terça-feira, 31 de maio de 2016

Pilhando.


Já mantive esse tipo de reflexão aqui recentemente, mas vamos lá novamente.
Depois que eu passei a me ver como dois em um corpo só sem sentir isso como um fardo, um erro e/ou uma doênça, e consegui fazer com que Coiso contribua para as atividades de Gabriel (e vice versa) alguns hábitos passaram a fazer certo sentido como ações interligadas mais do que separadas, ainda que mantenham sentidos diametralmente distintos e até opostos, a variar, sobretudo, as finalidades com que realizo tais tarefas. 
Objetividade, brother. 
Certo
Eu gostava bastante de ficar pilhado quando ia tocar. Digo, não "pilhado", isso eu demorei para gostar mesmo, mas era bem comum tomar uns negocinhos antes de subir no palco para tocar para cerca de doze pessoas no público, ou um pouco mais, mas raramente "muito mais", essas coisas do underground. Tomava umas cervejas, bebia uma cachacinha, um conhaque, e subia para tocar mais sorridente, tranquilo, soltinho como arroz de restaurante phyno. Tudo compõe o mesmo exercício, na verdade, acho que é por isso que a coisa se chama "lazer". Mas aí teve uma época em que era legal me pilhar mais. Uma coisa chama a outra, e uma não é pior que a outra. Ficava em algum cantinho recluso, em geral com mais gente, às vezes sozinho. "Legal". Pilhar. Consumir coisas para me pilhar. Acordar, despertar, relaxar e acender; um fluxo contínuo que gera alterações incríveis no corpo e que me deixavam bem à vontade para fazer o que queria fazer: tocar para doze pessoas. E depois, bom, o que vinha depois também era muito bom, mas vamos fixar a prosa nesses dois pontos: eu me pilhava e tocava pilhado, talvez o mais correto fosse dizer: "eu gostava de me pilhar para tocar pilhado". 
(Seria honesto também fazer menção aos dias em que eu me pilhava mas não ia tocar, me pilhava por que é daora memo. Mas não o farei, apenas menciono tal dado para conhecimento de quem está lendo).

Verso 2.

"Vamos trabalhar", todos os dias acordo com essa missão, sobretudo nesse período dos versos. Entre a cama onde eu acordo e a mesa onde eu trabalho tem 47 centímetros de distância (medi agora) e eu já acordo com a pressão do computador olhando para mim e dizendo: "vamos trabalhar?". Mas eu acabei de acordar, tem a urina por expurgar, sujeira nos dentes por tirar, o desjejum por realizar, um cocô por fazer e o café. Ah o café. Eu passo um café, e tomo algumas xícaras de café. Depois eu tomo outras, variando entre algumas com leite e outras sem. Mas aí a primeira garrafa de café acaba, e eu passo outra, no mesmo filtro do anterior - de papel, não limpo ou jogo fora, só adiciono mais café, o chamo de "Café Reciclatto" - e ai se vão para dentro do corpo mais xícaras. Às vezes as tomo já com o computador ligado, sentado de frente para a mesa e de costas para a cama. Às vezes escrevendo algo preliminar, às vezes desenhando algo que nada tem a ver com o trabalho, às vezes lendo algo temático e objetivo, às vezes vendo fotos do meu cachorro ou do último final de semana. Mas estou  cá, tomando café, acordando os olhos, despertando a mente, acionando o corpo, em suma: estou aqui me pilhando para trabalhar em um texto que talvez será lido por cerca de doze pessoas, talvez um pouco mais, mas duvido que muito mais, coisas da academia.

Está vendo só?
O que?
Quando a gente pensa as coisas com objetividade e sem floreios sem enrolações sem rodeios sem voltinhas desnecessárias a gente consegue fazê-las bem e ser claro e juntar os pontos que quer juntar bem.
Sim.
Por exemplo, agora, você mostrou que usar dororogas no rolê musical é proximamente "a mesma coisa" do que ficar todos os dias da semana se entupindo de café para conseguir trabalhar bem. 
Isso! Era essa a ideia!
Parabéns meu amigo, você alcançou bem essa proposta e a transformou em coisa concreta e prática. 
Seria objetividade dizer que "pó branco ou pó preto tanto faz" e fazer o texto apenas com essa simples frase?
Não, acho que não. 
E se eu dissesse "tanto faz dar um raio ou requentar uma média"?
Ai já seria chutar o balde demais, vá com calma. 
Mas o texto mesmo você acha que está legal?
Achei, não sei, parece bem coeso sim, não posso dedicar muito tempo a ele agora pois preciso trabalhar, estou bem pilhado para trabalhar já.
Mas e se eu disser "quem acorda e precisa tomar café pisa no mesmo pântano lamacento do que quem acorda e precisa duma pedra?".
Não, não, o texto mesmo está bom, o mantenha assim.
Certo, bom trabalho.
Obrigado, bom descanso.
Até mais tarde.
Até.




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