terça-feira, 10 de maio de 2016

Vibração.


Há uma questão muito interessante em minha educação, recebida no seio familiar: nervosismo. Quer dizer, todas as questões em todas as educações em todas as famílias são interessantes, olhe só que belos pontos para se pensar. O nervosismo é um sentimento com o qual não sei lidar bem, e desde a mais tenra idade estive exposto a exibições de grande seções da coisa, donde, talvez, ele tenha feito morada aqui em mim. Gritos irritados que irrompem do fundo da garganta como que vindo das cordas vocais mais longas que tocam os fundilhos do estômago como se chegassem a sair deles os intestinos. Faces que em questão de segundos passam do tom esbranquiçado-europeu, para o rosa-flamingo e para o vermelho-pimentão, é o nervosismo ganhando tons de raiva plena estourando. Foram tantos os exemplos, e hoje não quero enumerar exemplos, só falar da coisa mesmo. Até por que, hoje foi um dia em que o nervosismo chegou a quase aflorar, mas busquei o cortar por alguma raiz que encontrasse.
Um dos caminhos para cortá-lo é remetendo-me a bons minutos de som pesado, rápido, alto, chutado, doído, gritado estrebuchante; não sei, de certa forma acalma. Tem um álbum, de uma banda independente, muito bom, e o coloquei para tocar após o almoço. Nada de pestana em dia de raiva, eu quero sentir paulada sonora no cu da orelha. Mas, sei lá por que, hoje eu fiz diferente, e me deitei no chão defronte ao rádio, havia colocado o som bem alto, e a regulagem do grave devia estar diferente do comum, é possível. Sentia a vibração do chão enquanto o moço bradava "destruindo seus sonhos" repetidamente. 
Verso 19.
É importante sentir a vibração do chão, digo, eu gosto, não acredito muito nesse lance de "energias" para além da elétrica, mas parece que rola uma troca de energias bacanas às vezes, como quando piso na areia da praia depois de um bom tempo sem o fazer, ou quando tiro os tênis e piso na terra ou na grama úmida de algum parque nessa cidade, embora eu saiba que tal solo não representa nenhum refresco na história toda, eu gosto dessas trocas, mas, bem, hoje descobri que não precisa ir até o litoral ou até o parque pois rola uma vibração calmante interessante se eu colocar o som pesado e deitar no chão.
Teve inclusive uma coisa que me ocorreu enquanto estava lá deitado no chão largado ouvindo o som: "eu deveria ter desconfiado de que havia coisas erradas quando os neoliberais vieram me parabenizar por minhas escolhas". Era como se eu vibrasse irritado de um lado e a música viesse sob a forma de vibração calmante de outro e isso tivesse gerado à luz da troca uma verdade inegável em minha cabeça.
Incrível.
Eu não aguento mais isso.




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