente. Na garagem de casa um carro que foi pego emprestado (por ter porta malas mais amplo) era entupido com artefatos de uso doméstico: colchão enrolado, edredom, roupas, rádio, uma mesa desmontada... Encostei-me no portão, de costas para a rua e de frente para a traseira do carro, a porta aberta, as minhas coisas ali, todas empilhadas, amontoadas. Suspirei, não nego: "Será que quero mesmo fazer isso? Será que quero mesmo passar esses tais 'próximos anos' nessa tal 'Marília' frequentando essa tal 'Unesp' para fazer esse tal curso de 'Ciências Sociais'? 
Hesito versus Êxito. Independentemente do que se decida com relação ao primeiro, isto é, acatá-lo ou não, pode-se ter êxito no que se construiu adiante, pois a vida continua, lá ou cá. Desistir de algo é optar por outro algo. Tivesse eu hesitado em voltar para São Paulo em 2014, certamente teria êxito em outros algos pros lados Marilienses, e isso seria fruto do que se decidiu perante o hêsito.
Paralelos que não chegam a ser paradoxos. Contrários que não chegam a elucidar uma contradição. Talvez estejam todos os opostos conectados, portanto, formando círculos, pois empenhados em um mesmo objetivo: viver uma vida gostosa. O hesito e o êxito são, justamente, a busca qualitativa pelo que pode haver de mais refinado no que se entende como "Vida gostosa". 
E é por conta disso que sempre fui indeciso, entendo hoje, sempre busco compreender ao máximo qual será a situação da vida que repercutirá maior prazer, maiores sensações boas. 
Indecisões brabíssimas, pois qual sorvete me proporcionará maior prazer ao lambê-lo: um de chocolate amargo ou um de moussé de maracujá? Note, o sorvete amargo de chocolate doce, é um extremo quase oposto ao sorvete azedo de fruta azeda com um toque de doçura. Ainda que ambos sejam gelados, ainda que ambos sejam doces e ainda que ambos irão gerar-me um prazer, embora distintos. A questão sempre é: "Qual prazer quero sentir hoje?", isso em se tratando dos sabores que eu mais gostava na Lunatta (sorveteria cremosa de Marília), pois há outras questões do gênero. 
Por exemplo, em um de fevereiro de dois mil e quatorze, o meu questionamento era: "Qual prazer quero sentir nos próximos anos?". O que envolvia, sabia também, uma série de outras questões, todas intercambiáveis entre si: "De quais pessoas irei me afastar? De quais pessoas irei me aproximar? Quais espaços deixarei de frequentar? Quais espaços passarei a frequentar? Quais sabores provarei? Quais dissabores provarei? Quais caminhos farei? Quais caminhos deixarei de fazer?". Isso, pensado na situação do sorvete, é simples (e muitas vezes terminei por o resolver pedindo uma casquinha com duas bolas, o que me gerava uma terceira sensação de prazer: sentir na boca a fusão do amargo de chocolate doce com o extremo quase oposto, o azedo de fruta azeda com um toque de doçura), mas pensado nos caminhos da vida a longo prazo... são longos instantes de suspiros - indecisos, claro.

Medo nada mais é do que vontade de dar certo. Tanta vontade, tanto desejo, tanto certo, tanto bom, tanto gostoso, tanto tudo, que dá medo de não ter, não ser.
'Este' Medo, fazia tempo que não o sentia - 1274 dias, para ser preciso.  Três anos e lá vai Corintias de certezas e medos distintos a preencher os meus dias. Cansaços, tristezas, trabalhos, felicidades, rolês, manhãs semi desfalecido pelos excessos, desejos, contemplações, descobertas, destruições, laços... Mas 'este' medo, que talvez seja o símbolo não de uma virada de página, mas de uma passagem entre volumes distintos de um desses livros megalomaníacos publicados em volumes, fazia tempo que não o sentia. E, não nego, estava com saudades. Vida que anda, vida que segue, vida que vale. Sem temor perante os medos. Com todas as vistas ao êxito, sem medo do hesitar.

