segunda-feira, 19 de junho de 2017

Bananas Nucleares.


Aconteceu que havia uma banana sobre o prato macio recoberto por um pano liso em tom de rosa limpo limpíssimo "Mantenha limpo". Já descascada, apenas repousava em cima do prato uma bela banana prata. A tragédia começou a ocorrer, isto é, a primeira etapa de ato que pode ser classificado como "Trágico" pois ocorrido no sentido oposto do que deveria ter ocorrido, quando a outra banana, também já descascada, mas não prata, e sim talvez quem sabe nanica mesmo, foi colocada ao lado dela. Duas sínteses do reino dos frutos distintas que estavam ali sobrepostas ao lençol em tom de rosa limpo limpíssimo "Mantenha limpo" e divisando um colchão. Dois corpos ladeados, um pouco sobrepostos. A segunda etapa nos procedimentos desgraçadamente trágicos iniciou-se com a ação de força exercida por um grande garfo de dentes prateados. Quatro dentes de metal suavemente pressionados contra as duas bananas nuas de casca, e mexe daqui, mexe de lá, a segunda tragédia corroeu-se por sobre o prato dito colchão. As duas bananas misturaram-se por completo, já não se sabia mais o que havia sido prata e o que havia sido nanica. Já não se sabia o que eram sementinhas e o que eram fibras. Já não se sabia a qual casca pertencera cada banana, pois já não mais existia "Cada banana", e sim uma massa uniforme composta por duas bananas em estado de completa infusão alheia entre si. Por livre e espontânea vontade, dois corpos carregados de sentidos e significados biológicos, históricos - e, por que não, artísticos. Fusão completa, saborosa, tornando o lençol em rosa tom de limpo limpíssimo "Não o mantivemos límpido, mas foi por uma ótima causa, veja bem meu bem, se isso não é amor, o que há de ser?".

Uma vez compreendido o processo vivenciado e saboreado, pode-se tomar fôlego racional empírico para seguir adiante. E seguimos. Ladeados, iluminados por uma luz alaranjada de fim de tarde de outono, caminhávamos por uma pista de madeira. É difícil acreditar nisso pois antes tenho a certeza de que não haverá futuro, pistas feitas de tábuas de madeira como essas, pois acredito que não nos deixarão futuro por viver. Não no sentido de que não "Caminharemos juntos", mas sim no sentido de que, bastardos, derreteram geleiras, edificaram riquezas, queimaram a camada de ozônio, acabaram com a terra que germina sementes que faz nascer árvores para que exista madeira para que as poucas porcas quantidades de elites que edificaram a riqueza derrubando árvores, humanos, animais, rios, pés de bananas tenham pistas de madeira... Não nos deixaram vida. Não nos deixaram palavrões impugnados por dizer - "Será que alguém ainda hoje em dia fala 'fazer amor'? Será que quando meus amigos e minhas amigas começarem a ter filhos e filhas e eu for visitar as crianças terei que deixar de ser assim desbocado e terei de falar, quando as crianças estiverem por perto, 'Vocês tem feito amor?' em vez da clássica questão 'E aí, tem me tido?'". São muitas questões, a cabeça foi longe. Sentado na tal pista de madeira - que creio que no vocabulário elitista se chama "Deck" -, com as pernas penduras e os pés na água do rio, de mãos dadas com você, me peguei pensando como será esse futuro, pois não nos deixarão futuro. "Grandes merda", eu respondi, "Não falar 'tem me tido' perto das crianças para que elas cresçam sem malícias ou putarias. Grandes merda ter vocabulário e mentalidade límpida, pueril mas não ter uma porra duma floresta saudável, não ter uns pés de banana orgânicos para experimentar o que é uma banana sem agrotóxico, não ter uma porra dum rio bacana como esse para pôr as pernas...". Foi então que notei que na verdade, eu conversava comigo que, por sua vez, conversava com um terceiro. Note, eu estava deitado sobre a cama, e me imaginava sentado no tal "Deck" de tábuas de madeira, e era outra pessoa, que estava na cabeça dessa pessoa que estava na minha cabeça quem conversavam. Há um detalhe temporal por ser descrito nesta esquizofrenia, o eu mental era o eu mental do futuro, dialogando com o eu eu mental mental do futuro futuro e comigo. Por fim, em termos de futuros, afirmo - lucidamente - "Pode não haver futuro, grandes merda, pode não ter havido futuro, grandes merda! Mas que a linha tênue do final da porra toda seja ouvindo uma música tão fantástica como essa, e como massa esmagada de bananas, o fazer mesclado ao seu corpo. Pois, como disse aquele outro eu de outro passado, 'Se isso não é amor, o que há de ser?'".


Foto: Deusa.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Resignado com a ladeira.


