terça-feira, 31 de maio de 2016

Pilhando.


Já mantive esse tipo de reflexão aqui recentemente, mas vamos lá novamente.
Depois que eu passei a me ver como dois em um corpo só sem sentir isso como um fardo, um erro e/ou uma doênça, e consegui fazer com que Coiso contribua para as atividades de Gabriel (e vice versa) alguns hábitos passaram a fazer certo sentido como ações interligadas mais do que separadas, ainda que mantenham sentidos diametralmente distintos e até opostos, a variar, sobretudo, as finalidades com que realizo tais tarefas. 
Objetividade, brother. 
Certo
Eu gostava bastante de ficar pilhado quando ia tocar. Digo, não "pilhado", isso eu demorei para gostar mesmo, mas era bem comum tomar uns negocinhos antes de subir no palco para tocar para cerca de doze pessoas no público, ou um pouco mais, mas raramente "muito mais", essas coisas do underground. Tomava umas cervejas, bebia uma cachacinha, um conhaque, e subia para tocar mais sorridente, tranquilo, soltinho como arroz de restaurante phyno. Tudo compõe o mesmo exercício, na verdade, acho que é por isso que a coisa se chama "lazer". Mas aí teve uma época em que era legal me pilhar mais. Uma coisa chama a outra, e uma não é pior que a outra. Ficava em algum cantinho recluso, em geral com mais gente, às vezes sozinho. "Legal". Pilhar. Consumir coisas para me pilhar. Acordar, despertar, relaxar e acender; um fluxo contínuo que gera alterações incríveis no corpo e que me deixavam bem à vontade para fazer o que queria fazer: tocar para doze pessoas. E depois, bom, o que vinha depois também era muito bom, mas vamos fixar a prosa nesses dois pontos: eu me pilhava e tocava pilhado, talvez o mais correto fosse dizer: "eu gostava de me pilhar para tocar pilhado". 
(Seria honesto também fazer menção aos dias em que eu me pilhava mas não ia tocar, me pilhava por que é daora memo. Mas não o farei, apenas menciono tal dado para conhecimento de quem está lendo).

Verso 2.

"Vamos trabalhar", todos os dias acordo com essa missão, sobretudo nesse período dos versos. Entre a cama onde eu acordo e a mesa onde eu trabalho tem 47 centímetros de distância (medi agora) e eu já acordo com a pressão do computador olhando para mim e dizendo: "vamos trabalhar?". Mas eu acabei de acordar, tem a urina por expurgar, sujeira nos dentes por tirar, o desjejum por realizar, um cocô por fazer e o café. Ah o café. Eu passo um café, e tomo algumas xícaras de café. Depois eu tomo outras, variando entre algumas com leite e outras sem. Mas aí a primeira garrafa de café acaba, e eu passo outra, no mesmo filtro do anterior - de papel, não limpo ou jogo fora, só adiciono mais café, o chamo de "Café Reciclatto" - e ai se vão para dentro do corpo mais xícaras. Às vezes as tomo já com o computador ligado, sentado de frente para a mesa e de costas para a cama. Às vezes escrevendo algo preliminar, às vezes desenhando algo que nada tem a ver com o trabalho, às vezes lendo algo temático e objetivo, às vezes vendo fotos do meu cachorro ou do último final de semana. Mas estou  cá, tomando café, acordando os olhos, despertando a mente, acionando o corpo, em suma: estou aqui me pilhando para trabalhar em um texto que talvez será lido por cerca de doze pessoas, talvez um pouco mais, mas duvido que muito mais, coisas da academia.

Está vendo só?
O que?
Quando a gente pensa as coisas com objetividade e sem floreios sem enrolações sem rodeios sem voltinhas desnecessárias a gente consegue fazê-las bem e ser claro e juntar os pontos que quer juntar bem.
Sim.
Por exemplo, agora, você mostrou que usar dororogas no rolê musical é proximamente "a mesma coisa" do que ficar todos os dias da semana se entupindo de café para conseguir trabalhar bem. 
Isso! Era essa a ideia!
Parabéns meu amigo, você alcançou bem essa proposta e a transformou em coisa concreta e prática. 
Seria objetividade dizer que "pó branco ou pó preto tanto faz" e fazer o texto apenas com essa simples frase?
Não, acho que não. 
E se eu dissesse "tanto faz dar um raio ou requentar uma média"?
Ai já seria chutar o balde demais, vá com calma. 
Mas o texto mesmo você acha que está legal?
Achei, não sei, parece bem coeso sim, não posso dedicar muito tempo a ele agora pois preciso trabalhar, estou bem pilhado para trabalhar já.
Mas e se eu disser "quem acorda e precisa tomar café pisa no mesmo pântano lamacento do que quem acorda e precisa duma pedra?".
Não, não, o texto mesmo está bom, o mantenha assim.
Certo, bom trabalho.
Obrigado, bom descanso.
Até mais tarde.
Até.




segunda-feira, 30 de maio de 2016

Horizonte.


Subi a minha rua com passos largos, descansados e desaquecidos, essa última, razão para um cansaço intenso nas pernas que me fez parar para respirar um pouco antes de alcançar o topo da subida lascada. Fazia quatro horas que eu havia acordado, mas já era "fim de tarde", o que foi compreendido de maneira latente ao ver o tom alaranjado na lateral de um prédio branco, para lá do topo da subida, quando, em um movimento quase que contínuo, começa uma descida - quando se percorre o caminho a partir da direção oposta, tal via é uma subida e a minha rua é uma descida - compondo, assim, a subida da minha rua uma das duas vias para se alcançar o topo de um, outrora, morro.
Verso 3.
Parei quase na esquina, olhei o prédio alaranjado pelo sol que se punha a esconder-se para trás de mais prédios e um grande morro. Dando-me conta de que estava no topo de algo, visto que havia duas descidas, uma a oeste e outra a leste, pus-me a olhar ao meu redor. Jogos de sombras, jogo de luz. Reflexos alaranjados como o no prédio branco, mas também avermelhados, como em uma parede de tom rosa, e também amarronzados, em um muro cinza. Percebi que em meu exercício estava buscando as linhas horizontais, ver onde começava a fonte de luz alaranjada e onde terminava o alcance delas. Tive de parar o exercício, pois estava atrasado.
É um pecado tão grande deixar de almejar buscas no horizonte por estar atrasado. Chego a pensar que se há necessidade de buscar novos horizontes é sinal de que o atraso, na verdade, é para a degola, para a forca; de que o caminho a ser seguido, com atrasos, deve ser uma via crucis. 
Mentira. Balela. Papo furado. Nesse caso não era, o que invalida o uso da metáfora "buscar novos horizontes". É só uma conclusão bonitinha para vender livros em máquinas no metrô. Inclusive, estava atrasado, mas investi um real em um livro em alguma dessas máquinas ele tem as linhas impressas em um papel bem barato parece que papel jornal e a capa é de um sulfite de gramatura um pouco mais pesada apenas e tem cheiro de vinagre ou de matéria morta ou de livro que foi guardado por muito tempo em uma salinha escura com milhares de outros livros esquecidos com algumas bolinhas brancas de naftalina e custou apenas um real um real um real um real que horizonte pode haver para um livro desses que horizontes pode haver em um livro que custou um real? O da minha mochilha, antes, o dos meus olhos, e então, a finitude plausível entre o ponto onde o sol se põem e os pontos longínquos onde seus raios irradiam, rebatem, refletem, são absorvidos e onde meus olhos alcançam e a máquina que há por trás dos meus olhos consegue imaginar
Olhos
Livros
Horizontes
Atrasos
Ruas 
Morros
Prédios
São tantos horizontes, sempre, por seguir.

