quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Criança.


[Leia esse texto acompanhado desta música].
Eu não saberia precisar se foi em 2008 ou 09, faz sentido que tenha sido em 8, mas talvez tenha sido em nove. Acho mesmo que foi em dois mil e oito sim. Bom, enfim. Ocorre que em uma sexta-feira (ou teria sido numa quinta? A memória nos trai...) ia ter música no anfiteatro da faculdade, um sujeito que parecia ser conhecido do pessoal, mas que não era exatamente alguém do pessoal. Enfim - tomo como certo que era 2008, meu primeiro ano na graduação - eu ainda não sabia ao certo qual era a dimensão do 'pessoal' por ali. Como era desde muito tempo um apreciador de música, não queria perder aquela oportunidade - digo, quando você é jovem e gosta de música e vai fazer faculdade e num dia te falam que vai ter música no intervalo da aula, bom, é o tipo de coisa que não se quer perder. Tratava-se de um homem alto, acho que tocava sozinho ao piano. Não! Disso me recordo bem, tinha um cabeludo na bateria e um rapaz tatuado com um baixo e ele, que era o nome do show e compositor da maioria das músicas a serem executadas, tocava o piano. Nas poucas falas que realizou ao microfone - a coisa me interessou mais ainda pois começava a nascer em mim um interesse pela música instrumental, que, desde então, desabrocha em livre ascensão - dava para perceber que ele não era de lá, ou daqui: um sotaque arrastado, algumas palavras ditas com certo ar de dúvida, mas sem temor por eventualmente não acertá-las. Mas então, dado instante da peleja, se dirigiu ao microfone e falou algo como: "êsta musicá ê sobre un sobrinio e una sobrinia [colocou as mãos na altura dos joelhos como modo de indicar se tratar de 'pessoas pequenas'] se chámá 'Criánça'" - tento reproduzir o sotaque por meio dos acentos, mas isso é um absurdo, me perdoem por manter essa licença poética tão criminosa no texto. Que momento! Eu não saberia descrever, seria também um crime com o vivido, aliás, tentar descrever. Recordo que me apoiei no encosto da cadeira na fileira a frente da que eu estava sentado - de madeira escura, com assento e encosto estofados, recobertos por uma espécie de corino verde - e assisti... aquilo, aquele indescritível aquilo, o ouvi mordendo o encosto da cadeira (dessa sensação eu lembro; talvez a marca dos meus dentes ainda esteja naquele pedaço de patrimônio estadual). Que momento! Quantas vezes naqueles anos todos tive o prazer de presenciar aquela música ser tocada nos auditórios marilienses, no Cão Pererê e até na rua. A ouvi com os batuques da Renata; a ouvi (por diversas vezes) sendo tocada pelo próprio compositor, Luca Bernar; a ouvi certa vez com um trompetista; em outra com um violonista; teve uma com um saxofonista; e teve uma tarde na 'Casa Cinco' em que o Pelego e eu tentamos tirá-la na guitarra (ele conseguiu, eu não). Até hoje - e desde aquele dia, certamente em 2008 - essa música 'faz' algo que não sei dizer. Liga em mim as cachoeiras, move minhas placas tectônicas, aciona as válvulas de minha caixa d'água em força máxima - qualquer metáfora com água serve para dizer que leva-me às lágrimas. Leva-me às lágrimas e não me privo das lágrimas, em geral acompanhadas da pergunta: "para onde vão as coisas que vivemos?". Música em estado artístico puro que faz-me pensar na vida sem-pensar; honestamente, acho que faz-me sentir a vida sem pensar, e recordar dos vividos sem o peso dos pensamentos. Talvez a leveza dos passos da "Criánça" que já fui retome o meu ar na duração dessas notas e ritmos. Não sei, jamais saberei... Sei que é uma música linda, que de tempos em tempos ouço e encharca-me os olhos, molha-me a barba, enche-me a alma. 
Ps.: "das coisas mais belas que tive o prazer de conhecer graças às escolhas que fiz na vida", é isso o que frequentemente digo para as pessoas quando lhes mostro essa música.


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