"Resignado" é um termo cujo sentido prático fui entender apenas recentemente. Uma explicação das mais pedagógicas em um domingo de manhã sob o chão marrom de quadradinhos azulejados da cozinha de casa. "Resignado" foi termo que bateu à porta das minhas ideias, também recentemente, em uma conversa repleta de angústias destrutivas em uma conversa sob o chão de azulejos retangulares cor de creme na casa de um irmão: "A molecada hoje parece estar já resignada com o capitalismo, e eu não consigo me aceitar nesse modelo, não consigo eu mesmo me resignar com isso", foi dito.
Quando comecei a percorrer a cidade de São Paulo, aliás, parte dela, de bicicleta, minha onda era elaborar caminhos mais suaves. Por bons meses me recusei a ter trajetos convencionais ("O caminho de sempre") para tentar outros que pudessem ser mais eficazes, mais curtos, com menos subidas, com vias mais seguras em que estivesse menos exposto à insanidade daqueles & daquelas que de trás de seus volantes ignoram a existência de outros. Ainda faço isso, o prazer de passar por uma rua desconhecida é-me causador de grande satisfação. Às vezes me dou mal, passo por uma rua em que os demais transeuntes não me olham com bons olhos, chego em uma rua sem saída, dou de cara com uma energúmena subida, e, em última instância, mas que já ocorreu um par de vezes, erro o caminho, dou meia volta e pedalo até o ponto onde posso retomar o trajeto dito convencional.
Um dos trajetos que mais me fez fuçar nos mapas on line e na pedalagem urbana para encontrar a escapadela duma subida lascada foi para sair da casa de minha mãe. Posicionada no topo de uma ladeira íngreme daquelas em que se sobe bastante, sem diminuir a inclinação, no meio do caminho há uma curva, e após está, outra subida, de angulação ainda mais inclinada. Na base da ladeira, configurada então como descida (pois estou me referindo a quando vou embora), há uma plana avenida, no centro da qual há um córrego - aliás: a avenida foi construída nas margens do córrego, é importante nos lembrarmos das etapas corretas dos processos destrutivos sem escrúpulos de urbanização. E para alcançar a avenida que compõem-se como rota central da maioria dos meus trajetos, tenho de subir outra ladeira, o morro oposto ao que ela mora. Penoso exercício para as coxas, panturrilhas, barriga e ombros, devo dizer.
Pois foi tentando escapar dessa penosidade que conheci diversas vias da região, uma mais íngreme que a outra, uma mais extensa que a outra. Uma inegável geografia de planície ao centro e relevos ao redor que se estende por quilômetros, a sul e a norte, e que não me deixa escolha: mais cedo ou mais tarde terei de enfrentar alguma subida lascada. 
Não há como fugir da ladeira. Respiro fundo, "Resigno-me" perante os metros de asfalto em inclinação, jogo a marcha lá em baixo - marcha número um nos trocadores esquerdo e direito, e vamos lá. Pedalo sem pressa, evitando fazer força. Ando pouco, mas ainda assim estou andando. As pernas reclamam, como não, mas sigo no movimento. "Devagar e sempre", diz o ditado. Os carros passam rasgando ao meu lado, diminuindo a marcha e soltando barulhos escabrosos. Não fosse a ladeira, o trajeto de trinta minutos seria feito em quinze. Houvesse um trajeto mais plano por seguir, o caminho seria menos penoso, menos doloroso...
Recordo-me bem de qual foi o momento da vida em que respirei fundo e pensei comigo mesmo: "Bom, não tem jeito mesmo, para saborear os meus afazeres prediletos terei de encarar chibatadas no lombo". Sem saber, estava me resignando com o capitalismo. As chibatadas doem, mas fazer o que, até o momento ainda não encontrei outro caminho, e já me deparei com subidas piores, ruas sem saídas e becos hostis o suficiente para saber que, por ora, tudo bem passar um tempo em marcha lenta, haverá o tempo da velocidade, do vento na cara, de abrir os braços e pedalar destemido com força máxima assobiando algum tema espontaneamente composto.
Os azulejos quadrados e retangulares são testemunhas oculares barrosas, cerâmicosas, de que entendi o que é resignação e de que ela pode não ser algo tão ruim assim.


segunda-feira, 29 de maio de 2017

A grande teoria da personalidade que irradia.


Mas, na verdade, esse é só um esboço de uma teoria que ainda não se mostra como tal, tampouco que demonstra indícios de que irá se tornar grandiosa ou, meramente, grande. Bom, mas, sigamos adiante: há uma ideia em curso, e há práticas correntes que dialogam com a ideia, o que me faz compreender que, factualmente, há uma teoria por vir.
Trata-se de personalidade, aquela construção individual-social que é comum ser outorgada à composições genéticas e a posicionamentos lunares, estrelares, planetares. Mas não creio nisso não. Também não creio em dedo de santo, benção de anjo, sopro divino ou olhar de entidade. Personalidade, ao meu compreender, é uma camada bem grossa de cimento, uma fileira de tijolos, outra de cimento, e outra fileira, e assim sucessivamente até formar uma parede, então outra, então outra, mais uma e tem-se um cômodo, aí entra a porta, outro cômodo, diversas fileiras, diversas paredes, janelas, espaços vagos; móveis em imóveis. Personalidade é construção. 
Puxadinho é o nome popular que se dá para a construção extra, aquele quartinho a mais, aquele pedaço subtraído do quintal ao qual são destinadas fileiras de cimento e tijolos para que se torne metro quadrado de uso prático e objetivo. Puxadinho é a irradiação da construção, proliferação em sentido não negativo, expansão. 
É inegável que a personalidade, enquanto construção, pode não ver limites. E mesmo quando na construção primeira da casa não foi previsto a necessidade daquele "Quarto de fundos", ou mesmo que tenha sido pré-estabelecido: "Vamos primeiro erguer a casa, deixa aquela terra batida atrás, depois a gente cimenta, depois vê o que faz". E assim segue-se a construção. As irradiações no terreno são finitas conforme a metragem. As reconstruções, igualmente: "Vamos derrubar essa parede aqui, e deixar aberto o caminho por aqui agora para que os cômodos da construção sejam menos distintos e mais próximos, interajam".
Mais um andar, mais alguns cômodos. O quarto dialoga com a sala que tem passagem para o banheiro cuja janelinha tem de ficar afastada da cozinha que permite acesso ao quintal por onde se passa pela janela do quarto e se chega à sala novamente.
A construção da personalidade se irradia pelo tempo de vida, personalidades emergem em um mesmo corpo tal qual paredes e cômodos em um terreno fértil à construção civil. E isso parece-me uma teoria plausível, talvez, se devidamente desenvolvida, pode vir a ser uma grande teoria sobre a personalidade que irradia, talvez não - depende de qual personalidade a desenvolver, bem como, de em qual cômodo da casa for armazenada. Fato pontual é que talvez demolir casinhas espontâneas para erguer prédios idênticos seja estratégia para amortizar personalidades frente à uniformidade, talvez, guardar cada personalidade num cômodo a ser acessado cada qual no momento específico, seja restringir a proliferação (novamente, não pejorativa) de mais e mais e mais e mais encontros e personalidades irradiantes possíveis.


terça-feira, 2 de maio de 2017

Os números mudaram.


Olhei a tela brilhante do caixa eletrônico a cegar os meus olhos de recém acordado que ainda não havia tomado café ou comido qualquer cream cracker mas já estava na rua. Sete e vinte e oito da primeira manhã que atrela frio e chuva assim de repente bem nos nossos ossos. "Não é possível", gaguejei. Lá no fundo da farmácia, escala improvável naquela manhã, realizada apenas em razão do letreiro luminoso, embora estivesse desligado, a frente da mesma que indicava a presença do caixa eletrônico, uma jovem mulher olhava para mim. Deve ter algo a chamar a atenção quando uma pessoa entra no estabelecimento em que você trabalha brigando com um guarda chuva que se recusa a fechar, derrubando uma mochila ao chão, em seguida uma carteira e, por fim, praguejando as mangas duma camisa. Deve-se dedicar alguma atenção, sobretudo em termos de criar uma cautela prévia, para este tipo de sujeito - e, fato inignorável, tratava-se dum estabelecimento comercial, cuja única funcionária presente era uma mulher, com um homem esquisito entrando em meio à uma sociedade das mais machistas. Todo o tempo que passei de frente ao caixa eletrônico notei que ela me olhava - de certa forma a frase é flexível: "Todo o tempo que passei de frente ao caixa eletrônico olhava para ela". Ao tornar o cartão para a carteira, cutuquei um par de moedas de cinquenta centavos e uma de um real, "Meu desjejum será alguma bolachinha, se é que se vende bolacha por dois reais numa farmácia burguesa fincada em coração de bairro burguês". 

