terça-feira, 5 de abril de 2016

Sem meias palavras.


Lembro que em julho de 2013 eu inventei que me inscreveria pro mestrado na USP, e que isso seria uma conquista a alcançar. Naquela época eu estava dando aulas e, no mês em que iniciava o processo seletivo, agosto, peguei uma carga completa de aulas, o que, por um lado, atrapalhou os estudos, mas, por outro, fez com que eu aproveitasse cada trinta minutinhos livre para estudar. Passou agosto com provas e a escrita do projeto (em três dias no computador da Mariângela, por que eu estava sem na época) e só no fim de setembro seria a tal entrevista e na primeira sexta-feira de outubro sairia o resultado da bagaça. Minha ideia era pelo menos chegar à entrevista, me daria por "vencedor" - no estilo Los Hermanianos - com isso. Cheguei nela, vim para São Paulo fazê-la, voltei e no dia seguinte ao retorno não teria aula para dar, apenas uma reunião, e alistei os bons e próximos da época (eu e mais quatro) para tomarmos duas ou três caixas de bavaria em plena terça à noite. A semana foi corroída num universo mesclado de ansiedade e sensação de dever cumprido - "mas já que chegamos até aqui, eu poderia muito bem ser aprovado". Daí por volta das 19h da sexta saiu a lista, e eu já havia agenciado a compra de um ácido, "para o bem ou para o mal". Foi para o bem, eu fui aprovado. Lembro que as pessoas que ficaram sabendo me deram os parabéns de maneira tão enfática, tão feliz, algumas me abraçaram, outras queriam saber o que eu estudaria, e houve até quem desse pulos de plena felicidade me abraçando por saber o que eu estudaria. Eu mesmo estava feliz pra caralho. Naquela noite teve um rolê bem louco na cidade, Partido dos Poetas Pobres, Japona Invocada e, coroando a noite, Rock Rocket. Fiquei muito louco de ácido, depois me mantive calibrado enchendo a cara de vodka com energético. Lembro da sensação de trocar mensagens com a minha mãe lá pelas 5 da manhã falando que meu telefone estava com o visor na cor do coração da alcachofra. Voltei para casa sem meias e sem palavras - descalço vendo luzes coloridas às 7 da manhã pisando em cacos de vidro pela calçada e na lama entre as pistas da rodovia que eu atravessava pra chegar em casa e apenas sorrindo. E quando cheguei eu estava muito louco, e feliz, e sorridente pra caralho pensando que havia entrado num rumo fantástico pra minha vida que era a continuidade de uma vida muito louca regada a um conhecimento antropológico e humano e artístico e corinthianista e colorido... A gente nunca imagina que no cotidiano planejado teremos como maior felicidade no dia a hora em que levanta pra pegar mais um café requentado, acende um cigarro vagabundo sentado na privada e fuma, bebe café e caga.
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De certa forma, esse é o começo de uma contagem regressiva. Esse é o verso 55, adiante, amanhã vem o verso 54 da prosa.

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