quarta-feira, 11 de maio de 2016

O meu retrato do golpe - I


No final de semana em que haveria a votação dos deputados para a implantação do golpe contra a democracia brasileira, organizei-me para não estar em São Paulo, e sim próximo "dos meus". Fui para Mogi das Cruzes, onde os amigos e as amigas do Poranduba Coletivo Cultural realizariam um festival com várias bandas. 
Desde as últimas horas do sábado nosso principal assunto, não haveria como ser diferente, era o golpe. Partilhávamos de certo desânimo coletivo, mas também não deixávamos a ironia de lado ou os comentários positivos de que "não sairemos derrotados". 
No domingo a tarde, quando chegamos ao local do festival, uma praça pública, mexíamos freneticamente em nossos celulares, buscando e partilhando notícias. "A bancada do PP ainda não se decidiu", "puta merda é foda ter que depender duma bancada do PP". 
Sentei-me num canto e preparei um cartaz escrito "Não Vai Ter Golpe", peça extremamente simbólica, para ser exposta ali, em uma situação de congregação de pessoas contra o golpe em um momento de golpe em vias de consolidação. Um homem mais velho que todos nós comentou: "pessoal, o golpe já está dado..."
O festival seguia animado com bandas excelentes. E a cada intervalo entre apresentações um bom amigo subia ao palco, pegava o microfone e informava sobre as próximas bandas que tocariam, sobre a organização dos eventos, agradecia aos parceiros, colaboradores e, centrado em sua filosofia, realizava um comentário balizado, terminando-os sempre com a frase: "Não Vai Ter Golpe". Ela, junto do cartaz, eram atos simbólicos de uma vontade que não esmoreceria/esmorecerá.
A votação dos deputados corria solta. Não acompanhávamos o show de horrores das justificativas baseadas na Terra, Família, Propriedade, Ditadura & Deus, apenas recebíamos o placar via WhatsApp, e, apreensivos, compartilhávamos entre nós uma e outra imagem que chegavam. "Parece que o Bolsonaro dedicou o voto pros torturadores da ditadura".
Lá pelas tantas, antes do penúltimo show, o bom amigo que anunciou o nome da próxima banda informou que o golpe já era fato consolidado, mas repetiu, esse nosso mantra simbólico: "Não Vai Ter Golpe", seguindo-o de outro não tão simbólico assim: "Vai Ter Luta".
Eu estava sentado em um pequeno gramado, anotava em meu caderno algumas coisas que vinham em mente, era um momento de grande turbulência, embora já soubéssemos de antemão o que nos aguardava, sempre há um fio de esperança. Quando ele é cortado, ocorre, inevitavelmente, um baque. 
Parei por alguns instantes para olhar em volta, afinal, eu havia planejado estar lá para fugir do peso, justamente, desse baque. Olhei para o palco à minha frente, para a rapaziada espalhada pela praça pública, imaginei cenas horríveis em um pior cenário possível decorrente de um golpe tal qual se deixava em curso.
Dado instante vi o bom amigo, aquele que anunciava as bandas, saindo de uma tenda montada atrás do palco. Ali era um espaço destinado aos músicos, para organizarem seus instrumentos, e tomarem um lanche, oferecido em sacolinhas de papel. 
Meu bom amigo saiu da tenda segurando diversas sacolinhas dessas de papel. Se aproximou de um senhor que vestia roupas velhas e segurava uma grande sacola com latas de alumínio. O cumprimentou apertando-lhe a mão e com um sorriso no rosto. Lhe ofereceu um dos saquinhos de papel, mostrando o seu interior. O homem lhe retribuiu o sorriso, e agradeceu pelo lanche que lhe foi dado, guardando-o em sua mochila. Meu bom amigo seguiu, realizando o mesmo com outras pessoas e outras sacolinhas com lanches.
Enquanto isso, algum deputado votava "sim" tendo como rubrica ser contra a destinação de verbas publicas para pessoas desempregadas, tratando-as pelos mais baixos termos. Outra votava "sim" em nome do marido que seria levado preso no dia seguinte. O Bolsonaro havia mesmo dedicado o voto ao torturador...
Meu bom amigo deu a letra: Não Vai Ter Golpe, Vai Ter Luta.




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