-Bom dia.
-Bom dia.
-Você tem algum tipo de bolacha?
-Não.
-Algo de dois reais para comer?
-Tem barrinha de um nove nove.
-Vou levar uma. 
 Saí da farmácia carregando a imagem do riso dela. Lhe expliquei o que ocorrera, da maneira mais sincera possível, e consegui, desta maneira, dissipar a tensão causada pelo meu comportamento bizarro.

Mais tarde naquela mesma manhã, em que parecia haver menos chuva e mais frio do que duas horas antes - o que é uma meteorologia controversa, visto que havia sol a esquentar os lombos que enfrentavam a rua - parei em um mercado para realizar algo próximo dum desjejum mais digno do que os copinhos de café e as bolachas de mar em miniatura (ou lágrima em versão expandida) que consumi na sala dos professores. Passei por outro caixa eletrônico: "Não é possível", gaguejei novamente. Pelos corredores do mercado, passeei em busca do que comporia a minha atrasada "Primeira refeição do dia". Olhava prateleiras, olhava produtos, olhava etiquetas e, diferentemente da última vez que passei por aqui, na semana passada, situação em que tinha a lista de compras claramente definida na cabeça ("Duas bananas da mais barata, um pão francês e três fatias de mortadela, se der mais do que quatro reais terei que deixar as bananas...") permiti ao meu corpo (o que incluí a mente) caminhar pelos corredores. 
Bolachas, Fandangos, Refrescos, Bibidas, Ovos de Páscoa, Colombas (era "quarta feira santa"), Mortadelas, Pães com queijo em cima, Mini Churros, Frutas importadas, Bananas distintas, Massa fresca para macarrão saboroso, Iogurtes diversos, Molho de tomate em frasco de vidro, Pão de queijo à granel, Pertences para feijoada, Sessão de alimentos "Orientais", Bacalhau... 
À perder de vista o tempo caminhei pelo mercado, observei uma mágica e espantosa realização que saltava à vista a partir das etiquetas: os números mudaram. Etiquetas amarelas - ou em laranja gritante, quando se trata de pseudo promoções - com impressões em tinta preta com o nome do produto e a quantidade de dinheiro em reais que deve ser entregue a quem trabalha nos caixas para chamar tal produto de "Meu" passavam por uma transformação. Foram esses números, os impressos em preto, que mudaram, que passaram a me comunicar outras mensagens, ter outros significados e, por que não, representar outro tipo de valor. 
Encarei a etiqueta que demarcava o preço de um saquinho com mini broas de milho, era como se o laranja gritante tivesse se tornado um salão, e o erre, o cifrão, o quatro, a vírgula e os dois noves dançassem algum ritmo festejantemente latino. Os noves faziam um joguete de passar pra cá, passar pra lá, voltar, rodopiar. O quatro, solitário entre uma vírgula e um ésse cortado por duas barras verticais, tentou puxar o érre para movimentos ritmados do corpo, mas foi negado, e se concentrou em assistir os movimentos dos noves, depois começou a se divertir com a vírgula, que ria a cada tombo do quatro. Isso se repetiu adiante, noutras etiquetas, e era incrível: os números mudaram.

Ainda na farmácia, antes do passeio pelo mercado de etiquetas mudadas, enquanto pagava pela barrinha de um nove nove, contei um curto trecho da história para a moça, foi meu modo de justificar por que fiquei boquiaberto ante o caixa eletrônico, derrubei meus pertences e arregalei os olhos: o simples parar no caixa eletrônico reconfigurou todo o sentido daquele dia, deixou de ser apenas mais uma manhã, ou mesmo a primeira manhã do ano que combina frio e chuva, para se tornar a manhã do dia em que caiu o meu primeiro salário após nove meses sem ter dinheiro pingando fixamente em conta, não esperava receber o pagamento naquele dia, e ao ver tal somatório de dinheiro (menos de um salário mínimo) atrelado ao meu nome, à minha pessoa, não nego que senti perversa emoção, convertida, no mercado de mais tarde, em um par de pão com tiras de queijo derretido em cima, sete fatias de mortadela ouro para recheá-los (pedi a mortadela, inclusive, por gramas, e não por fatias), um iogurte de morango, cem gramas de mini churros, cem gramas de pão de queijo, duas bananas prata e um bombom. Os números, representações de preços, mudam conforme os adquirimos e podemos pagar por eles, e isso, no demarcar das etiquetas, soa como uma festa, a perversa festa do capitalismo falido a nos proporcionar alegrias fugazes, mas um pouco saborosas - "Deve ter algum tipo de droga nessa mortadela ouro, que bagulho gostoso", gaguejei. 


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Memória & Movimento.


