segunda-feira, 30 de maio de 2016

Horizonte.


Subi a minha rua com passos largos, descansados e desaquecidos, essa última, razão para um cansaço intenso nas pernas que me fez parar para respirar um pouco antes de alcançar o topo da subida lascada. Fazia quatro horas que eu havia acordado, mas já era "fim de tarde", o que foi compreendido de maneira latente ao ver o tom alaranjado na lateral de um prédio branco, para lá do topo da subida, quando, em um movimento quase que contínuo, começa uma descida - quando se percorre o caminho a partir da direção oposta, tal via é uma subida e a minha rua é uma descida - compondo, assim, a subida da minha rua uma das duas vias para se alcançar o topo de um, outrora, morro.
Verso 3.
Parei quase na esquina, olhei o prédio alaranjado pelo sol que se punha a esconder-se para trás de mais prédios e um grande morro. Dando-me conta de que estava no topo de algo, visto que havia duas descidas, uma a oeste e outra a leste, pus-me a olhar ao meu redor. Jogos de sombras, jogo de luz. Reflexos alaranjados como o no prédio branco, mas também avermelhados, como em uma parede de tom rosa, e também amarronzados, em um muro cinza. Percebi que em meu exercício estava buscando as linhas horizontais, ver onde começava a fonte de luz alaranjada e onde terminava o alcance delas. Tive de parar o exercício, pois estava atrasado.
É um pecado tão grande deixar de almejar buscas no horizonte por estar atrasado. Chego a pensar que se há necessidade de buscar novos horizontes é sinal de que o atraso, na verdade, é para a degola, para a forca; de que o caminho a ser seguido, com atrasos, deve ser uma via crucis. 
Mentira. Balela. Papo furado. Nesse caso não era, o que invalida o uso da metáfora "buscar novos horizontes". É só uma conclusão bonitinha para vender livros em máquinas no metrô. Inclusive, estava atrasado, mas investi um real em um livro em alguma dessas máquinas ele tem as linhas impressas em um papel bem barato parece que papel jornal e a capa é de um sulfite de gramatura um pouco mais pesada apenas e tem cheiro de vinagre ou de matéria morta ou de livro que foi guardado por muito tempo em uma salinha escura com milhares de outros livros esquecidos com algumas bolinhas brancas de naftalina e custou apenas um real um real um real um real que horizonte pode haver para um livro desses que horizontes pode haver em um livro que custou um real? O da minha mochilha, antes, o dos meus olhos, e então, a finitude plausível entre o ponto onde o sol se põem e os pontos longínquos onde seus raios irradiam, rebatem, refletem, são absorvidos e onde meus olhos alcançam e a máquina que há por trás dos meus olhos consegue imaginar
Olhos
Livros
Horizontes
Atrasos
Ruas 
Morros
Prédios
São tantos horizontes, sempre, por seguir.

Ps.: mesmo que nessa cidade eles sejam recortados, destroçados, acobertados e, em última instância, cagados pela ação megalomaníaca da especulação imobiliária, da necessidade de construir moradias, ainda que precárias, da vontade nada horizontal de alguns poucos que precisam usar o espaço para transformá-lo em lugar a render lucro, ainda que para isso tenha de instalar ali construções que encobrem o horizonte e contratar pessoas para trabalhar lá e fabricar o tal "lucro" e, de maneira, repito, nada horizontal, pagá-las com uma parcela tão insignificante desses lucros que elas precisem se refugiar em casas construídas de maneiras precárias em meio a morros. De certa forma, não sei, tenho a impressão de que eu não poderia chegar a esse tipo de conclusão, mas a urbanização é um erro, ainda que crie mais horizontes, em um primeiro sentido metafórico, tendo que destruir horizontes, em sentido geográfico, para que tenham prosseguimento as relações não horizontais da hierarquia capitalista & capitalizante, em metáfora e sentido geográficos. Atrasado entrei no ônibus, e a cada curva a luz do sol ia para lá e para cá, mostrando que o horizonte
Melhor parar cara, já deu para entender.




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