quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Precisamos falar sobre a chuva.


Saí de casa com o intuito principal de realizar uma série de pequenas ações comerciais (típicas dessa época do ano) no centro de São Paulo. Carregava também o intuito coadjuvante de observar acontecimentos pelos meus trajetos e deles criar um texto - tanto que não me incomodei em ter de utilizar um bicicletário mais longínquo e caminhar por um relativamente longo trajeto. Tinha o temor de ser pego por uma avassaladora chuva (típica dessa época do ano) e, por fim de contas, a chuva se tornará o objeto do texto.


Ultimamente tenho tido uma onda de andar pela cidade e imaginar outras situações, permitam-me dizer, em "outras épocas". Parei para fotografar a silhueta das estátuas do Teatro Municipal quando uma garota indagou outra: "Quem foi o burro que escreveu 'Theatro' com 'TH' ali?". Mas isso não vem ao caso, vou escrever sobre a chuva.
Peguei a minha bicicleta no bicicletário da estação da Sé e escorreguei pelo centro até quase a Santa Cecília. Pararia, antes de seguir para casa, em uma loja que vende quadros para fotos. Foi ao sair da loja que me dei conta: "Vai cair uma chuva sui generis". Ventos, lixo girando pela rua, garota segurando a barra do vestido, morador de rua correndo atrás do papelão-colchão, céu "fechando" em nuvens carregadas. 
Foi ao alcançar novamente a Avenida São João (já próxima de seu fim) que me dei conta da iminência da tormenta que se anunciava. O céu em tom azul escuro, mesclado com um cinza chumbo, à leste, indicava que "iminente" era termo brando para o que ocorreria. No entanto, o céu azul claro e o fortíssimo vento que vinha da direção contrária (que fazia com que eu e mais dois ciclistas ficássemos em pé em nossas bicicletas para pedalarmos com força), davam alguma esperança de que a iminência da tormenta enfrentaria alguma concorrência.



Seguia na direção do céu aberto, contrário ao vento e de costas para o céu chuvaroso. De certa forma era bonito olhar para frente e ver o branco das nuvens e o azul claro do céu e, simultaneamente, em meu espelhinho retrovisor, ver as nuvens carregadas atrás de mim. Parecia uma perseguição, ou uma fuga - tomarei por fuga, visto que me senti fugindo da chuva tal qual Pierce Brosnan, Linda Hamilton & grande elenco fugiam da ira do vulcão.
Percorri a ciclovia debaixo do Minhocão com o pensamento fixo de que, caso o pé d'água desabasse, eu estaria protegido pela gigante minhoca de concreto. Não desabou, "Seguirei até a Barra Funda, quando chegar lá já estará chovendo e paro por ali". Passei pelo complexo de transportes da Barra Funda sendo tocado por alguns poucos pingos, que não foram suficientes para me fazer estacionar: "Dá para ir até o Sesc, lá paro e me protejo da chuva". 
NÃO FAÇA ISSO!
Foi o pensamento que tive - dessa forma mesmo, em letras garrafais - ao ver, já na Avenida Matarazzo, um letreiro digital num relógio de rua informar: "Zonas Norte, Oeste, Leste e Centro: atenção para alagamentos". Não seria o caso de parar  a mim e à bicicleta para esperar uma chuva de verão ocorrer e passar. O que se tinha por anúncio era, factualmente, a iminência da queda do céu sobre nossas cabeças (para citar os Gauleses).
A trilha sonora era composta por apavorantes trovões.
Comecei a pensar em Jesus. Havia uma comunidade (ou algo do gênero) de algum tipo de Cristianismo realizando atividades na Praça da Sé e na Praça do Patriarca (espaços que são interligados pela Rua Direita). Havia um grupo em cada praça realizando missas, pregações etc, e outro grupo realizando uma espécie de "Catequização Ambulante" por meio da Rua Direita: a percorriam em cantoria e com rápidas abordagens convidavam as pessoas a irem a alguma das praças para presenciar a missa ou o culto. Passei um bom tempo observando isso tudo (não seria exagero dizer que gastei bem uma meia hora nisso). Mas então, comecei a pensar em Jesus quando passei pelo Sesc e a tormenta ainda não havia desabado: "Jesus segura essa chuva pra mim, já estou quase em casa, só mais vinte minutinhos sem água, fiquei lá trinta minutos ouvindo os caras falarem de você, quebra essa pra nós vai". 
No Viaduto da Lapa o caos se mostrou irreversível. Por algum gracejo do destino um atípico helicóptero vermelho sobrevoava a região, e a tonalidade dele causava um contraste impactante com o céu de bruto azul marinho (quase roxo) que cobria aparentemente toda a cidade (exceto por aquelas paragens mais à oeste); parecia um morango malandro que rolou pelo chão do Ceagesp até chegar à festa das uvas; ou ainda um pequeno tomate cereja embalado confusamente em um vidro de azeitonas pretas enxutas macias saborosas importadas naquele mercado burguês. 
Cheguei ao outro lado do viaduto. Trânsito. Congestionamento. Buzinas agudas e graves apertadas à esmo. Um ônibus sanfonado atravessava toda a pista. Ofensas verbais pululavam às dezenas. Os semáforos estavam desligados. Veículos quase colidiam em uma pejorativa anarquia provocada pela ausência do vermelho, amarelo e verde - "apagou uma luz as pessoas não sabem como agir e quase se matam". O caos sempre pode ficar mais caótico quando se trata de São Paulo.
Ponte do Piqueri - "Segura essa chuva pra mim Jesus, só mais dez minutinhos". À minha direita, o Tietê mais poluído que cabeça de moleque adolescente machistinha, o céu de azul escuro com camadas de nanquim; à minha esquerda, o Tietê mais poluído que a ficha dos senadores golpistas, um sol de queimar a pele em ardência lancinante e fazer ela virar uma crosta dura e rígida para logo em seguida rachar, uma pequena clareira de céu azul claro (colocaram mais água do que aquarela nessa pincelada) e algumas nuvens de algodão alvejado. 
Venci a ponte e adentrei no bairro - Freguesia do Ó, meu pequeno oásis nesta cidade inescrupulosa - fui recepcionado de frente por ela, aquela massa cinzenta escura, concentração de água densa, "Não vai dar tempo, vai desabar a tormenta, vai cair o céu, o pé d'água vai correr por essas ruas e antes de tocar a rua vai encharcar o meu corpo, minha mochila e tudo que fui comprar no centro da cidade".


Não peguei chuva. Na verdade, a chuva não me pegou, e aqui no meu bairro não choveu. Talvez a chuva não fosse tão iminente quanto escrever um texto sobre ela - ainda que eu não tenha a vivido plenamente, apenas me apavorado em razão de sua iminência que não ocorreu, pelo menos para mim, mas dá para considerar que a vivi quando passei quarenta minutos pedalando e pensando nela e olhando para ela (embora ainda em outro estado físico que não o líquido

Com licença, o Gabriel às vezes fica na iminência de escrever textos sobre assuntos que martelam tanto a cabeça dele, que não sabe como acabá-los. Vim fazer isso por ele. Desculpem-me pelo inconveniente, mas nós precisávamos falar sobre a chuva, ainda que não tenhamos a vivido concreta ou liquidamente, apenas a visto enquanto formação densa e concentração abrupta de nuvens carregadas sobre uma parcela significativa da cidade de São Paulo no dia 20 de Dezembro de 2016 por volta das 16 horas.




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