quinta-feira, 19 de maio de 2016

Perspectivas.


Estava vendo vídeos no youtube quando, naquela coluna à direita que indica os próximos vídeos, apareceu esse aqui: uma junção de pequenos trechos de um ensaio seminal do Zababô Zebrinha, lá pelo meião de setembro de 2011.
Verso 11.
Me vi no vídeo: boné da Estopim (comprado na minha primeira ida à sede da torcida para fins de pesquisa de campo), regata do Corinthians, um riso maroto no rosto, uma sacola plástica em cima do microfone pra cortar um pouco os choques que ele dava. De certa forma, é isso que eu quero fazer a vida toda. Não tenho muito interesse nas outras coisas não, por exemplo, uma carreira longa ampla gigante profunda megalomaníaca ser o melhor do melhor entre os melhores na casa dos maiores com uma foto dos filhos em cima da mesa de trabalho do lado de uma pilha de folhas por ler mal e porcamente e assinar pois "eu sou" uma carreira longa ampla gigante profunda megalomaníaca e "estou" entre o melhor do melhor entre os melhores na casa dos maiores. Inclusive, não penso em ter filhos. Não. Eu acho que quero mesmo é isso: morar numa cidade tranquila, fazer algo para ter dinheiro e ter tempo - moeda mais preciosa da vida - para fazer essas coisas todas que eu fazia naquela época como tocar um som despreocupadamente e ir no rolê em uma quarta-feira ou sexta-feira ou mesmo numa segunda.
"Ah Gabriel mas seja rrrrrresponsável naquela época você era um jovem, um estudante, sobrevivia de bolsa graduação, almoçava em bandeijão, jantava bolacha recheada, não tinha luxo algum. Você é adulto já, você cresceu, isso não faz mais parte de você. Você tem que ter perspectivas maiores, alçar voos mais longos distantes amplos gigantes profundos megalomaníacos estar entre os melhores dos melhores na casa dos maiores". 
Sempre rola esse tipo de autorepressão quando penso nessas coisas. E eu sempre retomo à mente, como uma forma de calá-las, as imagens de pessoas que eu tinha como prestígio: o professor batendo na casa dos 40 que jamais desistiu do som e da banda; o amigo com mais de 40 que jamais desistiu da ideia de "fazer acontecer" na cidade; o rapaz de 30 e poucos que entre tombos e levantes está lá fazendo disco, banda e rolê; o amigo que se foi, mas sem deixar de fazer tudo o que fazia, on line e off line. Pode ser uma ilusão, mas o riso e as preocupações deles sempre me soaram mais cabíveis para o cotidiano do que os demais. E é só isso mesmo, e é bem simples de entender, embora tenha sido tão complicado para eu o fazer e assumir: essa é a vida que eu quero ter. E é por isso que tem sido tão dolorosos esses anos em escadinha rumo a um céu que jamais chegará.


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