Ps.: acabei o texto e tô indo tomar sorvete.

Esperando o trem em dois mil e dezessete pensando no medo em meio a um denso momento de hesitação.
 
Pisando na lama sem medo em dois mil e treze em meio a um momento de festa pelo êxito.

Colocando quadros na parede em dois mil e oito após um êxito, após uma hesitação e entre um hesitar e outro. 


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Eu nunca vou sarar dessas saudades? - V


[É impossível não dizer que este texto é também uma continuidade deste aqui].
Pois é, os dedos que escorregam a tela do celular levam os olhos a uma rápida sequência de imagens de um evento com algum convidado que rolou naquele salão, ou "Anfiteatro", para usar o termo correto e nobre. Puxa vida. Barbudos sentados nas cadeiras de couro esverdeado, cabeludas com blusas coloridas, educadores de longa data cujas assinaturas timbram minha oficialização para trabalhar no que trabalho e cujos nomes me remetem a momentos mais ou menos inesquecíveis. A mesa longa, alta, com uma extensa madeira, simples, lisa, funcional e bem preservada, é a mesma. 
Foi impossível não me recordar daquelas assembleias lotadas e fervilhantes que fazíamos lá, em que, dado instante, nos levantávamos e tirávamos todas as cadeiras para que nos largos degraus recobertos de uma madeira fina pudessem caber mais e mais estudantes. Exercício de democracia na prática.
E o dia em que mordi uma daquelas cadeiras assistindo a um show do Luca Bernard? 
Isso tudo aconteceu pela manhã, quer dizer, nas primeiras horas que passei acordado nesta sexta-feira em que lhes escrevo. Lá pelo meio da tarde, sem entender ao certo a razão, bateu uma ampla vontade de ouvir essa música aqui. Comecei a cantarolar, e então liguei um equipamento eletrônico com wifi para ouvi-la, e entendi algo novo sobre tudo isso que aconteceu, acontece.

LUGAR     SEGURO 

É isso, é para esse tipo de local que minha mente me leva nesses insuportáveis momentos de saudades. Foram anos questionando, "Eu nunca vou sarar dessas saudades?", 2014, 2015, 2016 e um trechinho de 2017 não nego, pois a saudade doía, insuportável não é adjetivo exagerado. 
Recordar-me do salão, da música, das pessoas, de tudo isso que aconteceu naqueles anos - 2008, 9, 10, 11, 12, 13... - é lembrar-me de que existem lugares seguros, de que já estive neles, de que sinto-me em um deles por ora e de que sei traçar caminhos para neles chegar. 
Que anos insuportáveis, logo após anos imensuráveis, foi impossível não me apegar aos locais seguros para me confortar e resignar a seguir adiante...
Eu nunca vou sarar dessas saudades, por mais que construa referenciais de segurança por outros locais e pessoas. Nunca irei sarar delas, e a elas, outras tantas se juntarão. E, honestamente, isso me soa algo esplêndido nesta sexta-feira.



 

sábado, 1 de julho de 2017

Primeiro olhar.


