quinta-feira, 12 de maio de 2016

Estranhado.


Hoje aconteceu uma coisa curiosa: passou o dia inteiro e eu não reparei na existência dele. Aliás, não reparei a minha existência nele. É claro que o golpe atrapalha, encheu a cabeça, o saco, a porra toda, mas há as coisas por serem feitas nos dias, como não? Bom, e eu as fiz. Mas aí parei agora para fazer um chá e me dei conta de que eram onze da noite e pensei, "o que você fez hoje?". Daí eu penso na seguinte ordem: café, computador, mercado, comida, café, computador, mercado, café, computador, comida, computador - teria que ajustar as proporções, pois uma das idas ao mercado durou dez minutos e um dos períodos frente ao computador três horas, mas vocês entenderam. "Tem muito de você nesse trabalho", falava um interlocutor do ano passado. Uma das idas ao mercado foi para comprar unicamente cerveja. Cerveja caralho. Eu só gosto de tomar cerveja. Daí teve mais computador também, como vocês podem notar no diagrama linear descrito acima. No retorno do mercado, com o tilintar das garrafinhas se chocando umas às outras na sacola de pano, fiquei pensando que tragédia é essa tragédia que está acontecendo tragicamente de novo, ontem eu bebi, hoje eu vou beber. Mas tem o golpe aí no meio. Mas tem também que estou trabalhando camelísticamente todo dia e repondo algumas forças camelísticamente bebendo. Mas tem também que todo mundo gente pra caramba trabalha muito e precisa repor as forças o que explica ter duas barracas vendendo algum tipo de rango - pastel e espetinho - e muita cerveja na frente do mercado. Mas tem também que não tem tido jeito eu tenho dormido mal pra caramba todos os dias e que ao menos durma bêbado. Mas tem também que podia ser pior eu tava pensando em ir noutro mercado e dar um jeito de ficar acordado uns cinco dias seguidos e acabar logo com isso. Mas aí voltei pro computador. Fui tomar uma das cervejas agora a pouco. Aí mudei pro chá. E aí pensei: "tem muito de mim nesse trabalho mesmo, mas também tem tão pouco, pois me sinto tão estranhado com relação a ele quando noto que chegou o fim do dia e eu passei o dia todo me dedicando ao trabalho e noto que nem reparei a minha existência neles, no dia, no trabalho". 
Verso 18.


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