A internet contemporânea e as redes sociais virtuais nos fornecem excelentes dispositivos de memórias. Digo, vocês, usuários, como eu, sabem que todo dia aparece lá na grande rede social virtual o que você postou naquela data em anos anteriores. Às vezes são coisas ruins de lembrar, como que em três de abril de dois mil e treze publiquei um texto referente a um ocorrido no final de semana anterior, em que um conflito doméstico causado em razão duma "Amizade", vista por um lado da moeda como indevida, se fazia presente na grande rede social, e isso fez-me, acidentalmente, ficar desnorteado em minha própria casa, bater com a cabeça na pia e cair em sono confuso no colchão jogado ao chão da sala - tudo descontroladamente um "Acidente", como já havia ocorrido no meio de março daquele ano, e ocorrera outro no início de maio, e o Facebook sempre me lembra, ano a ano, de todos eles. No entanto, o dispositivo de recordações virtuais também traz à boca do estômago da memória sabores os mais límpidos e cristalinos com açúcar de confeiteiro polvilhado em cima e creme saindo por todas as laterais. Como que em três de abril de dois mil e quatorze - incrível a velocidade com que mudamos nossas vidas na juventude, talvez esse seja um dos traços do 'ser jovem' - saí todo serelepe da loja oficial do Marília Atlético Clube com um par de ingressos para o jogo do dia seguinte, ou mesmo, inverti a sequência lógica da coisa, em três de abril de dois mil e quatorze desembarquei na rodoviária daquela cidade. Foi curiosa a sensação ao 'ver' esta memória - lembranças são matérias não palpáveis, 'coisas da cabeça', que o dispositivo da rede social torna em 'quase' tocáveis - por meio da foto da rodoviária que tirei ainda de dentro do ônibus. Memória sensitiva sempre me puxa pelos calcanhares. Recordei-me da rotatória e da "Subidinha" que há nos últimos metros do trajeto, na via que conecta uma avenida, cujo nome já não me recordo, à entrada restrita aos ônibus. Recordações de quando viajava de madrugada, e acordava assustado com o ônibus diminuindo a velocidade, e ter de recolher meu cobertor correndo para descer antes do ônibus seguir viagem ou ir para a garagem. O dia em que, nesta situação, viajando de madrugada, desceria na parada anterior, em Vera Cruz, no entanto, cansado (voltava de São Paulo após alguma das etapas do processo seletivo para o mestrado) apenas fui acordar em Marília, aliás, apenas fui acordado na rodoviária final da linha, por um funcionário da empresa de ônibus, se fosse a linha que segue trajeto até Tupi Paulista, seria lá que me acordariam. A primeira lembrança que tenho da cidade, em si, do meu corpo, do meu eu em Marília, é na rodoviária - de formato peculiar: seria um OVNI, um chapéu mexicano ou de bruxa? - no começo de fevereiro de dois mil e oito, para matricular-me na universidade. Viajei de madrugada (eram seis horas de viagem) e lá cheguei junto do amanhecer de um dia de verão, entendi de pronto o que era o calor naquela região do estado, conheci o aroma de baunilha exalado pela fábrica de bolachas e uma das "Pragas anuais" da cidade, a infestação de gafanhotos. Rodoviária é movimento. "É assim a vida é movimento". E, talvez, por ter esse entendimento Dead Fishiano da vida que, hoje, nenhuma dessas lembranças teve sabor de 7x1. Não doeu. Não, não sarei dessas saudades - eu nunca vou sarar dessas saudades, já tomo isso como uma afirmação quase dogmática, mas, dessa vez, sairei da internet sem ter o coração dolorido. Não doeu, não machucou, não deu vontade de pegar a bicicleta e sair correndo pedalando Castelo Branco a dentro até a Marechal Rondon e depois pelos 94km da João Ribeiro de Barros até avistar a rodoviária. Não deu vontade de tentar arrumar qualquer emprego, bico, atividade remunerada e/ou acadêmica que o valha por lá e voltar, de ônibus mesmo, só com uma mochila e umas lágrimas lavando o rosto para o paraíso perdido de minha memória, o oásis de felicidade irrestrita em minha experiência no mundo. Já senti isso noutros momentos, é verdade que depois a coisa voltou, pudera, outras tantas refrearam o movimento que se esboçara (me parece que dessa vez não ocorrerá o mesmo). Por ora, a vida andou, anda, a vida se movimentou e os grilhões que, de certa forma, estacionaram tal libertação no passado recente, já foram superados, vencidos (preciso, inclusive, ir lá buscar o certificado). Hoje, três de abril de dois mil e dezessete, tenho outro percurso compondo a principal tarefa de minha semana, não é a coisa mais importante para mim, mas é relevante, está no curso dos acontecimentos planejados na linearidade dos investimentos que realizei na vida e vai me pagar algum dinheiro após trinta dias, o que, a considerar o período vivido anteriormente (de "Seguir o jogo" com poucas moedas) representa grande alívio. Já não há mais, especulo, motivos para me lamentar por uma rotina gostosa perdida: o dia a dia, a cada dia, volta a ser saboroso, não preciso mais viver à sombra das memórias de um "Outrora" de sabores mil frente a um cotidiano assassínico, fétido, chafurdantemente xarope. A vida é movimento, e, enfim, parece que as coisas voltarão/am a caminhar. Às saudades, à cidade, aos percursos, à rodoviária, ao estádio de futebol, à universidade, ao bar, às pessoas, existe um enorme banco, de madeiras nobres e bem envernizado em meu coração, e vocês estão nele sentados.

quinta-feira, 30 de março de 2017

A grande verdade sobre a base da pirâmide.


Às vezes, me parece, no turbilhão desesperador que são os acontecimentos cotidianos em meio à precariedade urbana do capitalismo tardio, em um país abertamente reentregue à situação de "Eterno subdesenvolvido", esquecemos da grande verdade sobre nossas situações e condições básicas, primeiras de vida.
A grande verdade é que o capitalismo não são os comerciais de papel higiênico, cheios de personagens caricatos e piadinhas subliminares sobre o ato, vivido como tabu, de "Fazer cocô". Antes disso, o capitalismo é sobre o rapaz alcoolizadamente tonto que entrou no metrô. Suas calças não lhe cabem, ele não usa cinto, nem nada nos pés, seu corpo exala um aroma fétido e ele se tornou uma ilha no vagão: ninguém quer ficar perto dele. Fala sozinho, ou consigo mesmo, não consegui diferenciar, e dentre as coisas que disse, essa, nitidamente não foi nem para si nem para ninguém que em seu corpo habita, mas sim para nós, que dele mantivemos distância: "Fede né, bosta fede, não tinha papel. Nunca tem papel na Barra Funda". Experiência própria: nunca tem papel higiênico nos banheiros da Barra Funda.
Me parece importante, já que mencionei o metrô, um meio de transporte,  recordar que o capitalismo é menos sobre as situações descontraídas vividas numa concessionária de carros entre um vendedor solícito, esperto, de língua afiada e um comprador famoso (um ator da moda, uma cantora em alta), de quem o primeiro tira uma castela no fim do comercial, antes da oferta ser anunciada. A coisa toda na base da pirâmide é muito mais sobre as caras amassadas em tristeza, sono e exploração às cinco e cinquenta e cinco da manhã no 8528, linha de ônibus que corta a zona noroeste de São Paulo, com destino final no centro da cidade, despejando toneladas de mão de obra barata ao longo de seu percurso. O capitalismo é sobre a massa amorfa parada no lado direito da escada rolante.
O capitalismo é sobre uma pessoa qualquer que cruzou o meu caminho numa manhã de sexta feira no segundo semestre de dois mil e quinze. Eu ia de bicicleta para uma reunião na universidade que frequentava naquela época, quando notei um rebuliço entre carros, motos e um homem e uma mulher na calçada. Esses últimos pediam aos motoristas que parassem, e andavam entre os veículos, olhando para o chão. Quando entendi o que acontecia, larguei a bicicleta na calçada e me juntei ao homem e à mulher. A pessoa qualquer que cruzou o meu caminho nessa situação era a que dirigia um carro, e não quis esperar que eu ou o homem ou a mulher retirássemos de debaixo de seu veículo um filhote de gato. O motorista acelerou, quase atropelou minha mão, prestes a pegar o felino, que não teve a mesma sorte. Ele exalou seus últimos suspiros em minhas mãos. Passei o dia na universidade com as roupas sujas de sangue, e a terrível imagem na mente. Capitalismo é mais sobre essa situação, aquele/a motorista e o gato morto, do que sobre Whiskas Sachê.
Capitalismo, aqui pros lados das nossas vielas, é menos sobre o gigantesco império dos fabricantes e vendedores de armas e mais sobre o ímpeto de "Resolver" problemas por meio do assassinato; é sobre precisar dum revólver velho para intimidar alguém a lhe entregar uma bolsa, uma carteira, um celular. É muito mais sobre as pessoas que roubam e revendem celulares, que os roubam e trocam por droga, sobre as pessoas que fabricam celulares, do que sobre a pequena parcela que compra os melhores aparelhos, seja em uma ou em doze parcelas.
Capitalismo, reforço, sobretudo aqui para os nossos lados - não se esqueçam, "Ainda somos colônia, se alguém aqui não percebeu" (Surra, "Não tem boi"), e a tendência para os próximos anos é que voltemos a ser, cada vez mais, mera periferia fornecedora de matérias primas no mundo - é sobre violência, exploração, ausência de recursos, desigualdades, deslealdades, queima de arquivos, abusos sexuais, alcoolismo, os mais diversos riscos de vida. Estar dentro dele, para cima da base da pirâmide, tem seus inegáveis sabores, seus incontáveis problemas, porém, suas impossíveis escaladas - recordo-me da tirinha jovial liberal que dizia: "Socialismo e igualdade é legal, mas só o capitalismo fabrica essas televisões de 100 polegadas", e a resposta racional esquerdista: "Quem propaga essa tirinha tem dinheiro para adquirir essa TV?". 
Gosto de olhar a arquitetura das casas nas periferias, elas são representações de criatividade, de lucidez para lidar com a escassez, mas são também, antes de tudo, símbolos fidedignos do que é estar na base da pirâmide do capitalismo: "Tenha um lugar para dormir, à salvo do frio e da chuva, não nos importa onde ou como ele seja, e amanhã esteja aqui às sete em ponto, se não você vai mais pra baixo ainda na base da pirâmide". Capitalismo é muito mais sobre as milhões de casas populares que, apinhadas entre si, ao longo de muitos quilômetros na zona leste, subvertem as leis da física, do que sobre a dita "Casa do povo", milionária, arrumadinha, brilhando reinante no alto dum pequeno morro  na mesma região da cidade.
Estar na mais larga base da pirâmide social proposta e erguida pelo sistema capitalista é constrangedor, desesperador. É babar dormindo apoiado na parede do trem e acordar envergonhado, olhando ao redor para se certificar de que "Ninguém viu". É embaraçoso, mas já se tornou cultural, e isso é estarrecedor: a miséria, e os artifícios sociais elaborados para nela sobreviver, tudo isso tornou-se uma enraizada cultura.  Das vielas urbanas, irônica, mas necessariamente mal urbanizadas, às plantações de café, é desesperador caminhar pelos corredores mais básicos (pois na base) e mais esquecidos deste, neste, por este sistema falido. No entanto, todos esses adjetivos são essenciais para a manutenção do sistema e da pirâmide.
A propósito, parece que fui chamado para dar algumas aulas de Filosofia em um bom colégio para lá dos limites territoriais da cidade de São Paulo. De certa forma, ao entregar os documentos que me oficializam como responsável pelo cargo, em uma função remunerada, ainda que com pouco dinheiro, deixo de pertencer às seguintes categorias capitais e/ou grupos sociais: "Desocupados", "Sem renda" e "13 milhões de desempregados". 
Segue o jogo.  


