quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Então, eu cruzo a cidade...


De ontem para hoje deu uma esfriada brava, percebi logo que acordei. Fiz o que tinha para fazer em casa e a rua me chamou. "Vento frio", pensei ao senti-lo bater firme em meu rosto no instante em que coloquei a bicicleta na calçada - impossível não me recordar de todos aqueles Julhos em que o vento frio nunca foi adversidade para nada que queria fazer pelas ruas, fosse pedalar, fosse amar, fosse perder. 
Gosto de pedalar e decidir o caminho enquanto pedalo; "cruzo o centro ou vou pela Avenida Pacaembu? Chego na Paulista pela Vergueiro ou pela Angélica?". Quando notei, respondi acidentalmente à pergunta ao optar seguir por debaixo do Minhocão, não notei que virei à esquerda na Avenida General Olímpio da Silveira - vulgo "Avenida Embaixo do Minhocão" - e que havia resolvido a questão sobre o caminho enquanto o percorria.
Segui boa parte da ciclovia que há debaixo do grande elevado. Passei pela Santa Cecília, mas não vi a Catedral, estava do outro lado, cruzei o Largo do Arouche, e depois a Praça da República. Como é bom pedalar despreocupado e assistir o vai-e-vem apressado às seis da tarde, o escurecer do céu, a barulheira dos transeuntes apressados: "hoje tem jogo", "vai perder".
Biblioteca Mário de Andrade, 7 de Abril consternada por uma obra, Teatro Municipal. Conforme ia passando pelos locais me recordava de pessoas, de momentos, de situações diversas vividas entre os 14 e os 27 - quando eu era jovem, inclusive, adorava essa região, mas isso só durou entre os 15 e os 18.
Vi o Vale do Anhangabaú de cima, passando pelo Viaduto do Chá, Libero Badaró, Largo São Francisco. Segui pela ciclovia que corta todo o centro, vem lá desde antes do Largo São Bento e vai morrer na Praça da Sé, depois de cruzar toda Rua Benjamin Constant. Foi quando cheguei na praça do Marco Zero que vi barracas em que pessoas vendiam alimentos, policiais militares montados em cavalos, oficiais da Guarda Civil Metropolitana parados, dois repentistas fazendo agradável barulho sob a forma de rimas, pessoas deitadas recolhidas em seus cobertores ao pé de coqueiros.
Continuei pela ciclovia atrás da igreja, Praça Doutor João Mendes, Avenida da Liberdade, então o Largo da Liberdade, "a 23 de Maio Parada" quer dizer "iluminada de branco dum lado e de vermelho do outro". 
São Joaquim e a subida da Rua Vergueiro, é pesada, mas é gostosa, as pernas nem reclamam, aprendi a pedalar assim. A noite já caiu, a subida é escura, vazia, assustadora em alguns pontos - essa constante sensação de perigo não é nada gostosa (o vazio por aqui não é gostoso) mas me faz pedalar de maneira ágil e firme.
Então parei na estação Vergueiro, onde há o Centro Cultural São Paulo. Ainda me recordava das tantas luzes nas torres de escritórios visíveis ao cruzar o Viaduto do Chá - em 2014 fiz uma entrevista para emprego numa delas. Me pareceu justo que parasse no Centro Cultural, acorrentasse a bicicleta e tomasse um café. 
De certa forma, ah Centro Cultural, um dos meus oásis em São Paulo nos últimos dez anos. Aqui tracei planos para ir embora de São Paulo em 2007, aqui visitei sonhos entre 2008 e 12, aqui rabisquei o plano de retornar a São Paulo em 2013, aqui vim para respirar entre 2014 e 15, e, por fim, aqui vim em 2/8/2016, para começar a me despedir desta cidade após cruzá-la de bicicleta em um fim de tarde fria. 
Começou o meu adeus, bosta de cidade.


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