Ps.: mesmo que nessa cidade eles sejam recortados, destroçados, acobertados e, em última instância, cagados pela ação megalomaníaca da especulação imobiliária, da necessidade de construir moradias, ainda que precárias, da vontade nada horizontal de alguns poucos que precisam usar o espaço para transformá-lo em lugar a render lucro, ainda que para isso tenha de instalar ali construções que encobrem o horizonte e contratar pessoas para trabalhar lá e fabricar o tal "lucro" e, de maneira, repito, nada horizontal, pagá-las com uma parcela tão insignificante desses lucros que elas precisem se refugiar em casas construídas de maneiras precárias em meio a morros. De certa forma, não sei, tenho a impressão de que eu não poderia chegar a esse tipo de conclusão, mas a urbanização é um erro, ainda que crie mais horizontes, em um primeiro sentido metafórico, tendo que destruir horizontes, em sentido geográfico, para que tenham prosseguimento as relações não horizontais da hierarquia capitalista & capitalizante, em metáfora e sentido geográficos. Atrasado entrei no ônibus, e a cada curva a luz do sol ia para lá e para cá, mostrando que o horizonte
Melhor parar cara, já deu para entender.




sexta-feira, 27 de maio de 2016

Arrependimento.


Verso 4.
Fui em um caixa eletrônico do Banco do Brasil e paguei a minha inscrição para o concurso que selecionaria e contrataria professores para a rede pública estadual. Antes eu havia realizado a inscrição virtualmente e impresso uma cópia do boleto a ser pago no caixa eletrônico do Banco do Brasil. Eu ainda não tinha certeza se iria mesmo fazer a prova. Lembro que tinha feito um joguinho dos mais cretinos: "se passar no mestrado com possibilidade de bolsa não faço; se passar sem possibilidade de bolsa vou pensar; se não passar nem penso e faço". Era mais ou menos isso. Daí aconteceu que eu passei, sem a menor possibilidade de ter a bolsa, e me pus a pensar. Cheguei a conversar sobre com um professor mais experiente, que me indicou que não deixasse de fazer o concurso, "se não sair a bolsa você se complica". Passaram-se algumas semanas e notei que o domingo do concurso seria precedido por um feriado na sexta-feira, em que haveria um gran rolê na cidade, e por um sábado com show pré-agendado do Zababô Zebrinha. "Fazer um gran rolê e tocar no dia seguinte ou ir fazer um concurso para dar aula na rede pública estadual ano que vem?". Detalhe importante a ser recordado: teria de fazer a prova em São Paulo, o que envolveria uma viagem a mais para a capital do estado, algo que estava me causando gastura no cérebro, visto que já sabia que teria de viver nessa cidade a partir do ano seguinte, e não queria desperdiçar nenhum final de semana em Marília. Após uma reunião com os debilóides que existem dentro de mim, decretei: "se é para a felicidade geral da nação que em mim habita, avise aos parças que fico". E eu fiquei. E foi louco. O gran rolê na sexta teve um 'quê' de inesquecível, não teve show do Zababô Zebrinha no sábado, mas teve sim outro rolê muito bacana. E, no fim das contas, o concurso não serviu de nada para aqueles que o fizeram: nenhum professor novo foi efetivado, pelo que fiquei sabendo. 
Depois que aconteceram coisas erradas, pois não tinha como dar certo, às vezes eu me pegava pensando "ah mas se tivesse feito o concurso" e imediatamente respondia "nada teria sido diferente". Nesse caso, não tem arrependimento nenhum não, nunca teve: brindo-me por ter feito a "escolha certa" para um final de semana prolongado. 


quarta-feira, 25 de maio de 2016

Certo.


Tem coisas que não teriam como dar certo. Você olha para a receita. Olha para os ingredientes de um bolo de chocolate: ovos, leite, chocolate em pó, farinha de trigo e fermento. Você olha para eles e diz: "não gosto de chocolate, sou alérgico a lactose, fermento me causa uma reação muito indigesta, o glúten da farinha me causa diarreia e tenho nojo de ovo por ser tipo uma galinha líquida que foi abortada". Mas você topa fazer o bolo de chocolate mesmo assim. Não é para sua avó, não é para festa alguma, não é para visitas, em suma: não é para ninguém além de você mesmo. Você está radiante na confecção do bolo, está dando tudo certo, misturar os ingredientes, bater a massa, não deixar a farinha de trigo empelotar, bater primeiro as claras e depois as gemas dos ovos. Tudo certo. Você untou a forma com manteiga e mais farinha, a massa caiu bem e ficou bem distribuída. O forno já está pré-aquecido, você coloca a assadeira lá dentro, vai fazer qualquer outra coisa e volta quarenta e dois minutos depois e, para sua surpresa, ao abrir a porta do forno e cutucar a massa que cresceu com um palito de dente ele sai seco. Você, obviamente, desliga o forno e coloca a assadeira sobre a pia. Espera alguns minutos, quando ele já esfriou corta um pedaço, coloca em um prato, pega um guardanapo, um garfo e vai para o sofá da sala. Senta-se, dá uma garfada no bolo e o coloca na boca. "Caralho que gosto horrível do chocolate, porra que troço ruim". Você engole mesmo assim. Aceita a ideia de seguir com o exercício, pega mais um pequeno pedaço com o bolo e põe na boca, mastiga um pouco e engole. Começa a sentir um peso no estômago, que deve ser do glúten, você especula, mas continua. Mais uma garfada. "Como pesa essa porra, como é ruim essa merda". Mais uma garfada, e outra e matou um pedaço. Quando se levanta para ir a cozinha pegar mais um pedaço vê as casquinhas dos ovos no lixo e se recorda de que está comendo ovos, o que lhe causa um rodopio estomacal automático e veloz, corre ao banheiro, mas não dá tempo, e você vomitou todo o bolo ali no curto trajeto entre a cozinha e o banheiro. O chão está cagado todo vomitado em massa marrom semi digerida. "Caralho que nojo". Toma um copo d'água, mas a pele começa a coçar, e a coçar. Outro vômito sobe, "deve ser a merda da lactose reagindo em mim, ôh puta que pariu". Toma logo três copos d'água para ver se dissolve o que restou de lactose, glúten e fermento em você. Outro vômito desce, "ai caralho que ideia cretina". Procura um antialérgico nas gavetas com remédios e não encontra nada, "porra, mas como irei à farmácia com esses vômitos constantes? Melhor esperar". Senta-se de frente para a TV, a ideia era esperar alguns minutos sem vômitos e sair. Você dá uma levantadinha de lado na bunda para liberar aquele gás que parece querer sair, o barulho é estridente, a sensação melosa, "filho da puta fermento do caralho". A diarreia meu amigo, ela também veio, a bactéria do fermento reagiu no estômago, correu pro intestino grosso, fez a curva para o delgado, escorreu pelo reto e chegou ao ânus com esse aspecto de massa de bolo de chocolate antes de ir ao forno. "Sem chance ir na farmácia assim, vou ligar lá e ver se eles entregam em casa". "Oi, você pode me enviar via delivery um vidro de antialérgico líquido, uma cartela de remédio para segurar diarreia e dois tubinhos de extrato de boldo?". 
Tem coisas que não tem como dar certo. Simplesmente: é olhar para os ingrediente e saber que eles não tem como dar certo, seja como ingrediente, seja como bolo.
Verso 5. 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Glória.