Você entra em um lugar em que nunca foi, ou passa por um local em que seu corpo nunca havia estado. Todos os sentidos do corpo estão ali, experimentando a sensação do novo. Pode ser um novo marcante - "O meu primeiro dia de trabalho aqui..." - ou um novo ordinário - "Vamos parar o carro nesse posto para usar o banheiro...". Todos os sentidos experimentam aquela novidade, no entanto, é pelo olhar que entramos e deixamos o tal novo ser sentido por nós (digo por mim, claro).
O primeiro olhar sobre um espaço é marcante, ele nos guia perante o desconhecido. É o conhecer, a curiosidade por querer conhecer, o não saber por onde ir. Paramos para usar o banheiro no posto na beira da rodovia, mas não sabemos onde são os banheiros, e temos de escanear com a vista todo o espaço até bater os olhos em uma placa que, certamente, terá uma seta e o escrito "Banheiros" ou "Sanitários". É sobre esse movimento, essa escaneada inicial, que quero falar. 
Não me recordo ao certo quando comecei a realizá-lo ciente da possibilidade demarcadora para a vida que ele possuí. Todo modo, passei a sempre que vou a um local desconhecido olhá-lo com atenção, buscar os mínimos detalhes que puder encontrar. Depois, quando eles se tornam conhecidos, consigo, vez e outra, olhar para os mesmos ambientes, os mesmos objetos e recordá-los em minha memória imagética como eram enquanto "Novos", isto é, destituídos da condição de "Conhecidos", "Rotineiros", "Comuns". 
É gostoso, vez e outra, em um ambiente ao qual já estou familiarizado, olhar para um cantinho e me recordar de quando o olhei pela primeira vez, de como ele me soou estranho. Olhar ao desconhecido com a consciência de desconhecido faz-me criar na mente uma imagem crua de algo que pode vir a ser cozido. E recordar-me desta imagem após um tempo de frequência ao espaço faz-me ter noção do quanto estou, justamente, familiarizado com ele, do momento exato da virada entre um antes e um depois (que se configura enquanto "Agora"). 
Por quantas vezes desci a rampa da Unesp de Marília? Frequentei a casa com ares diários por cerca de cinco anos, houve dias em que desci e subi aquele caminho de concreto cinco, seis vezes, houve dias em que o evitei. Mas é inegavelmente não exagerado dizer "Passei por aquele caminho mais de mil vezes", e ao recordar-me dele consigo separar na cabeça uma passagem qualquer, da primeira passagem, quando o percorri para realizar a matrícula sob o nascer do sol de Fevereiro de 2008. Consigo recuperar, no video tape mental, a partir da lembrança, a sensação do desconhecido: "Será que aquele prédio lá embaixo é onde farei a matrícula? O que será que há nessas salas aqui à esquerda? Olha a biblioteca... Será que o mato é sempre alto assim? Parece que tentaram esculpir uma galinha naqueles arbustos". Tudo isso se tornou a minha rotina (e as minhas saudades), mas antes de ambos, ainda consigo revisitar - talvez em razão das perguntas - os olhares estranhados daquele jovem naquele amanhecer.


Estou há dois ou três meses dando aulas em um colégio. Meu primeiro olhar sobre ele foi para entregar uma cópia de Curriculum. Não fui além da secretaria. Quando me chamaram para a entrevista me apresentaram todo o colégio, e notei a estranheza de quem o fazia com os meus inquietos movimentos de cabeça, tentando olhar tudo quanto fosse possível. Não são cem dias frequentando o espaço, e no último sábado, quando rolou a festa junina - e os corredores, gramados e salas receberam outros usos e objetos - notei como os espaços já me são familiares, como já formulei na mente mapas da escola, e já me acostumei a sair da sala do primeiro ano e não virar imediatamente à esquerda, onde há uma pilastra (na qual me choquei nos primeiros dias).
O primeiro olhar, é passar de olhos que só faz sentido quando há o segundo, o terceiro... É olhar que faz perceber, ainda que sem a noção marcadamente  calendarística, a passagem do tempo e a vivência (talvez "Aproveitamento") dele em espaços distintos. Estranhamento e familiaridade. Olhos atentos revelam sutilezas do viver entre locais que, por ventura, deixamos escapar. 



Ponteiros de nós mesmos.