 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Não existe psicologia plausível aqui.


Lembro que tinha uma época em que o meu café da manhã eram os barbitúricos. "Tome um comprimido logo ao acordar, uns dez, quinze minutos antes de comer algo". Por pouco mais de doze meses (talvez doze meses e duas semanas) isso se tornou algo religioso. "Se você se sentir muito ansioso, afoito, nervoso com algo, tome um ou dois desse e procure fazer algo relaxante em seguida". Ainda bem que eu nunca mais vi esse cara.
Teve uma época também, já quase remota, são lembranças em preto e branco com borrões e queimados no filme, que às terça e/ou quintas - na verdade acho que teve um tempo que foi às terças, e outro tempo às quintas - que eu ia em um casarão lá pros lados de Santana. Foi na época em que li "O menino no espelho" pela primeira vez, tanto que as cenas que formulo do livro se passam naquela casa. Tinha um vasto jardim à frente, com uma escada de cimento, uma sala escura "De espera" e uma montoeira de outras salas, cada qual com seu fim e um preço de aluguel específico. Os tipos de profissionais que alugavam os cômodos eram, em geral, "Da saúde". Era um quarto grande o que eu frequentava, o "Da frente" na casa e "De frente" para a rua. Tinha uma mesa, um sofá (depois descobri que o sofá chamava "Divã") e um monte de jogos. Não fazia sentido para mim aquilo ser algo sério, digo, era um lugar relativamente longe de chegar, e eu ia lá passar uma hora fazendo jogos com uma mulher que ria e anotava o que eu dizia. Não fazia o menor sentido, e acho que não fez a menor diferença, visto que eu não sabia quais processos estavam em jogo ou deveriam estar.
Teve um tempo que essa canção tinha um efeito psicológico inegável. Andei muito para frente ao escutá-la repetidas vezes e pensar, sem risadinhas, nos meus próprios atos.
Foi por livre e espontânea pressão alheia que cheguei àquela casa. Um pouco me arrastando, um pouco caminhando, não tive problemas para localizar o endereço no mapa da cidade: "Dá pra chegar com um buzão só, e ir e voltar na mesma passagem". Era um casarão também, talvez "Uma casa", e não "Um casarão". O quarto era pequeno (ou talvez eu que tenha crescido) e tinha menos atrativos do que aquele que frequentei quinze anos antes: uma mesa, um divã, três poltronas, uma mesinha (sempre com caixa de lenços e cinzeiro) e uma janela que dava para a rua. O maior atrativo daquele cômodo era o homem que sentava na poltrona próxima à mesa. Era paciente, embora não fosse o paciente, cagava para barbitúricos e me fez boas perguntas. Chorei duas vezes na frente dele, a primeira foi ao contar essa história, e a segunda ao contar algo próximo dessa aqui. Usei os lenços por duas vezes, e o cinzeiro nunca usei. 

Não existe psicologia plausível aqui.

Dessa vez não existe inquietação infantil que necessite de algum tipo de acompanhamento. Também não existe pressão externa para um problema inexistente. Tampouco existem tensões sentimentais incompreendidas. Nada disso. É tudo muito claro. 
-Pega a metralhadora.
-Que metralhadora?
-A metaforalhadora 

É tão claro quanto piscina de casa de rico com a água bem tratada e os azulejos bem escovados.
É tão claro quanto arcada dentária em comercial de pasta de dentes.
É tão claro quanto plástico filme de embalar frutas semi comidas.
É tão claro quanto a pureza branca do produto final da folha passada na gasolina transformada em pasta e em cristais.
É tão claro quanto a operadora de celulares.

-Tá bom já?
-Sim.
-Continua então. 