Li o nome de um mercado elitista em uma publicação qualquer na webredeinternetohyeah e aí lembrei de quando eu descia do ônibus no ponto ao lado dele em geral por alguma razão consumista - dar uma volta na região de comércio central da cidade que havia ali perto antes de ir pra casa - ou por alguma razão burocrática - ir resolver algo em cartório ou terminal de ônibus ou coisa do gênero que havia por ali - ou por alguma razão social - ir me encontrar com alguém para realizar qualquer tipo de socialidade - ou por alguma outra razão profissional - me encontrar com um bom colega com o qual eu desenvolvia uma pesquisa ali na região central e a gente volta e meia tomava uma cerveja e fumava um cigarro em algum bar por ali antes de ir ao lugar da pesquisa que também era por ali. 
Verso 7.
Em 2012 esse dia do ano foi bem pesado.
Em 2013 eu estava em casa de boa meio que me recuperando.
Em 2014 eu não lembro, ou estava na Alemanha Ocidental ou bem perto do local das recordações indicadas acima incrível não me recordar disso tive de recorrer aos aparatos tecnológicos para me recordar e foi um dia bem bacana curioso não tê-lo registrado na memória de pronto por que será? Bosta.
Em 2015 esse dia deve ter sido mais um dentre os tantos de suspensão do termo "casa" no singular (e foi mesmo) e de estar meio perdido (e estava mesmo).
Em 2016 penso que essa coisa toda da memória é um grande balão de ensaio que a cada ano que passa (pensando na questão do dia único) ou dos meses ou mesmo do tempo como categoria "coisa" mais ampla que é acontecida por nós e se vai e se torna isso, não saber ao certo o que aconteceu; é como se fosse um grande balão de ensaio às cegas e para quem tem bons dispositivos de memória tê-los é o oposto da paz; sendo um balão de ensaio às cegas, seria como se os elementos colocados nele de maneira irresponsável explodissem. 
A memória trai, a memória engana. Mas a memória também dá aquela emocionada e nos distraí do que deve ser feito por ofício. Fazia tempo que eu não me recordava dessa cena de tomar uma cerveja com o bom colega, em geral a gente saía do lugar da pesquisa e ia andando de volta para a universidade, ou às vezes eu pegava o ônibus para voltar à escola e dar mais aulas ou participar das reuniões.
Mas numa coisa a memória não me traiu, pelo contrário, a memória ajudou-me a entender algo que no presente dos fatos eu não compreendi: em meio à tantas lembranças, saudades, dolorismos diversos causados pela passagem do tempo e a certeza das escolhas erradas, entendi que tudo isso só foi sentido por mim pois no período compreendido entre o vinte e três de maio (que engraçado, nome de avenida grande) de dois mil e treze e o de dois mil e quatorze, o que eu experimentei foi a tão dita estabilidade, era isso que me dava aquele sabor glorioso n'alma tanto às sextas quanto às terças ou quintas ou quartas e mesmo nas praguejadas segundas, também passando pelos sábados e domingos, evidentemente. Estabilidade, construída à duras penas e destruída com um toque tão leve quanto o de uma pena pairando no ar. 
Que fechamento horrível para esse texto.
Quer dizer que você acha que o texto até ele estava bom?
Não, mas tinha uma ideia.
Tinha?
Bom, tinha começo, meio, fim.
E desde quando isso te agrada?
Bem, é o que tem que ter num texto não?
Você não é o bonitão que volta e meia gosta de largar a referência àquele único texto do Brecht que você leu mal e porcamente em 2010?
Sim, mas...
Não tem "mas" meu amigo, olha que porcaria. Olhe com atenção. Tá cheio de "por aí" no primeiro bloco, depois falta um monte de vírgula e a linguagem é sofrível. Isso não é um "texto". Não importa que tem "começo, meio e fim". Nem Brecht nem o mais porco dos escritores de novelas bonitas para emocionar a audiência valorizariam esse entulho.
Você também já vai logo jogando com extremos. Não tenho que agradar nem Bertold nem Glória.
Que glória? Você acha que tem alguma glória nesse seu textinho? Tem glória nenhuma nisso, só você vai ler essa porcaria, e se mais alguém ler, só você vai entender.
Não irmão. Falei que não tenho nem que agradar ao Bertold Brecht, nem à Glória Perez. Você falou aí de autor de novela bonita e eu citei o nome de uma autora de telenovela, sacou?
Ah tá, achei que você estava falando de glória, tipo algo triunfante e cheio de heroísmo.
Não................. Está vendo? Isso é um fechamento glorioso para esse texto.
Você não aprende. 


domingo, 22 de maio de 2016

Despecando.


Verso 8.
Levantei a cabeça e olhei o reloginho no canto inferior direito: 01h08min. Tentei lembrar qual tinha sido a última hora que havia o olhado, mas não me recordei. A última mensagem enviada pelo celular foi às 00h08min. Coincidência. Eu estava passando um reboco em um parágrafo que, de maneira arquetípica ao mundo dos adultos, já havia sido usado sem problemas recentemente. Mas eu estava lá, procurando um grafiato para passar naquela parede. Que eu me lembre é a última coisa de que me lembro. Pelo visto eu levantei e tirei as coisas da cama, tem um monte delas espalhadas ao seu redor. Alguns livros, que precisam estar sempre à mão, eu joguei na cadeira mesmo. A garrafa d'água acordou ao meu lado, vazia, e me lembrei que durante a noite levantei e a procurei e a bebi com a sede de quando sou tombador de garrafas, mas essa noite não o fui. Nem se quer um mínimo gole. Estranho. Estranhezas. Ontem eu fumei dois cigarros, fazia tempo que não fumava, daí me deu tosse de novo ou ainda, não sei precisar, e aí eu tomei meio copinho de xarope. Talvez ele tenha me dado sono, mas, todo modo, não justifica um apagar assim de maneira tão tênue, a ponto de cair com a cabeça no teclado. Sobretudo por que era 01h08min, eu havia acordado 15h16min, e, certamente, seguindo a rotina, voltaria a ter sono só lá pelas 05h - essa vida com relógios digitais por todos os cantos não deixa nada escapar. Incrível. Bom, vamos seguindo. 
Ps.: dá até vontade de repetir a mesma pergunta noutros termos: qual a diferença entre um despencar e outro, se são ambos símbolos da mesma necessidade por exageros e, em última instância, despencar?


sábado, 21 de maio de 2016

Bosta.


