segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Quando que aplaude?


Tenho algum problema com aplausos. Quando estou na condição de espectador, em geral não sei o instante de começar a aplaudagem (e espero que alguém, ou alguéns o faça para seguir a manada). Quando estou na condição de aplaudido (aconteceu algumas vezes) não sei como agir, como agradecer (quando aconteceu, aplaudi junto). 
Bom, ocorre que esses dias fui assistir a um espetáculo de dança contemporânea. Tratava-se da apresentação dos trabalhos de conclusão do curso de licenciatura em dança, e eram várias apresentações curtas, uma em seguida da outra. O fim de uma era marcado pelo apagar total das luzes, e da escuridão deslanchava uma avassaladora onda de aplausos. Alguns segundos de escuridão, e então outra apresentação. Jogo rápido.
Teve um instante em que ficou tudo escuro, e alguém bateu palmas, mas ainda não era hora, e o movimento continuou por mais alguns minutos. 
Certo momento o espaço ficou escuro, e quando as luzes se acenderam novamente uma moça e um rapaz entraram no mesmo com uma grande escada de alumínio dobrável - uma entrada ágil e triunfal, um movimento ávido, moderníssimo, em um baita diálogo das pessoas com o objeto. Com certa dificuldade a abriram. Silêncio total no ambiente. A moça segurou um lado da escada e o rapaz tentou subir pelo oposto. A escada, no entanto, não estava fixa, deslizou um pouco, e o rapaz, em um movimento plástico de grande envergadura e ensaio, pulou dela antes de um grande tombo. Nessa fração de segundo, o rapaz que cuidava das luzes as piscou repetidamente ("que diálogo com os elementos do espaço", pensei), três outras pessoas entraram em cena, cada uma de um lado da sala. Entraram correndo, de pontos que, se interligados, formariam um triângulo. Havia agora quatro pessoas segurando a escada e uma tentando subi-la. Ao obter sucesso na escalada, um movimento de mãos do rapaz fez soltar do teto um longo pano vermelho, que, como um forte impacto, causador de traumas e hematomas, colidiu com o chão preto do linóleo, um espetáculo de contrastes iluminado por poucas luzes amareladas. O rapaz desceu da escada, duas moças a tiraram dali, outra tornou a sentar e a quarta ajudou o rapaz a moldar o tecido: cada um de um lado, o esticavam, mexiam, remexiam, alinhavam. Pararam, olharam para o tecido, para o chão, e seguiram cada um para um lado em passos parelhos, semelhantes, primos; ensaiados. As luzes se apagaram e fui o puxador dos aplausos, uma belíssima apresentação sobre como as construções coletivas, a junção dos corpos, permite que se alcance êxito nas ações cotidianas. O tombo, que seria do rapaz, que se tornaria mancha tão vermelha quanto o tecido, foi evitado graças ao esforço de um grupo, graças à força conjunta, à união de indivíduos em coletivo. Aquilo me prendeu toda a atenção. Aplaudi com gosto! No entanto, não era hora dos aplausos, outras mãos seguraram as minhas em sinal de repreensão: era só o pessoal arrumando o cenário para a próxima apresentação, e não um dos atos do espetáculo.
Eu nunca sei a hora certa de aplaudir, e depois dessa, não me atreverei novamente a supor que talvez eu saiba.


Nenhum comentário: