segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A Dissertificação de Mestragem de Gabriel Coiso.


Sobre o livro "A dissertificação de mestragem de Gabriel Coiso":
Gabriel Moreira Monteiro Bocchi é formado em Ciências Sociais e, em 2016, concluiu seu mestrado em antropologia. Ele vive em um diálogo constante com Gabriel Coiso, escritor, músico, fotógrafo, enfim, brincalhão de criatividades. Ambos dividem o mesmo corpo, o mesmo tempo, os mesmos espaços e vivências. Enquanto Gabriel Moreira Monteiro Bocchi focava-se nos procedimentos acadêmicos necessários para a escrita de uma "dissertação de mestrado", Gabriel Coiso puxava-os para escritas mais distraídas, refletindo em breves crônicas sobre esse próprio período de concentração acadêmica, sobre a vida na cidade de São Paulo, os afazeres artísticos, os afazeres acadêmicos. "A dissertificação de mestragem de Gabriel Coiso" é produto do encontro diário do antropólogo com o artista, do pesquisador concentrado com o brincalhão desvairado. O resultado é um livro com certa estrutura acadêmica e conteúdo literário, que valoriza, assim, o que há em comum entre os gêneros e os "sujeitos".


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Excesso.


Olhei para a bicicleta parada e comecei a cantarolar uma música que surgiu espontânea e cujo processo de elaboração da própria me acompanhou por todo o caminho. O lixo em frente a casa que outrora abrigava um brechó/bazar/antiquário-não-profissional parecia muito apetitoso mas não pude fuçá-lo. Estão contratando balconista e auxiliar de oficina na bicicletaria em que costumo fazer alguns reparos. Dois rapazes dançando de frente para os carros em cima das faixas de pedestres enquanto o semáforo está vermelho. No chão perto da ciclovia tinha um negócio que parecia mangueira e máscara de inalador. Um homem estava sentado no canteiro central da avenida e ao seu lado havia presa em duas árvores uma faixa com um nome próprio e a indicação de que "sou pedreiro, pintor e eletricista aceito qualquer trabalho". Um dos artistas urbanos que mais admiro a obra fez um mural muito bonito em uma área onde passam muitos pedestres mas nos instantes em que estive parado ali não vi nenhum pedestre reparando nesta obra. Uma senhora interrompeu parcialmente o trânsito estacionando seu carro em local proibido para perguntar a policiais parados em uma praça se eles poderiam ir "fazer alguma coisa" para tirar pessoas de uma ocupação pois elas estariam "enfeiando a rua". Ao chegar no bicicletário não foi necessário apresentar meu RG pois a moça já me reconhece e achou meus dados olhando a página com os dados dos ciclistas de alguns dias atrás quando deixei a bicicleta lá. Uma moça de cabelo azul olhava para mim com desconfiança enquanto eu batucava no vidro da porta do vagão para criar um ritmo e mentalmente cantar a canção que eu compunha desde que saí de casa. Sentei-me para escrever mas logo em seguida um senhor com muitas sacolas em mãos entrou no vagão e liberei o assento para ele que me agradeceu muito e ao descer me agradeceu novamente. Desci na mesma estação que a moça de cabelo azul que me olhou com estranhamento me preveni e me afastei dela. Subindo a escada da estação de metrô vi uma carta no chão de primeira não entendi o que estava escrito mas parecia ser "preso" uma das palavras. Ao lado do consultório médico em que fui tinha uma pixação macabra. A consulta com o médico durou cinco minutos e ao dá-la por encerrada mesmo que eu ainda tivesse perguntas ele deslizou o corpo na cadeira e começou a mexer em seu celular. Desci a mesma escada que subi para acessar a estação e o papel ainda estava lá a peguei e li e me espantei trata-se de uma carta pedindo ajuda para descobrir em qual unidade prisional está um homem que foi preso. O rapaz que vestia um uniforme duma loja-guichê da estação de metrô almoçava uma marmita com a mesma apoiada no topo de uma parede baixa. Quando foi que começou a ter tantos ambulantes nos vagões do metrô? Ou será que para esses lados da cidade tem sempre e eu que não venho tanto para cá? Tem um rapaz sentado em um dos bancos com uma tatuagem com o símbolo e o escrito "Grind Core". Ao chegar de volta à estação onde deixei a bicicleta investi um real em três pacotes com duas bolachinhas em cada um e optei pela saída oposta a do bicicletário para que eu comesse as bolachas antes de pedalar foi nesse instante que um rapaz que se apresentou como "i'm from senegal" me pediu para lhe comprar um bilhete de metrô mas eu havia gasto o último um real da minha pochete com as bolachinhas. Quantos holofotes para iluminar uma igreja. A moça do bicicletário se despediu de mim dizendo "tchau Gabriel, até a próxima". Ao sair do bicicletário enquanto esperava o semáforo abrir um rapaz de voz fanha se aproximou de mim e falou por quatro ou cinco vezes até que eu entendesse que ele queria saber onde que ficava a delegacia mais próxima pois haviam lhe dito que por ali havia uma delegacia e ele precisava realizar um BO. Quase fui atropelado por um carro cujo motorista digitava coisas em seu celular enquanto entrava em uma movimentada avenida. Um motoqueiro tinha colado na caixa de sua moto adesivos da "1 da Sul", "Fiel Capão", "Gaviões da Fiel", "João Dória Prefeito" e "Aécio Neves Presidente". Num varal na parte frontal duma casa vi várias camisas antigas do Corinthians inclusive um modelo de 2002 ou 3 com nome do Luciano Ratinho. Distraído reparando em tudo que ocorria ao meu redor me esqueci de parar na farmácia para ao menos ver o preço do remédio que o médico me orientou a tomar pois o que é muito legal em São Paulo é que sempre está ocorrendo algo mas para quem está sempre olhando para tudo o que acontece isso passa a ser às vezes a pior coisa de São Paulo: os excessos, sempre tem alguma coisa ocorrendo pra ganhar a minha atenção.







terça-feira, 4 de outubro de 2016

Fragmentos - XV.


Parece que nunca vai passar o inverno. Os jovens parece que estão cada vez mais jovens; digo, cada vez que vou à faculdade parece que os jovens estão mais jovens.


Hoje me encontrei com mais gente do que tem sido comum. Isso ocorreu pois fui à faculdade e pois na última semana estive recluso por razão de doênça.
Às vezes a gente tem que ter a humildade de assumir que talvez não seja o vento que é frio demais, a gente que é friorento. A gente, eu, você, nós. 


Hoje foram gastas três horas para ir e voltar. De certa forma é bom não estar recluso, de certa forma é um saco passar por isso para desrreclusar.
Preciso dormir mas a rua está sem luz e a criminalidade se ilumina. Desci para casa correndo com a mochila pesada - "minha dissertação pesa uma tonelada".


É bom falar para os jovens, apesar dos ventos frio do inverno que parece que não vai passar. É bom sair à rua e voltar e jantar e voltar a fazer as coisas.
Quem sabe com isso tudo a ansiedade esmoreça e eu possa dormir uma noite tranquilo e sereno e descansar e não acordar com dores na cabeça.