Desci as escadas de casa para ver se a cerveja que eu tinha colocado para gelar já estava crocante e no caminho eu vi por meio de uma espécie de janela que tem na escada que já estava claro e ao ver no relógio da cozinha que era 6h30min confesso que dei uma paralisada. Bom, a coisa sempre descamba pro rumo da comparação. Lembro que tinha uma época em que eu mamava cervejas com o sol já nascido e os olhos estralados tal qual eu faço por agora. Que incrível como as coisas da vida se encontram, revelando processos ininterruptos e retilíneos, apesar das curvas tão tortas e erradas. E aí eu só conseguia dormir mesmo depois de me sentir acabado destruído sem força alguma sem norte algum era cair no colchão como um bloco de tijolo que escapou da mão de um operário e se estatelou no chão. "Não tem muito jeito, eu sou assim", pensei para me consolar. Foi inevitável, nesse raio de um minuto entre descer escada, ver relógio, ver cerveja, recordar de todos os turbilhões que passaram entre aquele período e esse atual. Acho que "época" é um termo mais correto para classificar a coisa do que "período", pois se estou falando de um processo que se mantém, talvez esteja falando do mesmo "período", mas em uma vertente distinta. Eu gosto de pensar que "eu sobrevivi (caralho)", mas hoje em dia entendo que não é que "sobrevivi", mas sim que "sobrevivo" e "sobreviverei" - eu sou meio alfabetizado funcional, e não sei dizer ao certo de que tipo de variação de tempo verbal tem nesse jogo, mas é isso ai mesmo. Vou explicar, quero explicar. Verso 9. Eu sempre tive uma mania de achar que as coisas iriam chegar a um fim, talvez por fazê-las com essa busca mais imediata. Talvez esse papo todo de "quando eu era jovem" tem a ver um pouco com isso, esse imediatismo todo das coisas com fins concretos, diretos e, sobretudo, próximos. Isso é terrível, a proximidade e a certeza iminente dos fins. Jesus. Bom, mas aí eu comecei a entender, e não é de hoje, as coisas contextualizadas em um processo mais amplo, alongado em minha experiência sobre a terra ou sob esse corpo, não sei. A cerveja não estava suficientemente gelada, e a deixei no freezer e subi para escrever esse imbróglio estomacal de letras. A grande verdade é que pra mim tudo faz parte da mesma linearidade - em letras miúdas, chulas, chucras e injustas: pra mim não tem lá muita diferença precisar encher a cara para aplacar de maneira conflitiva o efeito de drogas radializantes para conseguir dormir de ter que tomar mais uma cerveja para conseguir dormir por que a minha cabeça não desliga do trabalho assim tão fácil e eu preciso desligá-la para dormir. Quer dizer, tem uma diferença fulgural: no primeiro caso as cervejas mamadas eram para me fazer parar de viver, agora, no segundo caso, as cervejas são para eu parar de me lamentar por estar me sentindo tão morto. Tanto faz as drogas que eu uso, o lance processual é que tudo sempre parece uma bosta - mentira, tem épocas meio bosta, e épocas bem bosta. Bosta.


quinta-feira, 19 de maio de 2016

Perspectivas.


Estava vendo vídeos no youtube quando, naquela coluna à direita que indica os próximos vídeos, apareceu esse aqui: uma junção de pequenos trechos de um ensaio seminal do Zababô Zebrinha, lá pelo meião de setembro de 2011.
Verso 11.
Me vi no vídeo: boné da Estopim (comprado na minha primeira ida à sede da torcida para fins de pesquisa de campo), regata do Corinthians, um riso maroto no rosto, uma sacola plástica em cima do microfone pra cortar um pouco os choques que ele dava. De certa forma, é isso que eu quero fazer a vida toda. Não tenho muito interesse nas outras coisas não, por exemplo, uma carreira longa ampla gigante profunda megalomaníaca ser o melhor do melhor entre os melhores na casa dos maiores com uma foto dos filhos em cima da mesa de trabalho do lado de uma pilha de folhas por ler mal e porcamente e assinar pois "eu sou" uma carreira longa ampla gigante profunda megalomaníaca e "estou" entre o melhor do melhor entre os melhores na casa dos maiores. Inclusive, não penso em ter filhos. Não. Eu acho que quero mesmo é isso: morar numa cidade tranquila, fazer algo para ter dinheiro e ter tempo - moeda mais preciosa da vida - para fazer essas coisas todas que eu fazia naquela época como tocar um som despreocupadamente e ir no rolê em uma quarta-feira ou sexta-feira ou mesmo numa segunda.
"Ah Gabriel mas seja rrrrrresponsável naquela época você era um jovem, um estudante, sobrevivia de bolsa graduação, almoçava em bandeijão, jantava bolacha recheada, não tinha luxo algum. Você é adulto já, você cresceu, isso não faz mais parte de você. Você tem que ter perspectivas maiores, alçar voos mais longos distantes amplos gigantes profundos megalomaníacos estar entre os melhores dos melhores na casa dos maiores". 
Sempre rola esse tipo de autorepressão quando penso nessas coisas. E eu sempre retomo à mente, como uma forma de calá-las, as imagens de pessoas que eu tinha como prestígio: o professor batendo na casa dos 40 que jamais desistiu do som e da banda; o amigo com mais de 40 que jamais desistiu da ideia de "fazer acontecer" na cidade; o rapaz de 30 e poucos que entre tombos e levantes está lá fazendo disco, banda e rolê; o amigo que se foi, mas sem deixar de fazer tudo o que fazia, on line e off line. Pode ser uma ilusão, mas o riso e as preocupações deles sempre me soaram mais cabíveis para o cotidiano do que os demais. E é só isso mesmo, e é bem simples de entender, embora tenha sido tão complicado para eu o fazer e assumir: essa é a vida que eu quero ter. E é por isso que tem sido tão dolorosos esses anos em escadinha rumo a um céu que jamais chegará.


quarta-feira, 18 de maio de 2016

Neoliberais.


"Gabriel, acabou sua criatividade para resmungar? Você vai mesmo começar o verso 12 utilizando frase de outro texto?". "Sim, vou". "Nossa, você já foi melhor". "Bom, você há de concordar comigo que a questão é importante". "Não sei, vamos ver. Tente me convencer". "No verso 19, texto "vibração", eu disse a seguinte frase, já no final da coisa: "eu deveria ter desconfiado de que havia coisas erradas quando os neoliberais vieram me parabenizar por minhas escolhas" e hoje me deu vontade de aprofundar essa questão". "Certo, conte-me detalhes disso". "O meu telefone tocou, já era tarde da noite, digo, não para mim, para mim a coisa toda estava apenas começando, mas sei que no referencial mais geral das horas era tarde da noite". "Era o quê, umas dez da noite?", "Não, acho que era por volta de onze horas já, ou mesmo meio noite, mas isso não importa muito". "Tá". "Bom, daí me ligaram e fizeram tipo um revezamento de telefone, isso é comum, ou era comum numa era pré domínio do WhatsApp, eu acho". "Não concordo, mas continua". "Bom, nesse revezamento todo primeiro veio uma voz mirim, que ainda não entendia direito as coisas, nitidamente falaram para ela que aquilo ali que estava acontecendo era algo importante, mas se for perguntar mesmo para ela por que estava me parabenizando ela não saberia dizer". "Nossa, que certeza absoluta hein?". "Não é absoluta, mas é certeza, é meio óbvio". "Tá". "Bom, daí vieram mais vozes e mais parabenizações. Na hora eu estava mordendo a borda de um copo de plástico, ouvindo e agradecendo, confesso que até um pouquinho emocionado". "E isso foi ruim?". "Como assim?"."Foi ruim que te ligaram e te parabenizaram?". "Não, mas o grande mote da questão, penso hoje, é que eu deveria ter desconfiado, saca?". "Mais ou menos. Do que?". . . . . . . . . "Deveria ter desconfiado de que não tinha lá grandes coisas sendo feitas por mim se eles, neoliberais de alta estirpe, estavam me parabenizando". "Mas a parabenização deles, o reconhecimento dos neoliberais, torna o motivo da parabenização uma macula?". "Acho que sim, no sentido de que é uma aprovação de minhas atitudes e escolhas e conquistas por parte do inimigo; talvez inimigo seja pesado demais. Por parte dos neoliberais". "Mas qual o problema? Ainda não entendi". "Eu achava que estava transgredindo em algo, mas entendo que estava apenas fazendo o jogo deles. Se me parabenizaram foi por que avancei uma fase no joguinho da vida planejado por eles". "Ah, então tem ai uma necessidade de transgredir?". "Não de transgredir, mas de não ser neoliberal". "Mas obrigatoriamente te parabenizaram pois a conquista era símbolo de algo neoliberal?". "Não necessariamente, mas eu deveria ter desconfiado de que havia coisas erradas quando os neoliberais vieram me parabenizar por minhas escolhas". "Percebe como você anda em círculos e volta para a mesma afirmativa baratinha, sem digestão ou sabor?". "Percebe como estou sendo neoliberal, e por isso eles me parabenizaram?". "Hm".


