terça-feira, 17 de maio de 2016

O meu retrato do golpe - III


Passei o dia em casa meio sem entender o que ocorria, de fato, naquela quarta-feira. Estava vivendo em uma bolha acadêmica escrevendo minha dissertação de mestrado e tentava, a todo custo, com muita dificuldade, evitar que as notícias sobre o golpe me distraíssem. Quando entendi o que ocorria, resolvi sair de casa para pedalar e ver como a cidade de São Paulo respirava ou era respirada. 
(Precisava cortar o cabelo, mas achei que não seria agradável me enfiar no salão, onde a TV está frequentemente ligada nos canais golpistas, àquelas horas).
Coloquei a Avenida Paulista no itinerário da minha pedalagem, claro. Ela foi palco de um movimento orquestrado pela grande mídia e demais atores golpistas que justificaram o momento, e naquela noite seria dividida entre golpistas e não golpistas - ou talvez seja mais correto nomeá-los como apoiadores do golpe e não apoiadores do golpe, visto que, golpe dado, as divisões não importarão, e todos ali pagarão o pato
Passei rapidamente pela avenida, permaneci uns vinte minutos nela observando as movimentações. Manifestantes anti-golpe cercados pela PM, que tentava impedir que eles se aglomerassem ali, pois na Fiesp haveria aglomeração dos pró golpe. Na Fiesp vi um rapaz com um kipá (objeto judaico, colocado sobre a cabeça pelos homens) apoiado em um corrimão a poucos metros de um rapaz careca vestindo jaqueta com emblemas de estado (objeto fascista, colocado sobre o corpo por nacionalistas e neonazistas). Mas não foi esse o meu retrato do golpe.
Combinamos de tomar uma cerveja em um mercado grande, e o fizemos comendo um salgadinho barato, sentados em um banco de madeira entre as dezenas de caixas e as esteiras rolantes que levam aos estacionamentos. Depois compramos outra cerveja e fomos caminhando na direção da estação de metrô. "Vamos parar no boteco e comprar um cigarro solto? Você tem moedas?".
Como o boteco não iria fechar imediatamente, também compramos uma cerveja - "faz tempo que eu não sento num bar e tomo uma Brahma gelada, de bar" - e o fizemos sentados no degrau que separa a calçada do bar. 
Quando entrei para comprar a cerveja e o cigarro solto a voz de um dos golpistas na TV falava sobre a votação no senado. Perguntei ao rapaz do balcão, "já começou essa palhaçada?", "acho que já acabou", "sério? estamos fodidos já então?", "estamos, fodeu". Fiquei feliz por simpatizarmos.
Depois ainda tomamos outra cerveja, e fumamos outro par de cigarros soltos. Conversamos sobre planos, sobre desilusões, sobre frustrações, sobre surpresas. Contamos histórias e demos as mãos. Fomos embora.
Depois eu enchi a cara na casa da minha mãe vendo senadores acuados sem a menor coerência metendo bala na constituição e em qualquer noção de democracia existente até então.
Mas o retrato que eu guardo dessa etapa do golpe, é mesmo do vento frio do começo da noite batendo nos seus cabelos, e as suas mãos segurando o copo de cerveja e o cigarro solto, com a cinza crescendo enquanto você falava algo em meio a um sorriso.



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