sábado, 12 de novembro de 2016

A Motorista.


Foi num dia desses recentes, naquela época em que eu aparecia pouco e quando eu aparecia o seu sorriso também o fazia grandiosamente e vinha acompanhado da frase: "tá sumido, hein?", e eu dizia (até ligeiramente cabisbaixo) "é, pois é...". Não a toa, quando acabei o trabalho que me fazia "ficar sumido", você foi a primeira pessoa para quem fui correndo pedalando o mostrar - até porque, nunca é demais lembrar: se hoje tenho gosto pela leitura e pela escrita, você foi uma das pessoas que plantou esta sementinha por aqui.
Bom, mas naquele dia em específico, eu tinha pouco tempo, entrei e me sentei em uma banqueta na cozinha enquanto você passava o café - beliscava um bolo também. Não sei ao certo por que, começou um assunto e, dele, surgiu uma história.
Foi lá pelos idos da década de 1960. As "crianças" eram ainda crianças sem aspas, bem pequenas, e em muitos domingos o pai delas tinha uma tarefa: pelo fato de possuírem uma Kombi, levava a turma do esporte para disputas em outros clubes da cidade. A você e às crianças, cabia esperar o retorno dos homens - tarefa que, pelo alongar da espera outorgada a você, soava-lhe um tanto quanto cansativa.
Você falou para ele (assim, como quem apenas anuncia, e não como quem pede autorização), que iria tirar a carteira de motorista e comprar um carro para si própria. Ele, cheio dos "machõesismos" da época, não gostou muito da ideia - mas não era ideia, era prática, você estava apenas anunciando, e não pedindo autorização.
Fez tudo o que tinha de ser feito para adquirir a habilitação, comprou o carro e a vida seguiu; aliás: seguiu a vida, dirigindo por aí.
Quis o destino que algumas semanas depois de me contar essa história eu estivesse pedalando pela Avenida Jabaquara (já não estava mais tão "sumido") e fui surpreendido por buzinadas. Quando olhei o barulhento carro, vi que, defronte ao volante, reinava grandioso o seu sorriso. Um rápido encontro, que durou um semáforo fechado perto da Praça da Árvore, mas tão cheio de significado quando pensamos que ele ocorreu em razão da ideia firme e imbatível tida em alguma época da década de 1960, em que você decidiu que se tornaria "A Motorista". 
Feliz Parabéns Vó!



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