terça-feira, 17 de maio de 2016

O meu retrato do golpe - III


Passei o dia em casa meio sem entender o que ocorria, de fato, naquela quarta-feira. Estava vivendo em uma bolha acadêmica escrevendo minha dissertação de mestrado e tentava, a todo custo, com muita dificuldade, evitar que as notícias sobre o golpe me distraíssem. Quando entendi o que ocorria, resolvi sair de casa para pedalar e ver como a cidade de São Paulo respirava ou era respirada. 
(Precisava cortar o cabelo, mas achei que não seria agradável me enfiar no salão, onde a TV está frequentemente ligada nos canais golpistas, àquelas horas).
Coloquei a Avenida Paulista no itinerário da minha pedalagem, claro. Ela foi palco de um movimento orquestrado pela grande mídia e demais atores golpistas que justificaram o momento, e naquela noite seria dividida entre golpistas e não golpistas - ou talvez seja mais correto nomeá-los como apoiadores do golpe e não apoiadores do golpe, visto que, golpe dado, as divisões não importarão, e todos ali pagarão o pato
Passei rapidamente pela avenida, permaneci uns vinte minutos nela observando as movimentações. Manifestantes anti-golpe cercados pela PM, que tentava impedir que eles se aglomerassem ali, pois na Fiesp haveria aglomeração dos pró golpe. Na Fiesp vi um rapaz com um kipá (objeto judaico, colocado sobre a cabeça pelos homens) apoiado em um corrimão a poucos metros de um rapaz careca vestindo jaqueta com emblemas de estado (objeto fascista, colocado sobre o corpo por nacionalistas e neonazistas). Mas não foi esse o meu retrato do golpe.
Combinamos de tomar uma cerveja em um mercado grande, e o fizemos comendo um salgadinho barato, sentados em um banco de madeira entre as dezenas de caixas e as esteiras rolantes que levam aos estacionamentos. Depois compramos outra cerveja e fomos caminhando na direção da estação de metrô. "Vamos parar no boteco e comprar um cigarro solto? Você tem moedas?".
Como o boteco não iria fechar imediatamente, também compramos uma cerveja - "faz tempo que eu não sento num bar e tomo uma Brahma gelada, de bar" - e o fizemos sentados no degrau que separa a calçada do bar. 
Quando entrei para comprar a cerveja e o cigarro solto a voz de um dos golpistas na TV falava sobre a votação no senado. Perguntei ao rapaz do balcão, "já começou essa palhaçada?", "acho que já acabou", "sério? estamos fodidos já então?", "estamos, fodeu". Fiquei feliz por simpatizarmos.
Depois ainda tomamos outra cerveja, e fumamos outro par de cigarros soltos. Conversamos sobre planos, sobre desilusões, sobre frustrações, sobre surpresas. Contamos histórias e demos as mãos. Fomos embora.
Depois eu enchi a cara na casa da minha mãe vendo senadores acuados sem a menor coerência metendo bala na constituição e em qualquer noção de democracia existente até então.
Mas o retrato que eu guardo dessa etapa do golpe, é mesmo do vento frio do começo da noite batendo nos seus cabelos, e as suas mãos segurando o copo de cerveja e o cigarro solto, com a cinza crescendo enquanto você falava algo em meio a um sorriso.



Doênça (II).


Repito com as mesmas palavras até por que trata-se de repetição (d)o que eu falei outro dia: "nunca em tão pouco tempo, com intervalos tão curtos e com tamanha constância me recordo de ter passado tantos períodos mergulhado em doênça". É realmente assombroso o que vem acontecendo, alguma medida tem de ser tomada, algo tem de ser feito, não é possível uma coisa dessa. Nem nos períodos em que eu vivia nadando em negocinhos a coisa era tão descambada como tem sido. E repito o que disse e trago novas informações ao texto por uma razão simples e óbvia: aconteceu de novo. Lá fui eu, com o corpo escroto, semi-arrastado, até o balcão da farmácia pedir um medicamento e voltar para casa me sentindo mal e tomar o medicamento torcendo para que ele me provocasse um daqueles sonos súbitos de vinte horas seguidas, suadouro e o escambal que costumam ser coisas que fazem com que o corpo melhore. Dessa vez foi uma crise alérgica. Na verdade, vamos em ordem cronológica. Primeiro foi um olho que plác começou a doer de dentro para fora e inchou e me fez comprar um colírio que rende certo alívio mas que não dura muito. Em seguida saí de casa para passar algumas horas na rua em situação social e foi uma coceira na testa seguida de coceira no queixo e no pescoço e atrás das orelhas e atrás da nuca e desceu para o peito "por favor, você tem anti-alérgico? Me vê um do mais barato. Tanto faz ser líquido ou em cápsulas; aliás, qual o mais barato? Me vê do líquido então. Obrigado". E então dormi, e acordei, e os pequenos pipocos vermelhos não estavam mais na testa - "vitória do povo!", pensei - e ai comecei o dia trabalhando e assim fui o desenvolvendo até que saí para comprar alguma coisa para comer e quando retornei a coceira havia retornado - não farei uma metarelação entre sair na rua, nessas ruas, e retornar alérgico, não, nunca, jamais, já fiz - e então precisei tomar outra dose do remédio e mais duas horas de sono caído com a cara no computador lutando contra a doênça, a alergia e os prazos para o término do trabalho. É muita doênça, para pouco tempo.
Verso 13.


sábado, 14 de maio de 2016

Emocionado.


