quarta-feira, 18 de maio de 2016

Neoliberais.


"Gabriel, acabou sua criatividade para resmungar? Você vai mesmo começar o verso 12 utilizando frase de outro texto?". "Sim, vou". "Nossa, você já foi melhor". "Bom, você há de concordar comigo que a questão é importante". "Não sei, vamos ver. Tente me convencer". "No verso 19, texto "vibração", eu disse a seguinte frase, já no final da coisa: "eu deveria ter desconfiado de que havia coisas erradas quando os neoliberais vieram me parabenizar por minhas escolhas" e hoje me deu vontade de aprofundar essa questão". "Certo, conte-me detalhes disso". "O meu telefone tocou, já era tarde da noite, digo, não para mim, para mim a coisa toda estava apenas começando, mas sei que no referencial mais geral das horas era tarde da noite". "Era o quê, umas dez da noite?", "Não, acho que era por volta de onze horas já, ou mesmo meio noite, mas isso não importa muito". "Tá". "Bom, daí me ligaram e fizeram tipo um revezamento de telefone, isso é comum, ou era comum numa era pré domínio do WhatsApp, eu acho". "Não concordo, mas continua". "Bom, nesse revezamento todo primeiro veio uma voz mirim, que ainda não entendia direito as coisas, nitidamente falaram para ela que aquilo ali que estava acontecendo era algo importante, mas se for perguntar mesmo para ela por que estava me parabenizando ela não saberia dizer". "Nossa, que certeza absoluta hein?". "Não é absoluta, mas é certeza, é meio óbvio". "Tá". "Bom, daí vieram mais vozes e mais parabenizações. Na hora eu estava mordendo a borda de um copo de plástico, ouvindo e agradecendo, confesso que até um pouquinho emocionado". "E isso foi ruim?". "Como assim?"."Foi ruim que te ligaram e te parabenizaram?". "Não, mas o grande mote da questão, penso hoje, é que eu deveria ter desconfiado, saca?". "Mais ou menos. Do que?". . . . . . . . . "Deveria ter desconfiado de que não tinha lá grandes coisas sendo feitas por mim se eles, neoliberais de alta estirpe, estavam me parabenizando". "Mas a parabenização deles, o reconhecimento dos neoliberais, torna o motivo da parabenização uma macula?". "Acho que sim, no sentido de que é uma aprovação de minhas atitudes e escolhas e conquistas por parte do inimigo; talvez inimigo seja pesado demais. Por parte dos neoliberais". "Mas qual o problema? Ainda não entendi". "Eu achava que estava transgredindo em algo, mas entendo que estava apenas fazendo o jogo deles. Se me parabenizaram foi por que avancei uma fase no joguinho da vida planejado por eles". "Ah, então tem ai uma necessidade de transgredir?". "Não de transgredir, mas de não ser neoliberal". "Mas obrigatoriamente te parabenizaram pois a conquista era símbolo de algo neoliberal?". "Não necessariamente, mas eu deveria ter desconfiado de que havia coisas erradas quando os neoliberais vieram me parabenizar por minhas escolhas". "Percebe como você anda em círculos e volta para a mesma afirmativa baratinha, sem digestão ou sabor?". "Percebe como estou sendo neoliberal, e por isso eles me parabenizaram?". "Hm".


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