quarta-feira, 25 de maio de 2016

Certo.


Tem coisas que não teriam como dar certo. Você olha para a receita. Olha para os ingredientes de um bolo de chocolate: ovos, leite, chocolate em pó, farinha de trigo e fermento. Você olha para eles e diz: "não gosto de chocolate, sou alérgico a lactose, fermento me causa uma reação muito indigesta, o glúten da farinha me causa diarreia e tenho nojo de ovo por ser tipo uma galinha líquida que foi abortada". Mas você topa fazer o bolo de chocolate mesmo assim. Não é para sua avó, não é para festa alguma, não é para visitas, em suma: não é para ninguém além de você mesmo. Você está radiante na confecção do bolo, está dando tudo certo, misturar os ingredientes, bater a massa, não deixar a farinha de trigo empelotar, bater primeiro as claras e depois as gemas dos ovos. Tudo certo. Você untou a forma com manteiga e mais farinha, a massa caiu bem e ficou bem distribuída. O forno já está pré-aquecido, você coloca a assadeira lá dentro, vai fazer qualquer outra coisa e volta quarenta e dois minutos depois e, para sua surpresa, ao abrir a porta do forno e cutucar a massa que cresceu com um palito de dente ele sai seco. Você, obviamente, desliga o forno e coloca a assadeira sobre a pia. Espera alguns minutos, quando ele já esfriou corta um pedaço, coloca em um prato, pega um guardanapo, um garfo e vai para o sofá da sala. Senta-se, dá uma garfada no bolo e o coloca na boca. "Caralho que gosto horrível do chocolate, porra que troço ruim". Você engole mesmo assim. Aceita a ideia de seguir com o exercício, pega mais um pequeno pedaço com o bolo e põe na boca, mastiga um pouco e engole. Começa a sentir um peso no estômago, que deve ser do glúten, você especula, mas continua. Mais uma garfada. "Como pesa essa porra, como é ruim essa merda". Mais uma garfada, e outra e matou um pedaço. Quando se levanta para ir a cozinha pegar mais um pedaço vê as casquinhas dos ovos no lixo e se recorda de que está comendo ovos, o que lhe causa um rodopio estomacal automático e veloz, corre ao banheiro, mas não dá tempo, e você vomitou todo o bolo ali no curto trajeto entre a cozinha e o banheiro. O chão está cagado todo vomitado em massa marrom semi digerida. "Caralho que nojo". Toma um copo d'água, mas a pele começa a coçar, e a coçar. Outro vômito sobe, "deve ser a merda da lactose reagindo em mim, ôh puta que pariu". Toma logo três copos d'água para ver se dissolve o que restou de lactose, glúten e fermento em você. Outro vômito desce, "ai caralho que ideia cretina". Procura um antialérgico nas gavetas com remédios e não encontra nada, "porra, mas como irei à farmácia com esses vômitos constantes? Melhor esperar". Senta-se de frente para a TV, a ideia era esperar alguns minutos sem vômitos e sair. Você dá uma levantadinha de lado na bunda para liberar aquele gás que parece querer sair, o barulho é estridente, a sensação melosa, "filho da puta fermento do caralho". A diarreia meu amigo, ela também veio, a bactéria do fermento reagiu no estômago, correu pro intestino grosso, fez a curva para o delgado, escorreu pelo reto e chegou ao ânus com esse aspecto de massa de bolo de chocolate antes de ir ao forno. "Sem chance ir na farmácia assim, vou ligar lá e ver se eles entregam em casa". "Oi, você pode me enviar via delivery um vidro de antialérgico líquido, uma cartela de remédio para segurar diarreia e dois tubinhos de extrato de boldo?". 
Tem coisas que não tem como dar certo. Simplesmente: é olhar para os ingrediente e saber que eles não tem como dar certo, seja como ingrediente, seja como bolo.
Verso 5. 

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