"Vamos sair?". Sábado, nada mais óbvio do que receber essa proposta. Olhei para o cantinho inferior direito da tela do meu notebook, 18h50min, 14/05/2016. Bateu aquela insana dúvida: posso não posso tenho trabalho mas é sábado mas tenho trabalho mas tinha combinado de ter o final de semana livre mas o trabalho chama mas a primeira instituição a que devo respeito é a mim mesmo. Pensei por alguns instantes, e em nome da vida decidi dizer que sim claro vamos logo nessa porra dar rolê. Confesso também que pensei "porra hoje é o dia do verso 16, praticamente uma quinzena, menos de cinco dias para fechar a coisa para dar tempo de revisar e organizar tudo". Enquanto embromava para tomar um banho e sair "me distraí" trabalhando (e depois fazendo esse verso), e mexe daqui mexe de lá, quando vi havia seis documentos de word abertos. Mexe daqui mexe de lá, "e se eu passar esse trecho que parece deslocado no primeiro capítulo pro terceiro e organizar assim essa parte", me sentia como Deus O Todo Poderoso O Criador remexendo na lama para fazer o primeiro ser humano novamente. Parei, olhei pro esqueleto. Abri um sétimo arquivo de word, um relatório de 2014, depois abri o de 2015, e então retornei para o esqueleto recém alterado. Confesso que fiquei emocionado ao ver que dei conta de discutir tudo o que foi proposto. Como diz a canção - piegas, mas ainda assim uma canção a ser recordada - "vamos vencer".


quinta-feira, 12 de maio de 2016

Estranhado.


Hoje aconteceu uma coisa curiosa: passou o dia inteiro e eu não reparei na existência dele. Aliás, não reparei a minha existência nele. É claro que o golpe atrapalha, encheu a cabeça, o saco, a porra toda, mas há as coisas por serem feitas nos dias, como não? Bom, e eu as fiz. Mas aí parei agora para fazer um chá e me dei conta de que eram onze da noite e pensei, "o que você fez hoje?". Daí eu penso na seguinte ordem: café, computador, mercado, comida, café, computador, mercado, café, computador, comida, computador - teria que ajustar as proporções, pois uma das idas ao mercado durou dez minutos e um dos períodos frente ao computador três horas, mas vocês entenderam. "Tem muito de você nesse trabalho", falava um interlocutor do ano passado. Uma das idas ao mercado foi para comprar unicamente cerveja. Cerveja caralho. Eu só gosto de tomar cerveja. Daí teve mais computador também, como vocês podem notar no diagrama linear descrito acima. No retorno do mercado, com o tilintar das garrafinhas se chocando umas às outras na sacola de pano, fiquei pensando que tragédia é essa tragédia que está acontecendo tragicamente de novo, ontem eu bebi, hoje eu vou beber. Mas tem o golpe aí no meio. Mas tem também que estou trabalhando camelísticamente todo dia e repondo algumas forças camelísticamente bebendo. Mas tem também que todo mundo gente pra caramba trabalha muito e precisa repor as forças o que explica ter duas barracas vendendo algum tipo de rango - pastel e espetinho - e muita cerveja na frente do mercado. Mas tem também que não tem tido jeito eu tenho dormido mal pra caramba todos os dias e que ao menos durma bêbado. Mas tem também que podia ser pior eu tava pensando em ir noutro mercado e dar um jeito de ficar acordado uns cinco dias seguidos e acabar logo com isso. Mas aí voltei pro computador. Fui tomar uma das cervejas agora a pouco. Aí mudei pro chá. E aí pensei: "tem muito de mim nesse trabalho mesmo, mas também tem tão pouco, pois me sinto tão estranhado com relação a ele quando noto que chegou o fim do dia e eu passei o dia todo me dedicando ao trabalho e noto que nem reparei a minha existência neles, no dia, no trabalho". 
Verso 18.


quarta-feira, 11 de maio de 2016

O meu retrato do golpe - II


Foi poucos dias depois que o Roberto Jefferson começou a jogar as coisas no ventilador, em 2005. Eu e a Marcella ainda não namorávamos, mas estávamos numa época juvenil de flertes tão adolescentes quanto perdidos. Depois namoramos por três meses, no auge de nossos dezesseis anos.
Matamos uma aula - salvo engano, de História do Brasil - para ficarmos em uma sala vazia ouvindo uma rádio de notícias. Acho que era a CBN ou alguma afiliada à rede globo. Na época não tinha essa coisa de smartphone (vocês se lembram) e para ter notícias em tempo real tínhamos que usar aparelhos como o rádio AM/FM, com transmissões direto de Brasília.
Lembro-me que Marcella vestia uma camiseta vermelha com estampa do rosto do Che em preto. E que um professor, já recordado aqui, passou e falou "molecada, já era, acabou, voltem para a aula". No rádio um locutor efusivo sugeria que para Lula restavam apenas duas opções: renúncia ou suicídio. Lembro que Marcella falou "suicídio é mais honroso". 
Um outro comentarista no rádio dizia que era o caso de instaurar um processo de impeachment.
Um outro comentarista no rádio dizia que era o fim do PT, que era o fim de Lula, que era o fim daquele governo, que ele deveria ser deposto imediatamente.
O golpe não é de hoje, e quem viveu, quem se lembra, lembrará.



O meu retrato do golpe - I


No final de semana em que haveria a votação dos deputados para a implantação do golpe contra a democracia brasileira, organizei-me para não estar em São Paulo, e sim próximo "dos meus". Fui para Mogi das Cruzes, onde os amigos e as amigas do Poranduba Coletivo Cultural realizariam um festival com várias bandas. 
Desde as últimas horas do sábado nosso principal assunto, não haveria como ser diferente, era o golpe. Partilhávamos de certo desânimo coletivo, mas também não deixávamos a ironia de lado ou os comentários positivos de que "não sairemos derrotados". 
No domingo a tarde, quando chegamos ao local do festival, uma praça pública, mexíamos freneticamente em nossos celulares, buscando e partilhando notícias. "A bancada do PP ainda não se decidiu", "puta merda é foda ter que depender duma bancada do PP". 
Sentei-me num canto e preparei um cartaz escrito "Não Vai Ter Golpe", peça extremamente simbólica, para ser exposta ali, em uma situação de congregação de pessoas contra o golpe em um momento de golpe em vias de consolidação. Um homem mais velho que todos nós comentou: "pessoal, o golpe já está dado..."
O festival seguia animado com bandas excelentes. E a cada intervalo entre apresentações um bom amigo subia ao palco, pegava o microfone e informava sobre as próximas bandas que tocariam, sobre a organização dos eventos, agradecia aos parceiros, colaboradores e, centrado em sua filosofia, realizava um comentário balizado, terminando-os sempre com a frase: "Não Vai Ter Golpe". Ela, junto do cartaz, eram atos simbólicos de uma vontade que não esmoreceria/esmorecerá.
A votação dos deputados corria solta. Não acompanhávamos o show de horrores das justificativas baseadas na Terra, Família, Propriedade, Ditadura & Deus, apenas recebíamos o placar via WhatsApp, e, apreensivos, compartilhávamos entre nós uma e outra imagem que chegavam. "Parece que o Bolsonaro dedicou o voto pros torturadores da ditadura".
Lá pelas tantas, antes do penúltimo show, o bom amigo que anunciou o nome da próxima banda informou que o golpe já era fato consolidado, mas repetiu, esse nosso mantra simbólico: "Não Vai Ter Golpe", seguindo-o de outro não tão simbólico assim: "Vai Ter Luta".
Eu estava sentado em um pequeno gramado, anotava em meu caderno algumas coisas que vinham em mente, era um momento de grande turbulência, embora já soubéssemos de antemão o que nos aguardava, sempre há um fio de esperança. Quando ele é cortado, ocorre, inevitavelmente, um baque. 
Parei por alguns instantes para olhar em volta, afinal, eu havia planejado estar lá para fugir do peso, justamente, desse baque. Olhei para o palco à minha frente, para a rapaziada espalhada pela praça pública, imaginei cenas horríveis em um pior cenário possível decorrente de um golpe tal qual se deixava em curso.
Dado instante vi o bom amigo, aquele que anunciava as bandas, saindo de uma tenda montada atrás do palco. Ali era um espaço destinado aos músicos, para organizarem seus instrumentos, e tomarem um lanche, oferecido em sacolinhas de papel. 
Meu bom amigo saiu da tenda segurando diversas sacolinhas dessas de papel. Se aproximou de um senhor que vestia roupas velhas e segurava uma grande sacola com latas de alumínio. O cumprimentou apertando-lhe a mão e com um sorriso no rosto. Lhe ofereceu um dos saquinhos de papel, mostrando o seu interior. O homem lhe retribuiu o sorriso, e agradeceu pelo lanche que lhe foi dado, guardando-o em sua mochila. Meu bom amigo seguiu, realizando o mesmo com outras pessoas e outras sacolinhas com lanches.
Enquanto isso, algum deputado votava "sim" tendo como rubrica ser contra a destinação de verbas publicas para pessoas desempregadas, tratando-as pelos mais baixos termos. Outra votava "sim" em nome do marido que seria levado preso no dia seguinte. O Bolsonaro havia mesmo dedicado o voto ao torturador...
Meu bom amigo deu a letra: Não Vai Ter Golpe, Vai Ter Luta.




