quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Um Singelo Passeio.


Acordei atrasado, é verdade. Mas foi aquele despertar de desenho animado ou história em quadrinhos: pulo da cama correria café engolido quase à força junto com pão vestir a roupa colocando os tênis enquanto escovo os dentes e saí. Tinha poucas coisas para fazer com curtas distâncias geográficas entre elas - era, em suma, pegar alguns ônibus, chegar, fazer, uma a uma todas as coisas, e ir para outro destino. 
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Teria sido. Ao atraso do despertar se somaram outros - "cadê o bilhete único? cadê o primeiro ônibus? cadê o segundo? cadê o terceiro? cadê a avenida sem trânsito?". Por razões de horário, geografia e urbanismo falho (embora esse último soe-me uma redundância braba) perdi a primeira das coisas que teria por fazer no dia. Consegui fazer a segunda (mas foi quase, olha, quase, quase mermo, que não consigo). A terceira coisa eu não consegui fazer, nem a quarta, e a quinta eu fiz um terço dela - quer dizer que daqui há alguns meses terei de voltar lá para resolver os outros dois terços.
Das coisas que eu tinha por fazer a única que consegui cumprir integralmente foi almoçar, o que, convenhamos, eu poderia ter feito em casa. Donde decorre a compreensão descrita mentalmente por minha cabeça de que foi um dia perdido. Um dia de passeio no que deveria ser um dia dos mais úteis. 
Um Singelo Passeio.
Mas aí eu penso que nem nos meus mais distantes pesadelos eu tiraria um dia de lazer para realizar esse tipo de passeio. Isso não é passeio não. Cheguei a pensar que talvez eu preferisse estar no estádio dos "rivales" durante um show do Guns Em Roses em que todas as letras das músicas dessa horrenda banda fossem substituídas pelo hino do clube atualmente pseudo dono do local - imagine só, em vez de "oooh oooooh ooooh sweet child o mine" a multidão cantando junto com o Chiliquento "oooh oooooh ooooh defesa que ninguém passa" - cheguei a pensar, não concretizei o pensamento.
Estava caminhando pelas alamedas arborizadas quando me dei conta de que acabou. Acabou mesmo. Não tem mais por que voltar. Três anos se passaram desde o dia em que caminhei por ali me sentindo gigante, dando pulos como fossem passos para simbolizar o tamanho dos sonhos que eu imaginava estar construindo (realmente fiz isso, e sei que em breve deixarei de ter essa interpretação pessimista). O registro para retirar livros não mais há, o registro para almoçar foi cancelado hoje (e quase que o cancelaram antes de eu conseguir almoçar) e o do ônibus ainda está funcionando ("mas só até o fim do ano letivo"). 
Tento olhar pelo lado positivo, realmente tem um lado positivo gigante, vários lados positivos; uma lua cheia brilhante de coisas positivas e boas. Mas tem também as coisas ruins, o lado negativo, e num dia em que pouca coisa deu certo, me recordei das épocas em que essa era a lógica dos dias e dos meses na minha existência por ali, por isso que foi impossível não olhar pro lado escuro da lua e não considerar este o dia de Um Singelo Passeio.


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