No universo social em que vivemos, urbano, capitalístico e apressado em razão de um e de outro, em que a grande massa da classe trabalhadora entope as avenidas, ônibus, trens, metrôs, estações, terminais etc, entre as seis e as oito da manhã para chegarem ao trabalho conforme a fábula cronométrica aprisionadora da hora local/global para a jornada diária da batente exploração, seria um ultraje dizer "Nós acordamos cedo". No nosso contexto próprio e específico, dos dias em que você bate o cartão bate a impressão digital para registrar "Cheguei", entre as doze e a uma da tarde, que coincidem com os mesmos dias em que eu não trabalho (que até bem pouco tempo eram o pesar lógico de todos os meus dias), é cabível dizer que "Nós acordamos cedo, às onze da manhã". É cabível dizer que "Acordamos cedo", pois "Dormimos tarde", isto é, nossos cronogramas de exploração cotidiana não seguem à risca a mesma jornada da grande classe trabalhadora, e, por vezes, é frequente que se chegue em casa do dito "Local de trabalho" apenas por volta de nove e pouco/muito da noite, quando, no universo social em vivemos - urbano, alienado e capitalístico (um em razão do outro e outrem em razão de ambos) - a grande massa da classe trabalhadora já entorpeceu-se por completo nas fábulas como anestesiantes cerebrais com formatos de "Notícias" e "Novelas". Chegamos tarde, dormimos tarde, e é a relação com estes conceitos moldados conforme as nossas rotinas que definem: "Acordamos cedo", ainda que para a maioria, que segue o relógio do capital, o nosso "Cedo" seja obscenamente "Tarde". Nesses dias subimos a rua juntos, "Agora ela está mal passada, quando chegar lá em cima estará no ponto", pois nosso destino é o ponto de parada dos ônibus que você espera e escolhe: se há pressa, isso é, se tardamos com relação ao nosso próprio cedo, você pega qualquer um para adiante pegar outro; se não há pressa, isto é, se estamos adiantados ou a par com nossos referenciais temporais, temos algumas unidades de minutos em meio à carícias e conversas (em geral bobeiras, de fazer os demais ao redor, quiçá pessoas que se embebem nas tramas pseudo românticas das anestesiantes novelas, direcionarem olhares tortos ao puro amor ainda jovial de pracinha de interior) enquanto você espera um ônibus específico, que lhe leva direto ao metrô. No momento em que o coletivo chega - independente de ser aquele de sua preferência, ou aquele que é "Qualquer um" - trocamos um retocar mais ou menos rápido de lábios, lhe dou um empurrãozinho em direção à porta, um ato transformado em hábito e em tradição elaborado ainda nos ditos "Primeiros dias" dessa aventurança que temos vivido nos últimos ano e onze meses, em que você, para diminuir a tristeza por cessar o nosso "Estar juntos", sugeria que nos empurrássemos no instante do "Tchau" - o ato tornou-se hábito e tradição pois é frequente que eu também sinta leves sopros de dores ao vê-la partir ou ao fazer-me partir. Ocorre que, após o retocar de lábios e o "Empurrão-adeus", vejo-me novamente sozinho no mundo, isto é, sem o amparo fantástico de vossas gracinhas e sorrisos e beijos e lampejos inapagáveis de menina linda, e preciso "Descer" o que outrora "Subimos", e o faço sempre driblando a sensação de "Estar sozinho no mundo", trocando-a por um "Tenho uma parceira no mundão", que é comunicado aos meus sentidos sob a forma de: lamber os lábios a fim de sentir o doce que ficou do teu doce retocar de lábio com o meu; revisitar na memória os nossos momentos juntos na última manhã, madrugada, noite, dia; esticar-me para ver-te dentro do ônibus e, como é tônica desde o instante em que nossas trajetórias se cruzaram, trocarmos uma gracinha, neste instante, visual. Nos momentos anteriores, os quais arquivo na memória (após a gracinha, e durante a degustação labial) pouco importou toda a teorização que pôde ser feita, ou qualquer noção de temporalidade social ou particular. Trancamos a porta por medo, e nesses dois metros quadrados de quarto, independente do tic tac do seu relógio, somos ambos ponteiros de nós mesmos; minutos, segundos, horas que suspendem quaisquer noções de "Cedo", "Tarde", "Logo", "Devagar"... Pílulas concentradas da temporalidade da vida que apenas desejo serem vividas assim, eu tic, você tac, nos encontrando a cada voltinha.