terça-feira, 10 de maio de 2016

Vibração.


Há uma questão muito interessante em minha educação, recebida no seio familiar: nervosismo. Quer dizer, todas as questões em todas as educações em todas as famílias são interessantes, olhe só que belos pontos para se pensar. O nervosismo é um sentimento com o qual não sei lidar bem, e desde a mais tenra idade estive exposto a exibições de grande seções da coisa, donde, talvez, ele tenha feito morada aqui em mim. Gritos irritados que irrompem do fundo da garganta como que vindo das cordas vocais mais longas que tocam os fundilhos do estômago como se chegassem a sair deles os intestinos. Faces que em questão de segundos passam do tom esbranquiçado-europeu, para o rosa-flamingo e para o vermelho-pimentão, é o nervosismo ganhando tons de raiva plena estourando. Foram tantos os exemplos, e hoje não quero enumerar exemplos, só falar da coisa mesmo. Até por que, hoje foi um dia em que o nervosismo chegou a quase aflorar, mas busquei o cortar por alguma raiz que encontrasse.
Um dos caminhos para cortá-lo é remetendo-me a bons minutos de som pesado, rápido, alto, chutado, doído, gritado estrebuchante; não sei, de certa forma acalma. Tem um álbum, de uma banda independente, muito bom, e o coloquei para tocar após o almoço. Nada de pestana em dia de raiva, eu quero sentir paulada sonora no cu da orelha. Mas, sei lá por que, hoje eu fiz diferente, e me deitei no chão defronte ao rádio, havia colocado o som bem alto, e a regulagem do grave devia estar diferente do comum, é possível. Sentia a vibração do chão enquanto o moço bradava "destruindo seus sonhos" repetidamente. 
Verso 19.
É importante sentir a vibração do chão, digo, eu gosto, não acredito muito nesse lance de "energias" para além da elétrica, mas parece que rola uma troca de energias bacanas às vezes, como quando piso na areia da praia depois de um bom tempo sem o fazer, ou quando tiro os tênis e piso na terra ou na grama úmida de algum parque nessa cidade, embora eu saiba que tal solo não representa nenhum refresco na história toda, eu gosto dessas trocas, mas, bem, hoje descobri que não precisa ir até o litoral ou até o parque pois rola uma vibração calmante interessante se eu colocar o som pesado e deitar no chão.
Teve inclusive uma coisa que me ocorreu enquanto estava lá deitado no chão largado ouvindo o som: "eu deveria ter desconfiado de que havia coisas erradas quando os neoliberais vieram me parabenizar por minhas escolhas". Era como se eu vibrasse irritado de um lado e a música viesse sob a forma de vibração calmante de outro e isso tivesse gerado à luz da troca uma verdade inegável em minha cabeça.
Incrível.
Eu não aguento mais isso.




Papelaria.


Acordei no horário de sempre, talvez um pouco mais cedo pois aconteceu algo raro de eu ir dormir bem mais cedo e não ter acordado com nada durante a noite, daí eu acordei mais ou menos no horário de sempre mas foi mais cedo. Saí de casa para resolver uma coisa na rua, e fiz quase tudo caminhando com a imagem de uma papelaria na cabeça. Não sei quando a coisa começou, mas eu estava pensando em papelarias. Lembrei de uma ali perto da Sampaio Vidal, no cruzamento onde ficava a sede da empresa responsável pelos bilhetes de ônibus, onde, no último ano, eu tinha que ir toda semana para carregar o meu bilhete com passe de estudante, eventualmente eu saía do lugar dos bilhetes e parava lá para comprar algo ou simplesmente olhar as canetas e cadernos - tinha uma outra também, na própria Sampaio, a frequentei por anos, mas acho que essa outra me ganhou por algum outro motivo. Lembrei também de uma outra que eu conheci ano passado mesmo, ali na Vila Mariana, perto de uma faculdade burguesa até as horas, a descobri pela internet e fui um dia até lá de bicicleta, gostei dela, do cheiro, da disposição das coisas, das pessoas que atendem e dos preços. Tem uma também, essa eu descobri mais para o final do ano passado, mais perto ali do Morro Grande, que tem tudo que tem nas outras, mas com preço inferior, talvez seja por que o aluguel ali é bem inferior ao cobrado na Vila Mariana ou no centro de Marília - não, acho que não é mais barato que no centro de Marília. Uma vez eu fui pra Piracicaba e precisava ir ao banco fazer coisas que só fazemos em bancos, e ai no caminho passei por uma papelaria que parecia grande, no retorno do banco - após constatar que eu tinha mais dinheiro do que esperava - entrei na papelaria e passeei, como um turista que para debaixo da torre eiffel para observar as porcas e curvas no metal e, que papelaria, que primor de prateleiras, que primor de materiais, que primor de valores cobrados por canetas importadas com a ponta felpuda! Teve uma época, mas isso foi por pouco tempo, que teve uma papelaria grande na avenida mais próxima à minha rua, deveria ter cerca de cento e cinquenta metros entre a porta da minha casa e a da papelaria, eu me referia a ela pelo nome, como se fosse um nome próprio, uma amiga que eu ia visitar. E tem também as lojas daquela grande rede, com carrinhos de metal enormes, corredores gigantes e prateleiras altíssimas, aquilo para mim é um shopping center, serei mais reflexivo sobre elas: quando criança lembro de ir em uma dessas ali perto do chiqueiro quando precisava comprar material escolar, minha mãe via o que ainda tinha do ano anterior que serviria, fazia a lista do que precisava e íamos lá; quando cheguei em Marília não demorei em descobrir onde ficava a loja no centro da cidade, é a maior papelaria de lá, sem dúvida, e a frequentava com certa frequência frequente(embora eu tenha passado a preferir uma outra que tinha em frente a ela, era de uma rede municipal, menor, de atendimento mais pessoalizado e o dinheiro circulava sem passar pelos trâmites de uma grande rede de capital); e desde que comecei a pedalar em São Paulo passei a ter por hábito, quando preciso de algo de papelaria, jogar na internet onde tem uma delas, e pedalar até uma que não conheço, andar pelos corredores sem pressa, ver o que tem de específico em relação às outras. Não sei, talvez a minha simpatia venha pelas camisas do Corinthians do início da década de 1990, talvez venha simplesmente pelo fato de que eu criei um gosto por papelarias.
Verso 20.
Papelaria. Passei parte do dia pensando nesse conceito. Me imaginei com o avental de uma das papelarias citadas e trabalhando nela, seria algo bacana - além da gráfica ou do curso de design. Papelaria. Papelaria. Aquele monte de prateleiras com aqueles montes de coisas, não sei, talvez seja doloroso arrumá-las, talvez seja um modo de, na marra, aprender a organizar as coisas e o fazer repetidamente dia após dia. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Também pensei que inferno que deve ser trabalhar nelas em épocas de pré-volta às aulas, crianças ensandecidas gritando-correndo pela loja com um caderno colorido do personagem da moda em mãos, pais e mães descabeladxs correndo atrás da criança dizendo que é ou o caderno do personagem da moda ou o estojo com cheirinho e cor de chiclete de tutti-frutti, pais e mães brigando com os funcionários pois no folheto diz que a partir de duzentos reais em compras pagando à vista com cartão de débito ou dinheiro tem desconto de dez por cento no total e elxs querem pagar com cartão de crédito e ter ao menos cinco por cento de desconto. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Que prazer deve ser abrir uma caixa de papelão cheia de pacotes de papel e sentir o aroma da morte de árvores geneticamente modificadas para o crescimento e o corte mais rápido. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Passear por uma quando tudo já está fechado, vazio, sem nenhum cliente. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Uma. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria.Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Hora. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria.Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Ia. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Me. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria.Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Bater. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. O. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Desespero. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria. Papelaria.


