sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Um e sessenta.


A INCRÍVEL HISTÓRIA DO HOMEM QUE  CHEGOU AO ÚLTIMO DIA DE 2016 COM APENAS UM REAL E SESSENTA CENTAVOS EM MÃOS.

No entanto, para contar a história sobre o último dia de 2016, e essa baixa quantia de dinheiro, é necessário retornarmos para o sétimo dia do segundo mês do ano anterior (vulgo, sete de fevereiro de 2015). Naquela data, sábado, anterior à semana que precedeu o final de semana do carnaval, o homem foi até uma agência bancária. Colocou o seu cartão em um dos caixas eletrônicos e estranhou, mas ignorou, quando, após digitar sua senha, surgiu na tela a informação de que a operação não poderia ser concluída. Trocou de caixa, sacou o dinheiro e vida que segue.
No entanto, e isso ficou sabendo alguns dias depois, como em uma ficção global, Doutor Albieri


estava escondido dentro, na verdade, em uma frente falsa naquele caixa eletrônico - escolhido aleatoriamente dentre os quinze da agência - e clonou o cartão do homem.
No entanto, para resolver o problema, explicaram a ele, não seriam necessários muitos procedimentos. Passado o susto, realmente parecia que a coisa seria simples: "Cancela isso daqui, cancela isso de lá, o dinheiro é reposto pelo banco, transferimos a conta para esta agência, lhe fornecemos um cartão novo, vida que segue".
No entanto, não são necessários muitos tropeços quando se lida com a burocracia multifragmentada de um megabanco polidividido por entre cidades estados gerentes funcionários caixas eletrônicos bocas de caixa envelopes de depósitos malotes de dinheiros frentes falsas carros fortes - "será necessário verificar as fotos feitas nos locais dos saques para verificar se não foi você mesmo quem fez os saques, levará dois dias a verificação, a gente te liga". 
No entanto, nesse intervalo, numa agência distante, há mais ou menos quinhentos quilômetros de distância, algum funcionário, aparentemente mais próximo da base da pirâmide burocrática fragmentada (que se assemelharia mais a um tangram ainda disforme), emitiu um novo cartão.
No entanto, como um mísero tropeço burocrático é suficiente para suspender os demais procedimentos, "Você tem de ir até essa agência, retirar esse cartão, e então transferir a conta", "A agência que está a quinhentos quilômetros?", "Isso", "E se não fizer isso?", "Bom, você pode continuar movimentando sua conta, mas apenas pela boca do caixa e com seu RG". Cansado dos tropicões burocráticos - diga-se de passagem, iniciados pois foi possível que instalassem uma frente falsa em um caixa eletrônico dentro duma agência hipervigiada (!!!) - emitiu apenas um "Ok", e vida que segue - com adicional de horas perdidas nas longas filas para saques diretamente na boca do caixa.
E então - sem "No entanto" desta vez - chegamos ao último dia do ano de 2016. A bem da verdade, ainda não chegamos ao último dia em si, porém, por algum tropicão burocrático - que, neste caso, pode ser tomado como "Alívio" para os trabalhadores do megabanco - as agências não abriram no penúltimo dia do ano, o último "Dia útil" de 2016. Sem ter como acessar a boca do caixa para sacar o seu suado dinheirinho, o homem sentou-se na escada da agência, em um cantinho com sombra, para pensar: "O que faço com os vinte reais que tenho na carteira?". Cerveja (para as festividades do último dia do ano) e créditos no cartão de transporte público (para chegar ao local das festividades). 
No entanto, chegou em casa e encontrou um real e sessenta centavos dentro de uma caneca plástica em que guarda quinquilharias na mesa de seu quarto, e passará o último dia de 2016 com apenas um real e sessenta centavos em mãos. 





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