quarta-feira, 15 de junho de 2016

Eu nunca vou sarar dessas saudades - II.


[Ou "A escada"].
[Articula diretamente com "eu nunca vou sarar dessas saudades"].
Outro dia eu estava pensando que eu deveria saber definir melhor as diferenças entre espaço e lugar, e eu na real não sei. E tem uma coisa que eu já penso faz um tempo sobre isso, vou explicar. Outro dia minha mãe se referiu à escola onde ela trabalhou por muitos anos e eu estudei por outros tantos. Aquela escola não existe mais, e já faz um tempo, a edificação foi demolida, se tornou terreno e atualmente é um prédio de alto padrão, coisa para ricaço mesmo. Mas no referencial da minha mãe, a região ainda é "perto da escola". Uma questão de espaço-tempo interessante para pensar. 
E aí tem outra coisa que volta e meia eu penso nesse rumo: a escada do antigo Cão Pererê, em Marília. A que levava do bar para o andar onde tinham os shows, onde realizei os meus primeiros trampos de portaria para a casa, durante as noites de jazz em meio de semana às quartas-feiras em 2011. Talvez aquela escada nem exista mais, penso. Acho que a última notícia que tive daquele espaço é de que foi transformado, enquanto lugar, em um depósito ou algo do gênero do mercado que tem no mesmo quarteirão. Sei lá se mantiveram a escada.
Com certeza, aconteceu muita coisa naquele espaço, tomado como lugar, referencial de acontecimento, ponto preciso de situações. É um pecado terem demolido aquela escada, se o fizeram mesmo. Aliás, e isso eu estava pensando outro dia pedalando por São Paulo, toda demolição é um pecado. Imagine que demoliram um prédio inteiro, perfeito, intacto, só para dar continuidade a uma obra do metrô perto da ponte da Freguesia do Ó. Todo mundo sabe que as obras do metrô são uma mentira, são planejamentos que não se concretizam, são acidentes, são histórias para boi dormir ou histórias para paulistano tal qual boi dormir em seus deslocamentos cotidianos. Mas aí demoliram um prédio perfeito.
Tratar o espaço de maneira tão burra, em nome de criar supostos lugares. Mas tenho mesmo saudade daquelas escadas.


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