Longe de assinar um atestado de anuência ao discurso escroto burro anti humanitário que diz que qualquer problema psicológico se resolve com uma inchada, olho ao redor e não tenho dúvidas: todas as fezes que entopem os intestinos cerebrais (inclusive a própria mania, cada vez mais crescente, de falar de fezes) são facilmente defecáveis por meio de seis horas diárias de ocupação, alternadas em seis dias de operação por um de descanso, ou seja, 24 a 25 dias no mês, com remuneração ao término do período. É só isso. Não tem psicologia, não tem problemas, não tem semânticas, não tem arcabouços, não tem reflexões, não tem profundidade, não tem braçadas. É simples assim. E por que é simples? Pois vivemos num sistema em que isso é o central para qualquer porra que você quiser fazer em ou da sua vida.
"Quero ter uma banda". Tenha um emprego. "Quero comprar tintas". Tenha um emprego. "Quero voltar a ter autonomia e deixar de morar com meu pai". Tenha um emprego. Por que é com um emprego que você pode ter capital para pagar essas coisas. Não é maravilhoso? Não. Mas como não tem jeito:

ME
ARRUMEM
UM
EMPREGO
CARALHO
!!!!!!!!!

 

Frases soltas, Cocômidos, Segue o jogo.


Você passa dez anos da vida investindo em algo, acredita piamente naquilo, naquelas histórias que te contam, nos planos que te apresentam. Você passa dez anos acreditando num papo, e talvez dez anos tenham sido necessários para entender que ele é tão furado quanto uma peneira. Meu pai tem uma música que chama "As coisas já fazem dez anos", e deve fazer uns três que passei a entendê-la. Um amigo me perguntou se eu topava qualquer tipo de trampo, e respondi que sim. Topo mesmo. Faz algumas semanas já, talvez já dê para dizer "Faz alguns meses", que tenho pensado que, não vai ter jeito, terei de voltar a algum "Zero", algum "Ponto inicial" e começar tudo de novo. Topo mesmo. Daí fui ver um trampo bem de base mesmo, próximo da mais larga base da pirâmide do capitalismo contemporâneo, sem sombra de dúvidas, para começar a recomeçar a coisa toda e não deu certo. O tombo, apesar de baixo, foi forte e doeu. Na primeira etapa da seleção o rapaz ficou nitidamente encucado com o fato de haver no curriculum apresentado uma formação superior e uma pós-graduação, "Você tem curso superior?", "Sim", "Concluído?", "Sim", "E esse aqui...", bateu a caneta repetidas vezes em cima da palavra "Mestrado". A coisa, a meu ver, começou a dar errado ali. Alguém me falou, "Você é qualificado demais para esse tipo de trampo". Sempre vejo e penso nas colegaiada que não caíram nessa arapuca de papo de "Progresso" que eu caí, não tenho dúvidas de que eles comem cocôs em seu cotidiano, e penso que, se eu não tivesse mudado a vida em nome desse "Progresso", obviamente que comeria cocôs tocando a vida tal qual tocava. Mas a questão é sempre a mesma (inútil de ser feita, mas a mesma): "Será que eu lidaria melhor com aqueles cocôs do que com os que tenho comido desde então?". Um tempo atrás uma pessoa próxima foi demitida de seu trabalho e sentiu-se ofendida com o modo como a empresa a demitiu: foi marcada uma reunião entre uma chefona e três "Operárias" (uma delas, a pessoa que eu conheço), a reunião era para a demissão. A justificativa da chefona para uma reunião demitiva "À quatro", era o de mostrar que não havia dúvidas sobre a capacidade de cada uma delas, mas sim de que era uma necessidade da empresa se livrar de profissionais tão boas mas que a empresa está cortando gastos por causa da crise... Comecei a frequentar sites de buscas de emprego, acionar amizades, colegas e conhecidos que poderiam ajudar, sites de colégios e universidades, e a encaminhar e-mails para estes últimos, lá por Junho ou Julho do ano passado. Os únicos retornos são para dizer "Agradecemos o interesse, mas você não preenche o perfil que procuramos" e teve um também que questionou a "Falta de experiência". Daí contei essa história da demissão tripla duma vez para uma pessoa acostumada à base da pirâmide, e ela não achou tão absurdo quanto a pessoa que me contou: "Em geral, em fábricas e lugares em que contratam 'piões', você chega um dia lá e tem uma lista de dispensa afixada na parede, seu nome tá lá e ninguém te dá satisfação alguma, ainda bem que chamaram as minas para conversar!", ela me contou. Às vezes penso que a gente da classe média é mimado demais para lidar com algumas coisas, às vezes penso que quem já passou pelos estágios de provação da coisa toda se esqueceu dos cocôs que teve de comer pelo caminho (ou talvez não tenha cocômido). Enquanto as pessoas dispensadas no processo seletivo para o trampo de base iam embora, com expressões de normalidade, de "Segue o jogo", confesso que me chateei com a coisa. Eu estava abatido, na verdade, meio sem rumo, quando uma moça (também dispensada) me fez uma pergunta qualquer com um riso no rosto. Às vezes, me parece, nós da classe média,que temos alguma formação ou coisa que o valha, achamos que apanhamos de mais, choramos, esperneamos, mas aí noto que quem realmente apanha de mais na vida, quando leva uma nova bofetada, não chora nem esperneia, apenas segue em frente. Tem outra frase solta que eu queria alocar aqui: pior do que pobre de direita, é pobre que acha que vai triunfar suavemente na vida sem comer toneladas de cocô no caminho ao optar investir em formações e mercados de/para burguês. Para trabalhar em "Minha área de formação" não tenho "O perfil" ou a "Experiência" esperada, para sair dela e começar do zero tenho "Qualificação demais". Segue o jogo. 

quarta-feira, 15 de março de 2017

Entre Porcos & Porquices, Você.


