segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

03:32/01:08.


03:32.
Tem noites que são absurdamente difíceis de dormir - há uma série de fatores que fazem-me "noctívago" - e dessa vez não foi diferente. Levantei e fui ao banheiro, sentar na privada e pensar. Pensar. Pensar. Não nego que houve alguns dias nos últimos dois meses que por alguns segundos passou pela minha cabeça a frase "se eu tiver que ficar em São Paulo pro ano que vem acho que não vai ser tão ruim assim". Mas é só por alguns segundos. Ontem ela passou também, no final de tarde quente, pós-chuva, pedalando, sorrindo, vendo sorriso, cidade vazia, clima agradável, cerveja gelada. À noite eu não dormia, pelos motivos de sempre: barulho na rua, barulho no portão, cachorro latindo, galo cantando (meu vizinho, faz uns dois meses, cuida de um galo que canta indiscriminadamente por todas as vinte e quatro horas do dia), passarinho gritando (meu pai, faz um mês, pegou na rua um passarinho que não tem uma das patas e agora ele mora numa gaiola no quintal), gritaria na cabeça. Sentei na privada para pensar e, realmente, seria um absurdo cogitar a hipótese, por livre e espontânea vontade, de ficar em São Paulo pro ano que vem. Comecei a escrever qualquer bobeira no celular, e vi que eram três e trinta e dois da manhã. 
Talvez esse dado seja irrelevante, mas gostaria de adicionar que apenas peguei no sono quase às cinco da manhã, após mais alguns acontecimentos na rua, dentre eles, uma abordagem policial a um rapaz que estava parado no ponto de ônibus.

01:08.
Parece que a cada passar de ano o que outrora foi uma situação consolidada de determinadas pessoas em um lugar se dissolve pelos espaços e as pessoas estão, cada vez mais, distantes daquele local específico e aquela situação configura-se, mais e mais, como mera fonte de lembranças. Reconheço apenas um e outro nome na lista que saiu hoje dos aprovados para a pós-graduação. Vi os nomes, vibrei com dois, sorri com outros dois, os demais vinte e cinco, não me dizem o menor respeito enquanto significantes de pessoas. Vi a lista, vi os nomes, lembrei-me dos rostos - e aí foi aquele mergulho incontrolável: lembrei das pessoas lembrei das vozes lembrei das pessoas e suas vozes descendo a rampa virando a esquerda antes do passo íngreme ser a tônica da rampa e indo para a biblioteca de toldo azul que protege da chuva e que tantas vezes foi ponto para encontros diversos entregas de bilhetes para o restaurante abraços papos rápidos o banco de cimento e a pequena clareira entre algumas árvores onde certa vez desabei ouvindo música e lá embaixo na rampa tem um prédio e antes tem outro prédio e entre eles tem também um prédio e em todos eles posso dizer que habitam memórias minhas e depois do prédio tem mais prédios e estacionamentos e pomares e mesas e bebedouros e quadra e até um marcadinho e não importa a nomeação ou uso do espaço posso te garantir que nele ali moram memórias minhas. Já faz um tempo parei de encará-las com o pesar da nostalgia saudosista, e me animo por saber que eles ainda são fontes de vivências para outrem, aqueles que conheço (ou não), e que optaram por seguir fazendo a vida por ali. Exatamente à uma e oito da manhã, quando me recordei da rampa, confesso que bateu em minha boca o sabor das saudades.
Talvez esse dado seja irrelevante, mas o gosto que tenho na boca mesmo é o de uma sopa semi pronta (espécie de tang quente e semisólido) que preparei na última sexta e ainda estava na geladeira e que comi instantes antes de ver as listas.




Nenhum comentário: