sexta-feira, 6 de maio de 2016

Tristeza.


É difícil escrever sobre coisas que parecem cíclicas, mas eu farei esse esforço pro verso 24 - mas não me esforçarei para que ele não pareça aquelas farofas cheias de coisas. Na verdade se parecer acho que está até bom.
Saí de casa e deslizei até o mercado maior mais próximo no bairro tem outros não muito longe maiores e de grandes redes mas eu prefiro comprar nesses mercados de bairro que quem abre a porta às 8h da manhã e quem a fecha às 21h são os donos e não os "gerentes da franquia" ou os "funcionários do gerente da franquia" - digo isso pois recentemente cheguei lá às 8h e às 21h em dias diferentes e deparei-me com o dono e a dona na porta abrindo-a e fechando-a. 
Aí comprei uma cerveja gelada barata - não era nenhuma das minhas favoritas, mas também não era a mais barata; era uma cerveja gelada barata - comprei um saquinho de amendoim para comer enquanto bebia a cerveja. Saí do mercado e me sentei na frente dele, não tem pracinha, não tem banco, mas a rua não é muito movimentada, e, de onde estava, se virasse a cabeça para a esquerda via algumas estrelas no céu já escuro, se virasse para a direita via uma faixa de céu alaranjado ainda. É um momento interessante, nem lá nem cá. Foi apenas durante a realização disso tudo que notei a recorrência: descer até o mercado, a cerveja gelada, o saquinho de amendoim, o silêncio sepulcral da boca para fora, a gritaria imensa da cabeça pra dentro. Não estava ansioso, não esperava nenhum resultado de nada, sei de tudo o que há por ser feito e simplesmente não consigo me empolgar. Noutra situação semelhante mudar era uma possibilidade positiva, se não acontecesse, estava tudo bem, mas, todo modo, já havia feito as minhas apostas e esperava a roleta parar de girar e a bolinha cair em alguma casa puta merda que metáfora cretina Gabriel nem você nem ninguém que entra aqui frequenta cassinos a influência dos filmes ruins é realmente incrível. Dessa vez não tem muito jeito: mudar é uma necessidade, uma obrigação, e deixei que uma leve onda de tristeza me arrastasse nessa sexta-feira, quando me dei conta de que a obrigatoriedade da mudança terá de ser antecipada. 
No entanto, por final, acho curioso que os movimentos para deslocar tanto a ansiedade positiva quanto a tristeza conflitiva foram os mesmos: descer até um mercado de bairro e comprar uma cerveja gelada barata e comer alguns amendoins. Podemos pensar em rituais? Podemos pensar em habitus? Podemos pensar em jesus na cruz? Podemos pensar nos produtores de amendoim? Podemos pensar nos criadores de cevada? Podemos pensar nos coletores de trigo e malte? Podemos puta que saco.



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