Acordei ranzinza com um gosto ruim na boca. Cyborgue. Escravo tecnológico. Dependente virtual. Mal acordei (ainda estava longe de levantar) já peguei o celular para ver atualizações. Fiquei meses sem ter meu "e-mail de trabalho" (isso é, o e-mail que está em meu Curriculum Vitae) instalado nele, o fiz semana passada e, nessa fase dos "Des", tem sido frequente que as batidas do meu coração se acelerem quando o ícone que indica "mensagens novas" surge nele. Em geral quando acordo ele está lá, e corro para ver se é uma proposta irrecusável para um trabalho imediato. Nunca é. No caso de ontem, foi apenas mais um "Agradecemos o interesse, mas você não tem o perfil...".
Levantei e comi um pão e tomei café preto e fui dedicar-me às canetinhas e lápis coloridos para criar uma estampa de camiseta alusiva ao uso de drogas, algo como "O café salva vidas". O fiz com algum sucesso e depois dediquei-me ao almoço, ainda que não tivesse lá muita fome, precisava comer pois precisava sair pois o giro do relógio é implacável e a manifestação contra a implosão da previdência estava marcada para as 16 horas e gosto sempre de chegar cedo nesses eventos e acompanhar o espaço ser tomado por pessoas e grandes grupos e suas bandeiras.
Fui de bicicleta para a casa da minha avó e da minha tia, fiquei lá por volta de uma hora a uma hora e meia, não me recordo exatamente. Sei que saí atrasado pois minha tia estava me contando algo que aconteceu no trabalho dela e achei mais proveitoso me atrasar para ouvi-la do que sair sem ouvir ou tendo ouvido pela metade. Minha vó fazia as unhas com umas senhora que é mãe ou sogra de alguém que mora no prédio em que elas moram, e não participou muito das nossas conversas. Exceção que deve ser feita a quando conversamos sobre Mogi das Cruzes, é muito saboroso ouvir minha vó contando memórias.
Em seguida peguei a bicicleta novamente e segui em direção à Avenida Paulista. Estava em dúvida se permaneceria com a bicicleta durante o ato ou se a deixaria no bicicletário da Paraíso, caso ele estivesse aberto. Entre a estação Santa Cruz e a Vila Mariana começou a chover, mas quando cheguei na Ana Rosa já havia parado. Vi as estações fechadas e achei isso muito bacana, muito legal mesmo. É uma forma de resistência, é um símbolo de luta na prática, e nós precisaremos disso com muito mais afinco nos tempos próximos. É gostoso pedalar na chuva, o problema é que você se molha de mais.
Optei por deixar a bicicleta no bicicletário, uma vez que ele estava aberto. Conversei bastante com o rapaz responsável por ele naquele turno, gente boa, porém, tinha um problema em sua cabeça: o cérebro dele foi consumido amplamente pelo discurso midiático, e, para ele, de nada adiantaria aquela manifestação se não houvesse "Apoio das mídias". Ele é palmeirense, mostrei fotos das camisetas que tenho pintado e ele gostou, mas fui burro o suficiente para não lhe entregar nada, que fosse um pedaço de papel com o link do site onde estou as vendendo.


Saí do bicicletário e caminhei em direção à Avenida Paulista, iria até a Consolação, na ponta oposta da via, para me encontrar com o Jã. No entanto, após caminhar alguns metros vi, perto de mim, o ex-goleiro palmeirense Veloso, comendo um chocolate ou chupando um picolé, não me ative ao detalhe, mas tinha perto de sua boca algum tipo de doce industrializado embalado em plástico. Olhei-o nos olhos fixamente e ele fixou os deles no meu, me aproximei com a mão esticada e ele esticou a dele para mim. Nos cumprimentamos, mas eu não soltei a minha mão da dele e falei: "Queria te agradecer por aquela bola do Marcelinho, na final do Paulistão de 95". Ele parou, olhou para o chão, pensou por alguns segundos: "Mas eu não cheguei naquela bola". Encerrei o assunto: "Eu sei, é que aqui é Corintia". Ele me olhou com alguma raiva no olhar, mas nos viramos e cada um seguiu seu caminho. Ele não chegou naquela bola, e jamais chegaria, a imagem não mente, confiram comigo no replay. Foi nessa data que eu me tornei oficialmente Corinthiano, foi o meu "Primeiro título" como tal, se ele tivesse chegado naquela bola, talvez toda a minha vida fosse diferente e eu não estivesse, na tarde de ontem, indo para uma manifestação "De esquerda". Não foi mera provocação, ou coisa que o valha.
Ainda rindo dele, parei em um mini mercado para comprar uma cerveja. A Brahma tava 2,39, e a Proibida 2,29, peguei a Brahma, mas ao calcular minhas moedas tinha apenas 2,29, o rapaz do caixa, com a anuência de algum tipo de "Fiscal" ou "Gerente" realizou a venda assim mesmo, alegando que as moedas estão em falta.
Caminhei todos os três quilômetros da Avenida Paulista, o ato nascia, já estava bem grande, aliás, tanto que foi necessário contornar a parte traseira do Masp para conseguir atravessar aquele trecho da avenida. Foi um ato muito bonito. Encontrei-me com o Duda, que toca nessa banda maravilhosa, em seguida com o Jã, que faz essas fotos maravilhosas, e com eles permaneci por todo o fim de tarde e começo de noite. Encontrei-me também, e isso é curioso, com antigos colegas de Unesp e de Usp, é muito interessante isso, quando você faz um desses cursos de humanas, como eu, que fiz Ciências Sociais, os eventos de "Reencontro de turma", no fim das contas, são as assembleias e atos políticos. 
Após a fala do homem mais bonito do Brasil, esse, ao centro da imagem segurando um microfone 


Jã, Duda e eu nos separamos, eles seguiram rumo a estação Paulista (que fica na Consolação, e não a estação Consolação que fica na Paulista) e eu segui sentido Paraíso, para pegar minha bicicleta. Parei numa lanchonete na altura da Brigadeiro e comprei quatro coxinhas, quer dizer, comprei duas e outras duas vem numa espécie de promoção que sei é uma farsa. A avenida vazia de carros, mas cheia de pessoas, caminhando na mesma direção, com panos vermelhos em mastros ou por cima dos ombros ou cobrindo o corpo, bateu uma emoção, talvez uma alegria, por estar ali, num ambiente seguro, talvez uma tristeza, por ter de estar naquelas situação, a tarde toda, enchendo o saco por algo tão básico.
Quando cheguei ao bicicletário o mesmo atendente que me recepcionara quatro horas antes ainda trabalhava, com menos simpatia e semblante mais cansado. Desta vez não conversamos.
Estava em dúvida sobre qual caminho faria para vir para casa, se iria pelo centro, se cortaria a Paulista e seguiria pela Avenida Pacaembu ou pela Avenida Sumaré. Tentei criar algum caminho que fugisse do estádio do parmera, sabia que haveria jogo "De libertadores" lá, o que implicaria numa grande concentração de parmerenses por ali e em trânsito. Ao chegar na Augusta, parei por alguns instantes para acompanhar uma persistente charanga esquerdista, que ainda cantava sambas e marchinhas com palavras de ordem. Um grupo de cansados policiais militares assistia a farra, e não seria exagero dizer que os olhares deles para o grupo denunciava uma vontade desgraçada de dispersarem aquela rapaziada com qualquer armamento não letal para que pudessem voltar para casa, ou para o batalhão, não sei.
Encontrei-me com mais um ex-colega de tempos universitários/acadêmicos, que eu não via há muito tempo, tanto que me perguntou se eu já havia defendido a dissertação. Como sempre digo para essa pergunta: "Defendi, e agora habito no desemprego". Talvez ele tenha tecido o melhor comentário a esse respeito que já ouvi: "Você deixou de ser o futuro da nação para se tornar parte do problema social".
Segui pedalando, e, ainda na dúvida sobre qual caminho realizar, ao chegar na Consolação, me recordei da Consolação, e que aquele seria um bom caminho, e a desci dividindo o espaço da ciclofaixa com vendedores ambulantes que desciam com seus carrinhos e caixas térmicas (vazias) rumo ao centro. Um casal de vendedor & vendedora conversavam empolgados sobre as boas vendas daquela tarde/noite. Não ouvi a conversa toda, mas deu para perceber que faziam alguns cálculos sobre uma alta margem de lucro.
Segui pela ciclovia debaixo do Minhocão, e em seguida percorri a Avenida Matarazzo por entre eufóricos palmeirenses, apesar de silenciosos em termos de cantorias, eram muitos e conversavam muito alto. Depois cruzei a Lapa pensando se iria parar em algum mercado para comprar alguma cerveja, e após ampla negociação comigo mesmo, resolvi que pararia. Apertei o passo Apertei os pedais para chegar antes dele fechar, e deu tempo. Comprei três latas de cerveja que bebo enquanto escrevo, uma de cada vez, que fique claro. 
Foi um dia bem fotogênico (a conclusão do texto vem após as imagens).