sexta-feira, 6 de maio de 2016

Tristeza.


É difícil escrever sobre coisas que parecem cíclicas, mas eu farei esse esforço pro verso 24 - mas não me esforçarei para que ele não pareça aquelas farofas cheias de coisas. Na verdade se parecer acho que está até bom.
Saí de casa e deslizei até o mercado maior mais próximo no bairro tem outros não muito longe maiores e de grandes redes mas eu prefiro comprar nesses mercados de bairro que quem abre a porta às 8h da manhã e quem a fecha às 21h são os donos e não os "gerentes da franquia" ou os "funcionários do gerente da franquia" - digo isso pois recentemente cheguei lá às 8h e às 21h em dias diferentes e deparei-me com o dono e a dona na porta abrindo-a e fechando-a. 
Aí comprei uma cerveja gelada barata - não era nenhuma das minhas favoritas, mas também não era a mais barata; era uma cerveja gelada barata - comprei um saquinho de amendoim para comer enquanto bebia a cerveja. Saí do mercado e me sentei na frente dele, não tem pracinha, não tem banco, mas a rua não é muito movimentada, e, de onde estava, se virasse a cabeça para a esquerda via algumas estrelas no céu já escuro, se virasse para a direita via uma faixa de céu alaranjado ainda. É um momento interessante, nem lá nem cá. Foi apenas durante a realização disso tudo que notei a recorrência: descer até o mercado, a cerveja gelada, o saquinho de amendoim, o silêncio sepulcral da boca para fora, a gritaria imensa da cabeça pra dentro. Não estava ansioso, não esperava nenhum resultado de nada, sei de tudo o que há por ser feito e simplesmente não consigo me empolgar. Noutra situação semelhante mudar era uma possibilidade positiva, se não acontecesse, estava tudo bem, mas, todo modo, já havia feito as minhas apostas e esperava a roleta parar de girar e a bolinha cair em alguma casa puta merda que metáfora cretina Gabriel nem você nem ninguém que entra aqui frequenta cassinos a influência dos filmes ruins é realmente incrível. Dessa vez não tem muito jeito: mudar é uma necessidade, uma obrigação, e deixei que uma leve onda de tristeza me arrastasse nessa sexta-feira, quando me dei conta de que a obrigatoriedade da mudança terá de ser antecipada. 
No entanto, por final, acho curioso que os movimentos para deslocar tanto a ansiedade positiva quanto a tristeza conflitiva foram os mesmos: descer até um mercado de bairro e comprar uma cerveja gelada barata e comer alguns amendoins. Podemos pensar em rituais? Podemos pensar em habitus? Podemos pensar em jesus na cruz? Podemos pensar nos produtores de amendoim? Podemos pensar nos criadores de cevada? Podemos pensar nos coletores de trigo e malte? Podemos puta que saco.



quinta-feira, 5 de maio de 2016

Exercício.


Durmo cerca de seis horas por dia - é por dia mesmo, não é por noite não, frequentemente me deito entre às 5h e às 6h, e durmo até mais ou menos o meio dia - e depois passo grande parte do período acordado no mesmo cômodo onde está a cama. Vulgo quarto, aqui (olá, estou aqui mozão) tem também o meu armário com roupas, materiais artísticos e outros trambolhos. Tem também a minha prateleira com livros, revistas e outros trambolhos. E tem também, bem do lado da janela, a minha mesa, onde ficam o meu computador (deus maior da existência desse trabalhador das palavras) e alguns trambolhos - coloquei a mesa do lado da janela para usar bem a luz do dia, mas o período com luz do sol que eu passo acordado os raios dele batem diretamente na tela do computador, que rebate em meus olhos que torna insuportável aproveitar a luz do dia. Se você sair do meu quarto e virar à esquerda, cerca de trinta centímetros ao lado da porta tem outra porta, veja só, é a porta do banheiro do andar de cima deste agradável sobrado. Trabalho bebendo muita água, e muito café, e muita (às vezes) coca-cola - acho que já falei sobre isso - e aí, por consequência, preciso urinar seguidas vezes ao longo do dia, de modo que o percurso mesa, quarto, esquerda, banheiro, privada, pia, e isso ao contrário para voltar ao quarto, é mais frequente do que imaginável. Bom, mas então ocorreu uma desgraça: a descarga desse banheiro quebrou. É um modelo de descarga daqueles cimentado na parede, parece que vai dar um trabalhão pra arrumar, vai sair caro, vai precisar chamar encanador essas coisas todas. Bom, como é um sobrado, e como tem um banheiro no andar de baixo, entre a escada da casa e a sala, passei a usar o banheiro "de baixo", de modo que o percurso mesa, quarto, esquerda, banheiro, privada, pia, agora se tornou mesa, quarto, porta, esquerda, corredor, direita, escada, direita, porta, banheiro, privada, pia, e depois isso tudo ao contrário. Confesso que, olhando sob o prisma de que eu ganhei algumas seções de exercícios físicos ao longo do dia, a coisa parece menos chata do que imaginável.
Verso 25.