No entanto, apesar de porcos alviverdes, porquices políticas, porcos fardados e minhas próprias porquices mentais, passei o dia todo pensando que hoje você completa vinte e sete anos, que você é maravilhosa, que é um prazer poder partilhar da vida com você, que não tenho dinheiro nem para te comprar um bolo, um presente ou irmos em um rolê bacana, e que não vejo a hora de te dar um beijo. 

Feliz Parabéns Deusa.



terça-feira, 14 de março de 2017

A história da foto para além da foto.


Passei o ano de 2007 enfornado em um cursinho burguês na região central de São Paulo, havia conseguido uma bolsa e algum desconto, valia a pena. As aulas eram à noite e o resto do dia eu estudava em casa, na Biblioteca do Centro Cultural São Paulo ou nas salas de estudo no subsolo do próprio cursinho. Também passei o ano de 2007 preservando o crescimento de meus cabelos cranianos e faciais. De modo que, juntando ambas informações, cheguei em Fevereiro de 2008 com uma vasta cabeleira ao redor de todo o rosto e com uma aprovação para cursar Ciências Sociais na Unesp de Marília. Um de meus temores era que, como parte de algum tipo de ritual de iniciação universitária (que nunca me fez o menor sentido) cortassem meu cabelo no ato da matrícula. Assim, fui para Marília [suspiro] pela primeira vez em minha vida preparado para uma negociação: se viessem cortar o cabelo, eu ofereceria a barba às tesouras. Minha imaginação não estava errada, e, logo que viram um cabeludo na fila para a matrícula, "Veteranos" (outra coisa que nunca me fez o menor sentido) se aproximaram de mim com tesouras em mãos. Não foram agressivos nem babacas, é verdade, e quando ofereci a barba adoraram a ideia. Lembro duma jovem garota, que, salvo engano, não chegou a concluir o curso, deleitando-se em deixar-me com apenas metade do bigode. Assim, meu cabelo foi salvo. 
Primeiros dias de Março de 2008. O calendário pseudo acadêmico da Unesp Marília naquela época (não sei hoje como anda a coisa) tinha uma festa chamada "Miss Bixo". De temática inquestionavelmente preconceituosa, propunha que "Bixos" (ou seja, alunos homens ingressantes) fossem "Vestidos" como "Miss". Turmas de "Veteranos" (acho esses termos tão esdrúxulos que não consigo escrevê-los sem aspas) adotavam um "Bixo" e ficavam responsáveis por "Arrumá-lo" para a festa. O ponto alto dela era uma espécie de desfile, em que os "Bixos", devidamente "Travestidos" (uso um termo pesado, pois a graça da festa se assentava neste preconceito, há algum tempo classificado como "Transfobia") realizavam uma performance, jurados votavam nos melhores e aquele que fosse o vencedor ganhava alguma coisa, a ser partilhada com os "Veteranos" que o produziram - o prêmio devia ser bebida. Fazia parte do ritual, supondo-se que o "Bixo" era um iniciante na vida, embriagá-lo forçosamente, para que chegasse à festa caindo pelas tabelas.
Um grupo de garotas do então "Segundo ano" se alistou para me preparar para a festa. O camarim seria no apartamento 212 (se a memória não engana) do Edifício Fernanda, mesmo prédio onde eu morava temporariamente, e o fiz por quase um ano. 

                                     Escova. 

          Chapinha.

  Secador. 

                          Cremes. 

                                                         Blush. 

Delineador. 

                                 Rímel. 

            Batom. 

                        Cachaça.

Dado instante da coisa uma das garotas apareceu no quarto em que me maquiavam com um copo em uma mão e uma câmera em outra, me deu o copo e falou: "Bixão, bebe isso aí". Dei um gole, e era cachaça pura. Cinquenta e um. Engasguei, tossi, quase vomitei. Não tinha necessidade daquilo. Enquanto ela se deleitava rindo da minha situação e apontando a câmera para mim, falei para elas algo como:

"Porra caralho tomar no cu cacete não precisa disso. Cês podem ficar tranquilas que eu vou beber pra caralho, vou cair no chão, vou vomitar, vou dar trabalho, vou passar vergonha, não precisa me entupir com essa bosta pura não". 

Enquanto eu falava, uma foto foi feita.


Me levantei e fui até a cozinha, peguei alguma coisa (não lembro se suco ou refrigerante) e misturei com a pinga. Naquela noite me recordo que voltei para o apartamento caindo pela rua, que me encostei num poste e vomitei até os intestinos, que não acordei a tempo da aula no dia seguinte e que por uns três ou quatro dias havia maquiagem em mim. Fiquei entre os melhores colocados da competição de "Miss Bixo", alguns jurados, embora tivessem gostado da maquiagem e da performance (além da maquiagem, eu vestia uma fantasia de Sininho), alegaram que "Bixo não tem cabelo", e fui passado para trás. 

Curiosidade para além da foto.

No ano seguinte me convidaram para apresentar a festa. Comecei a beber cedo naquela data, e, enquanto me deslocava para o local do festejo, precisei parar para vomitar em um canteiro central entre pistas de uma rodovia. Vomitei muito, não tive condições de ir para a festa e voltei para outra casaAlguns anos depois, já em 2012, passei mal em outra festa universitária, foi daquelas cenas de tomar banho gelado e chegar por osmose em alguma cama e cair duro no colchão. Ganhei o apelido de "Bixão do Quinto Ano". 

"Cês podem ficar tranquilas que eu vou beber pra caralho, vou cair no chão, vou vomitar, vou dar trabalho", essas palavras, nos primeiros dias de graduação, foram proféticas.